Sul-coreanos presos em centros de golpes no Camboja: de vítimas a cúmplices

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Sul-coreanos presos em centros de golpes no Camboja: de vítimas a cúmplices

O novo emprego que virou um pesadelo

Dex não se via como golpista. Nos dois primeiros meses no novo emprego, no Camboja, ele cumpriu ordens. Todos os dias, sentava-se diante da tela e disparava mensagens prontas, passando de um desconhecido distante para outro. Ao redor dele, fileira após fileira, outros sul-coreanos faziam o mesmo. Com o celular e o passaporte confiscados e guardas patrulhando o complexo cercado, escapar parecia impossível. Além disso, ele precisava do dinheiro.

Conteúdo
  1. O novo emprego que virou um pesadelo
  2. A dimensão da indústria global de golpes
  3. Como funcionam os golpes de "abate de porcos"
  4. O custo humano: vítimas e sobreviventes
  5. A dura realidade dos centros de golpes
  6. Resposta do governo e cooperação internacional
  7. A repressão internacional
  8. De golpista a colaborador
  9. Seguir o dinheiro e buscar justiça
  10. Principais pontos

Quando foi para o Camboja, achou que era "apenas um trabalho suspeito de troca de mensagens para um grupo de investimentos em ações. Não percebi que era uma fraude de verdade", disse Dex à CNN. "Quando cheguei, disseram que havia dois tipos de golpe: romance e investimentos em ações, e que eles operavam os dois."

Dex, nome alterado para proteger sua identidade, se juntou às centenas de sul-coreanos atraídos por extensas redes de golpes administradas por organizações criminosas chinesas que atuam em regiões de fronteira permeáveis do Sudeste Asiático. Muitos, como ele, foram atraídos por anúncios falsos de emprego que prometiam dinheiro rápido, mas acabaram presos e forçados a aplicar golpes em sua língua nativa.

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Por meio deles, as operações de golpe extorquiram dezenas de milhões de dólares de sul-coreanos no ano passado, consumindo economias e arruinando vidas. Era apenas um braço de uma rede global de golpes multibilionária que, nos últimos anos, fez inúmeras vítimas e deixou autoridades policiais do mundo todo às voltas com o problema. Agora, depois de escapar, Dex se aliou a algumas das vítimas do mesmo complexo onde esteve preso para ajudar a construir um caso que leve à condenação dos líderes da operação de golpes em coreano.

A dimensão da indústria global de golpes

Regiões remotas e muitas vezes sem lei de países do Sudeste Asiático, como Camboja, Laos e Mianmar, se tornaram focos desse tipo de fraude do século 21. E o negócio está em plena expansão, com vários complexos sendo abertos e transferidos conforme necessário.

Redes de golpes do Sudeste Asiático extorquiram pelo menos US$ 10 bilhões de americanos somente em 2024, segundo o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos. Em 2023, sul-coreanos perderam cerca de US$ 148 milhões para essas operações, informou o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime. Em outubro de 2025, a situação se tornou ainda mais alarmante: a Coreia do Sul estimava que cerca de mil de seus cidadãos trabalhavam em centros de golpes no Camboja.

"Os coreanos são muito valorizados porque trabalham com eficiência e atingem as metas rapidamente", disse à CNN Ok Hae-shil, missionária cristã que vive no Camboja há 14 anos e ajudou cativos a voltar para casa.

Autoridades sul-coreanas acreditam que cerca de 200 mil pessoas de diferentes nacionalidades trabalham nesses complexos espalhados pelo Sudeste Asiático, incluindo aproximadamente mil sul-coreanos. Essa força de trabalho impressionante contribui para uma crise global que já fez milhões de vítimas no mundo todo.

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Segundo o The Diplomat, o Serviço Nacional de Inteligência estima que haja cerca de 50 centros de golpes espalhados pelo Camboja, mas algumas estimativas apontam que o número pode chegar a 400. O setor cresceu explosivamente nos últimos anos, sobretudo depois que operações foram deslocadas para o Camboja, no fim de 2023 e em 2024, após operações repressivas da China em Mianmar e no Laos.

Como funcionam os golpes de "abate de porcos"

Dex foi instruído a se passar por mulher, conversar com homens por aplicativos de mensagens e conduzi-los a plataformas falsas de negociação de ações. O método é conhecido como "abate de porcos": conquistar aos poucos a confiança de um investidor antes de roubar seu dinheiro.

