Uma celebração da liberdade, com uma exigência de segurança
O presidente Lai Ching-te pediu dignidade, privacidade e tratamento igualitário enquanto Taiwan realizava sua 24ª Parada do Orgulho, em Taipei, em 31 de outubro de 2026, semanas depois de a polícia levar 51 pessoas de um bar gay a uma delegacia. A operação no Commander D colocou a conduta das autoridades públicas no centro das preocupações em um dos maiores eventos LGBTQ+ da Ásia.
Conteúdo
- Uma celebração da liberdade, com uma exigência de segurança
- Lai coloca a escuta no centro da igualdade
- O que aconteceu no Commander D?
- Medidas disciplinares, pedido de desculpas e exigência de regras vinculantes
- Por que a operação reacendeu temores antigos
- A igualdade no casamento mudou vidas, mas a aceitação varia
- Marcha trans pede reconhecimento além das duas categorias
- A visibilidade de Taipei atrai pessoas de diferentes países
- Promessas políticas passam por uma prova concreta
- Principais pontos
A Taiwan Rainbow Civil Action Association estimou o público em mais de 170 mil pessoas, enquanto outras estimativas apontaram cerca de 150 mil. Mais de 180 grupos se inscreveram para o evento, que percorreu dois trajetos a partir da Prefeitura de Taipei antes de retornar ao mesmo local.
Bandeiras do arco-íris, fantasias de Halloween e visitantes internacionais tomaram as ruas sob o tema “Nossas vozes, nossa jornada”. Por trás das comemorações, havia uma reivindicação concreta: que a liberdade de se casar, conquistada em 2019, fosse acompanhada por um tratamento respeitoso em bares, nas casas das famílias e nos encontros com a polícia.
Em uma publicação no Facebook antes da parada, Lai afirmou que o governo deve proteger a dignidade de todos, independentemente de gênero, orientação sexual ou identidade de gênero. Ele relacionou essa responsabilidade diretamente à aplicação da lei, dizendo que os agentes públicos devem cumprir a legislação, respeitar a privacidade e garantir que ninguém se sinta assustado ou perseguido por ser quem é.
Lai coloca a escuta no centro da igualdade
Lai disse que a liberdade exige tanto a oportunidade de falar quanto a disposição de ouvir as experiências de outras pessoas. Ele reconheceu o preconceito e o assédio enfrentados por muitas pessoas LGBTQ+ ao crescerem e manifestou preocupação de que a recente controvérsia sobre a atuação policial prejudique o entendimento construído ao longo de anos de mobilização.
O presidente recordou a campanha que garantiu a igualdade no casamento e afirmou que o trabalho precisa continuar no cotidiano.
Há sete anos, Taiwan se tornou o primeiro lugar da Ásia a legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, resultado de anos de mobilização que garantiram a casais apaixonados o direito de se casar e formar uma família.
Lai afirmou que o governo tem o dever de proteger a igualdade de oportunidades e a liberdade das pessoas para buscar a felicidade. Sua mensagem colocou o tratamento dispensado por agentes públicos a cada indivíduo ao lado do reconhecimento legal de seus relacionamentos.
Charlie Wu, porta-voz da Taiwan Rainbow Civil Action Association, explicou que o tema da parada é um convite a aprender ouvindo pessoas com diferentes experiências de vida. Os organizadores também relacionaram essa mensagem à polarização política e à oposição internacional a políticas de diversidade, equidade e inclusão, que buscam tornar as instituições mais acessíveis e justas.
O que aconteceu no Commander D?
A polícia fez uma busca no Commander D, um bar gay de BDSM no bairro de Ximending, em Taipei, em 3 de outubro. BDSM se refere a práticas consensuais que envolvem bondage, disciplina, dominação, submissão ou dor controlada. Os agentes levaram 51 pessoas a uma delegacia para prestar depoimento; um relato em chinês também mencionou o número de 58.
Os clientes foram liberados posteriormente. A pessoa responsável pelo estabelecimento foi encaminhada ao Ministério Público por suspeita de atentado ao pudor em público. O comissário de polícia Lin Yen-tien afirmou que os agentes agiram legalmente, com base em um mandado expedido por um tribunal após denúncias de suspeita de infrações contra a moral pública.
