Pashinyan estabelece prazo para transformar texto acordado em tratado
O primeiro-ministro da Armênia, Nikol Pashinyan, estabeleceu como meta assinar e ratificar um tratado de paz com o Azerbaijão antes de 2031, definindo um prazo para um acordo que continua inacabado mais de um ano depois de os dois países rubricarem o texto em Washington.
Conteúdo
- Pashinyan estabelece prazo para transformar texto acordado em tratado
- O que o acordo de paz mudaria
- Por que a Constituição da Armênia continua sendo um obstáculo
- Da vitória militar a um prazo para a paz
- Pashinyan propõe uma fronteira sem enclaves
- Rotas de transporte fazem parte da mesma negociação
- Guterres apoia o acordo em Yerevan
- Prisioneiros e famílias deslocadas continuam sendo preocupações centrais
- Encerrar reivindicações mútuas e manter outras prioridades em andamento
- Pontos principais
Em uma reunião do Gabinete transmitida pela televisão em 15 de outubro de 2026, Pashinyan descreveu o tratado como uma tarefa central para seu governo e para ele pessoalmente. O programa de sua administração para 2026 a 2031 prioriza dar uma base institucional duradoura à paz entre os países vizinhos e concluir o acordo.
Pashinyan disse aos ministros que considera viável cumprir o prazo:
"Estabeleci para mim uma tarefa, um prazo específico, para resolver a questão antes de 2031", afirmou.
O anúncio reúne várias questões ainda sem solução: a exigência do Azerbaijão de que a Armênia altere sua Constituição, o trabalho prático de delimitação da fronteira, a reabertura de rotas de transporte e as preocupações humanitárias após décadas de conflito em torno de Karabakh.
Armênia e Azerbaijão travaram duas guerras pela região, reconhecida internacionalmente como parte do Azerbaijão. O Azerbaijão retomou o controle total em setembro de 2023, após uma ofensiva militar que levou à saída da população de etnia armênia.
O que o acordo de paz mudaria
Pashinyan e o presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, rubricaram o acordo em uma cúpula na Casa Branca, organizada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em 8 de agosto de 2025. O texto compromete os países a reconhecer a soberania e a integridade territorial um do outro, renunciar a reivindicações territoriais e estabelecer relações diplomáticas formais.
Rubricar um texto registra o acordo sobre sua redação. A assinatura formal e a ratificação são etapas posteriores, sendo que a ratificação representa a aprovação segundo os procedimentos internos de cada país. O prazo de Pashinyan abrange essas duas etapas restantes.
Para a Armênia e o Azerbaijão, o tratado proposto criaria uma base formal para as relações após anos em que o conflito territorial moldou os vínculos entre os países. Relações diplomáticas dariam aos governos um canal estabelecido para lidar com disputas e conduzir assuntos de rotina.
Não foi anunciada uma data para a cerimônia de assinatura nem para um referendo constitucional na Armênia. A meta para 2031 é o objetivo declarado por Pashinyan; ainda não foi anunciado um cronograma conjunto para concluir o tratado.
Por que a Constituição da Armênia continua sendo um obstáculo
O Azerbaijão quer que a Armênia altere sua Constituição antes de assinar o tratado. Baku argumenta que a referência, na Constituição, à declaração de independência da Armênia, que defende a unificação com Karabakh, equivale a uma reivindicação territorial contra o Azerbaijão.
A Armênia rejeita essa interpretação. Yerevan sustenta que o texto acordado do tratado já responde às preocupações sobre reivindicações territoriais ao comprometer ambos os países a reconhecer o território um do outro e a renunciar a tais reivindicações.
A divergência diz respeito às garantias necessárias para concluir o acordo. O Azerbaijão quer uma mudança na estrutura constitucional da Armênia, enquanto a Armênia aponta para os compromissos incluídos no próprio tratado.
Qualquer emenda constitucional exigiria aprovação em um referendo nacional. Isso leva uma parte importante da exigência do Azerbaijão aos eleitores armênios, em vez de deixar a decisão exclusivamente nas mãos das negociações entre os dois governos. Portanto, concluir o tratado envolve decisões políticas internas, além de negociações diplomáticas.
