Mais fornecedores, mas pouco alívio diante da alta dos custos
A Tailândia reduziu de 74,4% para 54,7% a participação de seus três principais parceiros no fornecimento de petróleo bruto importado, enquanto a crise no entorno do Estreito de Ormuz levou o país a buscar alternativas. Ainda assim, o índice de preços de importação de combustíveis subiu 45,7% em setembro de 2026 em relação ao mesmo mês do ano anterior, mostrando como garantir o abastecimento e manter a energia a preços acessíveis se tornaram dois desafios distintos.
Conteúdo
- Mais fornecedores, mas pouco alívio diante da alta dos custos
- O que mudou entre janeiro e outubro?
- Compras de petróleo bruto se estendem além dos fornecedores originais
- Estados Unidos lideram o fornecimento de gás, mas concentração persiste
- Tailândia compra mais GNL enquanto mercado global se aperta
- Transporte marítimo também encarece as fontes alternativas
- Fábricas e famílias absorvem partes diferentes do impacto
- Europa mostra por que trocar de fornecedores não impede a pressão global sobre os preços
- Gás nacional oferece outra opção, mas exige mais tempo
- Autoridades monitoram custos e mantêm projeção de inflação
- Principais pontos
O Escritório de Política e Estratégia Comercial (TPSO), ligado ao Ministério do Comércio, comparou as estatísticas de importação por país de janeiro e fevereiro de 2026 com as de março a setembro. A análise apontou uma diversificação dos fornecedores de petróleo bruto, enquanto os Estados Unidos substituíram o Catar como principal origem do gás natural importado pela Tailândia.
Nanthapong Jiralerdpong, diretor do escritório, afirmou que comprar de mais países ajudou a reduzir o risco de escassez. Os preços, porém, continuaram sujeitos aos mercados globais, aos custos de transporte marítimo, às taxas de câmbio e às condições de compra. Esses custos chegaram às fábricas, às empresas de transporte e às famílias, com a inflação geral subindo para 3,90% em outubro.
O que mudou entre janeiro e outubro?
O TPSO usou estatísticas de comércio por país do site de dados comerciais Khitkha para analisar petróleo bruto e gás natural. O ano de 2569 do calendário tailandês usado nos dados corresponde a 2026. A comparação abrange dois meses anteriores à crise e sete meses durante o período de turbulência.
Os principais acontecimentos ocorreram na seguinte sequência:
- Janeiro e fevereiro de 2026: período de referência do TPSO, quando três países respondiam por 74,4% do valor das importações tailandesas de petróleo bruto.
- 28 de fevereiro: começou a crise no Estreito de Ormuz, afetando uma importante rota de transporte de petróleo e gás natural liquefeito.
- Meados de março: a Comissão Reguladora de Energia da Tailândia determinou que as usinas aumentassem o uso de carvão para conter os custos e reduzir o consumo de gás.
- 12 de agosto: o poço de produção Dee, no projeto de gás Sin Phu Hom, começou a operar.
- Setembro: o índice de preços de importação de combustíveis da Tailândia registrou alta anual de 45,7%.
- Outubro: os preços ao produtor subiram 10,2% e os preços ao consumidor, 3,90% em relação ao mesmo mês do ano anterior.
Compras de petróleo bruto se estendem além dos fornecedores originais
Os Emirados Árabes Unidos respondiam por 40,1% do valor das importações tailandesas de petróleo bruto antes da crise, seguidos pela Arábia Saudita, com 18,1%, e pelos Estados Unidos, com 16,2%. Juntos, os três países representavam quase três quartos do total.
A participação combinada deles caiu para 54,7% entre março e setembro, uma redução de 19,7 pontos percentuais. Com isso, os demais fornecedores aumentaram sua participação conjunta de 25,6% para 45,3%, aproximando-se da metade do valor das importações tailandesas de petróleo bruto.
Angola ganhou 4,0 pontos percentuais, o Brasil, 3,1, e a Argentina, 2,8. O ganho combinado de 9,9 pontos desses países respondeu por cerca de metade da mudança em relação aos três fornecedores originais. Assim, África e América Latina passaram a ter um peso maior na rede de compras da Tailândia.
Os números medem a participação no valor das importações, ou seja, o montante gasto com petróleo bruto. As quantidades físicas são medidas separadamente, em barris ou toneladas. Para os responsáveis pelas compras, uma rede mais ampla de fornecedores oferece mais alternativas quando um país produtor ou uma rota de transporte enfrenta problemas.