Nos dois primeiros meses de trabalho, operadores de conversa como Dex costumavam interagir com cerca de cem pessoas, seguindo à risca roteiros para avaliar o tamanho das economias das possíveis vítimas. No terceiro mês, os alvos mais promissores, menos de duas dúzias, eram atraídos para a plataforma de negociação falsa da organização. Cada transferência de uma vítima era anunciada com o toque de um enorme gongo, contou Dex. Um golpe rendia cerca de US$ 6.900.

Os alvos ideais eram "homens na faixa dos 50 anos", disse ele. "Em geral, eles acumularam patrimônio e raramente têm a chance de conversar com mulheres na faixa dos 30 anos."

A sofisticação dessas operações vai além das mensagens. Um "especialista em investimentos" criado com tecnologia deepfake, operado por um dos supostos líderes, apresentava transmissões ao vivo diárias no YouTube com números de visualizações artificialmente inflados. Líderes de equipe, fingindo ser funcionários de corretoras, orientavam as vítimas a depositar dinheiro em contas de laranjas cujos números mudavam constantemente, criando um rastro difícil de acompanhar para os investigadores.

O custo humano: vítimas e sobreviventes

Em maio de 2024, pouco depois de completar 50 anos, Hoon recebeu uma mensagem no Facebook de uma mulher que se apresentou como dona de um salão de beleza de 38 anos, em Seul. Na foto do perfil, ela tinha o rosto em formato de coração e os cabelos escuros presos atrás de uma orelha.

Hoon, nome alterado para proteger sua identidade, disse à mulher que não se achava digno da atenção dela. Chamou a si mesmo de sem graça e inexperiente com mulheres como ela. Quando ela o tranquilizou, ele se abriu ainda mais, dizendo que ela era "bonita demais para alguém como eu" e perguntando por que ela escolheria conversar com um homem que "não tem nada a oferecer".

Ela respondeu com carinho, chamando-o de "namorado" e projetando um futuro de casamento, uma casa juntos e visitas aos pais. Quando ele mencionou as dúvidas levantadas pelos amigos, ela o aconselhou a ignorá-los, insistindo que a felicidade dos dois deveria ficar "entre nós".

Em poucas semanas, eles já trocavam mensagens de bom dia e boa noite. As conversas preenchiam os momentos tranquilos do dia dele. Hoon contou que trabalhava com segurança longe da capital sul-coreana. Ela o provocava carinhosamente por ser tímido. Então veio o convite.

Ela disse que assistia a aulas ao vivo no YouTube ministradas por um instrutor e enviou capturas de tela do que dizia serem lucros com operações de câmbio: centenas de milhares em um dia, milhões no seguinte. Ela o convenceu a participar, garantindo que a plataforma era segura. "Você ainda ganha um bônus de US$ 300 se abrir uma conta", disse.

Hoon hesitou. Ela garantiu que havia investido US$ 100 mil de suas economias e o incentivou a começar com pouco: US$ 700 seriam suficientes. Logo, ela o colocou em contato com um "assistente", que o adicionou a um grupo de conversa onde investidores recebiam orientações durante sessões ao vivo e operações de câmbio.

Hoon transferiu cerca de US$ 6.800 para uma conta bancária. Foi a primeira de uma série de transferências que acabaria consumindo US$ 145 mil de suas economias. Quando percebeu que estava sendo enganado, a dona do salão de beleza o ameaçou por causa de um depósito falso que alegou ter feito na conta dele e depois desapareceu.

A cerca de 3.500 quilômetros dali, em algum lugar de Phnom Penh, alguém quase certamente batia em um gongo.

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A dura realidade dos centros de golpes

Mais de 330 sul-coreanos desapareceram no Camboja no ano passado. Embora a maioria tenha sido encontrada, 79 continuam desaparecidos, disse Wi Sung-lac, diretor de segurança nacional da Coreia do Sul. Segundo Wi, alguns tinham viajado conscientemente para o Camboja para participar de operações ilícitas e chegaram a voltar depois de serem repatriados.

Para alguns, a entrada nessas redes começa com dívidas incapacitantes. Park Ki-tae, advogado especializado em dívidas que orienta pessoas que escaparam e enfrentam a falência, apontou o desespero entre os jovens sul-coreanos endividados. Seus três clientes mais recentes, homens na faixa dos 20 anos de uma província próxima a Seul, foram atraídos por anúncios de emprego ou por amigos no exterior e acabaram "sequestrados" ou "coagidos" a participar de fraudes on-line.