Da vitória militar a um prazo para a paz
As negociações atuais ocorrem após uma mudança drástica no controle de Karabakh e uma iniciativa subsequente para transformar esse resultado em um acordo formal entre Estados.
- Setembro de 2023: o Azerbaijão retomou o controle total de Karabakh em uma ofensiva militar, seguida pelo êxodo de mais de 100 mil pessoas de etnia armênia.
- 8 de agosto de 2025: Pashinyan e Aliyev rubricaram o acordo de paz na cúpula da Casa Branca organizada por Trump.
- 14 de outubro de 2026: Pashinyan publicou um vídeo apresentando sua visão para as fronteiras, as trocas territoriais e as rotas de transporte abertas após a assinatura de um tratado.
- 15 de outubro de 2026: Pashinyan apresentou sua meta de assinar e ratificar o tratado antes de 2031 e se reuniu com o secretário-geral da ONU, António Guterres, em Yerevan.
A próxima etapa exige decisões políticas sobre as divergências restantes, além do trabalho prático de delimitação da fronteira e retomada das conexões de transporte.
Pashinyan propõe uma fronteira sem enclaves
O vídeo de Pashinyan de 14 de outubro foi além do cronograma para o tratado. Ele descreveu um futuro em que a Armênia teria um território de 29.743 quilômetros quadrados e a fronteira seria delimitada e demarcada com base na Declaração de Alma-Ata.
Delimitação significa acordar o traçado de uma fronteira, geralmente por meio de mapas e descrições legais. Demarcação significa marcar no terreno a linha acordada. Pashinyan mencionou a declaração como base para realizar as duas tarefas.
Ele também propôs eliminar enclaves e exclaves por meio de trocas recíprocas de território com áreas precisamente equivalentes. Um enclave é um pedaço do território de um país cercado por outro país; do ponto de vista do país a que pertence, é um exclave.
Essas trocas poderiam eliminar áreas territoriais isoladas e facilitar o acesso para os países envolvidos. Ainda assim, seria necessário chegar a um acordo sobre as áreas exatas. Pashinyan apresentou essa proposta como sua visão para a paz após a assinatura e a ratificação, com a implementação dependendo de negociações com o Azerbaijão.
Pashinyan disse que suas conversas com Aliyev no Turcomenistão lhe deram a impressão preliminar de que esse tipo de acordo poderia ser viável. Sua linguagem foi cautelosa: descreveu uma oportunidade que os governos precisariam transformar em realidade.
Rotas de transporte fazem parte da mesma negociação
A Rota Trump para a Paz e a Prosperidade Internacional, conhecida pela sigla TRIPP, é outra prioridade na agenda de Pashinyan. A conexão de transporte proposta ligaria o Azerbaijão continental a Nakhchivan por meio do sul da Armênia.
Nakhchivan está separada do restante do Azerbaijão. Uma rota pela Armênia conectaria os dois territórios, tornando os acordos para a circulação pelo território armênio centrais para o projeto.
A proposta mais ampla de Pashinyan prevê que estradas e outras conexões de transporte também funcionem além da TRIPP. Ele descreveu um acesso recíproco: deslocamentos de uma parte da Armênia para outra pelo Azerbaijão e de uma parte do Azerbaijão para outra pela Armênia.
A Armênia também promoveu a conectividade regional por meio da iniciativa Encruzilhada da Paz. Em todas essas propostas, o objetivo prático é reabrir conexões que possam favorecer a circulação, o comércio e a cooperação econômica.
Para pessoas e empresas, os benefícios dependeriam de as rotas se tornarem de fato utilizáveis segundo os acordos estabelecidos. Um tratado, um acordo sobre as fronteiras e os acordos de transporte atenderiam a diferentes partes dessa tarefa. A região também atrai interesses concorrentes da Rússia, da Turquia e do Irã, o que dá à reabertura das rotas uma importância diplomática mais ampla.
Guterres apoia o acordo em Yerevan
O secretário-geral da ONU, António Guterres, manifestou apoio ao processo de paz durante sua visita a Yerevan em 15 de outubro. Ele estava na Armênia para a cúpula ligada à COP17, a conferência das Nações Unidas sobre biodiversidade sediada na cidade.
