Primeira destinação, ainda sujeita a outra aprovação
O Fundo das Nações Unidas para Responder a Perdas e Danos reservou provisoriamente US$ 21,6 milhões para o Nepal em 22 de outubro de 2026, após as devastadoras inundações de 26 de agosto no sistema dos rios Bhote Koshi e Trishuli. O pacote inclui US$ 20 milhões para assistência e US$ 1,6 milhão para supervisão e acompanhamento, totalizando cerca de 3,26 bilhões de rúpias nepalesas.
Conteúdo
- Primeira destinação, ainda sujeita a outra aprovação
- O que as inundações destruíram
- Como o Nepal conseguiu uma análise excepcional
- O que o Nepal precisa apresentar agora
- Até onde o dinheiro pode chegar
- Por que os integrantes do conselho discutiram o precedente
- Um fundo diante de pedidos muito acima de seus recursos
- Outras formas de assistência e a relação com o clima
- As próximas decisões
- Principais pontos
A decisão foi tomada 57 dias após o desastre, na primeira reunião extraordinária do conselho do fundo. Foi a primeira vez que o fundo destinou recursos a um país específico desde sua criação, no âmbito das negociações climáticas da ONU de 2022 e 2023.
Agora, o Nepal precisa apresentar uma proposta formal explicando como a assistência será utilizada, de que forma as comunidades afetadas serão beneficiadas e qual organização administrará os recursos. O conselho precisa aprovar a proposta para que o processo de liberação possa avançar. Não há uma data definida para o Nepal receber o dinheiro.
Os US$ 20 milhões destinados à assistência equivalem a cerca de 0,42% dos US$ 4,78 bilhões estimados pelo governo para as necessidades de recuperação e reconstrução. Assim, quase todo o custo da reconstrução ainda terá de ser financiado por outras fontes.
Camila Minerva Rodriguez Tavarez, copresidente dominicana do conselho do fundo, anunciou a decisão depois que os participantes da reunião virtual chegaram a um acordo:
Não havendo objeções, a decisão está aprovada.
Para as famílias que perderam casas, escolas, estradas e meios de subsistência, a tarefa imediata é transformar esse compromisso financeiro em um programa aprovado. Para o fundo, a questão mais ampla é saber se o caminho excepcional adotado pelo Nepal pode ajudar a definir uma resposta mais rápida a futuros desastres.
O que as inundações destruíram
O desastre começou quando uma grande massa de rocha e gelo glacial desabou na região de Langtang Lirung, no distrito de Rasuwa, perto da fronteira do Nepal com a China. Água, gelo, rochas e detritos avançaram pelo sistema dos rios Bhote Koshi e Trishuli, devastando comunidades em Rasuwa e Nuwakot.
O Ministério da Agricultura, Florestas e Meio Ambiente do Nepal informou que o número de mortos passou de 1.500, com mais de 5.000 pessoas desaparecidas e mais de 60 mil diretamente afetadas em aproximadamente 15 mil domicílios. Em um comunicado, o diretor de Serviços de Projetos da ONU, Jorge Moreira da Silva, estimou em cerca de 100 mil o total de pessoas afetadas, incluindo mais de 30 mil crianças, e informou que havia 5.600 desaparecidos. Outro balanço publicado apontou mais de 2.000 mortos.
Moreira da Silva descreveu a destruição após acompanhar equipes do UNOPS no Nepal. Sobreviventes lhe contaram que uma onda com mais de 100 metros de altura, deslocando-se a 180 quilômetros por hora, devastou 60 quilômetros de vale.
O chefe do UNOPS explicou a dimensão do desastre em termos diretos:
Não estamos diante de uma inundação comum.
Em seu comunicado, ele informou que mais de 100 pontes desabaram, 13 barragens hidrelétricas foram destruídas e 23 escolas foram arrasadas. Cerca de 2,2 milhões de toneladas de detritos e sedimentos cobriram locais antes ocupados por casas, estradas, escolas e rios.