Os três já estavam endividados", disse Park à CNN, observando as dificuldades enfrentadas por muitos jovens no país. "O desespero os deixa vulneráveis a essas ofertas que parecem boas demais para ser verdade.

Muitos golpistas relataram ter sofrido violência horrível nos complexos do Sudeste Asiático. Dex disse que na área administrada por coreanos havia "quase nenhuma violência" e que nunca foi espancado. Mas os supervisores avisavam que os funcionários com baixo desempenho que se endividassem com a empresa seriam "vendidos" a grupos chineses, onde eram usados espancamentos e choques elétricos.

Quando viu um desses trabalhadores desaparecer em silêncio, jurou que nunca acabaria daquele jeito. Park Chan-dae, parlamentar que ajudou a resgatar 16 sul-coreanos de centros de golpes no Camboja em agosto e setembro, disse que alguns cativos relataram maus-tratos brutais.

"Eles foram espancados, ameaçados de violência sexual e submetidos até a exames médicos relacionados à possibilidade de tráfico de órgãos", disse ele à CNN.

Segundo o VnExpress, vítimas sul-coreanas relatam que canos de metal e tortura com eletricidade eram punições comuns por desobediência ou por não atingir as metas. Uma vítima, um homem na faixa dos 20 anos, lembrou: "Eles me obrigaram a limpar as manchas de sangue das paredes e do chão. O cheiro de sangue ficou nas minhas mãos por uma semana."

Nem todos os cativos tiveram a mesma sorte. Em julho passado, Park Min-ho disse à família que iria a uma feira de empregos, segundo vários veículos locais, informação que sua universidade confirmou depois à CNN. Semanas mais tarde, o corpo do jovem de 22 anos foi encontrado dentro de um carro na província de Kampot, a cerca de 145 quilômetros a sudoeste de Phnom Penh, informou o governo cambojano em outubro. O prédio onde ele estava foi identificado como um centro de golpes. Autoridades disseram que ele morreu de "ataque cardíaco causado por tortura severa" e tinha hematomas e ferimentos pelo corpo.

As autoridades acusaram três homens chineses e outras duas pessoas pela morte. Dois cúmplices continuam foragidos, segundo o governo cambojano. O caso se tornou um catalisador para a intensificação da resposta da Coreia do Sul e forçou o país a encarar uma realidade incômoda.

Resposta do governo e cooperação internacional

Em outubro de 2025, a Coreia do Sul já havia repatriado mais de 60 cidadãos detidos no Camboja e proibido viagens a áreas conhecidas como zonas de golpes. Após a morte do estudante, o Ministério das Relações Exteriores sul-coreano emitiu um alerta de viagem "código preto" para partes do Camboja, incluindo a região do monte Bokor, na província de Kampot, a cidade de Bavet e a cidade de Poipet.

"Cidadãos sul-coreanos que visitem ou permaneçam nessas áreas podem estar sujeitos a penalidades previstas na Lei de Passaportes e em outras normas pertinentes", disse o ministério. "Por isso, recomendamos enfaticamente que os cidadãos que planejam viajar para essas áreas cancelem suas viagens."

A resposta ganhou proporções muito maiores em janeiro de 2026, quando 73 suspeitos sul-coreanos foram repatriados do Camboja em um voo fretado para serem interrogados em seu país. Foi o maior retorno em grupo de suspeitos de crimes sul-coreanos da história. A indignação pública com os centros de golpes no exterior havia aumentado após a morte do estudante.

Segundo a Agência de Notícias Yonhap, os suspeitos teriam fraudado 869 sul-coreanos em cerca de 48,6 bilhões de wons (US$ 33 milhões). Os investigadores identificaram sete centros de golpes no Camboja ligados ao grupo, que inclui um casal acusado de extorquir cerca de 12 bilhões de wons de mais de cem vítimas em golpes românticos com tecnologia deepfake.

Autoridades disseram que o casal pode ter feito cirurgias plásticas para evitar ser identificado. "Para escapar das autoridades sul-coreanas, os suspeitos alteraram a aparência por meio de cirurgias plásticas enquanto estavam escondidos", disse a jornalistas o porta-voz do presidente.

