Plataformas terão um dia para remover conteúdo
Bangladesh está preparando uma Lei de Redes Sociais e Intermediários Digitais de 2026, que exigiria que as plataformas removessem conteúdo em até 24 horas após receberem uma notificação do governo declarando-o ilegal. Para materiais envolvendo abuso sexual infantil ou pornografia com deepfake, o prazo proposto seria de 12 horas após uma denúncia ou notificação.
Conteúdo
- Plataformas terão um dia para remover conteúdo
- Três iniciativas legislativas, poderes diferentes
- O que poderia levar a uma ordem de remoção?
- Por que as plataformas podem remover mais publicações
- Escritórios locais e canais para reclamações
- Justificativas, moderação em bengali e rótulos de IA
- Um projeto separado prevê prisão e multas elevadas
- Alertas do setor e resposta do órgão regulador
- Ministro do Interior defende ação mais rápida
- Por que o modelo indiano é relevante
- Pontos principais
Plataformas com pelo menos 1 milhão de usuários ativos mensais registrados em Bangladesh teriam obrigações adicionais, incluindo um escritório local, funcionários responsáveis por conformidade e contato permanente com as forças de segurança. A proteção contra responsabilidade legal por materiais publicados por usuários dependeria do cumprimento das exigências da lei.
A proposta combina medidas contra exploração sexual, falsidade ideológica e assédio on-line com poderes para restringir manifestações relacionadas à segurança nacional, à ordem pública e às relações com países estrangeiros. A principal controvérsia é quem decide quando uma publicação ultrapassa esses limites e como os usuários podem contestar essa decisão.
A pesquisadora da Anistia Internacional Rihab Mahamur e a diretora do Tech Global Institute Bangladesh, Fouzia Afroze, manifestaram preocupação com a linguagem vaga, a concentração de poderes no Executivo e a falta de um processo claro de revisão independente antes da remoção. O projeto também promete explicar aos usuários por que o conteúdo foi removido, oferecer moderação em bengali e criar um sistema de recurso contra decisões das plataformas.
Três iniciativas legislativas, poderes diferentes
O projeto de lei sobre redes sociais está sendo elaborado sob a liderança do Ministério da Informação e Radiodifusão. Alguns funcionários da Divisão de Tecnologia da Informação e Comunicação, segundo relatos, desconheciam a iniciativa, o que aponta para falhas de coordenação entre órgãos do governo cujas atribuições seriam afetadas pelo novo sistema.
Bangladesh também deu andamento a emendas à legislação de telecomunicações e a uma revisão da lei de segurança cibernética. Cada iniciativa trata de conteúdo on-line, mas suas disposições pertencem a propostas diferentes:
- 28 de julho de 2025: O Ministério dos Correios e Telecomunicações instruiu a Comissão Reguladora de Telecomunicações de Bangladesh, ou BTRC, a preparar emendas à Lei de Telecomunicações de 2001.
- 12 de agosto de 2025: A BTRC apresentou as emendas propostas, incluindo uma nova seção 66-ka sobre conteúdo e responsabilidade de intermediários.
- Proposta de 2026: A Lei de Redes Sociais e Intermediários Digitais introduziria obrigações para as plataformas, prazos de remoção, representação local e proteção jurídica condicionada.
- Anúncio separado no Parlamento: O ministro do Interior, Salahuddin Ahmed, disse que as revisões seriam apresentadas como Lei de Segurança Cibernética de 2026, com a exigência de remoção em 24 horas em análise.
As penas de prisão e multas descritas na proposta de telecomunicações, portanto, pertencem àquele projeto. A proposta sobre redes sociais se concentra em um marco operacional mais amplo para as plataformas, enquanto o anúncio do ministro do Interior diz respeito a mudanças na legislação de segurança cibernética.
O que poderia levar a uma ordem de remoção?
O projeto sobre redes sociais permitiria emitir instruções para remover conteúdo considerado uma ameaça à integridade, à defesa, à segurança ou à soberania de Bangladesh, às relações amistosas com países estrangeiros ou à ordem pública. Conteúdo que viole leis em vigor, tenha sido proibido por um tribunal ou possa incitar conflitos étnicos também estaria abrangido.