A destruição das pontes transformou os deslocamentos cotidianos. Moreira da Silva afirmou que uma caminhada que antes levava alguns minutos agora pode durar 12 horas. Por isso, reconstruir as conexões de transporte tem impacto que vai muito além da locomoção: determina o acesso a salas de aula, atendimento médico, mercados e materiais de reconstrução.
Como o Nepal conseguiu uma análise excepcional
O ministro das Finanças, Swarnim Wagle, e a ministra da Agricultura, Florestas e Meio Ambiente, Gita Chaudhary, enviaram uma carta conjunta ao fundo em 31 de agosto, cinco dias após as inundações, solicitando assistência urgente. O Nepal não pediu uma destinação específica de US$ 20 milhões. Esse valor foi definido dentro dos limites do programa inicial de assistência do fundo.
Quatorze integrantes do conselho, representantes dos países menos desenvolvidos, de Estados africanos e de países da região Ásia-Pacífico, apoiaram o pedido de uma reunião de emergência. Representantes da América Latina, do Caribe e dos pequenos Estados insulares em desenvolvimento também apoiaram uma resposta urgente. Seguiram-se várias rodadas de discussões formais e informais.
As principais datas mostram como o pedido passou da resposta ao desastre para o processo decisório do fundo:
- 26 de agosto de 2026: O desabamento na região de Langtang Lirung provocou as inundações destrutivas.
- 31 de agosto: Wagle e Chaudhary enviaram o apelo conjunto por assistência urgente.
- 22 de outubro: O conselho reservou provisoriamente US$ 21,6 milhões e convidou o Nepal a apresentar uma proposta formal fora do período habitual de inscrições.
- Dezembro: A expectativa é que o conselho analise seus primeiros projetos e discuta seu modelo de funcionamento de longo prazo em uma reunião nas Filipinas.
Wagle, ministro das Finanças do Nepal, celebrou a resposta à carta conjunta:
É muito bem-vindo o fato de terem convocado essa reunião de emergência em resposta à nossa carta e comprometido US$ 20 milhões em recursos não reembolsáveis.
O que o Nepal precisa apresentar agora
O Nepal preparará sua proposta com base nas Modalidades de Implementação de Barbados, as regras que regem a fase inicial de assistência do fundo. A decisão excepcional permite que o país participe do processo mesmo após o encerramento do prazo regular para apresentação de propostas.
A proposta deverá transformar o objetivo amplo de prestar socorro, promover a reabilitação e reconstruir em um programa que o conselho possa avaliar. O Nepal precisa identificar as atividades que receberão financiamento, as comunidades beneficiadas e a instituição responsável pela gestão dos recursos.
Maheshwor Dhakal, porta-voz do Ministério da Agricultura, Florestas e Meio Ambiente do Nepal e membro suplente do conselho do fundo, descreveu a próxima etapa:
Com base nas diretrizes e nos procedimentos fornecidos pelo secretariado do Fundo para Perdas e Danos, o Nepal preparará e apresentará uma proposta de programa para enfrentar perdas e danos causados por desastres relacionados ao clima.
Os US$ 1,6 milhão adicionais se destinam à supervisão, ao acompanhamento e a funções administrativas relacionadas. O valor reservado provisoriamente para assistência nas áreas afetadas é de US$ 20 milhões, o limite atual para uma solicitação individual.
Dhakal também descreveu a decisão do conselho como um reconhecimento do sofrimento e da dignidade das vítimas. Para o governo, concluir a proposta é agora o caminho prático para transformar esse reconhecimento em financiamento para os trabalhos de recuperação.
Até onde o dinheiro pode chegar
A avaliação preliminar do Nepal separa aproximadamente US$ 1,8 bilhão em danos físicos de US$ 883 milhões em perdas econômicas. Os danos físicos abrangem bens como edifícios, pontes e infraestrutura elétrica. As perdas econômicas incluem a renda e a produção interrompidas quando esses bens deixam de funcionar.
Somados, esses valores chegam a cerca de US$ 2,68 bilhões. A destinação de US$ 20 milhões representa aproximadamente 0,75% desse total, geralmente expressos como cerca de 0,7% em relação à estimativa arredondada de US$ 2,7 bilhões.
