Empresas de segurança são investigadas por ligações com complexos de golpes no Camboja
Autoridades cambojanas anunciaram investigações sobre empresas privadas de segurança e militares da ativa após a Anistia Internacional vincular cinco empresas a pelo menos 23 complexos de golpes, onde sobreviventes relataram confinamento, espancamentos, choques elétricos e violência sexual.
Conteúdo
- Empresas de segurança são investigadas por ligações com complexos de golpes no Camboja
- Como a Anistia rastreou os guardas e seus empregadores
- O que os sobreviventes relataram sobre os complexos
- As cinco empresas e suas respostas
- Por que Long Bay continua no centro da investigação
- Da repressão às investigações ampliadas
- O que mostram os números da fiscalização
- Redes de golpes estão se expandindo para além do Camboja
- O desafio é que as investigações alcancem quem fornecia proteção
- Principais pontos
Chhay Sinarith, ministro sênior que chefia a secretaria da Comissão Ad Hoc de Combate a Golpes Baseados em Tecnologia, disse em 1º de novembro que os investigadores examinariam empresas, autoridades e outras pessoas ligadas a grandes operações de golpes. Ele reconheceu que os esforços anteriores se concentraram nos líderes das quadrilhas, deixando sob menor escrutínio quem fornecia segurança e outros tipos de apoio.
O anúncio veio após o relatório da Anistia Internacional de 29 de outubro de 2026, Negócio oficial. A organização associou mais de 20 militares e policiais a empresas de segurança e a pelo menos 22 dos 86 complexos que documentou em todo o Camboja.
Sinarith disse que os investigadores apurariam se empresas privadas de segurança participaram de atividades ilegais ou ajudaram a manter pessoas em cativeiro e a torturá-las. Ele descreveu de forma direta a resposta pretendida pelo governo:
"Devemos tomar medidas legais",
A investigação ampliada volta a atenção para quem controlava os portões dos complexos, mobilizava os guardas e fornecia proteção, além dos acusados de comandar fraudes on-line. Para as pessoas traficadas para esses locais, os guardas muitas vezes determinavam se elas poderiam sair, pedir ajuda ou escapar de punições.
As autoridades informaram que 529 casos envolvendo golpes e 5.778 pessoas estavam nos tribunais cambojanos. Entre os suspeitos havia cidadãos da China, do Japão, da Índia e do Vietnã. Sinarith também disse que os investigadores identificaram 97 redes criminosas no Camboja e cerca de outras 100 em operação no exterior.
Como a Anistia rastreou os guardas e seus empregadores
A investigação da Anistia combinou depoimentos de sobreviventes com registros empresariais, visitas a complexos e materiais publicados on-line pelos próprios guardas. Entre janeiro de 2023 e setembro de 2026, pesquisadores entrevistaram 151 sobreviventes e analisaram registros relativos a mais de 400 outras vítimas.
Os pesquisadores identificaram 86 complexos e visitaram 82. Encontraram guardas de segurança em todos eles. A investigação também analisou mais de 25 mil vídeos e fotografias publicados por guardas, além de imagens de satélite e registros empresariais.
A Anistia encontrou vídeos publicados em contas de TikTok de mais de 200 guardas em 23 complexos. Esse processo, chamado geolocalização, consiste em comparar detalhes visíveis em uma imagem, como edifícios, estradas ou pontos de referência, com um local real. Os pesquisadores também analisaram uniformes, insígnias, números de identificação e cronologias de publicações nas redes sociais para determinar quando aparentes militares e policiais estavam presentes.
Em três complexos, a Anistia identificou aparentes militares da ativa treinando, liderando ou supervisionando guardas. Em outros locais, aparentes agentes do Estado portavam armas de fogo ou ocupavam postos de vigilância.
Agnès Callamard, secretária-geral da Anistia Internacional, disse que a pesquisa forneceu provas que corroboram relatos feitos por sobreviventes durante anos:
"Durante anos, sobreviventes desses complexos aterrorizantes relataram ter encontrado integrantes das Forças Armadas ou da polícia do Camboja no interior dos locais. Esses relatos não puderam ser verificados de forma independente — até agora",
As descobertas vinculam a manutenção cotidiana do cativeiro a empresas registradas e pessoas que ocupam cargos oficiais. A Anistia pede que os investigadores rastreiem as responsabilidades por meio das empresas que recrutavam, mobilizavam e controlavam os guardas.
