Um vasto canteiro de obras já está produzindo eletricidade
Mais de 20 mil pessoas trabalham 24 horas por dia na usina hidrelétrica de Rogun, no Tajiquistão, onde duas unidades geradoras já produziram mais de 11 bilhões de quilowatts-hora de eletricidade. O próximo grande marco é setembro de 2027, quando está previsto o início da operação de uma terceira unidade, enquanto a construção da enorme barragem continua rumo à conclusão esperada em 2035.
Conteúdo
- Um vasto canteiro de obras já está produzindo eletricidade
- O que a próxima unidade geradora vai mudar
- Construindo a barragem camada por camada
- Por que boa parte de Rogun fica no subsolo
- Uma aldeia dentro do perímetro
- Indenizações sob pressão da alta dos preços
- A disputa sobre a altura da barragem
- Ainda são necessários bilhões para concluir Rogun
- Segurança e os trabalhadores por trás do cronograma
- Marcos do projeto, dos primeiros planos à conclusão
- Principais pontos
Durante uma visita de jornalistas em 29 de outubro de 2026, o vice-diretor técnico Murod Sa'dulloev disse que o reservatório havia alcançado 1.140 metros acima do nível do mar naquele ano. O plano é elevá-lo a 1.165 metros em 2027, mais 25 metros, para apoiar o aumento da produção de eletricidade.
Rogun está sendo construída em um desfiladeiro íngreme no rio Vakhsh, cerca de 100 quilômetros a leste de Dushanbe. Com altura planejada de 335 metros, ela será a barragem de enrocamento mais alta do mundo. Caminhões que transportam até 80 metros cúbicos de material por viagem percorrem estradas nas montanhas, enquanto trabalhadores constroem e reforçam uma extensa rede de estruturas subterrâneas.
O projeto promete eletricidade mais confiável para um país afetado por escassez no inverno, com energia adicional destinada a países vizinhos. Também se espera que seu reservatório obrigue mais de 50 mil pessoas a deixar suas casas. Algumas famílias ainda vivem dentro do perímetro da obra, ganhando dinheiro com a mão de obra empregada no projeto enquanto se preparam para a eventual perda de seus lares.
Essas duas realidades avançam juntas: Rogun fornece eletricidade antes de ficar pronta, enquanto o avanço do reservatório aproxima a realocação das comunidades a montante. Financiamento, segurança da construção e indenizações ajudarão a determinar como os benefícios e os custos serão distribuídos.
O que a próxima unidade geradora vai mudar
Sa'dulloev descreveu uma usina concluída com seis unidades geradoras de 630 megawatts cada, o que daria a Rogun uma capacidade total de 3.780 megawatts. A geração média anual projetada é de 14,4 bilhões de quilowatts-hora.
Megawatts medem quanta energia uma usina pode produzir em determinado momento. Quilowatts-hora medem a eletricidade gerada ao longo do tempo. Os mais de 11 bilhões de quilowatts-hora produzidos pelas duas primeiras unidades são um total acumulado desde que começaram a operar; os 14,4 bilhões correspondem à produção esperada em um ano médio após a conclusão.
A empresa de engenharia Studio Pietrangeli informa, na página do projeto de Rogun, que lista trabalhos realizados em 2018 e 2019, uma configuração anterior com seis turbinas de 600 megawatts, ou 3.600 megawatts no total. Os números de Sa'dulloev são 180 megawatts, ou 5%, maiores.
Elevar o nível do reservatório aumenta a altura da queda d'água até as turbinas. Essa altura ajuda a determinar quanta energia a água pode fornecer. Por isso, a elevação planejada para 2027 faz parte do cronograma de geração de eletricidade, junto com a instalação e o comissionamento da terceira unidade.
Construindo a barragem camada por camada
O engenheiro Jahongir Sultonzoda disse que os caminhões basculantes de Rogun transportam entre 40 e 80 metros cúbicos por viagem. Escavadeiras, tratores de esteira e caminhões operam em diferentes níveis do canteiro, onde a chuva pode deixar sulcos profundos e lama nas estradas.
A barragem é um maciço construído com rocha e terra, com um núcleo projetado para impedir a passagem da água. O material é colocado em camadas, compactado e verificado de acordo com o projeto antes da instalação da camada seguinte. O trabalho depende da qualidade tanto dos materiais quanto de sua colocação.
A Studio Pietrangeli informa que a crista final da barragem terá 650 metros de comprimento e que o volume de enrocamento será de 70 milhões de metros cúbicos. A descrição do projeto prevê várias etapas de construção, que terminam com a crista principal da barragem a 1.300 metros acima do nível do mar. Essa altitude se refere ao topo da barragem concluída, enquanto o valor de 1.140 metros informado pela administração da usina se refere à superfície da água do reservatório em 2026.
Por que boa parte de Rogun fica no subsolo
Atualmente, o Vakhsh passa por canais subterrâneos associados ao projeto. A água conduzida por dutos de pressão aciona turbinas conectadas a geradores e depois retorna ao rio a jusante. Outros túneis desviam a água das áreas de construção ou servem de rota para liberar o excesso de vazão.
