Enfermarias superlotadas revelam uma crise crescente
Alguns hospitais no sul do Afeganistão atenderam três ou quatro crianças com desnutrição grave para cada leito disponível, alertou o UNICEF em agosto de 2026. A pressão sobre as enfermarias agora se soma à projeção nacional para o inverno: 19,2 milhões de pessoas enfrentando insegurança alimentar aguda e cerca de quatro milhões de crianças que precisarão de tratamento para desnutrição aguda em 2027.
Conteúdo
- Enfermarias superlotadas revelam uma crise crescente
- O que mostram os números para o inverno
- Por que as crianças precisam de mais do que apenas comida
- Hospitais do sul enfrentam demanda concentrada
- Trabalho, preços e clima pressionam as famílias
- A capacidade de prestar ajuda diminui enquanto as necessidades aumentam
- Como a crise se desenvolveu
- Principais pontos
O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) afirma que a situação no sul está se deteriorando à medida que aumentam as internações hospitalares, a pobreza se aprofunda e os recursos humanitários diminuem. As famílias têm dificuldade para encontrar comida suficiente, enquanto os serviços de saúde enfrentam uma demanda crescente por atendimento.
Helmand e Kandahar estão entre as províncias onde os serviços de tratamento registraram aumento nas internações. A organização humanitária médica Médicos Sem Fronteiras (MSF) afirmou que seu centro de tratamento em Helmand registrou o maior número mensal de internações nos primeiros meses de 2026. Em junho, a organização relatou um forte aumento nas internações de crianças com desnutrição grave nos centros que apoia nas duas províncias.
O OCHA identifica várias pressões que se acumulam: fome, recursos limitados nas famílias, secas e enchentes recorrentes e redução da resposta humanitária. A escassez de empregos e os preços elevados dos alimentos deixam as famílias com menos dinheiro para comprar o que precisam. Para crianças já debilitadas por uma alimentação inadequada ou por doenças, essas pressões podem transformar a falta de comida em uma emergência médica.
O que mostram os números para o inverno
Uma avaliação de outubro da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e do Programa Mundial de Alimentos (WFP) estimou que 19,2 milhões de pessoas, cerca de 38% da população do Afeganistão, poderiam enfrentar insegurança alimentar aguda entre novembro de 2026 e abril de 2027. A insegurança alimentar aguda significa que as pessoas enfrentam escassez grave o suficiente para ameaçar sua saúde ou sua capacidade de manter seus meios de subsistência.
A projeção de 15 de outubro do Mecanismo Integrado de Classificação da Segurança Alimentar (IPC), detalhada na previsão de fome para o inverno, estimou que cinco milhões de pessoas enfrentariam condições de Emergência durante esse período. Emergência é a Fase 4 da escala do IPC, que descreve uma grave escassez de alimentos associada a altos riscos de desnutrição aguda, mortes e perda dos meios de subsistência.
O total para o inverno é 3,3 milhões superior aos 15,9 milhões de pessoas estimadas em situação de Crise ou pior em setembro e outubro de 2026. Também supera em 1,8 milhão a projeção de 17,4 milhões para o período de inverno equivalente do ano anterior, um aumento de cerca de 10%.
Cinco milhões de pessoas em condições de Emergência representariam aproximadamente uma em cada dez pessoas no país. Os números mostram por que a superlotação dos hospitais do sul faz parte de um problema muito mais amplo: milhões de famílias estão entrando no inverno com necessidades alimentares que já excedem o que conseguem suprir de forma confiável.
Por que as crianças precisam de mais do que apenas comida
Em 2027, estima-se que cerca de quatro milhões de crianças sofrerão de desnutrição aguda, incluindo quase 1,1 milhão de casos graves. A estimativa mais detalhada citada na cobertura de outubro é de 4,04 milhões de crianças de seis a 59 meses que precisarão de tratamento ao longo do ano.
A desnutrição aguda pode se manifestar como emagrecimento extremo, quando a criança fica magra demais para sua altura. A falta de comida, uma alimentação pobre em nutrientes essenciais e doenças podem contribuir para o problema. Uma criança com desnutrição grave pode precisar de tratamento nutricional especializado, enquanto uma criança com complicações médicas também pode precisar de atendimento hospitalar.