As plataformas teriam de tomar medidas razoáveis contra violações de direitos autorais, falsidade ideológica, material envolvendo abuso sexual infantil e compartilhamento de imagens íntimas por vingança. Pornografia com deepfake envolve imagens ou vídeos sexuais falsificados, criados com tecnologia para fazer parecer que uma pessoa participa de algo que não fez.
Cinco órgãos executivos ou instituições governamentais, além dos tribunais, teriam poderes para emitir instruções de remoção. A estrutura proposta inclui ministérios e divisões, a autoridade de segurança cibernética e a BTRC. Uma plataforma que recebesse uma notificação comum teria 24 horas para agir; o prazo menor, de 12 horas, valeria para materiais específicos de abuso sexual.
O projeto também prevê exceções para sátiras que não sejam obscenas, críticas políticas construtivas, dissidência e análises fundamentadas de políticas públicas. A preocupação de Mahamur é que termos como construtivas e fundamentadas deixem às autoridades ampla margem para decidir quais críticas serão protegidas.
Para alguém que publica sobre políticas governamentais, a questão prática é se os funcionários aplicarão um critério jurídico específico ou farão uma avaliação ampla do tom e do objetivo da crítica. Afroze alertou que concentrar os poderes de remoção em órgãos executivos, sem supervisão independente clara, pode deixar as pessoas com poucos recursos efetivos.
Por que as plataformas podem remover mais publicações
Os serviços de redes sociais hospedam enormes quantidades de material escrito ou enviado por usuários. Em geral, a proteção jurídica de intermediários significa que uma plataforma pode veicular esse material sem assumir automaticamente a mesma responsabilidade de quem o criou, desde que cumpra obrigações específicas.
O projeto de Bangladesh condicionaria essa proteção ao cumprimento de exigências. Uma plataforma poderia perdê-la caso deixasse de cumprir as obrigações, inclusive a de remover conteúdo ilegal após uma notificação oficial. Assim, as decisões sobre conformidade afetariam tanto a exposição da empresa a riscos jurídicos quanto a visibilidade da publicação de um usuário.
Mahamur também manifestou preocupação com a exigência de que as plataformas ajam quando tiverem conhecimento efetivo, por conta própria, de conteúdo relacionado a atividades ilegais. Se essa relação com atividades ilegais for definida de forma vaga, as empresas podem concluir que remover material controverso é a opção menos arriscada.
Um prazo contado em horas deixa pouco tempo para analisar linguagem, contexto, sátira ou a veracidade de uma acusação. Os incentivos podem, portanto, ir além dos materiais que as autoridades determinarem especificamente que sejam removidos, levando as plataformas a agir com mais cautela diante de publicações politicamente sensíveis. Essa preocupação se soma ao objetivo do projeto de garantir respostas mais rápidas para quem sofre abusos.
Escritórios locais e canais para reclamações
Um serviço com pelo menos 1 milhão de usuários ativos mensais registrados em Bangladesh seria considerado uma plataforma de grande porte pelo projeto. Esses serviços precisariam ter um escritório de ligação no país e designar três responsáveis: um diretor de conformidade, um oficial de contato para as forças de segurança e um responsável local pelo atendimento a reclamações.
O diretor de conformidade supervisionaria as obrigações legais. O oficial de contato com as forças de segurança serviria como canal de comunicação oficial, enquanto o responsável por reclamações receberia e resolveria as queixas dos usuários. As plataformas também precisariam manter funcionários disponíveis para comunicação permanente com as forças de segurança e para executar as determinações do governo.
Usuários insatisfeitos com a decisão da plataforma sobre uma reclamação poderiam recorrer a um Comitê de Apelação de Reclamações formado pelo governo. Também poderiam recorrer ao comitê se a plataforma não resolvesse a queixa dentro do prazo exigido. Para quem tentasse remover conteúdo de falsidade ideológica ou imagens abusivas, isso criaria uma alternativa adicional ao processo interno da empresa.
O sistema proposto combina decisões privadas das plataformas com supervisão governamental. As preocupações de Afroze quanto à supervisão independente também se aplicam aqui: para que haja uma revisão significativa de decisões contestadas, o órgão de recurso precisa ter independência suficiente e oferecer soluções efetivas.