O que os sobreviventes relataram sobre os complexos
Os sobreviventes disseram repetidamente à Anistia que os guardas os impediam de sair. Alguns relataram espancamentos após tentativas de fuga, choques elétricos e detenção prolongada em salas usadas para punições. A maioria dos 151 sobreviventes entrevistados disse que os guardas portavam cassetetes de choque elétrico ou podiam obtê-los imediatamente.
Em Park 8, também conhecido como PV01, uma mulher de Camarões identificada pelo pseudônimo Maia disse que os guardas a imobilizaram quando ela chegou. Segundo ela, depois a levaram a uma sala escura, onde gerentes a estupraram enquanto os guardas esperavam do lado de fora.
Gabe, sobrevivente de Uganda no mesmo complexo, relatou ter sido acorrentado sobre bacias com água, espancado por horas e atingido por um cassetete elétrico. Vários sobreviventes também disseram ter visto armas de fogo portadas por guardas ou outras pessoas.
O trabalho forçado nesses complexos consistia em obrigar pessoas a cometer fraudes on-line sob ameaça de violência. Assim, alguém que enviava mensagens enganosas podia ao mesmo tempo participar de um golpe e estar em cativeiro por ordem de seus organizadores. Os investigadores precisam apurar a conduta e as circunstâncias de cada pessoa.
Casos anteriores envolvendo suspeitos sul-coreanos de golpes ilustraram essa complexidade. Em janeiro de 2026, 73 suspeitos voltaram do Camboja para prestar depoimento sobre supostos golpes que envolveram 48,6 bilhões de won e 869 vítimas sul-coreanas. Outros sul-coreanos relataram passaportes confiscados, complexos vigiados e coerção.
As cinco empresas e suas respostas
A Leap Somnang foi a empresa com maior presença entre as identificadas pela Anistia, com ligações a pelo menos 15 complexos em oito províncias. Doze sobreviventes reconheceram seus guardas, uniformes ou logotipo. Todos disseram que os guardas os impediam de sair sob ameaça de violência; vários relataram que eles participavam de espancamentos, choques elétricos ou isolamento prolongado.
A Anistia afirmou que a Leap Somnang era controlada por Ban Sophat, coronel das Forças Armadas Reais do Camboja que se apresentava publicamente como presidente da empresa. Sophat negou ter participação societária ou ocupar cargo de direção ou gestão, dizendo que havia atuado como consultor do proprietário. Também negou envolvimento em abusos.
A Security Response foi associada a cinco complexos, entre eles Park 8. A Anistia rastreou conexões comerciais com o Panda Commercial Bank e a rede empresarial Huione. A Security Response negou as acusações e afirmou que operava legalmente como prestadora de serviços de segurança registrada.
A ZD Security, anteriormente chamada BIC Security, foi associada a dois complexos em Botum Sakor, entre eles Long Bay. A Anistia vinculou a empresa ao ZhengHeng Group e a seu presidente, Deng Pibing. O ZhengHeng negou envolvimento nos supostos abusos. A ZD Security não respondeu à Anistia.
A Dara Security foi associada a dois complexos em Sihanoukville. A Best Security foi vinculada a um complexo em Bavet onde a Anistia documentou tráfico de pessoas, trabalho forçado e trabalho infantil.
A Anistia encontrou os números de telefone de Lay Channy, vice-chefe de polícia, em um anúncio da Best Security. A empresa negou que ele controlasse suas operações e disse que ele era dono de um prédio alugado por ela, além de ter fornecido o número para que clientes locais pudessem entrar em contato com a filial. A Best Security também negou prestar serviços no complexo identificado pela Anistia e sugeriu que seus uniformes poderiam ter sido copiados.
A Anistia vinculou o brigadeiro-general Tek Bunthoeun a um empreendimento imobiliário que abrigava outro complexo, identificado como BM02, onde sobreviventes relataram tortura, confinamento e trabalho forçado. A organização pediu respostas às pessoas e empresas identificadas e incluiu em seu relatório as respostas recebidas.
Por que Long Bay continua no centro da investigação
Long Bay, um empreendimento na província de Koh Kong, reúne acusações relacionadas à propriedade, aos serviços de segurança e à proteção oficial. Sinarith disse que as autoridades tentavam localizar Deng Pibing, também conhecido como Dung Ping, enquanto investigavam autoridades citadas em uma reportagem em vídeo sobre o local.