Guterres se reuniu com Pashinyan para discutir os acontecimentos regionais, a conclusão do acordo de paz e a TRIPP. As conversas relacionaram o processo diplomático aos esforços para reabrir as conexões de transporte regionais e promover a cooperação.
Em uma entrevista coletiva, Guterres foi questionado sobre os prisioneiros armênios detidos em Baku e as perspectivas de paz enquanto eles permanecessem presos. O chefe da ONU respondeu reafirmando seu apoio ao acordo:
"Sou um forte defensor do acordo de paz", afirmou.
Guterres também manifestou esperança de que tanto o tratado quanto os problemas pendentes fossem resolvidos rapidamente:
"Tenho muita esperança de que as coisas avancem rapidamente para concluir o acordo de paz e resolver todos os problemas pendentes, que são de fato lamentáveis", acrescentou.
Sua resposta pediu avanços nas questões ainda sem solução, sem exigir explicitamente a libertação dos detidos armênios.
Prisioneiros e famílias deslocadas continuam sendo preocupações centrais
Entre os detidos armênios no Azerbaijão estão ex-líderes políticos e militares da administração armênia em Karabakh. Sua permanência na prisão continua sendo uma preocupação humanitária, paralelamente às negociações sobre as relações entre os países.
Mais de 100 mil armênios deslocados de Karabakh em 2023 também continuam afetados por questões não resolvidas relacionadas a seus direitos. A região, conhecida pelos armênios como Artsakh, era habitada por uma população de etnia armênia antes da ofensiva do Azerbaijão e do êxodo que se seguiu.
A pergunta feita a Guterres levou essas consequências humanas diretamente à discussão do tratado. Para as famílias que aguardam o retorno dos detidos e para as pessoas deslocadas de suas casas, os avanços incluem resultados concretos, além de compromissos diplomáticos.
O tratado planejado trata de soberania, reivindicações territoriais e relações entre governos. As decisões relativas aos prisioneiros e às pessoas deslocadas continuam fazendo parte do esforço mais amplo para resolver as consequências do conflito.
Encerrar reivindicações mútuas e manter outras prioridades em andamento
A visão de Pashinyan prevê que ambos os governos deixem de fazer reivindicações territoriais ou políticas um contra o outro. Ele citou Karabakh, Gardman, Shirvan, Nakhchivan e o Azerbaijão Ocidental entre os termos que não deveriam mais servir de base para tais reivindicações.
Essa proposta vincula a promessa do tratado de renunciar a reivindicações territoriais à conduta futura dos dois governos. Um acordo duradouro exigiria consenso sobre o território e um compromisso contínuo de conduzir as relações dentro desse quadro.
Na reunião do Gabinete, Pashinyan afirmou que a busca pelo tratado deveria avançar paralelamente à TRIPP, ao desenvolvimento econômico, à abertura de conexões de transporte e aos programas governamentais em andamento. Ele descreveu a conclusão do acordo como o encerramento de um capítulo importante da história armênia e o início de outro.
Agora, o governo tem uma meta pública pela qual seu progresso pode ser medido. Alcançá-la exigirá um acordo com o Azerbaijão sobre as condições restantes, aprovação segundo os procedimentos internos e medidas práticas que façam a paz prometida funcionar para além do texto do tratado.
Pontos principais
- Pashinyan pretende assinar e ratificar o tratado de paz com o Azerbaijão antes de 2031.
- O acordo foi rubricado em Washington em 8 de agosto de 2025, mas continua sem assinatura e ratificação.
- O Azerbaijão exige mudanças constitucionais na Armênia, enquanto Yerevan afirma que o tratado já oferece garantias suficientes contra reivindicações territoriais.
- Pashinyan propõe fronteiras definidas, trocas territoriais recíprocas e rotas de transporte abertas, incluindo a TRIPP.
- Guterres apoia a conclusão do acordo e a resolução dos problemas pendentes.
- Os detidos armênios no Azerbaijão e mais de 100 mil pessoas deslocadas de Karabakh continuam sendo importantes preocupações humanitárias.






