Tratamentos ampliados à medida que a crise nutricional se agravava
O UNICEF e seus parceiros avaliaram 1,3 milhão de crianças quanto à desnutrição aguda no Afeganistão em agosto de 2026 e admitiram 111.099 para tratamento, incluindo 58.891 com desnutrição aguda grave. Ao mesmo tempo, os estoques de alimentos nutricionais especializados enfrentavam escassez significativa, e aumentavam as internações hospitalares por desnutrição grave e complicações médicas.
Conteúdo
- Tratamentos ampliados à medida que a crise nutricional se agravava
- O que os números de tratamento de agosto mostram
- Os dois primeiros anos concentram a maior carga
- Fome e doenças agravam a crise
- Ampla rede de serviços enfrenta interrupções crescentes
- Cuidados maternos e prevenção precisam de mais profissionais
- Falta de recursos ameaça o abastecimento para tratamentos
- Fechamento de clínicas dificulta o acesso ao atendimento
- Como a crise se desenvolveu e o que vem pela frente
- Principais pontos
Os números do relatório de situação de agosto do UNICEF mostram uma resposta que alcança um grande número de crianças, mas tem dificuldade para acompanhar as necessidades. Até julho, as admissões de crianças com desnutrição aguda grave e complicações médicas haviam aumentado cerca de um terço em comparação com o mesmo período de 2025.
As crianças pequenas suportavam a maior parte do impacto. Crianças menores de dois anos representavam aproximadamente 83% dos casos de desnutrição aguda grave, enquanto bebês com menos de seis meses correspondiam a quase 40% dos internados com desnutrição aguda grave e complicações médicas. Esses números se referem a casos graves, não a todas as formas de desnutrição infantil.
Desnutrição aguda significa que a criança está magra demais para sua altura, muitas vezes após ingestão insuficiente de alimentos, doença ou ambos. A desnutrição aguda grave pode se tornar fatal, sobretudo quando acompanhada de complicações médicas. A admissão para tratamento nutricional não significa necessariamente hospitalização: a resposta inclui tratamento fora dos hospitais, além do atendimento a crianças que precisam de estabilização médica.
O representante do UNICEF no Afeganistão, dr. Tajudeen Oyewale, descreveu a dimensão da crise durante uma coletiva de imprensa no Palais des Nations, em Genebra:
"Em todo o Afeganistão, 3,7 milhões de crianças sofrem de desnutrição aguda, incluindo cerca de 1 milhão com desnutrição aguda grave e potencialmente fatal",
A descrição da situação nutricional no relatório afirma que 3,7 milhões de crianças correm risco de desnutrição aguda, enquanto a declaração de Oyewale e o resumo publicado pelo UNICEF dizem que elas já sofrem com o problema. Essa diferença de formulação é importante para interpretar a estimativa nacional.
O que os números de tratamento de agosto mostram
O relatório de agosto contabiliza 111.099 crianças admitidas para tratamento, das quais 58.891 foram registradas com desnutrição aguda grave e 42.915 com desnutrição aguda moderada e alto risco de agravamento. As duas categorias listadas somam 101.806, uma diferença de 9.293 em relação ao total mensal informado. Os números publicados não explicam essa diferença.
As admissões mensais corresponderam a cerca de 8,5% das 1,3 milhão de crianças avaliadas. Trata-se de uma comparação entre as atividades de avaliação e tratamento informadas, não de uma estimativa da prevalência nacional. Os resultados das avaliações dependem de onde os serviços funcionam e de quais crianças são alcançadas, e admissões não equivalem a tratamento concluído ou recuperação.
De janeiro a agosto, o UNICEF e seus parceiros de implementação registraram 633.332 admissões para tratamento, diante de uma meta anual de 1.304.000, ou aproximadamente 48,6%. As 111.099 admissões de agosto representaram cerca de 17,5% do total acumulado, mostrando a concentração da atividade de tratamento naquele mês.
Separadamente, o relatório contabiliza 1.290.435 admissões em todo o setor de nutrição entre janeiro e agosto, com aumento mensal de 100.774. Esses números setoriais e os do UNICEF não devem ser somados: o UNICEF atua dentro da resposta mais ampla, e as duas linhas de registro podem se sobrepor. O relatório não explica por que o aumento registrado pelo UNICEF em agosto supera o aumento informado para o setor.
