Três mulheres podem participar de estudo a partir do ano fiscal de 2027
A Universidade de Saúde Fujita, em Toyoake, na província de Aichi, solicitou autorização para transplantar úteros doados em cerca de três mulheres na faixa dos 20 ou 30 anos que nasceram sem o órgão. A proposta, apresentada em 26 de outubro e anunciada em 28 de outubro de 2026, pode levar à realização do primeiro transplante de útero no Japão.
Conteúdo
- Três mulheres podem participar de estudo a partir do ano fiscal de 2027
- Quem poderia participar?
- Como seria o tratamento
- A seleção depende de aprovação
- Como o Japão chegou a este ponto
- O que a experiência internacional acrescenta
- As prioridades da pesquisa vão além da cirurgia
- A doadora também passa por uma cirurgia
- Pontos principais
O professor Iori Kisu, pesquisador principal e especialista em obstetrícia e ginecologia, afirmou que a primeira cirurgia pode ocorrer já no ano fiscal de 2027. No Japão, o ano fiscal de 2027 vai de abril de 2027 a março de 2028. A equipe espera que o procedimento permita que mulheres que não conseguem levar uma gestação adiante por não terem útero deem à luz com o próprio corpo.
O plano prevê que parentes saudáveis do sexo feminino, inclusive as mães das participantes, doem o útero. Os pesquisadores usariam fertilização in vitro, ou FIV, para criar embriões com os óvulos de cada participante e o esperma de seu parceiro. Depois, transfeririam um embrião para o útero transplantado, após verificar se houve rejeição.
A universidade estima um custo de 20 milhões a 25 milhões de ienes por participante. O valor que caberia às participantes ainda está em discussão. A seleção deverá começar após a aprovação da proposta pelo comitê de avaliação. Antes do início do estudo, também será necessária a autorização do diretor do hospital.
Quem poderia participar?
O estudo proposto se concentra em mulheres com infertilidade por fator uterino, ou seja, aquelas que não conseguem levar uma gestação adiante porque não têm útero ou porque o órgão não funciona. O grupo planejado pela Fujita inclui mulheres que nasceram sem útero devido a condições como a síndrome de Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser, também chamada síndrome de Rokitansky.
A síndrome pode causar a ausência ou o desenvolvimento incompleto do útero e da vagina. A mulher ainda pode ter ovários capazes de produzir óvulos. Por isso, o tratamento proposto combina o útero doado com embriões criados a partir dos óvulos da própria participante.
O útero é o órgão onde o embrião se desenvolve durante a gestação. Os ovários têm outra função: produzir óvulos. O transplante de útero daria à participante um lugar para levar a gestação adiante, enquanto a FIV forneceria o embrião a ser transferido para o órgão.
Embora o transplante de útero também possa ser relevante para mulheres que perderam o órgão, a proposta da Fujita é um estudo pequeno, voltado a cerca de três mulheres na faixa dos 20 ou 30 anos com condições congênitas. Não se trata de um programa de tratamento geral aberto a todas as pessoas com infertilidade.
Como seria o tratamento
O plano da Fujita envolve várias etapas, começando pela coleta de óvulos e pela FIV. Nesse processo, os óvulos são fertilizados fora do corpo com o esperma do parceiro. Depois, um embrião seria colocado no útero transplantado na tentativa de iniciar uma gestação.
Uma parente saudável passaria por uma cirurgia para doar o útero, e a participante seria operada para recebê-lo. Após o transplante, os médicos usariam medicamentos chamados imunossupressores para reduzir o risco de o sistema imunológico da receptora atacar o órgão doado.
A rejeição ocorre quando as defesas do organismo reconhecem um órgão transplantado como estranho e o atacam. A equipe de pesquisa verificaria se o útero estava sendo rejeitado antes de realizar a transferência do embrião. Portanto, a cirurgia e a tentativa de engravidar são etapas distintas.
De acordo com o tratamento proposto, o parto seria por cesariana, cirurgia em que o bebê nasce por meio de incisões no abdômen e no útero. O útero transplantado seria removido após o parto. Assim, o tratamento planejado envolve vários procedimentos médicos importantes, além do próprio transplante.
A seleção depende de aprovação
A universidade apresentou a proposta a um comitê interno de avaliação credenciado pelo governo nacional. O comitê precisa analisar o plano de pesquisa clínica antes que a equipe possa avançar. Depois da aprovação, também será necessária a autorização do diretor do hospital.
A Fujita anunciou em junho de 2026 que pretendia realizar transplantes de útero e formou um grupo de trabalho com 20 departamentos e unidades clínicas. O grupo vem elaborando o plano e discutindo os aspectos práticos de sua execução.
Durante o anúncio, Kisu falou sobre o cronograma pretendido pela equipe. Como professor à frente do estudo proposto, ele afirmou:
"Queremos começar a pesquisa em algum momento do próximo ano",
A meta anunciada é iniciar a pesquisa durante o ano fiscal de 2027, com a possibilidade de realizar o primeiro transplante nesse período. Nenhuma data exata para a cirurgia foi divulgada. O cronograma ainda depende da aprovação e das etapas necessárias para preparar as participantes e as doadoras.
Como o Japão chegou a este ponto
A Associação Japonesa de Ciências Médicas divulgou em julho de 2021 um relatório que permitiu a realização de transplantes de útero em ensaios clínicos com um pequeno número de casos. O grupo de cerca de três participantes proposto pela Fujita se enquadra nessa abordagem de pesquisa limitada.