Estados Unidos lideram o fornecimento de gás, mas concentração persiste
As compras de gás da Tailândia mudaram mais de origem do que de nível de concentração. Catar, Mianmar e Austrália forneciam, juntos, 57,3% antes da crise. A interrupção dos embarques marítimos do Catar pelo Estreito de Ormuz levou a Tailândia a buscar fornecedores substitutos.
Os Estados Unidos se tornaram o principal fornecedor, com 29,9%, seguidos pela Austrália, com 17,2%, e por Mianmar, com 11,2%. Juntos, esses três países forneceram 58,3%, um ponto percentual a mais do que o grupo dos principais fornecedores antes da crise.
Os resultados para petróleo bruto e gás, portanto, são diferentes. As compras de petróleo ficaram menos concentradas nos fornecedores originais. As compras de gás se deslocaram para outros países, mas quase três quintos ainda vieram de apenas três parceiros. A Tailândia ganhou alternativas ao Catar, mas continuou bastante dependente de um grupo restrito de países.
Tailândia compra mais GNL enquanto mercado global se aperta
A busca da Tailândia por gás coincidiu com o aumento do consumo interno. O uso de gás cresceu 9%, ou quase 3 bilhões de metros cúbicos, nos primeiros oito meses de 2026. O consumo para geração de eletricidade subiu 13%, enquanto o uso industrial aumentou 3%.
As importações de gás natural liquefeito (GNL) cresceram 30%, o equivalente a cerca de 3,5 bilhões de metros cúbicos, nos três primeiros trimestres. O GNL é o gás natural resfriado até se tornar líquido, o que permite transportá-lo por navio entre países. Antes do uso, ele é convertido novamente em gás.
O crescimento das importações tailandesas foi dez vezes maior que o aumento de 3% das importações líquidas de GNL na Ásia no mesmo período. Isso colocou o país entre os compradores que ampliaram as aquisições em um momento de pressão sobre a oferta.
A Revisão da Segurança Global do Gás 2026 da Agência Internacional de Energia projetou uma queda de 3% na oferta mundial de GNL, quase 20 bilhões de metros cúbicos, e uma redução de 1,5% na demanda global de gás, cerca de 65 bilhões de metros cúbicos. A crise reduziu em mais de 60 bilhões de metros cúbicos os embarques de GNL do Catar e dos Emirados Árabes Unidos entre março e outubro, levando os preços na Ásia e na Europa aos níveis mais altos desde a crise de abastecimento de gás de 2022 e 2023.
Indonésia e Malásia sofreram menos pressão direta porque produzem volumes consideráveis de gás e precisam importar relativamente pouco. A Tailândia, por outro lado, aumentava as compras para sustentar a geração de eletricidade. A determinação de março para ampliar o uso de carvão foi uma resposta imediata a essa pressão sobre os custos.
Transporte marítimo também encarece as fontes alternativas
A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), em seu relatório Interrupções no Estreito de Ormuz: disparada dos preços dos combustíveis e o peso da inflação, publicado em 29 de outubro, descreveu como viagens mais longas, menor disponibilidade de navios-tanque e transferências entre embarcações estavam elevando os custos de transporte.
Em 19 de outubro, o Baltic Exchange Dirty Tanker Index, que acompanha principalmente o transporte de petróleo bruto, chegou a 371, ante uma base de 100 em 27 de fevereiro. O Clean Tanker Index, voltado sobretudo a produtos refinados, atingiu 280. Esses índices representam aumentos de 271% e 180%, respectivamente.
Em 20 de outubro, os preços dos combustíveis marítimos estavam 72% acima da média dos seis meses anteriores ao conflito. Os preços do diesel subiram 81%, os do combustível de aviação, 80%, e os da gasolina, 64%, no mesmo período de comparação. Em 19 de outubro, o petróleo bruto custava, em média, cerca de US$ 108 por barril nos quatro principais indicadores regionais, ante aproximadamente US$ 66 no início do período mostrado no gráfico.
A pressão também se estendeu a rotas distantes de Ormuz. A estimativa de ganhos diários de superpetroleiros que transportam petróleo bruto da África Ocidental à China subiu de cerca de US$ 55 mil em janeiro para US$ 720 mil em outubro. Na rota entre a Costa do Golfo dos Estados Unidos e a China, os ganhos aumentaram de aproximadamente US$ 60 mil para US$ 559 mil.
