Ordem do Talibã suspende transplantes gratuitos de córnea e deixa pacientes afegãos à espera de recuperar a visão

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Taliban Order Halts Free Corneal Transplants, Leaving Afghan Patients Waiting for Sight

Mais de 150 cirurgias, até a suspensão

Um programa beneficente que possibilitou mais de 150 transplantes de córnea no Afeganistão foi suspenso depois que médicos receberam uma ordem verbal do Talibã para interromper os procedimentos. Hospitais em Cabul e Jalalabad suspenderam os tratamentos, deixando pacientes com lesões causadas por explosões e acidentes de trabalho à espera de uma cirurgia que poderia recuperar a visão.

Conteúdo
  1. Mais de 150 cirurgias, até a suspensão
  2. O que os hospitais foram instruídos a fazer
  3. Como o transplante de córnea pode recuperar a visão
  4. Um programa baseado em doações de tecido e treinamento
  5. Pacientes já tinham planos de cirurgia
  6. A lei sobre o comércio de órgãos e a questão das doações
  7. Decisão islâmica permite transplantes sob determinadas condições
  8. Buscar atendimento do outro lado da fronteira também é difícil
  9. Principais pontos

No Hospital Oftalmológico Noor, em Cabul, o Dr. Noor Zaman Hashim, chefe da equipe de transplantes, disse que os médicos haviam realizado 90 cirurgias nos meses anteriores à suspensão. A lista de espera do hospital estava aumentando, e a maioria dos pacientes que buscavam tratamento eram jovens com lesões provocadas por explosões, traumas físicos e acidentes com solda.

O programa usava córneas doadas e oferecia tratamento gratuito. A suspensão interrompeu tanto o acesso aos tecidos doados quanto os esforços para ampliar a capacidade do Afeganistão de realizar as cirurgias: três oftalmologistas afegãos haviam recebido treinamento em Peshawar, no Paquistão.

Os médicos disseram que a ordem se baseava em objeções religiosas aos transplantes. Uma lei do Talibã proíbe a compra e a venda de órgãos humanos, enquanto a instituição beneficente afirma que suas córneas eram obtidas por meio de doações voluntárias. A questão central para os pacientes é se as autoridades permitirão o uso de tecidos doados em tratamentos médicos.

O que os hospitais foram instruídos a fazer

Hashim relatou que a instrução foi transmitida verbalmente e teve consequências graves o bastante para impedir a equipe de continuar. O programa do Hospital Oftalmológico de Jalalabad, no leste do Afeganistão, também foi encerrado após uma determinação do Talibã.

Hashim, chefe da equipe de transplantes do Hospital Oftalmológico Noor, explicou por que os médicos acataram a ordem:

"Ninguém tem coragem de desafiar as ordens deles, pelo risco de sofrer punições severas", disse.

Não foram esclarecidos quem foi o funcionário que autorizou a suspensão, qual é exatamente sua base escrita, se tecidos doados estão abrangidos pela proibição do comércio de órgãos nem quando as cirurgias poderão ser retomadas. Para os pacientes já inscritos, o resultado imediato é uma espera por tempo indeterminado.

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Como o transplante de córnea pode recuperar a visão

A córnea é a camada transparente na parte frontal do olho. A luz passa por ela antes de alcançar as estruturas internas que permitem a visão. Quando uma lesão ou doença deixa a córnea muito cicatrizada ou danificada, a luz não consegue mais atravessá-la adequadamente, e a visão pode ficar bastante comprometida.

Um transplante de córnea substitui o tecido danificado por tecido doado. A cirurgia trata a córnea, sem substituir o olho inteiro. A possibilidade de recuperar a visão de cada paciente depende também das condições das demais estruturas do olho, além dos danos na superfície frontal.

No Afeganistão, os médicos descreveram uma grande demanda entre pessoas feridas em explosões, acidentes e décadas de conflitos. Lesões causadas por solda estavam entre os casos na lista de espera do Hospital Oftalmológico Noor, mostrando que a demanda também vem de pessoas feridas durante o trabalho.

Hashim disse que o hospital já enfrentava escassez de especialistas e de tecido antes da chegada da ordem:

"Décadas de violência devastaram a infraestrutura de saúde do Afeganistão. Não temos oftalmologistas suficientes nem córneas disponíveis no país para atender à demanda por transplantes", disse.