Os dois primeiros anos concentram a maior carga
O plano de resposta nutricional de 2026 tem como meta atender 5,7 milhões de crianças menores de cinco anos e mulheres grávidas e lactantes em 27 províncias com altas taxas de desnutrição. O plano dá atenção especial à alimentação nos primeiros dois anos de vida, período em que ocorre grande parte da desnutrição aguda no país.
Segundo o plano, 90% das crianças menores de dois anos, aproximadamente 2,1 milhões, vivem em situação de pobreza alimentar infantil, o que significa que não têm acesso a dietas suficientemente variadas e nutritivas. Cerca de 1,2 milhão consome apenas dois grupos de alimentos. O plano também informa que uma em cada duas crianças apresenta baixa estatura para a idade, condição que envolve comprometimento do crescimento associado à privação nutricional prolongada e a doenças recorrentes.
Para bebês com menos de seis meses, o plano prevê avaliações, apoio à amamentação, suporte nutricional materno, encaminhamentos e acompanhamento. O documento estima que esses bebês correspondem a quase 35% das admissões em centros de estabilização, em comparação com quase 40% das internações hospitalares por desnutrição aguda grave e complicações informadas no relatório de agosto. São medidas diferentes, que por si só não indicam um aumento de cinco pontos percentuais.
Fome e doenças agravam a crise
A estimativa era que 13,8 milhões de pessoas, ou 28% da população do Afeganistão, enfrentariam insegurança alimentar aguda na fase de Crise ou pior entre abril e setembro de 2026. Desse total, esperava-se que 2,9 milhões enfrentassem condições de Emergência, aproximadamente um quinto das pessoas projetadas para estar na fase de Crise ou pior.
Essas classificações são da Classificação Integrada da Segurança Alimentar, conhecida como IPC. A Fase 3, Crise, indica graves lacunas no consumo de alimentos ou estratégias de enfrentamento que prejudicam os meios de subsistência. A Fase 4, Emergência, descreve condições mais extremas. Essas fases de insegurança alimentar são distintas das classificações IPC usadas para avaliar a desnutrição aguda.
O plano nutricional aponta a alimentação inadequada e a exposição a doenças como grandes fatores de pressão. O documento cita mais de 96 mil casos suspeitos de sarampo em 2025, cobertura vacinal contra o sarampo abaixo de 80% em 24 províncias e níveis de diarreia que chegam a 80% em algumas províncias. Mais da metade dos domicílios não tem água suficiente, proporção que sobe para 75% nas áreas mais afetadas.
A organização Save the Children afirmou, com base em dados de vigilância da ONU, que a desnutrição aguda se agravou em dois terços das províncias no segundo trimestre de 2026, em comparação com o mesmo período do ano anterior, impulsionada pelo aumento das doenças infecciosas. As doenças podem reduzir o apetite e prejudicar a absorção de nutrientes, enquanto a desnutrição deixa as crianças mais vulneráveis a infecções. Por isso, a assistência alimentar, sozinha, não substitui o acesso a serviços de saúde, vacinação e água potável.
Ampla rede de serviços enfrenta interrupções crescentes
Em agosto, o UNICEF ofereceu serviços nutricionais preventivos e de tratamento por meio de 3.500 unidades de saúde e 15.000 postos comunitários de saúde. Separadamente, o resumo publicado do relatório registra serviços essenciais de saúde para 6,6 milhões de pessoas nas 34 províncias, por meio de 2.390 unidades fixas e 16 unidades móveis. Esses números descrevem redes de serviços diferentes e não devem ser tratados como totais equivalentes de unidades.
O UNICEF também apoiou 149.476 pessoas com água potável e 135.164 com serviços básicos de saneamento. Outras 433.568 pessoas receberam informações sobre nutrição, vacinação, prevenção de doenças, bem-estar mental, higiene e prevenção da diarreia aquosa aguda. Os números medem atividades distintas e não devem ser somados para calcular o total de pessoas atendidas.
Enchentes repentinas em agosto danificaram casas, infraestrutura, terras agrícolas, sistemas de abastecimento de água e escolas. A assistência também foi ampliada em áreas afetadas por tensões nas fronteiras, deslocamentos populacionais e terremotos. Os danos às lavouras e ao abastecimento de água pressionam ainda mais famílias que já têm dificuldade para alimentar as crianças, enquanto estradas e unidades danificadas podem interromper o acesso ao tratamento.