Justificativas, moderação em bengali e rótulos de IA
As plataformas teriam de informar aos usuários por que seu conteúdo foi removido. A proposta também prevê moderação em bengali, incluindo a análise no idioma local entre as exigências de conformidade. Compreender a língua e o contexto é importante para decidir se uma publicação contém uma ameaça, uma piada, uma crítica política ou uma acusação contra uma figura pública.
Conteúdos gerados com inteligência artificial precisariam ser identificados. Esses rótulos podem informar aos espectadores que uma imagem, um vídeo ou uma gravação de áudio foi criado ou alterado por um programa, uma distinção importante quando um material fabricado se parece com uma pessoa real falando ou agindo.
O projeto ainda está incompleto. Não estão resolvidos ou claros os detalhes sobre como identificar materiais gerados por IA, atribuir a responsabilidade pelos rótulos, lidar com rótulos removidos, garantir a independência dos recursos e divulgar ordens governamentais de remoção. Não foi informada nenhuma data de promulgação nem a próxima audiência legislativa prevista.
As proteções aos usuários e os poderes de fiscalização funcionariam em conjunto. Uma justificativa apresentada após a remoção pode ajudar alguém a contestar uma decisão, enquanto uma revisão independente antes da remoção tem outra finalidade: verificar se a medida é justificada antes que a publicação desapareça. Afroze afirmou que o projeto não prevê um mecanismo claro para essa revisão independente prévia.
Um projeto separado prevê prisão e multas elevadas
A proposta de emenda à legislação de telecomunicações apresentada pela BTRC em 2025 criaria a seção 66-ka, que abrange mensagens ou conteúdos considerados antipatrióticos, sediciosos ou capazes de incitar ódio, divisão, tumulto ou medo. Também abrangeria conteúdos prejudiciais à soberania, à defesa, às relações exteriores, à segurança pública, à ordem pública, ao Estado de Direito ou aos interesses econômicos.
A pena máxima proposta é de cinco anos de prisão, multa de 300 crore de takas, ou ambas. 300 crore de takas equivalem a 3 bilhões de takas. A cláusula estenderia a responsabilidade a intermediários que pratiquem ou ajudem a praticar a conduta proibida e imporia a mesma pena máxima a quem não cumprisse imediatamente as instruções de remoção ou bloqueio.
A BTRC poderia determinar que uma operadora de telecomunicações ou um intermediário bloqueasse ou removesse conteúdo mediante instruções escritas do governo, sem apresentar uma justificativa. A autoridade governamental competente poderia ser o Ministério do Interior, o Ministério da Defesa ou outro ministério, dependendo do assunto.
A seção proposta tornaria os crimes inafiançáveis, ou seja, a liberdade dependeria de decisão judicial, em vez de ser um direito. Abu Nazam M Tanveer Hossain, diretor da consultoria Stratagem e especialista em políticas de telecomunicações, pediu definições precisas, exemplos e supervisão judicial obrigatória antes da aplicação de punições.
Hossain afirmou que a cláusula poderia recriar problemas associados à antiga Lei de Segurança Digital:
corre o risco de reavivar o fantasma da Lei de Segurança Digital
Ele também argumentou que a penalidade financeira proposta era excessiva e deveria ser proporcional ao dano causado.
Alertas do setor e resposta do órgão regulador
Shahed Alam, diretor de assuntos corporativos e regulatórios da operadora móvel Robi Axiata, pediu a retirada do projeto de telecomunicações. Ele alertou que o crime inafiançável proposto, as multas elevadas e os poderes que afetam os serviços digitais poderiam restringir a liberdade de expressão, desestimular investimentos e frear a inovação.
A objeção de Alam também envolvia a possibilidade de agir sem justificativa prévia. Ele afirmou:
A autoridade pode impor essas medidas sem justificativa prévia.
Alam pediu ao governo que usasse novamente a Lei de Telecomunicações de Bangladesh de 2001 como base para as emendas e adotasse um processo transparente, com participação dos grupos afetados. Suas preocupações dizem respeito tanto ao ambiente de negócios quanto à liberdade de expressão individual: as empresas que avaliam investir precisam considerar as penalidades e obrigações associadas à operação no país.