A Studio Pietrangeli descreve três túneis de desvio com capacidade conjunta de escoamento de 5.600 metros cúbicos por segundo. As especificações do projeto também listam cinco túneis de vertedouro, com extensão total de 10 quilômetros. Os vertedouros oferecem um caminho controlado para a água passar pela barragem quando precisa ser liberada.
A empresa de engenharia aponta a proteção contra enchentes como um dos principais desafios do projeto, pois a água que transbordasse pelo topo poderia ameaçar a barragem de enrocamento. Também afirma que o local fica em uma área sismicamente ativa, com falhas importantes cruzando as rotas dos túneis. Os revestimentos dos túneis precisam ser projetados para essas condições.
A construção se estende pelas encostas das montanhas ao redor. Terraços e estradas de acesso foram escavados nas encostas, e barras metálicas de até 70 metros de comprimento são instaladas em furos perfurados para reforçar a rocha. Túneis de transporte, passagens de serviço e galerias subterrâneas conectam partes de um canteiro muito maior que a área percorrida durante a visita de outubro.
Uma aldeia dentro do perímetro
Pasi Murakho continua sendo uma aldeia em funcionamento dentro da área cercada de construção de Rogun. Casas, pomares, animais e construções domésticas convivem com as atividades de um projeto nacional de infraestrutura.
Os funcionários da segurança conhecem os moradores, mas parentes e outros visitantes precisam apresentar passaporte e obter uma autorização de entrada. Visitar a casa de uma família, portanto, envolve passar por um posto de controle além de fazer o trajeto habitual até a aldeia.
A construção trouxe clientes para lojas locais, refeitórios e outros serviços. Alguns moradores trabalham nas proximidades, em Rogun, e não na usina; a cidade fica perto o suficiente para ir a pé. A economia da aldeia combina agricultura, trabalho doméstico, empregos e comércio com a mão de obra da construção.
Os moradores terão de se mudar. Para as famílias que ganham dinheiro com o canteiro, a mudança significa encontrar uma nova casa e reconstruir as rotinas e as relações com clientes que as sustentam. A renda atual está ligada a um lugar que se espera que elas deixem.
Indenizações sob pressão da alta dos preços
Espera-se que mais de 50 mil pessoas sejam deslocadas pelo reservatório. O desafio prático vai além de distribuir terrenos: as famílias precisam conseguir substituir suas casas, obter serviços e retomar as atividades que garantem seu sustento.
Mukim Khasanov, agricultor de 75 anos que aguarda reassentamento de uma aldeia perto de Rogun, disse que sua família havia recebido um terreno em outro local. Ele contou que a alta dos preços reduziu o poder de compra da indenização calculada anos atrás.
Khasanov explicou a dificuldade de comprar materiais de construção com esse valor:
Quando nossas casas e propriedades foram avaliadas, os preços eram completamente diferentes, até mesmo os dos materiais de construção; agora, tudo está extremamente caro.
Ele deu como exemplo uma tábua de madeira que passou de 50 somonis para 150 somonis, o triplo do preço anterior. Com esses preços, a mesma quantia compra apenas uma tábua, em vez de três.
Alguns moradores de Rogunion, um assentamento perto de Dushanbe cujo nome evoca a região de origem das pessoas deslocadas pelo reservatório, dizem que as terras agrícolas prometidas nunca foram distribuídas. A indenização pela moradia e o acesso a terras agrícolas atendem a necessidades diferentes: uma casa substituta oferece abrigo, enquanto a terra pode proporcionar alimento e renda.
A disputa sobre a altura da barragem
A Rivers Without Borders, uma coalizão ambiental, argumenta que reduzir em 35 metros a altura planejada da barragem poderia evitar o deslocamento de cerca de 32 mil pessoas. A alternativa diminuiria a altura de 335 para 300 metros.
Evgenij Simonov, coordenador da coalizão, descreve a altura recorde como uma questão de prestígio nacional. As autoridades argumentam que o projeto mais alto oferece resultados econômicos e ambientais melhores que as alternativas mais baixas, avaliação que, segundo elas, conta com o respaldo de estudos do Banco Mundial.
A divergência liga uma decisão de engenharia diretamente ao número de pessoas que terão de se mudar. Uma barragem mais alta permite um reservatório mais elevado, afetando tanto a produção de eletricidade quanto a extensão de terra coberta pela água. Para os moradores que enfrentam a realocação, essa decisão se traduz no futuro de suas casas, fazendas e comunidades.
O cronograma de construção apresentado pela administração da usina continua seguindo o projeto de 335 metros. O debate sobre uma alternativa mais baixa acontece enquanto a barragem sobe e o reservatório se expande.
Ainda são necessários bilhões para concluir Rogun
O custo estimado para concluir Rogun é de cerca de US$ 5,8 bilhões, e espera-se que o financiamento venha principalmente do orçamento estatal do Tajiquistão. Instituições financeiras internacionais estão se envolvendo cada vez mais, acrescentando recursos externos a um projeto que ainda tem anos de obras pela frente.