Dez organizações LGBTQIA+ e de igualdade de gênero contestaram a forma como a busca foi conduzida. Em uma declaração conjunta, elas disseram que testemunhas relataram que os agentes ordenaram que os clientes se agachassem, impediram que conversassem ou usassem os celulares e se recusaram a mostrar o mandado de busca às pessoas revistadas.
As organizações também denunciaram tratamento degradante a pessoas com deficiência. Um vídeo que circulou na internet mostra um agente fazendo uma pergunta invasiva a um cliente que usa cadeira de rodas sobre como pessoas com deficiência fazem sexo. Testemunhas denunciaram uso excessivo da força e outras violações de procedimentos.
As denúncias se concentraram no que aconteceu com as pessoas durante a operação: como os agentes falaram com elas, restringiram seus movimentos e lidaram com sua privacidade. Para clientes que não haviam revelado sua sexualidade a parentes ou empregadores, a exposição de sua presença em um estabelecimento gay também poderia trazer consequências pessoais.
Medidas disciplinares, pedido de desculpas e exigência de regras vinculantes
A polícia de Taipei aplicou medidas disciplinares a seis agentes após analisar sua conduta. Quatro receberam advertências por linguagem inadequada. O investigador responsável pela operação e o chefe da delegacia foram punidos por não intervir ou supervisionar a ação.
O prefeito Chiang Wan-an pediu desculpas às pessoas afetadas. A cidade prometeu novas diretrizes e mais treinamentos sobre diversidade e consciência cultural, além de afirmar que as regras seriam elaboradas com a participação da comunidade. Segundo a prefeitura, o Ministério Público estava investigando o caso; não foi anunciada uma data para a conclusão nem uma decisão final da promotoria.
Chiang foi recebido por gritos de “não invadam bares gays” quando chegou perto do fim da Parada do Orgulho. Ao comentar a controvérsia, o prefeito prometeu uma investigação e medidas disciplinares.
Como já disse antes, peço desculpas pelo impacto causado às pessoas afetadas", afirmou Chiang. "Vamos realizar uma investigação rigorosa sobre o caso e aplicar medidas disciplinares imediatas.
Tai Yu-hsun, também conhecido como Simon Tai, presidente da Taiwan Rainbow Civil Action Association, pediu uma investigação transparente e diretrizes policiais vinculantes. A diferença é importante na prática: o treinamento ensina os agentes a agir, enquanto regras vinculantes estabelecem critérios pelos quais sua conduta pode ser avaliada.
A coalizão de dez organizações pediu uma investigação independente, a preservação dos registros policiais e sua divulgação nos casos permitidos por lei. Também reivindicou regras específicas para a entrada da polícia em espaços LGBTQ+, proteções mais fortes para pessoas marginalizadas nos procedimentos de responsabilização policial e o fim de retratos estigmatizantes de estabelecimentos queer e da sexualidade.
Por que a operação reacendeu temores antigos
Tai afirmou que a busca de 3 de outubro reavivou lembranças da opressão estatal contra espaços LGBTQ+. A preocupação já havia aumentado depois que uma sauna gay fechou em abril, após operações e inspeções policiais.
O debate também remeteu a uma operação policial realizada em 2004 em uma reunião privada na rua Nong'an, em Taipei, quando cerca de 92 homens gays foram levados pela polícia. Relatos sobre o episódio dizem que os participantes foram submetidos a exames de sangue e que 28 pessoas vivendo com HIV foram encaminhadas por suspeita de transmissão intencional. Os casos foram posteriormente arquivados por falta de provas suficientes.
As críticas atuais se concentraram em diferentes dispositivos legais: o artigo 231 do Código Penal, que trata de lucrar com a organização ou oferta de locais para atos sexuais; o artigo 83 da Lei de Manutenção da Ordem Social, que trata de certas condutas em locais abertos ao público; e as normas de proteção infantil que restringem a entrada de menores em estabelecimentos sexuais. O debate gira em torno de quais normas se aplicavam ao responsável pelo estabelecimento, quais se aplicavam aos clientes e de como a polícia as utilizou.