Os números divulgados pelo UNICEF em agosto mostram como a crise afeta especialmente as crianças mais novas. Crianças menores de dois anos representaram cerca de 83% dos casos de desnutrição aguda grave, enquanto bebês com menos de seis meses corresponderam a quase 40% das pessoas hospitalizadas com emagrecimento grave e complicações médicas.
O UNICEF e seus parceiros avaliaram 1,3 milhão de crianças em agosto e registraram 111.099 internações para tratamento, incluindo 58.891 casos de emagrecimento grave, conforme detalhado nos dados de tratamento de agosto. O tratamento inclui atendimento fora dos hospitais, além da internação em enfermarias de crianças que precisam de estabilização clínica.
Os riscos sazonais vão além do inverno. A fome deve se intensificar com a redução do trabalho agrícola e da renda, enquanto a desnutrição aguda deve voltar a piorar entre abril e julho de 2027, quando doenças, alimentação inadequada e menor acesso a serviços de saúde se combinam. Por isso, as famílias precisam de apoio que continue mesmo depois do fim dos meses mais frios.
Hospitais do sul enfrentam demanda concentrada
O relato do UNICEF de que há três ou quatro crianças com desnutrição grave para cada leito disponível descreve a pressão em alguns hospitais do sul. O número recorde de internações da MSF em Helmand e o aumento das internações em Kandahar reforçam que os serviços de tratamento da região estão recebendo mais crianças com necessidades graves.
No país, as internações hospitalares por desnutrição aguda grave e complicações médicas haviam aumentado cerca de um terço até julho de 2026, em comparação com o mesmo período de 2025. São crianças que precisam de atendimento tanto para a desnutrição quanto para problemas de saúde associados, o que pressiona a disponibilidade de leitos, equipes e suprimentos médicos.
A rede de tratamento mais ampla também está encolhendo. Cerca de um terço dos postos de tratamento nutricional havia fechado ou suspendido os serviços, segundo a cobertura da avaliação de outubro para o inverno. Em seus informes de agosto, o UNICEF descreveu uma escassez significativa de alimentos nutricionais especializados ao mesmo tempo que aumentavam as internações relacionadas à desnutrição grave e a complicações.
Não foi informado o número total de hospitais superlotados no sul do Afeganistão. Ainda assim, a falta de leitos, o aumento das internações e o fechamento de postos de tratamento retratam um problema concreto para as famílias: mais crianças precisam de atendimento enquanto menos serviços estão em funcionamento.
Trabalho, preços e clima pressionam as famílias
A escassez de empregos e os preços elevados dos alimentos são fatores centrais para o agravamento da situação das famílias. Uma família pode passar fome mesmo quando há comida à venda, se sua renda for insuficiente ou incerta demais para comprá-la. O OCHA afirma que a pobreza e a fome estão pressionando ainda mais os meios de subsistência, deixando famílias vulneráveis com dificuldade para atender às necessidades básicas.
Secas e enchentes provocam novos choques repetidamente. A seca pode reduzir o abastecimento de água e prejudicar a produção agrícola, enquanto as enchentes podem destruir plantações, propriedades e vias de acesso. Famílias que dependem da agricultura ou de trabalhos sazonais podem perder tanto alimentos quanto renda, aumentando sua necessidade de assistência.
A mais recente previsão para o inverno no Afeganistão piorou apesar das chuvas mais abundantes e de uma safra de cereais robusta. O aumento simultâneo da projeção de fome mostra a importância do poder de compra das famílias e do acesso à assistência, além da quantidade de grãos produzidos. Uma safra melhor não eliminou as pressões sobre a renda descritas pelas organizações humanitárias.
Organizações humanitárias pedem alimentos de emergência, tratamento nutricional e apoio aos meios de subsistência. Cada medida aborda uma parte diferente do problema: os alimentos ajudam as famílias a atender às necessidades imediatas, o tratamento ajuda as crianças a se recuperar e o apoio aos meios de subsistência ajuda as famílias a reconstruir formas de se sustentar.
A capacidade de prestar ajuda diminui enquanto as necessidades aumentam
O WFP afirma que seus recursos atuais permitem prestar assistência a dois milhões de pessoas por mês, abaixo dos quatro milhões atendidos no inverno anterior. Isso representa uma redução pela metade do número de pessoas que consegue alcançar mensalmente. A necessidade de financiamento informada pelo programa é de US$ 540 milhões até janeiro de 2027.