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A Coreia do Sul criou uma força-tarefa intergovernamental em outubro de 2025, após uma cúpula entre o presidente Lee Jae Myung e o primeiro-ministro cambojano Hun Manet. A força-tarefa coordena os esforços para combater o crime transnacional e planeja intensificar as ações para rastrear bens ocultos e recuperar os lucros do crime.

"Por meio da força-tarefa, o governo continuará respondendo com firmeza até que as operações de golpes sediadas no exterior e voltadas contra o povo coreano sejam completamente erradicadas", disse Kang Yu-jung, porta-voz da Presidência.

A repressão internacional

A Coreia do Sul não é o único país tentando combater a indústria de golpes do Camboja. Em fevereiro de 2025, a China liderou uma operação contra centros de golpes em Mianmar e no Camboja. Na terça-feira, os Estados Unidos e o Reino Unido impuseram sanções a partes do conglomerado cambojano Prince Group, que, segundo os dois países, operava redes de golpes pelo mundo.

Promotores federais dos Estados Unidos indiciaram seu presidente, Chen Zhi, e apreenderam US$ 15 bilhões em criptomoedas que, segundo eles, eram resultado de seus esquemas de fraude e lavagem de dinheiro. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos chamou a medida de "a maior ação de confisco" da história do órgão.

O Departamento do Tesouro registrou um aumento de 66% no valor perdido por cidadãos e empresas dos Estados Unidos para esse tipo de golpe no ano passado, que superou US$ 10 bilhões. A maioria dos centros de golpes funciona no Camboja e em Mianmar, principalmente sob o comando de organizações criminosas chinesas.

Chen Zhi, presidente do Prince Group, havia sido conselheiro sênior tanto de Hun Manet quanto do ex-primeiro-ministro Hun Sen. Chen continua negando qualquer irregularidade, mas o governo dos Estados Unidos apreendeu US$ 15 bilhões em criptoativos supostamente ligados aos lucros dos golpes.

A resposta internacional evidenciou a complexa rede de relações políticas e econômicas que permite a prosperidade dessas operações. A extrema dependência econômica do Camboja em relação à China criou uma proteção política: a China responde por cerca de 50% do investimento estrangeiro direto no Camboja, 44% da dívida externa do país e 49% de suas importações.

De golpista a colaborador

Enquanto Hoon tentava recuperar o que havia perdido, Dex, agora de volta à Coreia do Sul, continuava recebendo ameaças pelo Telegram do sindicato criminoso do qual havia escapado. Então, viu uma reportagem sobre a mesma plataforma de negociação que sua organização usava para fraudar as vítimas.

No fim da matéria, alguém deixou um comentário com dados de contato, pedindo que qualquer pessoa com informações se manifestasse. Dex hesitou, mas depois ligou. A mulher que atendeu era Clay, uma vítima que havia perdido mais de US$ 138 mil no esquema. O nome dela também foi alterado.

Clay, que acompanhava o caso, incentivou Dex a conversar com a polícia. No início, ele resistiu, com medo de ser tratado como criminoso. Mas, por fim, entregou fotos, planilhas e registros de conversas que ajudaram a polícia a reunir denúncias separadas em uma investigação maior.

"Quando começaram a prender integrantes, as ameaças pararam", disse Dex.

Os policiais encontraram mais de cem denúncias relacionadas, com perdas que totalizavam cerca de 12 bilhões de wons sul-coreanos (US$ 8,1 milhões). A decisão levou a meses de interrogatórios e noites sem dormir, mas acabou trazendo avanços.

Desde então, Clay reuniu um grupo de coreanos vítimas de fraude, incluindo Hoon, que agora pressionam as autoridades a agir diante do que ela chama de "crise global de golpes". Entre os integrantes estão uma mãe de dois filhos que perdeu US$ 1 milhão; um homem divorciado que perdeu mais de US$ 100 mil; e uma mulher que perdeu um familiar por suicídio depois que ele foi vítima de um golpe sediado no Camboja.

Vítimas como Clay dizem que acabaram percebendo que suas perdas não eram incidentes isolados, mas parte de uma operação maior. Ao comparar registros de conversas e gravações de voz, descobriram que o mesmo sul-coreano, o suposto líder Kang Da-wit, aparecia com nomes diferentes em várias plataformas falsas de negociação, como especialista em investimentos em transmissões deepfake usadas no golpe.