A UNCTAD também apontou restrições que afetaram até 28% das exportações mundiais de diesel, ou 2,3 milhões de barris por dia. Bahrein, Kuwait e Arábia Saudita exportaram 66% menos óleo combustível e 33% menos diesel entre março e junho do que no mesmo período do ano anterior. Assim, os fornecedores alternativos da Tailândia operavam em um mercado global de transporte e combustíveis submetido a várias pressões simultâneas.
Fábricas e famílias absorvem partes diferentes do impacto
O índice de preços de importação da Tailândia chegou a 130,7 em setembro, alta de 12,3% em relação ao mesmo mês do ano anterior. O componente de combustíveis subiu muito mais rápido, 45,7%. Um índice acompanha a variação dos preços ao longo do tempo, enquanto a variação anual mede a mudança em relação ao mesmo mês do ano anterior.
O índice de preços ao produtor alcançou 117,7 em outubro, alta de 10,2%. Os produtos de mineração subiram 37,8% e os produtos industriais, 8,9%, refletindo os preços mais altos do petróleo bruto, do gás natural e das matérias-primas. Os preços ao produtor acompanham quanto os produtores recebem por sua produção, ajudando as autoridades a monitorar a pressão sobre os preços antes que os produtos cheguem aos consumidores.
As famílias sentiram o impacto nos gastos com transporte, alimentação e outras despesas do dia a dia. Os preços dos combustíveis subiram 29,18% em outubro e responderam por cerca de 56% da inflação geral. Aplicada à taxa de inflação de 3,90%, essa parcela equivale a aproximadamente 2,18 pontos percentuais.
Os preços de veículos, transporte e comunicações aumentaram 10,93%. Entre os serviços que ficaram mais caros estavam o transporte escolar, os mototáxis, os ônibus, as vans interprovinciais e os songthaews, táxis coletivos do tipo caminhonete usados em muitas comunidades tailandesas. Agricultores e pequenos negócios também enfrentaram custos maiores para transportar mercadorias e operar equipamentos.
Os preços de alimentos e bebidas não alcoólicas subiram 4,26%; os de refeições prontas, 4,06%; e os de ovos e laticínios, 6,90%. Alagamentos em áreas de cultivo de hortaliças elevaram alguns preços no início de outubro, antes de a situação melhorar no fim do mês. Os preços da eletricidade, de alguns artigos domésticos e de roupas caíram, enquanto os preços das frutas frescas recuaram 0,15%.
A inflação subjacente, que exclui alimentos frescos e energia, foi de 1,58%. A confiança do consumidor ficou em 46,5, abaixo do limite de 50 adotado pela pesquisa, refletindo a preocupação com o custo de vida e o poder de compra. Os diferentes indicadores mostram tanto a intensidade do choque dos combustíveis quanto as variações desiguais nos gastos das famílias.
Europa mostra por que trocar de fornecedores não impede a pressão global sobre os preços
Uma comparação com a Europa ajuda a explicar a experiência da Tailândia. Um estudo sobre segurança energética da Intereconomics, de Ugnė Keliauskaitė, Ben McWilliams, Thomas Mramor, Alexander Roth, Simone Tagliapietra e Georg Zachmann, constatou que o Catar fornecia apenas 4% do total das importações de gás da União Europeia e 8% das importações de GNL.
Ainda assim, os compradores europeus enfrentaram preços mais altos do gás porque concorriam com compradores asiáticos pelas cargas disponíveis fora da região afetada. Os Estados Unidos forneciam cerca de dois terços do GNL importado pela União Europeia, tornando-se uma fonte importante tanto para a Europa quanto para a rede de fornecedores em transformação da Tailândia.
Os autores calcularam que uma alta sustentada dos preços do gás de € 30 para € 60 por megawatt-hora acrescentaria cerca de € 100 bilhões à conta de importação de gás da União Europeia ao longo de 12 meses. Essa era uma estimativa condicional; o artigo informou que, posteriormente, os preços se estabilizaram em torno de € 40. O custo total das importações de gás da União Europeia foi de € 117 bilhões em 2025.