Segundo a Anistia, Deng presidiu o conselho de administração da empresa hoje conhecida como ZD Security até outubro de 2023. O Reino Unido sancionou o ZhengHeng Group em 2023 por causa do trabalho forçado em Long Bay, onde, segundo a Anistia, a ZD Security fornecia guardas.
As autoridades haviam confirmado anteriormente a saída de Deng do Camboja no fim de maio de 2026, citando informações migratórias. Edifícios suspeitos de serem usados para golpes foram encontrados em Long Bay em fevereiro, depois que supostos grupos criminosos deixaram provas no local. As autoridades cambojanas disseram ter detido suspeitos, recolhido provas e lacrado as instalações.
Sinarith disse que a nova investigação também apuraria se proprietários de cassinos e resorts, entre eles Kok An e Ly Yong Phat, participaram diretamente de atividades criminosas ou alugaram imóveis a grupos criminosos. Os investigadores precisarão determinar o que cada pessoa fez e sabia.
Não foi anunciado prazo para concluir as investigações sobre as empresas de segurança ou Long Bay, e nenhuma data de prisão de Deng foi divulgada.
Da repressão às investigações ampliadas
A campanha de fiscalização do Camboja começou mais de um ano antes do anúncio mais recente. A sequência mostra como as operações policiais e a saída de pessoas dos complexos foram seguidas por um escrutínio mais rigoroso das empresas e autoridades ligadas a eles.
- Julho de 2025: O governo iniciou uma operação nacional contra complexos de golpes.
- Janeiro de 2026: Milhares de pessoas escaparam ou foram libertadas dos complexos, gerando demandas urgentes por abrigo, documentos e assistência consular.
- Fevereiro de 2026: As autoridades encontraram em Long Bay edifícios suspeitos de envolvimento em golpes on-line.
- Fim de maio de 2026: Deng Pibing deixou o Camboja, segundo informações migratórias citadas por Sinarith.
- 15 de outubro de 2026: As autoridades cambojanas informaram à Anistia que 77 policiais haviam sido punidos por ligações com complexos de golpes.
- 29 de outubro de 2026: A Anistia publicou Negócio oficial, identificando cinco empresas de segurança e conexões com militares e policiais.
- 1º de novembro de 2026: Sinarith anunciou investigações mais amplas sobre empresas de segurança, militares e outras pessoas ligadas a grandes operações de golpes.
As saídas dos complexos em janeiro evidenciaram as necessidades imediatas de quem deixava o cativeiro. Até 22 de janeiro, a embaixada da Indonésia em Phnom Penh havia recebido contatos de 1.440 cidadãos indonésios libertados. Pessoas também buscaram abrigo e assistência enquanto aguardavam o retorno para casa.
Entre as reivindicações mais recentes da Anistia estão medidas efetivas de reparação e indenização para os sobreviventes, além das investigações. Isso significa lidar com os danos sofridos pelas pessoas e também responsabilizar os envolvidos.
O que mostram os números da fiscalização
O Ministério do Interior do Camboja informou que as autoridades fizeram operações em 832 locais suspeitos de golpes e encaminharam 3.477 suspeitos à Justiça entre julho de 2025 e agosto de 2026. Na resposta à Anistia, também registrou medidas disciplinares contra 77 policiais.
A declaração de Sinarith em novembro apresentou dados mais recentes: 529 processos envolvendo 5.778 pessoas nos tribunais. Ele disse que 86 grandes complexos haviam fechado, mas que operações menores continuavam sendo descobertas quase diariamente, especialmente na província de Preah Sihanouk, em Phnom Penh e em Poipet.
A Anistia afirmou que grandes operações pareciam estar paralisadas após a repressão. No entanto, até a publicação do relatório, a organização não tinha conhecimento de investigações sobre as cinco empresas de segurança, seus proprietários e gerentes, ou as conexões comerciais e estatais mais amplas que havia documentado. O anúncio de novembro prevê investigações nessas áreas.
A Anistia vinculou militares e policiais a pelo menos 22 dos 86 complexos documentados, cerca de um quarto do total. Separadamente, as cinco empresas foram associadas a pelo menos 23 complexos. Essas categorias se sobrepõem; somá-las contabilizaria alguns locais duas vezes.
