Duas execuções colocam informações sobre presos sob escrutínio
Bangladesh pediu à Arábia Saudita as sentenças judiciais e uma explicação depois que dois cidadãos bangladeshianos foram executados em Meca em 14 de outubro de 2026, sem aviso prévio às missões diplomáticas do país. Cerca de 7.500 bangladeshianos estão presos na Arábia Saudita, afirmou a ministra de Estado das Relações Exteriores, Shama Obaed Islam, em Daca, na sexta-feira, 23 de outubro.
Conteúdo
- Duas execuções colocam informações sobre presos sob escrutínio
- O que os registros prisionais diziam sobre os dois cidadãos
- Como se desenrolaram os pedidos de esclarecimento
- Notificação e assistência jurídica são preocupações centrais
- O que mostram os números mais amplos sobre prisões
- Escrutínio alcança governos sucessivos
- A jornada de um encanador termina no aeroporto de Daca
- Mortes em conflitos aumentam o peso sobre as famílias
- Trabalhadores retidos buscam vistos e empregos
- Principais pontos
Os dois cidadãos executados foram identificados como Nazrul Islam Abdul Bashir e Sweety Akhtar. Um memorando confidencial do consulado de Bangladesh em Jidá informou que eles estavam detidos desde agosto de 2023, sob acusações distintas relacionadas a crimes cibernéticos e adultério. Um comunicado do Ministério do Interior da Arábia Saudita descreveu as condenações como decorrentes de um ato imoral dentro de uma mesquita em Meca.
Bangladesh convocou o embaixador saudita e solicitou formalmente as sentenças. O consulado também pediu detalhes dos processos judiciais à representação do Ministério das Relações Exteriores da Arábia Saudita em Meca.
Shama fez as declarações no Aeroporto Internacional Hazrat Shahjalal, ao receber o corpo de Md Shahed Ahmed, encanador bangladeshiano morto em um ataque ao Aeroporto Internacional King Khalid, em Riade. Seu retorno reuniu vários problemas urgentes enfrentados por trabalhadores de Bangladesh na Arábia Saudita: prisão, acesso à assistência diplomática, mortes em conflitos regionais e dificuldades para voltar ao trabalho.
Shama, ministra de Estado responsável pelas relações exteriores, descreveu a dimensão das prisões com base em informações disponíveis a Bangladesh:
Segundo as informações disponíveis a Bangladesh, cerca de 7.500 bangladeshianos estão presos em diferentes unidades prisionais da Arábia Saudita.
A Arábia Saudita envia periodicamente a Bangladesh listas de presos e pessoas condenadas por delitos. Shama afirmou que o governo verificava se os dois cidadãos executados apareciam nesses registros.
O que os registros prisionais diziam sobre os dois cidadãos
Uma carta consular confidencial, datada de 18 de outubro, apresenta um relato mais detalhado dos registros de detenção. Segundo o documento, uma lista de presos recebida pelo Consulado-Geral de Bangladesh em Jidá em 30 de setembro registrava a detenção de Nazrul em 1º de agosto de 2023, por uma suposta infração à lei saudita de crimes cibernéticos. Sweety foi detida no dia seguinte, sob acusação de adultério.
Segundo relatos, a lista incluía os dois nomes sem indicar que qualquer um deles havia recebido uma sentença de morte. A declaração posterior de Shama, de que as autoridades estavam verificando as listas, torna a gestão desses registros central para as investigações de Bangladesh.
O Ministério do Interior da Arábia Saudita afirmou que as sentenças de morte foram proferidas após processos judiciais e aprovadas antes das execuções. A descrição pública mencionava um ato imoral dentro de uma mesquita, enquanto os registros consulares de detenção apontavam as duas acusações distintas.
As autoridades de Bangladesh que aguardam as sentenças ainda desconhecem a conduta exata envolvida, as provas, os fundamentos jurídicos finais das penas de morte e se algum dos réus teve advogado ou intérprete. A Arábia Saudita não informou quando fornecerá os documentos.
O consulado afirmou não conhecer nenhum caso anterior em que um bangladeshiano tenha recebido uma sentença de morte na Arábia Saudita por uma infração à lei de crimes cibernéticos ou por adultério. Por isso, os documentos judiciais solicitados são especialmente importantes para esclarecer como os casos evoluíram entre a detenção e a execução.
Como se desenrolaram os pedidos de esclarecimento
Os esforços de Bangladesh para obter informações continuaram por mais de uma semana após as execuções. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Shahidul Karim, afirmou em 21 de outubro que a Arábia Saudita não havia respondido às consultas. Dois dias depois, Shama disse que ainda faltavam informações detalhadas.
A sequência conecta registros de detenção de 2023 a pedidos diplomáticos feitos em outubro de 2026:
- 1º e 2 de agosto de 2023: Nazrul e Sweety foram detidos em dias consecutivos, segundo o memorando consular.
