Um novo relato, com horários precisos e uma sequência diferente
O livro didático de Bangladesh para o 7º ano de 2027 dirá que o major Ziaur Rahman declarou a independência a soldados bengalis às 2h15 de 26 de março de 1971, seguido por uma declaração transmitida pelo rádio às 18h30 de 27 de março. O trecho revisado representa mais uma mudança na forma como os estudantes aprendem sobre a fundação do país, após diferentes relatos durante o governo da Liga Awami e a administração interina que o sucedeu.
Conteúdo
- Um novo relato, com horários precisos e uma sequência diferente
- O que diz o trecho sobre a independência no livro de 2027
- Comparação entre as três versões dos livros didáticos
- Um ciclo prolongado de mudanças após eleições e turbulências
- Mais detalhes sobre a Guerra de Libertação e sua organização
- História política de 1975 ao levante de julho
- Quatro novos livros antes de uma possível reformulação do currículo
- Dados de entrega mostram diferença entre etapas de ensino
- Apelos por evidências e regras que resistam às mudanças de governo
- Principais pontos
O Conselho Nacional de Currículo e Livros Didáticos (NCTB) está preparando aproximadamente 310 milhões de livros para cerca de 40 milhões de estudantes no próximo ano letivo. Um documento do conselho lista 14 inclusões ou revisões em Literatura Bengalês, Bangladesh e Estudos Globais e História de Bangladesh e da Civilização Mundial, do 3º ao 10º ano.
As mudanças vão além da declaração de independência. Os estudantes terão mais conteúdo sobre a organização da Guerra de Libertação, o ex-presidente Ziaur Rahman, a ex-primeira-ministra Khaleda Zia, os acontecimentos de 7 de novembro de 1975, a revolta popular de 1990 e o levante de julho de 2024, que levou à queda do governo da Liga Awami.
Sob o governo do Partido Nacionalista de Bangladesh (BNP), a iniciativa cumpre uma promessa eleitoral de apresentar o que o governo descreve como uma história precisa da Guerra de Libertação. Historiadores e especialistas em educação pedem relatos baseados em evidências documentais e regras que permaneçam estáveis quando os governos mudam.
A impressão já está em andamento, o que cria um prazo prático em meio ao debate sobre o conteúdo histórico. Dados de entrega divulgados em 8 de outubro de 2026 mostravam que aproximadamente 13% dos livros do ensino secundário haviam chegado aos destinos, enquanto nenhum livro do 9º e do 10º ano havia sido entregue.
O que diz o trecho sobre a independência no livro de 2027
O primeiro capítulo do livro Bangladesh e Estudos Globais do 7º ano de 2027, intitulado A luta de Bangladesh pela liberdade e o movimento popular, descreve o ataque do Exército paquistanês a bengalis desarmados na noite de 25 de março de 1971. O texto diz que a notícia do ataque ao quartel da polícia de Rajarbagh, em Daca, se espalhou por mensagens via rádio e que Sheikh Mujibur Rahman foi preso naquela noite.
O relato revisado descreve então uma população sem liderança. Identifica Zia como o segundo na hierarquia do 8º Regimento de Bengala Oriental e diz que ele se rebelou em Chattogram após saber dos assassinatos. Segundo o trecho, ele reuniu os oficiais e soldados bengalis do batalhão às 2h15 de 26 de março e declarou a independência e o início da guerra.
O livro situa a declaração seguinte na Swadhin Bangla Betar Kendra, a emissora de rádio da independência instalada em Kalurghat, em Chattogram. O texto diz que Zia declarou a independência às 18h30 de 27 de março como presidente provisório e comandante-chefe do Exército de Libertação.
O trecho descreve um anúncio posterior pelo rádio em nome de Sheikh Mujib, com Zia falando como comandante-chefe provisório do Exército de Libertação de Bangladesh. Não informa a data nem o horário desse anúncio posterior. A sequência revisada, portanto, distingue uma declaração inicial aos soldados das transmissões posteriores, dando mais destaque às funções militares e radiofônicas de Zia.