O presidente da BTRC, major-general reformado Md Emdad Ul Bari, defendeu a proposta, afirmando que as multas mantinham disposições legais anteriores. Segundo ele, o alcance da lei estava sendo ampliado, passando de crimes envolvendo redes de telecomunicações para as redes sociais, à medida que a tecnologia evoluía.
Bari também disse que o texto ainda poderia ser revisado:
Este é apenas um projeto, e ainda passará por mais análises. Ele poderá ser alterado se o governo e as partes interessadas o considerarem desnecessário.
Ministro do Interior defende ação mais rápida
O ministro do Interior, Salahuddin Ahmed, disse separadamente ao Parlamento que o governo está revisando a legislação de segurança cibernética para tratar de boatos, desinformação, difamação e imagens, vídeos e áudios enganosos criados com inteligência artificial. Ele afirmou que serão introduzidas novas definições e disposições punitivas.
As declarações foram feitas após um aviso urgente de interesse público apresentado pela parlamentar Helen Zerin Khan, que mencionou identidades falsas, redes coordenadas de robôs, assédio a mulheres e crianças e campanhas organizadas de desinformação contra figuras políticas. Redes de robôs são grupos de contas automatizadas que podem fazer uma mensagem parecer mais popular ou ter mais apoio do que realmente tem.
Ahmed disse que a lei em vigor não tinha disposições que obrigassem plataformas internacionais, como a Meta, controladora do Facebook, a remover conteúdo em um prazo determinado. Ele afirmou que o marco revisado permitiria às forças de segurança, à autoridade de segurança cibernética, à BTRC e a outros órgãos autorizados remover, bloquear ou restringir conteúdo.
O ministro descreveu da seguinte forma a legislação planejada:
A lei será publicada como Lei de Segurança Cibernética de 2026. Algumas disposições serão alteradas.
O anúncio coloca respostas mais rápidas das plataformas no centro de outra iniciativa legislativa. O impacto para os usuários dependerá das definições finais de conteúdo proibido, de quais autoridades poderão emitir instruções e dos procedimentos disponíveis para contestá-las.
Por que o modelo indiano é relevante
A estrutura proposta por Bangladesh para as redes sociais se assemelha às Regras de Tecnologia da Informação (Diretrizes para Intermediários e Código de Ética para Mídia Digital) de 2021 da Índia. Os dois marcos regulatórios usam funcionários locais responsáveis por conformidade, canais para reclamações e obrigações de cumprir instruções oficiais como instrumentos para regular grandes plataformas de tecnologia.
A comparação ajuda a explicar a escolha do modelo. Em vez de lidar apenas com publicações ou infratores individuais, Bangladesh exigiria que as plataformas mantivessem uma presença administrativa permanente: funcionários locais, procedimentos para reclamações e canais pelos quais o governo possa exigir providências.
Para vítimas de falsidade ideológica, assédio ou exploração sexual, respostas mais rápidas e equipes acessíveis para receber reclamações poderiam fazer uma diferença concreta. Para jornalistas, ativistas de campanha política e usuários comuns que discutem assuntos públicos, a amplitude dos poderes de remoção e o acesso a uma revisão independente determinariam o quanto poderiam publicar material controverso com segurança.
As propostas de Bangladesh, portanto, reúnem duas questões em um único sistema regulatório: com que rapidez as plataformas devem responder a abusos e como o Estado deve exercer poder sobre o debate público. A redação final das definições, dos mecanismos de revisão e das regras de responsabilidade jurídica determinará como essas obrigações funcionarão na prática.
Pontos principais
- O projeto de Lei de Redes Sociais e Intermediários Digitais de 2026 estabelece um prazo geral de remoção de 24 horas após uma notificação oficial.
- O prazo de 12 horas se aplicaria a materiais específicos envolvendo abuso sexual infantil ou pornografia com deepfake.
- Plataformas com pelo menos 1 milhão de usuários ativos mensais registrados em Bangladesh precisariam ter escritórios locais e responsáveis designados.
- As plataformas poderiam perder a proteção contra responsabilidade por conteúdo de usuários se não cumprissem as obrigações legais.
- Um projeto separado de telecomunicações de 2025 prevê até cinco anos de prisão, multa de 300 crore de takas, ou ambas.
- Especialistas em direitos pedem definições mais claras e revisão independente; os projetos também prometem procedimentos para reclamações e explicações aos usuários.