O Tajiquistão ratificou um acordo de empréstimo de US$ 300 milhões do Banco Mundial no início de outubro de 2026. A contribuição proposta pelo Banco Asiático de Desenvolvimento (ADB) é de mais US$ 500 milhões, compostos por uma doação de US$ 200 milhões e um empréstimo concessional de US$ 300 milhões, segundo o relato do Ministério das Finanças sobre as conversas de financiamento.
A divisão proposta foi detalhada durante as conversas sobre financiamento em outubro, envolvendo o ministro das Finanças, Faiziddin Sattor Qahhorzoda, e representantes dos dois bancos. Uma doação não precisa ser devolvida. Um empréstimo concessional precisa, mas tem condições mais favoráveis do que um financiamento comercial comum. Não foi anunciada uma data para a aprovação final ou o pagamento do pacote proposto pelo ADB.
Os bancos também discutiram um Quadro de Confiança Mútua Integral, uma abordagem destinada a permitir que adotem procedimentos comuns para avaliar o projeto, conceder contratos e monitorar a construção. Essa coordenação é importante quando vários financiadores bancam partes diferentes de um mesmo empreendimento de grande porte.
Filippo Menga, professor associado de geografia da Universidade de Bérgamo, descreveu como o compromisso de grandes instituições financeiras aumenta a pressão para continuar:
parar o projeto, tanto financeira quanto politicamente, agora é extremamente difícil
As decisões de financiamento vinculam o programa de construção de Rogun a gastos públicos futuros e compromissos de pagamento. O pacote proposto pelo ADB daria um apoio substancial, enquanto o custo estimado de conclusão continua na casa de vários bilhões de dólares.
Segurança e os trabalhadores por trás do cronograma
Especialistas tajiques realizam a maior parte do trabalho em Rogun, ao lado de mais de 2 mil trabalhadores estrangeiros. Há pessoas da China, da Índia, da Itália e do Paquistão trabalhando em diferentes partes do projeto. A força de trabalho inclui motoristas, engenheiros, mineradores de túneis e trabalhadores cujos parentes também têm empregos no local.
Um incidente em 21 de outubro de 2026 envolveu a falha de um tanque de coleta de água de processo em um túnel. As autoridades de supervisão disseram que nenhum trabalhador ficou gravemente ferido. Os trabalhadores receberam primeiros socorros e voltaram ao trabalho, enquanto Sultonzoda afirmou que o incidente não causou danos. A construção continuou.
A visita de 29 de outubro, organizada pela União dos Jornalistas do Tajiquistão com o apoio da administração da usina, incluiu instruções de segurança sobre a operação de máquinas, barreiras e possíveis quedas de rochas. Os visitantes receberam capacetes e coletes refletivos. O passeio cobriu apenas parte da área de construção.
Marcos do projeto, dos primeiros planos à conclusão
Segundo a Studio Pietrangeli, Rogun começou como um projeto soviético na década de 1960. O programa atual combina geração de eletricidade, novo enchimento do reservatório e construção das unidades restantes ao longo de vários anos.
- Década de 1960: O projeto de Rogun começou durante a era soviética.
- Início de outubro de 2026: O Tajiquistão ratificou um acordo de empréstimo de US$ 300 milhões do Banco Mundial.
- 21 de outubro de 2026: Um tanque de coleta de água de processo falhou em um túnel; as autoridades disseram que nenhum trabalhador ficou gravemente ferido.
- 29 de outubro de 2026: A administração da usina apresentou os avanços e os próximos marcos de geração durante uma visita de jornalistas.
- 2027: O reservatório deve alcançar 1.165 metros acima do nível do mar.
- Setembro de 2027: Está previsto o início da operação da terceira unidade geradora.
- 2035: A conclusão da construção está prevista.
Os próximos testes concretos são a elevação planejada do reservatório e o início da operação da terceira unidade. Para as famílias que aguardam a realocação, o avanço também significa garantir moradias substitutas e meios de sustento à medida que o nível da água sobe.
Principais pontos
- Mais de 20 mil pessoas trabalham em Rogun, incluindo mais de 2 mil trabalhadores estrangeiros.
- Duas unidades geraram mais de 11 bilhões de quilowatts-hora; a entrada em operação da terceira está prevista para setembro de 2027.
- A administração da usina informa uma capacidade final de 3.780 megawatts e geração média anual de 14,4 bilhões de quilowatts-hora.
- A altura planejada da barragem é de 335 metros, e espera-se que o reservatório desloque mais de 50 mil pessoas.
- Moradores relatam que a inflação reduziu o valor das indenizações e que há atrasos no recebimento das terras agrícolas prometidas.
- A conclusão está prevista para 2035, e ainda são necessários cerca de US$ 5,8 bilhões.
- Um acordo de empréstimo de US$ 300 milhões do Banco Mundial foi ratificado; um pacote adicional de US$ 500 milhões do ADB está em análise.