- 30 de setembro de 2026: O consulado de Jidá recebeu uma lista saudita de presos com os dois nomes, supostamente sem registro de sentenças de morte.
- 14 de outubro: As autoridades sauditas executaram os dois cidadãos na região de Meca.
- 17 de outubro: Shama confirmou que Bangladesh havia solicitado formalmente informações sobre as acusações, os processos e a falta de notificação.
- 18 de outubro: O consulado enviou seu memorando ao Ministério do Bem-Estar dos Expatriados e Emprego no Exterior.
- 21 de outubro: Shahidul Karim afirmou que a Arábia Saudita não havia respondido.
- 23 de outubro: Shama renovou o pedido das sentenças durante uma declaração no aeroporto de Daca.
Notificação e assistência jurídica são preocupações centrais
O memorando do consulado de Jidá afirmou que as autoridades sauditas não haviam informado a embaixada nem o consulado de Bangladesh sobre as sentenças de morte ou as execuções, nem oficialmente nem informalmente. Bangladesh soube das execuções depois que ocorreram, por meio de informações públicas que mencionavam o comunicado do Ministério do Interior saudita.
Shama apontou a falta de notificação como o problema imediato enfrentado pelo governo:
O problema é que não fomos informados das sentenças impostas aos dois bangladeshianos que foram executados.
O consulado também afirmou que nenhuma das famílias havia solicitado assistência jurídica ou entrado em contato para pedir ajuda. Segundo o relato, havia assistência de intérpretes nos tribunais sauditas, mas os réus não podiam escolher seus próprios intérpretes nesse sistema.
Para alguém que responde a um julgamento no exterior, um intérprete ajuda a compreender a linguagem do tribunal e a comunicar suas respostas. Um advogado pode explicar a acusação, analisar o caso e orientar sobre as medidas jurídicas disponíveis. O pedido de Bangladesh por detalhes dos processos inclui a apuração da assistência recebida pelos dois réus.
O Fórum de Direitos Humanos de Bangladesh pediu uma análise independente da atuação da missão diplomática nos casos, inclusive para verificar se as autoridades acompanharam adequadamente registros incompletos de presos. Shama afirmou que denúncias de negligência por parte das missões seriam investigadas e que medidas seriam tomadas se fossem comprovadas.
O que mostram os números mais amplos sobre prisões
A estimativa de 7.500 presos abrange diferentes partes da Arábia Saudita. O memorando consular oferece um recorte regional mais restrito: 306 bangladeshianos estavam presos na região oeste do país, incluindo 147 que cumpriam penas de um mês a 15 anos.
Essas 147 pessoas representavam cerca de 48% dos 306 presos registrados na região. O documento também mencionava três casos de crimes cibernéticos com penas de prisão de seis meses a cinco anos. Em conjunto, esses números mostram por que as autoridades precisam de detalhes sobre cada caso, além do total de presos: as penas registradas variam muito.
A resposta de Bangladesh envolve o Ministério das Relações Exteriores, o Ministério do Bem-Estar dos Expatriados e Emprego no Exterior e o Ministério do Interior em questões jurídicas. Shama afirmou que os canais diplomáticos podem ser usados para pedir a redução de uma pena ou avaliar a possibilidade de um perdão, uma decisão oficial que anula ou reduz uma punição.
Shama explicou a abordagem do governo quando fica sabendo que um cidadão foi condenado:
Quando ficamos sabendo que algum bangladeshiano foi condenado na Arábia Saudita, entramos em contato com as autoridades sauditas por canais diplomáticos para pedir a redução da pena ou verificar se existe algum procedimento para conceder um perdão.
Escrutínio alcança governos sucessivos
Shama afirmou que Bangladesh respeita os sistemas judiciais de outros países e, ao mesmo tempo, busca informações e assistência para seus cidadãos. A abordagem que ela descreveu combina o reconhecimento da jurisdição saudita com o pedido de que Bangladesh seja informado quando um cidadão do país estiver sujeito a uma punição grave.
A ministra também inseriu os casos no debate político interno de Bangladesh. Ela destacou que os acontecimentos remontam a 2023, quando a Liga Awami estava no governo, e mencionou a administração interina que veio depois, antes do atual governo do Partido Nacionalista de Bangladesh.
Ela afirmou que o atual governo estava no poder havia cerca de seis meses e não havia recebido as informações relevantes nesse período. Suas declarações atribuíram a responsabilidade pelo acompanhamento dos casos a governos sucessivos, enquanto os registros consulares e o processo de notificação seguem como foco prático dos pedidos à Arábia Saudita.
Os próximos passos de Bangladesh dependem do recebimento das sentenças e de novas conversas com autoridades sauditas. O consulado de Jidá afirmou que enviaria outro relatório depois de obter os documentos judiciais.