A Universidade Keio, em Tóquio, recebeu em 2025 autorização para pesquisar transplantes de útero, mas ainda não havia realizado nenhum transplante quando a Fujita fez seu anúncio. A Fujita busca, portanto, realizar o primeiro procedimento no Japão, enquanto outra universidade já obteve aprovação para desenvolver esse trabalho.
Os principais marcos mostram como a proposta avançou:
- 2014: Foi registrado na Suécia o primeiro nascimento bem-sucedido após um transplante de útero.
- Julho de 2021: A Associação Japonesa de Ciências Médicas permitiu ensaios clínicos com um pequeno número de casos.
- 2025: A Universidade Keio recebeu autorização para pesquisar transplantes de útero.
- Junho de 2026: A Fujita anunciou sua política de pesquisa e formou um grupo de trabalho com 20 departamentos e unidades.
- 26 de outubro de 2026: A Fujita apresentou seu plano de pesquisa clínica para avaliação.
- 28 de outubro de 2026: A universidade anunciou publicamente o pedido.
- Ano fiscal de 2027: A Fujita pretende iniciar a pesquisa, com a possibilidade de realizar o primeiro transplante nesse período.
O que a experiência internacional acrescenta
Mais de 150 transplantes de útero foram realizados em mais de 20 países, resultando em mais de 80 nascimentos, segundo dados apresentados por Kisu e pelo grupo de trabalho da universidade. Até o anúncio do pedido da Fujita, não havia registro de procedimentos desse tipo no Japão.
O primeiro nascimento bem-sucedido na Suécia, em 2014, mostrou que um útero transplantado poderia sustentar uma gestação até o parto. Os procedimentos e nascimentos posteriores dão aos pesquisadores japoneses uma experiência na qual se basear ao preparar seu próprio trabalho clínico.
Os números incluem procedimentos e bebês nascidos em diferentes programas. Para calcular uma taxa de sucesso útil às possíveis participantes, seriam necessários dados mais detalhados, como quantas receptoras tentaram engravidar, por quanto tempo foram acompanhadas e quantos partos cada uma teve.
O estudo proposto pela Fujita acrescentaria experiência obtida com um pequeno grupo japonês. Com cerca de três participantes, a prioridade imediata é avaliar cuidadosamente o tratamento com essas mulheres e suas doadoras, incluindo as etapas do transplante, da gestação e do parto.
As prioridades da pesquisa vão além da cirurgia
Uma carta acadêmica de 2025, listada no banco de dados de pesquisas da Universidade de Saúde Fujita e publicada na revista Reproductive Medicine and Biology, descreve os experimentos com animais que ajudaram a levar o transplante de útero à prática clínica. A carta sobre transplante de útero destaca a contribuição do Japão por meio de pesquisas com primatas não humanos e os avanços rumo à implementação clínica.
O artigo, publicado no volume 24, número 1, como artigo e12656, aponta três prioridades para os programas de transplante de útero: aperfeiçoar as técnicas cirúrgicas, melhorar o uso de medicamentos imunossupressores e estabelecer critérios claros de elegibilidade para as pacientes.
Essas prioridades estão diretamente ligadas ao tratamento proposto. A cirurgia precisa garantir o funcionamento do útero, os medicamentos devem ajudar a proteger o órgão contra a rejeição e os critérios de seleção devem orientar quais mulheres podem participar de um programa. A carta também reconhece o trabalho pioneiro da equipe sueca e descreve a expansão dos transplantes de útero na região da Ásia e da Oceania.
A doadora também passa por uma cirurgia
A proposta da Fujita levanta uma questão ética diferente da que envolve transplantes realizados para manter uma paciente viva: uma pessoa saudável passaria por uma cirurgia para que outra pudesse tentar engravidar e dar à luz. Tanto as expectativas da receptora quanto o bem-estar da doadora são fundamentais para a decisão.
Segundo o plano proposto, a doadora poderia ser a mãe ou outra parente. A doadora não teria benefício médico direto com a remoção do útero, enquanto a receptora enfrentaria o transplante, o uso de medicamentos para evitar a rejeição e outros procedimentos relacionados à gestação e ao parto.
O vínculo familiar também torna o consentimento voluntário uma questão central. A doadora precisa poder decidir livremente se quer participar, e a receptora deve compreender com clareza as exigências do tratamento e seus possíveis resultados. Esses são aspectos concretos a serem considerados na avaliação, assim como o plano cirúrgico e médico.
O custo é outra questão prática para as possíveis participantes. A estimativa de 20 milhões a 25 milhões de ienes por pessoa torna especialmente importante a decisão pendente sobre os valores pagos pelas pacientes. A aprovação abriria caminho para a participação na pesquisa, enquanto a definição dos pagamentos ajudaria a determinar quem teria condições de participar.
Pontos principais
- A Universidade de Saúde Fujita solicitou aprovação em 26 de outubro de 2026 para realizar pesquisas sobre transplante de útero.
- O estudo proposto envolveria cerca de três mulheres na faixa dos 20 ou 30 anos que nasceram sem útero.
- Parentes saudáveis do sexo feminino, inclusive as mães, seriam possíveis doadoras.
- O tratamento combinaria transplante, FIV, parto por cesariana e remoção do útero após o nascimento do bebê.
- O primeiro transplante poderia ocorrer no ano fiscal de 2027, sujeito à avaliação e à autorização do hospital.
- O custo estimado é de 20 milhões a 25 milhões de ienes por participante; os valores a serem pagos pelas pacientes ainda não foram definidos.
- Mais de 150 procedimentos e mais de 80 nascimentos foram registrados no exterior, enquanto nenhum havia sido realizado no Japão até o anúncio.