O OCHA afirma que a redução do financiamento está limitando o número de pessoas que podem receber assistência. A combinação de um número maior de pessoas passando fome com uma resposta humanitária menor deixa as famílias cada vez mais dependentes de recursos que já estão sobrecarregados.
Em junho de 2023, o Afeganistão enfrentou um alerta semelhante sobre financiamento, quando o OCHA estimou que 15,5 milhões de pessoas viviam em situação de insegurança alimentar aguda, incluindo 2,8 milhões em níveis de fome de Emergência. Na época, também contabilizou 3,2 milhões de crianças e 840 mil gestantes e lactantes sofrendo de desnutrição aguda moderada ou grave.
Carl Skau, diretor executivo adjunto do WFP, descreveu as necessidades de financiamento da organização após visitar o Afeganistão em 2023:
O WFP precisa urgentemente de US$ 918 milhões para manter as operações pelos próximos seis meses.
Skau afirmou que a falta de financiamento significava que oito milhões de pessoas altamente vulneráveis perderiam a assistência emergencial do WFP e que as rações haviam sido reduzidas até mesmo em áreas com os níveis mais altos de insegurança alimentar. Ele também apontou as restrições impostas às trabalhadoras humanitárias e os eventos climáticos severos recorrentes como obstáculos à resposta. O pedido de US$ 918 milhões cobria aquele período anterior; a necessidade atual de US$ 540 milhões se estende até janeiro de 2027.
Como a crise se desenvolveu
A sequência de alertas mostra a pressão recorrente tanto sobre o abastecimento de alimentos das famílias quanto sobre os serviços que tratam a desnutrição. As projeções mais recentes estendem o período de resposta até meados de 2027.
- Junho de 2023: o OCHA estimou que 15,5 milhões de pessoas enfrentavam insegurança alimentar aguda, enquanto o WFP alertou que a falta de financiamento encerraria a assistência emergencial para oito milhões de pessoas altamente vulneráveis.
- Início de 2026: o centro de tratamento da MSF em Helmand registrou seu maior número mensal de internações.
- Junho de 2026: a MSF relatou um forte aumento nas internações de crianças com desnutrição grave em Helmand e Kandahar.
- Agosto de 2026: o UNICEF informou que alguns hospitais do sul atendiam três ou quatro crianças com desnutrição grave por leito disponível.
- Outubro de 2026: a avaliação para o inverno projetou que 19,2 milhões de pessoas enfrentariam insegurança alimentar aguda entre novembro de 2026 e abril de 2027.
- De abril a julho de 2027: a desnutrição aguda deve piorar com a combinação de doenças, alimentação inadequada e menor acesso a serviços de saúde.
Janeiro de 2027 é o prazo final da necessidade de financiamento de US$ 540 milhões informada pelo WFP, enquanto a projeção de fome para o inverno se estende até abril. Como a desnutrição deve aumentar entre abril e julho, as necessidades de tratamento continuarão além dessas duas datas.
No sul do Afeganistão, as prioridades imediatas são manter os serviços nutricionais em funcionamento, garantir suprimentos para tratamentos especializados e ajudar as famílias a obter alimentos suficientes antes que mais crianças precisem de atendimento hospitalar. O alerta do OCHA reúne essas necessidades: a pressão sobre a renda das famílias e sobre as enfermarias está crescendo ao mesmo tempo.
Principais pontos
- O OCHA alerta que o sul do Afeganistão enfrenta agravamento da fome, superlotação nos serviços de saúde e aumento das internações por desnutrição grave.
- Em agosto de 2026, alguns hospitais do sul atendiam três ou quatro crianças com desnutrição grave por leito disponível, segundo o UNICEF.
- Estima-se que cerca de 19,2 milhões de pessoas enfrentem insegurança alimentar aguda entre novembro de 2026 e abril de 2027, incluindo cinco milhões em condições de Emergência.
- Espera-se que cerca de quatro milhões de crianças precisem de tratamento para desnutrição aguda em 2027, incluindo quase 1,1 milhão de casos graves.
- Atualmente, o WFP consegue prestar assistência a dois milhões de pessoas por mês, metade do número atendido no inverno anterior.
- Depois da fome no inverno, a desnutrição aguda deve piorar entre abril e julho de 2027.