A jornada de um encanador termina no aeroporto de Daca
O corpo de Shahed Ahmed chegou a Daca pouco depois das 8h de 23 de outubro. Seus restos mortais e a assistência do governo foram entregues à esposa, Kohinur Akter Kakoli. Shama também afirmou que um auxílio do governo seria repassado rapidamente à família.
Shahed era da aldeia de Madla, na sub-região de Shahjahanpur, distrito de Bogura. Seus pais foram identificados como Rafiqul Islam e Shahera Begum. Ele trabalhava como encanador em um projeto em Jidá para uma empresa saudita de construção e tinha um iqama, a autorização de residência saudita usada por trabalhadores estrangeiros.
Ele havia voltado a Bangladesh após a morte do irmão. Depois de tirar licença para comparecer ao funeral, viajava de volta ao trabalho, passando por Riade, quando o ataque de 10 de outubro atingiu o Aeroporto Internacional King Khalid.
O Ministério das Relações Exteriores de Bangladesh atribuiu o ataque ao grupo armado houthi. Informou que outro bangladeshiano, Md Nasrullah Badarpuri, da aldeia de Badarpur, na sub-região de Nangalkot, distrito de Cumilla, também morreu, e que 24 bangladeshianos ficaram feridos.
A morte de Shahed mostra como o deslocamento entre casa e trabalho pode expor trabalhadores migrantes a conflitos longe de seu local de trabalho. Ele trabalhava em Jidá; o ataque fatal aconteceu quando passava por Riade.
Mortes em conflitos aumentam o peso sobre as famílias
Shahed foi o 11º bangladeshiano morto em conflitos no Oriente Médio cujo corpo foi levado de volta ao país nos seis meses anteriores, afirmou Shama. Três bangladeshianos haviam morrido em ataques com mísseis na Arábia Saudita no mês anterior.
O corpo dele foi o que retornou naquela sexta-feira. Segundo a ministra, o governo estava organizando o retorno dos demais. Para as famílias envolvidas, a repatriação significa trazer os restos mortais de seus parentes de volta a Bangladesh para o sepultamento, enquanto lidam com a perda de alguém que trabalhava no exterior.
Mais de quatro milhões de bangladeshianos trabalham na Arábia Saudita, afirmou Shama. O tamanho dessa força de trabalho significa que ataques, interrupções de viagens e problemas com documentos oficiais podem afetar muitas famílias de Bangladesh, além dos próprios trabalhadores.
A ministra pediu o fim da guerra no Oriente Médio e manifestou a esperança de que bangladeshianos e pessoas de todas as nacionalidades sejam poupados de ataques desse tipo.
Trabalhadores retidos buscam vistos e empregos
Bangladesh está discutindo com a Arábia Saudita a prorrogação de vistos e iqamas para trabalhadores que não conseguem voltar ao emprego por causa do conflito regional. As conversas também abrangem a renovação de vistos, a reinserção profissional e oportunidades de emprego para bangladeshianos que perderam o trabalho no exterior.
Um visto permite que alguém entre ou permaneça em um país sob condições específicas. Um iqama comprova a residência na Arábia Saudita. Trabalhadores retidos em Bangladesh talvez precisem regularizar esses documentos antes de retomar o emprego, por isso as conversas do governo tratam tanto da autorização para voltar quanto da possibilidade de trabalhar novamente.
Shama afirmou que as missões de Bangladesh têm setores de assistência trabalhista onde expatriados podem registrar reclamações. Funcionários designados pelos ministérios responsáveis pelo bem-estar dos expatriados ou pelo trabalho atuam nesses setores.
Segundo ela, prestar assistência aos expatriados é uma responsabilidade tanto do governo quanto de suas missões. As promessas de investigar casos de negligência, obter documentos judiciais e negociar a prorrogação de documentos agora constituem três frentes concretas de atuação buscadas por trabalhadores e famílias afetados.
Principais pontos
- Cerca de 7.500 bangladeshianos estão presos na Arábia Saudita, segundo a ministra de Estado Shama Obaed Islam.
- Nazrul Islam Abdul Bashir e Sweety Akhtar foram executados em Meca em 14 de outubro de 2026.
- Bangladesh afirma que suas missões não receberam aviso prévio e solicitou as sentenças e detalhes dos processos.
- Um memorando consular registra acusações distintas no momento das detenções, em agosto de 2023; as autoridades aguardam os documentos judiciais finais.
- O corpo de Shahed Ahmed voltou a Daca em 23 de outubro, após sua morte no ataque ao aeroporto de Riade.
- Bangladesh também discute a prorrogação de vistos e iqamas, oportunidades de emprego e assistência a trabalhadores afetados pelo conflito no Oriente Médio.