Comparação entre as três versões dos livros didáticos
O livro do 7º ano de 2022, publicado durante o governo da Liga Awami, atribuía a Sheikh Mujib a declaração de independência, feita antes de sua prisão, nas primeiras horas de 26 de março. O trecho passava diretamente dessa declaração ao início da Guerra de Libertação, sem mencionar Zia nessa parte do relato.
A versão do governo interino, por sua vez, afirmava que Zia declarou a independência na estação de rádio de Kalurghat em 26 de março e fez outra declaração em nome de Sheikh Mujib em 27 de março. Essa formulação apareceu nos livros de 2025 e também consta do livro do 7º ano usado em 2026.
O professor A.K.M. Reazul Hassan, presidente do NCTB quando as mudanças de 2025 foram anunciadas, descreveu a nova formulação na época:
em 26 de março de 1971, Ziaur Rahman declarou a independência de Bangladesh e, em 27 de março, fez outra declaração de independência em nome de Bangabandhu
A versão de 2027 acrescenta horários precisos, uma declaração inicial dentro do batalhão de Zia e uma transmissão em 27 de março na qual ele é descrito como reivindicando a liderança provisória. Diferentemente da versão interina, ela situa a declaração de 26 de março entre os soldados, e não na estação de rádio de Kalurghat. Os três trechos mantêm 16 de dezembro de 1971 como a data da vitória e o número de três milhões de mortos apresentado no livro didático.
A comparação usa o livro de 2022 como referência do período da Liga Awami porque os livros de Bangladesh e Estudos Globais do 7º ano de 2023 e 2024 não estavam disponíveis no site do NCTB. As mudanças de 2025 também retiraram o título de Pai da Nação de Sheikh Mujib, ampliando a revisão para além do trecho sobre a declaração e alterando a forma como ele era identificado.
Um ciclo prolongado de mudanças após eleições e turbulências
As revisões dos livros didáticos de Bangladesh acompanham mudanças políticas há décadas. A reformulação mais recente dá continuidade a um padrão em que os governos alteram o espaço dedicado aos líderes nacionais e a maneira como suas contribuições são descritas.
- 1996: Após a Liga Awami assumir o governo, os livros didáticos incluíram conteúdo sobre a Guerra de Libertação relacionado a Sheikh Mujib e aos quatro líderes nacionais.
- 2001: O governo do BNP removeu ou reduziu as referências a Sheikh Mujib e ao seu discurso de 7 de março, enquanto deu mais destaque a Zia no relato sobre a independência.
- 2009: Após o retorno da Liga Awami, uma revisão feita por especialistas restaurou a biografia de Sheikh Mujib e seu papel na declaração, ao mesmo tempo que retirou o nome de Zia desse relato.
- A partir de agosto de 2024: O governo interino abandonou o currículo nacional de 2022 e retomou a estrutura de 2012 para o ensino secundário.
- 2025: Os livros didáticos revisados atribuíram a Zia uma declaração em 26 de março e outra, em 27 de março, em nome de Sheikh Mujib.
- 2027: Os livros previstos acrescentam uma sequência mais detalhada das declarações de Zia e ampliam a cobertura de acontecimentos políticos posteriores.
Estudantes que avançam na escola durante essas mudanças podem encontrar explicações diferentes para o mesmo acontecimento. A divergência diz respeito a quem recebe o crédito pela declaração de independência, onde ela ocorreu e como o início da resistência armada é narrado.
Mais detalhes sobre a Guerra de Libertação e sua organização
O plano do NCTB apresenta brevemente a rebelião e a declaração de Zia do 3º ao 7º ano, com uma abordagem mais completa do 8º ao 10º. O livro Bangladesh e Estudos Globais do 5º ano incluirá biografias de Zia e Khaleda Zia na seção Nossos Líderes Memoráveis.
Os estudantes do 9º e do 10º ano também lerão, em bengali, o ensaio de Zia Memórias da Guerra de Independência. Incluir um relato escrito por um participante oferece aos estudantes um tipo de texto diferente do resumo didático: uma lembrança pessoal de acontecimentos da guerra.