Para os pacientes, o programa beneficente reunia recursos difíceis de obter localmente: córneas doadas, cirurgiões capacitados e tratamento gratuito. A suspensão interrompe esse caminho para o atendimento, mesmo nos hospitais que têm profissionais aptos a realizar o procedimento.

Um programa baseado em doações de tecido e treinamento

A Associação de Médicos de Ascendência Paquistanesa da América do Norte (APPNA), uma organização beneficente sediada nos Estados Unidos, apoiou a expansão do programa para o Afeganistão. Desde 2017, seu programa de córneas fornece gratuitamente tecidos para transplantes no Paquistão.

O Dr. Fawad Zaffar, que coordena o programa de córneas da APPNA e dirige a Fundação Zaffar Meer, nos Estados Unidos, disse que cerca de 10 mil pessoas haviam sido beneficiadas pelo programa no Paquistão. Mais de 150 cirurgias foram realizadas após a expansão para o Afeganistão.

Zaffar contou que o trabalho no Afeganistão havia começado recentemente:

"Há cerca de quatro meses, expandimos o programa para o Afeganistão, onde centenas de pessoas precisavam de transplantes de córnea. No entanto, as determinações do Talibã prejudicaram gravemente o programa", disse.

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Três oftalmologistas afegãos receberam treinamento em Peshawar para realizar os procedimentos. A capacitação preparou médicos locais para usar tecidos doados no Afeganistão, sem que cada paciente precisasse buscar cirurgia no exterior.

Os cerca de 10 mil beneficiários do programa no Paquistão refletem um trabalho iniciado em 2017; as mais de 150 cirurgias no Afeganistão foram realizadas em um período inicial muito mais curto. Os números mostram os diferentes estágios dos dois programas: um serviço consolidado no Paquistão e outro recém-expandido no Afeganistão, que foi interrompido em poucos meses.

Pacientes já tinham planos de cirurgia

Salamat Khan, vendedor de caldo de cana em Cabul, perdeu a visão em uma explosão de botijão de gás em 2023. Ele soube do programa de transplantes gratuitos por meio de uma pessoa que havia sido beneficiada e procurou o hospital na esperança de também receber tratamento.

Khan disse que os médicos haviam programado uma cirurgia para setembro, antes de ele saber que o programa havia sido interrompido em agosto. Ele contou como recebeu a notícia do cancelamento:

"Soube do programa gratuito por meio de uma pessoa que havia sido beneficiada e fui ao hospital. Os médicos disseram que fariam a cirurgia em setembro, mas fiquei chocado quando me informaram que o programa tinha sido interrompido em agosto", disse.

Khadija Begum, de 40 anos, sofreu uma lesão ocular em uma explosão em Jalalabad. Ela disse que havia se inscrito no Hospital Oftalmológico de Jalalabad dois meses antes de relatar sua situação e que, no mês seguinte, foi informada de que o programa havia sido encerrado por ordem do Talibã, com base em ensinamentos islâmicos.

Os dois pacientes já haviam passado da etapa de procurar ajuda: estavam inscritos nos hospitais, e Khan já tinha recebido a previsão de que faria a cirurgia em determinado mês. O encerramento interrompeu um tratamento concreto que eles esperavam receber.

As principais etapas relatadas pelos pacientes e pelos organizadores do programa foram:

  • 2017: a APPNA começou a fornecer córneas gratuitamente para transplantes no Paquistão.
  • 2023: Khan perdeu a visão em uma explosão de botijão de gás.
  • Cerca de quatro meses antes do relato de Zaffar: a APPNA expandiu o programa para o Afeganistão.
  • Agosto, segundo o relato de Khan: o programa afegão foi interrompido.
  • Setembro, segundo o relato de Khan: a cirurgia que estava prevista para ele não pôde ser realizada.
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A lei sobre o comércio de órgãos e a questão das doações

O artigo 18, cláusula 7, da Lei de Promoção da Virtude do Talibã proíbe a compra e a venda de órgãos humanos. A norma cita rins, fígados e olhos, além de cabelos. O Ministério da Promoção da Virtude e Prevenção do Vício já havia anunciado restrições a esse tipo de comércio.