A sequência de acontecimentos que antecedeu a Parada do Orgulho colocou essas questões ao lado de uma grande celebração pública:
- Abril de 2026: Uma sauna gay fechou após operações e inspeções policiais.
- 3 de outubro: A polícia fez uma busca no Commander D e levou clientes a uma delegacia.
- Após a operação: Houve protestos, seis agentes foram punidos e a prefeitura pediu desculpas.
- 30 de outubro: Cerca de 3.800 pessoas participaram da oitava Marcha Trans de Taiwan.
- 31 de outubro: A Parada do Orgulho de Taiwan reuniu uma grande multidão no centro de Taipei.
- 28 de novembro: Taiwan tem eleições locais previstas.
A igualdade no casamento mudou vidas, mas a aceitação varia
Taiwan legalizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo em 2019, após anos de mobilização, debate público e uma decisão constitucional de 2017 que exigiu proteção legal para o direito de se casar. Nepal e Tailândia reconheceram o casamento entre pessoas do mesmo sexo em 2023 e 2025, respectivamente.
Uma pesquisa citada durante a cobertura da Parada do Orgulho apontou apoio de 54% à igualdade no casamento, em comparação com 42% na época em que ela se tornou lei. Isso representa um aumento de 12 pontos percentuais. Os números indicam uma aceitação crescente, enquanto as experiências dos participantes mostram como essa aceitação pode se desenvolver de formas diferentes dentro de cada família.
Billie Chang, estudante que participou da parada, disse que se assumiu há sete anos e ainda não tem o apoio dos pais.
Meus pais ainda não me apoiam. Eles não querem conversar sobre isso.
Chang disse que os pais aprenderam a não interferir em sua vida pessoal, mas que ela evitava exibir uma bandeira do arco-íris em casa. Na Parada do Orgulho, usou uma sobre os ombros.
Um participante de sobrenome Jian, de 29 anos, relatou uma experiência familiar diferente. Depois de participar da parada por dez anos consecutivos, foi pela primeira vez acompanhado da mãe. Ele disse que queria mostrar a ela o caminho que percorreu e as pessoas que o apoiaram.
Tai, presidente da associação organizadora, afirmou que a igualdade no casamento não acabou com o preconceito cotidiano. Ele pediu que as pessoas se escutem apesar de suas diferenças, em vez de reduzir umas às outras a rótulos, relacionando o tema da parada a experiências como as de Chang e Jian.
Marcha trans pede reconhecimento além das duas categorias
A oitava Marcha Trans de Taiwan ocorreu na noite de sexta-feira, 30 de outubro, e reuniu cerca de 3.800 pessoas. Organizada pela Taiwan Tongzhi Hotline Association, teve como tema “Atravessar fronteiras, caminhar juntos”.
A marcha pediu que as pessoas superem a expectativa rígida de que todos devem se encaixar perfeitamente nos papéis masculino ou feminino. Também buscou promover uma maior compreensão entre pessoas transgênero e a comunidade em geral. Identidade de gênero é a percepção que uma pessoa tem do próprio gênero, que pode ser diferente do sexo registrado quando nasceu.
Um participante da Parada do Orgulho que usa o apelido Jeff disse que pessoas que expressam seu gênero de forma diferente ainda recebem olhares estranhos, especialmente pessoas transgênero e quem usa roupas associadas a outro gênero. Jeff descreveu a parada como um espaço para expressar essa identidade com liberdade.
As marchas realizadas em dias consecutivos deram aos participantes trans tanto um evento próprio quanto um lugar na celebração maior da Parada do Orgulho. Suas reivindicações diziam respeito à visibilidade e ao tratamento no cotidiano, junto aos apelos mais amplos por igualdade e respeito na atuação policial.
A visibilidade de Taipei atrai pessoas de diferentes países
Jonel Malinao, filipino que trabalha em Taiwan, participou de sua primeira Parada do Orgulho em Taipei. Sua experiência refletiu o papel do evento como ponto de encontro tanto para quem vive em Taiwan quanto para visitantes de outras partes da Ásia e de outros lugares.