O estudo recomendou ajuda direcionada a famílias e setores vulneráveis, armazenamento de gás coordenado, planos para reduzir a demanda de petróleo em emergências e dados de mercado mais rápidos. Também alertou que cortes amplos nos impostos sobre combustíveis podem incentivar o consumo quando a oferta é escassa. A Tailândia enfrenta a mesma tensão prática: ajudar a população a pagar despesas essenciais e, ao mesmo tempo, administrar o custo elevado da energia importada.
Gás nacional oferece outra opção, mas exige mais tempo
A Tailândia também está investindo na produção interna. O ministro da Energia, Eknath Promphan, visitou o poço de produção Dee, em Sin Phu Hom, na província de Udon Thani, e anunciou direitos de exploração e produção nos blocos L1/66 e L3/66 para a PTTEP International.
O poço Dee começou a operar em 12 de agosto de 2026. O gás segue por um gasoduto até instalações de processamento em Khon Kaen e, em seguida, abastece a usina de Nam Phong. Se for viável encontrar gás nos blocos de exploração adjacentes, eles poderão ser conectados à infraestrutura existente, reduzindo a necessidade de construir instalações inteiramente novas.
As pesquisas sísmicas iniciais e a perfuração exploratória devem levar cerca de três anos. Pesquisas sísmicas usam ondas sonoras para ajudar a mapear formações rochosas subterrâneas. A possibilidade de descobertas comercialmente viáveis ainda é incerta, por isso o desenvolvimento proposto segue um cronograma muito mais longo do que o das compras atuais de combustíveis.
O governo estimou investimentos em exploração de cerca de 2 bilhões de baht e uma possível receita pública superior a 60 bilhões de baht se os recursos dos blocos L1/66 e L3/66 e de Sin Phu Hom forem desenvolvidos com sucesso. A receita projetada viria de royalties e impostos sobre a renda do petróleo. O governo também mencionou a possibilidade de o gás abastecer a geração de eletricidade no nordeste do país por mais 25 anos, desde que a exploração e o desenvolvimento sejam bem-sucedidos.
Autoridades monitoram custos e mantêm projeção de inflação
O Ministério do Comércio manteve a previsão de inflação média para 2026 entre 1,8% e 2,2%, com ponto médio de 2,0%. A inflação média de janeiro a outubro foi de 1,77%. A média anual reúne todos os meses e pode, por isso, permanecer abaixo da leitura isolada de 3,90% registrada em outubro.
Nanthapong esperava que a inflação continuasse positiva em novembro. Entre os fatores a monitorar estavam os preços globais da energia, as refeições prontas, as tarifas de transporte e os efeitos do clima sobre a produção agrícola. Não foi anunciada uma data para um novo pacote de medidas de apoio relacionado à análise sobre a diversificação das importações.
O TPSO planeja combinar as estatísticas de comércio por país com os índices de preços de importação, ao produtor e ao consumidor para acompanhar a evolução dos custos na economia e elaborar recomendações de política pública. Nanthapong, diretor do escritório, explicou o objetivo em uma declaração traduzida do tailandês:
Administrar a segurança energética não significa apenas garantir energia suficiente, mas também lidar com a volatilidade dos custos, que pode afetar a economia e o custo de vida da população.
A tarefa imediata da Tailândia é, portanto, manter o acesso aos combustíveis e limitar os danos provocados pela alta dos preços. Ampliar as compras de petróleo, buscar novos fornecedores de gás, mudar a matriz de geração de energia e explorar recursos internos são medidas que atendem a diferentes partes desse desafio, cada uma em seu próprio prazo.
Principais pontos
- A participação conjunta dos três fornecedores originais de petróleo bruto caiu de 74,4% para 54,7% do valor das importações.
- Os Estados Unidos se tornaram o principal fornecedor de gás da Tailândia, mas três países ainda respondiam por 58,3% das importações de gás.
- Os preços de importação de combustíveis subiram 45,7% em setembro de 2026, enquanto a inflação geral chegou a 3,90% em outubro.
- As importações tailandesas de GNL aumentaram 30% nos três primeiros trimestres, ante crescimento de 3% nas importações líquidas de GNL na Ásia.
- O aumento dos custos de transporte marítimo e a concorrência por cargas substitutas mantiveram caras as fontes alternativas de energia.
- A exploração de gás em território nacional deve levar cerca de três anos, e o desenvolvimento dependerá de descobertas comercialmente viáveis.
- O Ministério do Comércio manteve a previsão de inflação média anual entre 1,8% e 2,2%.