O custo estimado da recuperação e da reconstrução é maior: aproximadamente US$ 4,78 bilhões, ou 723 bilhões de rúpias nepalesas. Em relação a essa necessidade, os mesmos US$ 20 milhões representam cerca de 0,42%. Os dois percentuais respondem a perguntas diferentes: um compara o valor aos danos e à atividade econômica perdida; o outro, ao custo da recuperação.
A estimativa inicial do governo apontou US$ 57,67 milhões para socorro imediato e reconstrução nos primeiros seis meses, além de aproximadamente US$ 4,71 bilhões para a reconstrução em um período mais longo. Se todo o valor fosse destinado a essa finalidade, os US$ 20 milhões reservados provisoriamente equivaleriam a cerca de 35% da necessidade imediata, embora o programa do Nepal ainda não tenha definido as prioridades de gastos.
O Nepal continua avaliando todas as perdas econômicas e de outros tipos enquanto prepara seu plano de recuperação com o apoio da ONU e de bancos multilaterais de desenvolvimento. Moreira da Silva estimou que as necessidades de recuperação equivalem a cerca de 10% do produto interno bruto do Nepal, medida da produção econômica anual do país.
Por que os integrantes do conselho discutiram o precedente
Os integrantes do conselho apoiaram por unanimidade a decisão sobre o Nepal, mas divergiram quanto ao que ela deveria significar para outros países. Alemanha e Tchéquia se opuseram a tratar o acordo como precedente. O Japão ressaltou que a assistência deve seguir as regras e os procedimentos estabelecidos.
Oito representantes, quatro de países desenvolvidos e quatro de países em desenvolvimento, negociaram o acordo. Ali Tauqeer Sheikh, representante do Paquistão no conselho, descreveu o caminho resultante como uma oportunidade disponível uma única vez e exclusivamente para o Nepal, mais restrita do que os países em desenvolvimento haviam solicitado.
Jan Dusik, representante da Tchéquia e da União Europeia no conselho, afirmou que o acordo poderia orientar o trabalho futuro, embora continue sendo excepcional:
Por um lado, isso não constitui um precedente, mas, por outro, oferece aprendizados para o desenvolvimento do modelo de longo prazo do fundo.
Sheikh pediu aos integrantes que permitam que a experiência do Nepal contribua para o trabalho sobre pagamentos mais rápidos:
Por favor, não estabeleçam limites para o aprendizado.
Walter Schuldt, do Equador, também apoiou uma análise sem restrições das lições aprendidas. A decisão instrui o secretariado a examinar a experiência do Nepal, enquanto a elaboração de um mecanismo permanente de assistência rápida ainda será discutida pelo conselho no futuro.
Um fundo diante de pedidos muito acima de seus recursos
O programa inicial de assistência do fundo dispõe de US$ 342 milhões. Até 29 de junho, havia recebido 176 solicitações relacionadas a 119 países, que pediam aproximadamente US$ 2,8 bilhões. O total solicitado supera em mais de oito vezes o orçamento do programa.
Os países desenvolvidos haviam prometido US$ 822 milhões ao fundo, dos quais US$ 629,68 milhões tinham sido recebidos. A diferença é de US$ 192,32 milhões, ou seja, cerca de 23% do valor prometido ainda não havia chegado. No momento da decisão sobre o Nepal, o fundo não tinha feito nenhum desembolso.
Promessas, contribuições pagas e dotações de programas correspondem a diferentes etapas do financiamento. Uma promessa é um compromisso de contribuição. Uma contribuição paga é um valor recebido pelo fundo. Uma dotação de programa é o montante reservado para uma rodada de financiamento ou finalidade específica.
Tasneem Essop, diretora-executiva da Climate Action Network International, pediu aos governos que transformem seus compromissos em recursos disponíveis:
Promessas no papel não reconstroem casas nem restauram vidas. Esses compromissos precisam se transformar urgentemente em recursos, e o fundo precisa receber novas contribuições em escala compatível com a dimensão desta crise.
Harjeet Singh, coordenador global da campanha Fill the Fund e diretor fundador da Satat Sampada Climate Foundation, defendeu um mecanismo permanente, em vez de negociações excepcionais repetidas:
Precisamos criar um sistema permanente de resposta rápida que libere apoio em dias, não em meses.