Estou feliz por participar de uma parada como esta, especialmente aqui em Taipei, Taiwan", disse Malinao. "Esta é minha primeira Parada do Orgulho e uma celebração de quem somos e do que somos.
Romee, participante bissexual, viajou da Holanda com a tia. Ela demonstrou preocupação com o conservadorismo crescente em seu país e disse que esperava aprender com a Parada do Orgulho na Ásia.
O australiano Daniel Witthaus descreveu a emoção de marchar por uma grande cidade internacional. Ele também lembrou ter visto pessoas queer locais de mãos dadas em público durante visitas ao longo de aproximadamente uma década. Seu amigo Andrew Stewart, que mora em Taipei, disse que a visibilidade queer da cidade é um dos motivos que levam pessoas de toda a região a visitá-la.
Witthaus disse que a polícia colaborou durante a parada. Stewart considerou a operação no Commander D fora do padrão, mas também descreveu a pressão sobre estabelecimentos queer à medida que moradores mais ricos se mudam para seus bairros. Essas observações situaram a controvérsia em uma cidade onde a visibilidade pública e as disputas por espaços comunitários coexistem.
A praça da Prefeitura recebeu quase cem barracas de feiras, mais de um terço delas representando organizações não governamentais de Taiwan e de outros países asiáticos. Grupos estudantis, instituições de caridade, empresas e delegações políticas participaram do cortejo, dando aos participantes a oportunidade de conhecer organizações que trabalham com as questões debatidas nas ruas.
Promessas políticas passam por uma prova concreta
A vice-presidente Hsiao Bi-khim liderou a delegação do Partido Democrático Progressista, reafirmando o apoio do governo aos direitos LGBTQ+. O deputado do PPD e candidato à prefeitura de Taipei Puma Shen participou de outra parte da concentração.
Representantes de pelo menos sete partidos políticos participaram do evento. Entre eles estavam a ala jovem do Partido Nacionalista Chinês, o Partido Popular de Taiwan, o Partido Social-Democrata, o Partido do Novo Poder e o Partido da Construção do Estado de Taiwan. Chiang, prefeito de Taipei, é filiado ao Partido Nacionalista Chinês.
A parada coincidiu com um debate eleitoral para a prefeitura de Taipei, e as eleições locais estão previstas para 28 de novembro. Para os participantes preocupados com a atuação policial, a campanha ofereceu uma oportunidade de avaliar os políticos por compromissos específicos: uma investigação transparente, regras aplicáveis e tratamento respeitoso nos espaços comunitários.
A artista drag Hana Booboo relacionou essa responsabilidade à participação democrática. Ao falar sobre votar, fazer escolhas e participar da Parada do Orgulho, a artista disse que essas ações devem mostrar aos servidores públicos “que tipo de vida queremos viver”.
A mensagem de Lai e as reivindicações dos participantes convergiram para a mesma questão prática. A igualdade legal garante aos casais o direito de se casar e formar uma família. A segurança no cotidiano também depende de uma pessoa poder entrar em um espaço comunitário, expressar sua identidade ou lidar com um agente sem passar por humilhação ou medo.
Principais pontos
- O presidente Lai pediu dignidade, privacidade e tratamento igualitário durante a 24ª Parada do Orgulho de Taiwan, em 31 de outubro de 2026.
- A organização estimou a participação em mais de 170 mil pessoas, enquanto outras estimativas apontaram cerca de 150 mil.
- Uma busca no Commander D, em 3 de outubro, levou 51 clientes a uma delegacia e provocou protestos contra a conduta policial.
- Seis agentes foram punidos, o prefeito Chiang pediu desculpas e a prefeitura prometeu diretrizes e treinamentos.
- Organizações de defesa de direitos querem uma investigação independente, acesso aos registros policiais quando permitido por lei e garantias vinculantes para espaços LGBTQ+.
- Cerca de 3.800 pessoas participaram da Marcha Trans de Taiwan na noite anterior.
- As eleições locais estão previstas para 28 de novembro, e a responsabilização policial foi uma das preocupações expressas na Parada do Orgulho.