A organização pediu investigações rápidas, independentes e com recursos suficientes, a suspensão das licenças das empresas enquanto acusações críveis de abusos graves são apuradas e investigações sobre militares e policiais da ativa envolvidos na segurança dos complexos.
Redes de golpes estão se expandindo para além do Camboja
Investigadores fora do Camboja apuram operações com ligações ao Sudeste Asiático, inclusive em Madagascar. Promotores dos Estados Unidos no Distrito de Columbia anunciaram acusações contra seis pessoas que atuavam na África e são suspeitas de ter como alvo norte-americanos por meio de investimentos fraudulentos envolvendo tokens não fungíveis.
Um token não fungível, ou NFT, é um token digital com um registro de identificação próprio, muitas vezes divulgado como representação de uma obra de arte ou item colecionável. Em um golpe de investimento, as vítimas podem ser convencidas a enviar dinheiro para uma suposta plataforma de negociação ou projeto controlado por criminosos.
Promotores dos Estados Unidos disseram que as provas indicavam que um grupo criminoso com ligações à Malásia e à China abriu complexos em Madagascar no início de 2025, provavelmente transferindo operações do Camboja após a repressão no país.
O Ministério da Justiça de Madagascar informou que fechou 13 complexos administrados por operadores chineses em agosto e setembro. Onze cidadãos chineses presos em operações distintas saíram de uma cadeia local em agosto, episódio que envolveu o chefe do serviço penitenciário local.
Autoridades do Laos, do Sri Lanka e de Timor-Leste também iniciaram operações de repressão. Em Mianmar, grupos criminosos vêm transferindo complexos para áreas mais afastadas da fronteira com a Tailândia, apesar da política de tolerância zero a fraudes on-line anunciada pelo governo.
As investigações financeiras também estão cruzando fronteiras. Um tribunal tailandês expediu mandados de prisão contra Yim Leak, ex-diretor da empresa de segurança hoje conhecida como ZD Security, e outras seis pessoas acusadas de lavar recursos de golpes. As autoridades tailandesas disseram que apreenderiam mais de US$ 1 bilhão em bens. Leak nega as acusações, e seus advogados negaram seu envolvimento em abusos nos complexos.
O desafio é que as investigações alcancem quem fornecia proteção
A investigação ampliada do Camboja aborda uma conclusão central da apuração da Anistia: os complexos de golpes dependiam de pessoas e empresas que mantinham os trabalhadores em cativeiro. Prender os operadores das fraudes deixa aos investigadores a tarefa de rastrear quem fornecia guardas, administrava imóveis e oferecia proteção.
Callamard, secretária-geral da Anistia, disse que a responsabilidade deve ser apurada por meio das empresas que empregavam e controlavam os guardas:
As investigações precisam avaliar e rastrear as responsabilidades desde os cargos mais baixos até as empresas, incluindo gerentes e proprietários que recrutaram, mobilizaram e controlaram os guardas de segurança nos complexos de golpes.
Para os sobreviventes, as questões concretas são o acesso à segurança, à assistência e à indenização, além de saber se os acusados de abusos serão processados. Para as autoridades, as investigações anunciadas exigem apurar acusações envolvendo pessoas ligadas à polícia e às Forças Armadas, além de empresas privadas.
Sinarith prometeu medidas legais contra empresas ou autoridades consideradas envolvidas. Os próximos desdobramentos concretos serão os resultados dessas investigações, incluindo eventuais acusações, decisões sobre licenças ou medidas de indenização às vítimas.
Principais pontos
- O Camboja anunciou investigações mais amplas em 1º de novembro, após a Anistia vincular cinco empresas de segurança a pelo menos 23 complexos de golpes.
- A Anistia associou mais de 20 militares e policiais a empresas e a pelo menos 22 complexos documentados.
- Sobreviventes relataram que os guardas impediam fugas e participavam de espancamentos, choques elétricos e outros abusos.
- Várias empresas e pessoas negaram participação societária, controle operacional ou envolvimento nos supostos abusos.
- As autoridades informaram que 529 processos envolvendo 5.778 pessoas estavam nos tribunais cambojanos, enquanto operações menores de golpes continuavam sendo descobertas.
- Os investigadores procuram Deng Pibing e apuram acusações relacionadas a Long Bay.
- Operações ligadas a redes de golpes do Sudeste Asiático também surgiram em Madagascar, ampliando a necessidade de cooperação internacional.