Outras formas de assistência e a relação com o clima
A ONU e organizações humanitárias parceiras lançaram um apelo emergencial de US$ 49,6 milhões após o desastre. Mais tarde, Moreira da Silva afirmou que o apelo, arredondado para US$ 50 milhões, havia arrecadado US$ 24,5 milhões, cerca de metade da meta. Em setembro, os Estados Unidos anunciaram mais US$ 31 milhões em apoio à recuperação após as inundações.
Essas iniciativas atendem às necessidades urgentes, paralelamente à necessidade muito maior de reconstrução do Nepal. O governo pediu apoio a parceiros de desenvolvimento, empresas e outras organizações e está planejando uma conferência de doadores.
Estudos científicos citados em relação ao desastre descrevem várias formas pelas quais o aquecimento pode aumentar os riscos nas montanhas. Temperaturas mais altas aceleram a perda de geleiras e o derretimento do gelo retido em fraturas nas rochas, enfraquecendo encostas. Quando rochas e gelo desabam na água ou sobre uma geleira, a enxurrada resultante pode carregar grandes quantidades de detritos rio abaixo.
Uma avaliação de setembro da World Weather Attribution identificou as mudanças climáticas como um dos principais fatores contribuintes. A sequência física envolveu vários processos interligados, incluindo o deslizamento de encostas, as condições das geleiras e o deslocamento de água e detritos pelos vales.
Moreira da Silva citou a estimativa de que o Nepal responde por 0,08% das emissões globais de gases de efeito estufa ao defender que o país receba ajuda internacional para a recuperação. Ele pediu investimentos em sistemas de alerta, infraestrutura capaz de resistir aos riscos climáticos e planejamento mais seguro.
As próximas decisões
É esperado que o conselho analise as primeiras aprovações de projetos e debata o modelo de longo prazo do fundo, incluindo a rapidez com que a assistência pode ser liberada após desastres, durante sua reunião de dezembro nas Filipinas. A experiência do Nepal oferecerá aos integrantes um caso concreto para análise: um apelo urgente, uma reunião excepcional e uma destinação provisória que ainda depende da apresentação de uma proposta de programa.
A 11ª reunião do conselho do fundo também está prevista para ocorrer em Katmandu, em março de 2027. O ministério do Nepal anunciou as datas de 17 a 19 de março; outros calendários publicados indicam o período de 9 a 19 de março. As datas do ministério apontam para um intervalo mais curto para a reunião.
Ajay Mathur, ex-negociador indiano para questões climáticas e ex-diretor-geral da International Solar Alliance, saudou a medida operacional, mas pediu apoio mais rápido. Raju Chhetri, principal negociador de financiamento climático dos países menos desenvolvidos, descreveu o acordo como uma demonstração de que os países podem chegar a um consenso efetivo sobre necessidades urgentes.
Para o Nepal, o próximo marco concreto é a apresentação e a aprovação do programa. Para o conselho, o debate de dezembro abordará se as respostas a futuros desastres poderão seguir um processo rápido já estabelecido, em vez de depender de outra negociação excepcional.
Principais pontos
- O fundo reservou provisoriamente US$ 21,6 milhões para o Nepal em 22 de outubro, incluindo US$ 20 milhões para assistência e US$ 1,6 milhão para supervisão.
- O Nepal precisa apresentar uma proposta formal de programa e obter a aprovação do conselho antes que o processo de liberação avance.
- Os US$ 20 milhões equivalem a cerca de 0,42% dos US$ 4,78 bilhões estimados para a recuperação e a reconstrução do Nepal.
- As inundações de 26 de agosto devastaram casas, pontes, escolas, unidades de saúde e infraestrutura hidrelétrica.
- O programa inicial do fundo, de US$ 342 milhões, enfrenta solicitações que totalizam aproximadamente US$ 2,8 bilhões.
- Em dezembro, nas Filipinas, o conselho discutirá seu modelo de longo prazo, incluindo a liberação rápida de recursos.