O 6º ano receberá um texto breve sobre os sete Bir Sreshthos, agraciados com a mais alta condecoração militar de Bangladesh por bravura. O 8º ano abordará as Brigadas da Guerra de Libertação. As revisões mais amplas também incluem os setores da guerra, ajudando a explicar como os combates foram organizados geograficamente e por meio de formações militares.
O livro de história do 9º e do 10º ano abordará a fase de organização da guerra, incluindo a reunião de Teliapara, realizada em 4 de abril de 1971. Em conjunto, essas inclusões ampliam o currículo, que passa a tratar não apenas dos líderes e das declarações, mas também das pessoas, reuniões e estruturas envolvidas na condução da guerra.
História política de 1975 ao levante de julho
Os livros do 6º ano em diante incluirão relatos cada vez mais detalhados dos acontecimentos de 7 de novembro de 1975. O documento do NCTB denomina esse conteúdo Revolução dos Sipaios e do Povo. A contribuição de Khaleda Zia para a revolta popular de 1990 aparecerá no 8º ano e nos livros do 9º e do 10º ano.
O levante de julho de 2024 será abordado em textos como A história do mártir Anas e o Museu Memorial do Levante Popular de Julho, previstos para o 4º, o 9º e o 10º ano. Conteúdos sobre o levante já haviam sido incluídos nos livros durante o governo interino.
O ministro da Educação, ANM Ehsanul Hoque Milon, disse ao Parlamento em 8 de setembro de 2026 que os estudantes receberiam relatos adequados à sua faixa etária sobre as causas e o desenrolar do levante, os assassinatos ocorridos durante o movimento, os sacrifícios dos mortos, o papel das mulheres e sua importância histórica.
Milon também disse que o livro de história do 9º e do 10º ano abordaria desaparecimentos, assassinatos, lavagem de dinheiro, o sistema eleitoral, a tragédia de Pilkhana, assassinatos de jornalistas e interferências na mídia durante o governo anterior da Liga Awami. A declaração indica os temas previstos; a redação dos capítulos determinará como esses acontecimentos serão explicados aos estudantes.
Quatro novos livros antes de uma possível reformulação do currículo
Os estudantes do 4º ano receberão dois livros adicionais: Cultura de Bangladesh e Esportes. O 6º ano receberá um livro sobre educação técnica ou profissionalizante e outro sobre aprendizagem prazerosa, descrito em inglês como Learning with Happiness.
O presidente do NCTB, professor Mohammad Fakhrul Mawla, disse que essas disciplinas foram planejadas para não aumentar a carga acadêmica dos estudantes e não seriam avaliadas pelo sistema convencional de notas. O conteúdo de bengali do 6º ano também ganhará um texto intitulado Terceira Língua, enquanto os livros de tecnologia da informação e comunicação incluirão inteligência artificial e tecnologias emergentes.
Inteligência artificial é o nome dado a sistemas computacionais capazes de realizar tarefas como reconhecer padrões, gerar textos ou fazer previsões. Sua inclusão leva uma área tecnológica em rápido desenvolvimento para o currículo escolar, ao lado das revisões de história.
Mawla descreveu o trabalho para 2027 principalmente como um conjunto de inclusões e revisões nos livros existentes, deixando qualquer reformulação de maior porte para o currículo de 2028:
Não houve muitas mudanças. A grande mudança, se houver, virá com o currículo de 2028.
O Comitê Central de Desenvolvimento e Revisão Curricular do NCTB deveria começar a trabalhar em outubro de 2026. Um currículo estabelece o plano mais amplo do que os estudantes aprendem e de como o aprendizado é organizado; revisar um livro didático altera o material dentro desse plano. O conselho está dando andamento aos livros de 2027 enquanto prepara a revisão mais ampla para 2028.
Dados de entrega mostram diferença entre etapas de ensino
O integrante do NCTB responsável pelos livros didáticos, professor Mohammad Abu Naser, informou que 84% dos livros para a etapa anterior ao 1º ano haviam sido impressos e entregues. A entrega alcançou 64% no 1º ano, 63% no 2º, 51% no 3º, 26% no 4º e 21% no 5º.