Transações comerciais de órgãos e doações voluntárias envolvem situações diferentes. Em uma venda, alguém recebe pagamento por um órgão ou tecido. No programa afegão de córneas, segundo os organizadores, os tecidos eram doados e os pacientes recebiam tratamento gratuito.

Entre os motivos para a proibição do comércio estão relatos de pessoas pobres que venderam rins por quantias pequenas e, depois, tiveram problemas de saúde ou ficaram com deficiências físicas. A venda de rins havia se tornado motivo de preocupação em Herat, onde um hospital privado realizava transplantes. Também foi noticiado que os transplantes de rins foram suspensos em decorrência da lei.

O apelo da APPNA diz respeito à autorização para continuar um programa abastecido por doações. Para os pacientes, a questão prática é se os hospitais poderão retomar as cirurgias enquanto a proibição da venda de órgãos permanecer em vigor.

Decisão islâmica permite transplantes sob determinadas condições

A Academia Internacional de Jurisprudência Islâmica tratou do transplante de órgãos na Resolução nº 26, aprovada em sua quarta sessão, em Jidá, na Arábia Saudita, realizada de 6 a 11 de fevereiro de 1988. A resolução inclui expressamente tecidos, células, sangue e a córnea em sua discussão sobre órgãos humanos.

A decisão da academia permite determinados transplantes sob condições específicas e reconhece a preservação da visão como uma função corporal básica relevante para o tratamento. Também proíbe a compra e a venda de órgãos humanos.

De acordo com a sexta cláusula, um órgão pode ser transferido de uma pessoa falecida quando a vida de um receptor ou uma função corporal essencial depender dele, desde que o doador tenha consentido antes da morte ou que os herdeiros autorizem a doação depois. Quando a pessoa falecida não é identificada ou não tem herdeiros, a resolução exige autorização da autoridade muçulmana.

Outra cláusula permite usar a córnea de um olho removido por causa de uma doença para transplantá-la em outra pessoa. A resolução proíbe retirar as duas córneas de um doador vivo, pois isso destruiria a visão dessa pessoa.

A academia deixou algumas questões para análise posterior, incluindo casos em que a doação prejudicaria parcialmente uma função essencial do doador vivo. Sua orientação combina a autorização de determinados usos médicos com exigências de consentimento, proteção dos doadores e proibição da venda de órgãos.

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Buscar atendimento do outro lado da fronteira também é difícil

O Paquistão foi fundamental para o programa afegão: seus hospitais receberam o treinamento de três oftalmologistas afegãos, e o trabalho já realizado pela APPNA no país serviu de base para a expansão. Para os pacientes afegãos, porém, chegar ao tratamento no Paquistão também era difícil, devido ao fechamento da fronteira terrestre entre os dois países, segundo relatos.

O fechamento da fronteira limitou uma alternativa justamente quando hospitais no país suspendiam as cirurgias. Pacientes que poderiam considerar viajar por estrada enfrentaram mais um obstáculo para obter atendimento especializado.

A APPNA pediu ao Talibã que permita a retomada dos transplantes de córnea. Os médicos dizem que centenas de pessoas precisam do procedimento, enquanto os relatos dos hospitais apontam para uma lista de espera crescente. O programa já havia reunido tecidos doados e cirurgiões recém-capacitados; agora, a autorização para operar é o obstáculo imediato para quem está inscrito para receber tratamento.

Principais pontos

  • Uma ordem verbal do Talibã interrompeu os programas de transplante de córnea em Cabul e Jalalabad.
  • A APPNA apoiou mais de 150 cirurgias no Afeganistão, incluindo 90 realizadas pela equipe de transplantes do Hospital Oftalmológico Noor.
  • O programa usava córneas doadas e oferecia tratamento gratuito.
  • Três oftalmologistas afegãos receberam treinamento em Peshawar.
  • Pacientes como Salamat Khan e Khadija Begum continuam à espera após a interrupção dos planos de tratamento.
  • A proibição do comércio de órgãos pelo Talibã e o uso de tecidos doados voluntariamente estão no centro da controvérsia.
  • A APPNA pediu a retomada das cirurgias, mas nenhuma data foi anunciada.
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