Dex ajudou Clay a verificar as contas. Kang foi preso pela polícia cambojana em fevereiro de 2025 e repatriado para a Coreia do Sul junto com a esposa. Eles estavam entre os mais de 70 sul-coreanos detidos no Camboja e repatriados por suposto envolvimento na rede. O gabinete presidencial descreveu o retorno como inédito em escala.

Seguir o dinheiro e buscar justiça

As vítimas dizem que agora pressionam pela extradição dos líderes que ainda restam, mas responsabilizar os envolvidos também significa seguir o dinheiro. Os investigadores não identificaram publicamente o destino final dos recursos, e vítimas como Clay afirmam que pressionam as autoridades para descobrir para onde o dinheiro foi.

Como informou o The Diplomat, a indústria de golpes gera, segundo estimativas, entre US$ 12 bilhões e US$ 19 bilhões por ano apenas no Camboja, e autoridades governamentais lucram diretamente com essas empresas. Isso cria um conflito de interesses fundamental, que torna quase impossível uma aplicação genuína da lei sem pressão internacional.

O padrão de vitimização revela o que pesquisadores chamam de "efeito balão": a repressão em um local simplesmente desloca as operações para outros. Em 2023, quando as medidas se concentraram no Triângulo Dourado, o Laos era o principal polo, com 56 vítimas sul-coreanas. Com o aumento da pressão no país, as operações se transferiram para o Camboja, onde os casos chegaram a 220 em 2024, mais de dez vezes o patamar de 17 registrado em 2023.

Em 2025, embora o Camboja ainda concentrasse a maioria das vítimas sul-coreanas (386 casos até setembro), o balão se expandia em outros lugares: as Filipinas registraram suas três primeiras vítimas em cinco anos, o Vietnã teve suas três primeiras e a Malásia, a primeira. Na Tailândia, os casos saltaram de um em 2023 para nove em 2025.

Talvez o dado mais revelador seja que a polícia sul-coreana informou estar investigando casos em países que antes tinham pouca ou nenhuma exposição: Filipinas (14 casos sob investigação), China (nove), Tailândia (sete), Vietnã (seis) e Laos (três).

Hoje, Dex trabalha em turnos longos numa fábrica de bancos para carros. O medo diminuiu, mas seus pais ainda acreditam que ele estava apenas viajando pelo Camboja. Ele pretende manter essa versão. Enquanto isso, Clay e outras vítimas continuam pressionando por responsabilização, não só dos autores dos crimes, mas também dos sistemas que permitiram que essas operações prosperassem por anos com pouca intervenção.

Principais pontos

  • Mais de 330 sul-coreanos desapareceram no Camboja em 2025, e 79 continuam desaparecidos, evidenciando a dimensão do tráfico de pessoas na região
  • Dex, ex-golpista que escapou, se aliou a vítimas para ajudar a levar os líderes à Justiça, demonstrando a complexa relação entre autores e vítimas
  • As operações usam técnicas sofisticadas de "abate de porcos", conquistando a confiança das vítimas por meio de golpes românticos e de investimento antes de roubar suas economias de uma vida
  • Vítimas sul-coreanas como Hoon perderam até US$ 145 mil nesses golpes cuidadosamente planejados
  • Um estudante sul-coreano de 22 anos foi encontrado morto no Camboja após ser torturado, o que catalisou uma resposta governamental mais firme
  • A indústria de golpes no Camboja emprega cerca de 200 mil pessoas em toda a região, incluindo mais de mil sul-coreanos presos nessas operações
  • A Coreia do Sul repatriou 73 suspeitos de golpes, na maior transferência de suspeitos de crimes do exterior da história do país. O grupo é acusado de fraudar 869 vítimas em cerca de US$ 33 milhões
  • As ações internacionais, incluindo sanções dos Estados Unidos contra Chen Zhi e a apreensão de US$ 15 bilhões em criptomoedas, representam a maior ação de confisco da história do Departamento de Justiça dos Estados Unidos
  • As operações apresentam um "efeito balão": a repressão em um local desloca as atividades para países vizinhos, exigindo uma resposta internacional coordenada
  • As vítimas pressionam por responsabilização não só dos criminosos, mas também dos sistemas e governos que permitiram que essas operações prosperassem
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