As entregas para o ensino secundário estavam muito mais atrasadas, em aproximadamente 13%. Os números eram de 18% para o 6º ano, 17% para o 7º e 2% para o 8º, enquanto nenhum livro havia sido entregue para o 9º e o 10º ano. Na etapa ibtedayi, o nível primário da educação em madraças, as entregas chegaram a 41%.
A diferença entre as entregas para a etapa anterior ao 1º ano e para o ensino secundário era de 71 pontos percentuais, considerando os números do conselho, de 84% e 13%. Os percentuais indicam o avanço dentro de cada categoria, enquanto o programa total de impressão abrange aproximadamente 310 milhões de livros, incluindo exemplares para estudantes de comunidades de minorias étnicas e estudantes com deficiência visual.
Naser disse que os quatro livros adicionais para o 4º e o 6º ano ainda não haviam entrado em impressão porque as ordens de serviço regulares não tinham sido emitidas. A previsão era de que os livros do ensino primário chegassem às escolas entre 15 e 20 de outubro. O prazo do conselho para entregar os livros do ensino secundário a todos os upazilas, ou subdistritos, era 30 de novembro.
Apelos por evidências e regras que resistam às mudanças de governo
O professor Siddiqur Rahman, especialista em currículo e ex-diretor e professor do Instituto de Educação e Pesquisa da Universidade de Daca, defendeu que relatos sobre a Guerra de Libertação e acontecimentos políticos posteriores sejam orientados por evidências documentais. Ele disse que as contribuições individuais devem ser apresentadas sem exagerar nem diminuir o papel de ninguém.
Rahman argumentou que os estudantes que usarão esses livros devem ter prioridade sobre os interesses políticos do governo que os prepara:
A geração atual não pertence a um único partido político. São cidadãos de Bangladesh que participarão da construção do país no futuro.
Ele defendeu que autores neutros e qualificados usem documentos e, quando pertinente, depoimentos de pessoas que testemunharam os acontecimentos. Também pediu regras permanentes do NCTB para que a preparação de livros didáticos e currículos siga os mesmos princípios, independentemente do partido no poder, em vez de ser determinada por uma promessa eleitoral.
O historiador da Guerra de Libertação Afsan Chowdhury apontou o interesse político próprio como motivo para os governos sucessivos continuarem mudando a história oficial. Ele também pediu mais atenção à história social e informal, incorporando ao estudo da guerra as experiências de pessoas que ficam de fora dos relatos oficiais do Estado.
Os dois argumentos tratam de partes diferentes do mesmo problema. A proposta de Rahman diz respeito às evidências e regras usadas para preparar os livros didáticos. A preocupação de Chowdhury é saber quais experiências ganham espaço neles. Ambos apresentam alternativas concretas à reorganização recorrente da história em torno dos líderes favorecidos pelo governo de turno.
Principais pontos
- O livro do 7º ano de 2027 marca a declaração de Zia em 26 de março às 2h15 e uma transmissão pelo rádio em 27 de março às 18h30.
- A sequência revisada difere tanto do relato da Liga Awami de 2022 quanto da formulação usada nos livros do governo interino.
- O NCTB lista 14 inclusões ou revisões em três disciplinas do 3º ao 10º ano, além de mudanças em outros livros.
- O novo conteúdo aborda a organização durante a guerra, Zia e Khaleda Zia, os acontecimentos de 1975, a revolta de 1990 e o levante de julho de 2024.
- Estão previstos quatro livros adicionais para o 4º e o 6º ano; qualquer grande mudança curricular deve ocorrer na revisão de 2028.
- Cerca de 13% dos livros do ensino secundário haviam sido entregues até a data de divulgação dos dados, em 8 de outubro. O prazo de entrega é 30 de novembro.
- Especialistas em educação e historiadores defendem evidências documentais, regras estáveis de elaboração e mais atenção à história social.