Cuidados maternos e prevenção precisam de mais profissionais
O relatório detalhado do UNICEF sobre agosto registra que 198.350 cuidadores receberam orientação nutricional sobre saúde materna, infantil e de crianças pequenas. Outros registros apontam 189.350, uma diferença de 9.000. O número do relatório oficial é a base mais sólida para descrever a atividade, embora a divergência não tenha sido explicada.
A agência distribuiu suplementos com múltiplos micronutrientes a 121.714 gestantes. Esses suplementos fornecem vitaminas e minerais essenciais, mas não substituem uma alimentação suficiente nem o pré-natal. O UNICEF também capacitou 80 profissionais de saúde em diretrizes revisadas para prevenção e tratamento da desnutrição aguda e outros 103 em nutrição materna, infantil e de crianças pequenas.
O plano de resposta aponta lacunas significativas na saúde materna. Apenas 27% das gestantes fazem quatro ou mais consultas de pré-natal, e 60% das adolescentes têm anemia por deficiência de ferro. O plano projeta desnutrição aguda entre quase 1,2 milhão de mulheres grávidas e lactantes.
As admissões mensais por desnutrição aguda em 2025 foram 13% maiores que em 2024, com o aumento mais acentuado, de quase 29%, entre gestantes e lactantes. Uma avaliação realizada em agosto de 2025 também identificou falta de profissionais de orientação nutricional nos diferentes serviços, sobretudo nos centros de estabilização. O plano prevê a contratação de profissionais mulheres e homens com formação adequada e maior participação de profissionais de saúde mulheres para enfrentar as barreiras que impedem mulheres de buscar atendimento.
Falta de recursos ameaça o abastecimento para tratamentos
Dos US$ 1,71 bilhão solicitados para a resposta humanitária da ONU no Afeganistão em 2026, US$ 509,3 milhões haviam sido financiados até 26 de agosto, o equivalente a 29,7% das necessidades. Restavam aproximadamente US$ 1,2 bilhão sem financiamento. Quase 22 milhões de pessoas, em sua maioria mulheres e crianças, precisavam de assistência humanitária durante o ano.
Na resposta nutricional, o UNICEF informa que o Cluster de Nutrição do Afeganistão havia garantido US$ 130,1 milhões, mas ainda enfrentava uma lacuna de financiamento de 56%. Uma tabela separada de financiamento nutricional no mesmo relatório aponta uma lacuna de US$ 125.531.764, ou 70%. O texto descreve a resposta mais ampla do cluster, enquanto a tabela apresenta uma linha de financiamento separada. Os dois percentuais não devem ser tratados como medidas do mesmo orçamento, e os trechos citados do relatório não conciliam os valores.
A escassez também afeta os estoques físicos. Havia uma falta de 17% em relação às necessidades de alimento terapêutico pronto para uso, ou RUTF, equivalente a 210 mil caixas. O alimento suplementar pronto para uso, ou RUSF, enfrentava uma lacuna de abastecimento de 65% para o restante de 2026.
Esses alimentos especializados atendem a necessidades distintas de tratamento. De acordo com os protocolos atualizados do Afeganistão, crianças com desnutrição aguda moderada e alto risco de agravamento recebem alimento terapêutico, enquanto aquelas nos estágios iniciais da forma moderada recebem alimento suplementar. A falta de abastecimento ameaça tanto o tratamento quanto os esforços para impedir que casos menos graves se agravem. A falta de recursos também se traduz no fechamento de centros de atendimento, na suspensão da assistência, na redução da cobertura geográfica e em interrupções nas cadeias de abastecimento.
Fechamento de clínicas dificulta o acesso ao atendimento
O plano de resposta nutricional afirma que os cortes de financiamento em 2025 levaram ao fechamento de mais de 300 postos de atendimento nutricional, privando quase 90 mil crianças menores de cinco anos e mulheres grávidas e lactantes do acesso a serviços. A declaração de 13 de agosto da Save the Children descreve uma contração mais ampla dos serviços de saúde, que afetou 3,70 milhões de pessoas, cerca de metade delas crianças.
A organização cita 445 unidades de saúde suspensas ou fechadas até dezembro de 2025 e outras 150 fechadas ou suspensas desde janeiro de 2026. Esses números de unidades de saúde têm abrangência diferente dos dados de fechamento de postos de atendimento nutricional. A Save the Children afirmou ter mantido 14 clínicas apoiadas pela organização em funcionamento com financiamento temporário, mas a continuidade do atendimento era incerta.
Em uma clínica no norte do Afeganistão, a organização atende uma população de 10 mil pessoas e recebe mais de 100 pacientes por dia. Algumas pessoas caminham de duas a três horas para chegar ao atendimento. A viagem até o hospital da cidade pode custar cerca de US$ 60, enquanto ir a pé pode levar sete horas.
Marva, enfermeira nutricionista da clínica cujo nome foi alterado para proteger sua identidade, descreveu a dificuldade de acesso:
Antes da criação desta clínica, as pessoas precisavam viajar até a clínica distrital, o que podia levar várias horas de burro ou motocicleta, ou até o hospital da cidade, que muitas vezes era quase inacessível.
A Save the Children afirmou que atua diretamente em nove províncias e com parceiros em outras 11. Em 2025, alcançou mais de dois milhões de pessoas e tratou com sucesso quase 5.000 crianças com desnutrição aguda grave. Os números de suas clínicas ilustram as consequências locais do fechamento de serviços, mas não representam uma medida nacional do acesso ao tratamento.
Como a crise se desenvolveu e o que vem pela frente
As pressões atuais refletem várias mudanças simultâneas, incluindo a redução da ajuda, o aumento das admissões e os deslocamentos populacionais. A Save the Children informa que a ajuda humanitária caiu de US$ 3,27 bilhões em 2022 para US$ 1 bilhão em 2025, uma redução de aproximadamente 69%. A organização também afirma que mais de seis milhões de pessoas retornaram do Irã e do Paquistão, aumentando a demanda por serviços.
- 2025: Cortes de financiamento fecharam mais de 300 postos de atendimento nutricional, enquanto as admissões mensais por desnutrição aguda aumentaram 13% em comparação com 2024.
- Abril a setembro de 2026: As projeções de insegurança alimentar colocaram 13,8 milhões de pessoas na Fase 3 ou superior da IPC, incluindo 2,9 milhões na Fase 4.
- Até julho de 2026: As admissões por desnutrição aguda grave e complicações médicas estavam cerca de um terço acima do período correspondente de 2025.
- Agosto de 2026: O UNICEF e seus parceiros avaliaram 1,3 milhão de crianças e registraram 111.099 admissões para tratamento.
- 26 de agosto de 2026: O financiamento da resposta humanitária de US$ 1,71 bilhão estava em US$ 509,3 milhões.
O plano de 2026 usa dados de vigilância de 451 postos nas 34 províncias, onde mais de 18.700 crianças menores de cinco anos são medidas a cada trimestre. O plano concentra o tratamento nas áreas com as condições nutricionais mais graves e o combina com assistência alimentar, serviços de água, imunização e apoio à alimentação materna e infantil.
A questão imediata ainda sem resposta é se será possível garantir recursos e alimentos especializados suficientes para manter os serviços durante o restante de 2026. Não há data prevista para eliminar essas lacunas. Os totais de agosto também não mostram quantas crianças admitidas concluíram o tratamento ou se recuperaram.
Organizações de ajuda pedem apoio urgente de doadores antes que mais serviços sejam fechados. A tensão central já pode ser medida: as admissões estão aumentando, os bebês representam uma grande parcela dos casos com complicações, e a resposta opera com lacunas significativas tanto de financiamento quanto de insumos para tratamento.
Principais pontos
- O UNICEF e seus parceiros registraram 111.099 admissões para tratamento em agosto, após avaliar 1,3 milhão de crianças.
- As categorias listadas de tratamento para casos graves e moderados somam 101.806, deixando uma diferença não explicada de 9.293.
- Crianças menores de dois anos representavam cerca de 83% dos casos de desnutrição aguda grave.
- Até julho, as admissões por desnutrição grave e complicações médicas haviam aumentado cerca de um terço em relação ao mesmo período de 2025.
- Em agosto, o UNICEF apoiou serviços de saúde para 6,6 milhões de pessoas nas 34 províncias.
- As necessidades de alimento terapêutico enfrentavam uma falta de 17%, enquanto os estoques de alimento suplementar tinham uma lacuna de 65% para o restante de 2026.
- Apenas 29,7% do apelo humanitário de US$ 1,71 bilhão da ONU havia sido financiado até 26 de agosto.






