Exclusões escolares se tornam motivo de disputa entre aliados
O governista Partido Novo Azerbaijão (YAP) repreendeu o assessor presidencial turco Oktay Saral e parlamentares do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), que governa a Turquia, por criticarem as restrições ao vestuário nas escolas. A reação veio após o Ministério do Interior do Azerbaijão anunciar 37 prisões relacionadas a incidentes envolvendo a aplicação das regras de uniforme.
Conteúdo
- Exclusões escolares se tornam motivo de disputa entre aliados
- O que as decisões sobre vestuário realmente exigem
- Como a disputa se desenvolveu
- Estudantes e professores enfrentam consequências imediatas
- O que as autoridades alegam sobre as 37 prisões
- Educação secular e direitos constitucionais
- Críticas de Saral provocam resposta contundente
- Por que Israel e Palestina entraram na declaração
- Solidariedade no exterior e advertências contra interferência
- Principais pontos
No centro da controvérsia estão a Decisão nº 309 do Conselho de Ministros, adotada em 21 de setembro, e a Decisão nº 325, adotada em 6 de outubro. Elas regulamentam, respectivamente, o vestuário de estudantes e professores das escolas públicas. Nenhuma menciona explicitamente o hijab, o véu usado por algumas mulheres muçulmanas. Ainda assim, segundo relatos, algumas escolas têm usado as exigências para impedir a entrada de meninas que o usam e instruir professoras a retirar o véu.
A resposta do YAP vai além da defesa dos uniformes escolares. O partido acusa figuras políticas turcas de interferir nos assuntos internos do Azerbaijão, rejeita críticas às relações de Baku com Israel e argumenta que os laços estreitos entre os dois países não dão a nenhum deles autoridade sobre as políticas internas do outro.
Relatos datam a declaração do partido de 13 de outubro, enquanto outra versão afirma que ela foi publicada na terça-feira. A divergência não altera o teor da resposta: o YAP classificou como irresponsáveis a intervenção de Saral e as declarações de parlamentares do AKP, e pediu que autoridades turcas respeitem a soberania do Azerbaijão.
A disputa reúne três questões distintas: se as escolas podem impedir o acesso de crianças por causa de vestimentas religiosas, como a educação secular deve coexistir com os direitos constitucionais e até onde vai a solidariedade política entre Azerbaijão e Turquia. Ainda não foi determinado quantos estudantes e professores foram afetados.
O que as decisões sobre vestuário realmente exigem
A Decisão nº 309 alterou os requisitos de uniforme estudantil aprovados originalmente pela Decisão nº 96 do Conselho de Ministros, de 17 de março de 2022. As mudanças proíbem peças adicionais que destoem do uniforme prescrito ou contrariem o princípio secular da educação geral. O primeiro-ministro Ali Asadov assinou a emenda, que também atribui aos pais a responsabilidade de garantir que os filhos cumpram as regras.
A Decisão nº 325 estabeleceu separadamente requisitos de vestuário para professores, incluindo roupas profissionais adequadas a um ambiente educacional secular. Segundo relatos, o governo afirmou que as medidas buscam manter a organização, padrões uniformes e um ambiente escolar disciplinado.
A diferença entre o texto das regras e sua aplicação é central. Um regulamento não precisa mencionar uma vestimenta religiosa para restringi-la na prática. Os relatos de meninas impedidas de entrar nas salas de aula dizem respeito à interpretação das regras por parte dos administradores, e não a uma disposição explícita que proíba o hijab.
As regras estudantis também permitem, segundo relatos, roupas que reflitam a história, a cultura e os valores nacionais e morais do Azerbaijão durante celebrações, mediante aprovação do Conselho Pedagógico competente. Essa exceção mostra que as exigências não proíbem absolutamente todo desvio do uniforme padrão, embora não estabeleça autorização para o uso cotidiano de vestimentas religiosas.
Como a disputa se desenvolveu
A controvérsia se intensificou com uma sequência de decisões regulatórias, relatos de exclusões escolares, verificações de cumprimento das regras e prisões. As datas ajudam a distinguir a introdução das normas da resposta posterior das autoridades à sua aplicação.
- 21 de setembro: o Conselho de Ministros adotou a Decisão nº 309, que alterou os requisitos de uniforme estudantil.
- 23 de setembro: o presidente Recep Tayyip Erdogan discursou sobre a discriminação contra mulheres muçulmanas em sua fala na Assembleia Geral das Nações Unidas, sem mencionar o Azerbaijão.
- 6 de outubro: a Decisão nº 325 estabeleceu requisitos de vestuário para professores.
- 8 de outubro: professores de várias escolas de Sumgayit disseram, segundo relatos, que haviam sido instruídos a retirar o véu ou entregar cartas de demissão.
- 9 de outubro: o Departamento de Educação da Cidade de Baku anunciou o monitoramento do cumprimento das exigências de vestuário.
- 12 de outubro: o Ministério do Interior anunciou 37 prisões relacionadas a incidentes envolvendo a aplicação das regras de uniforme escolar.
- 13 de outubro: relatos dataram a resposta do YAP às críticas de Saral e de parlamentares do AKP, embora outra versão tenha afirmado que ela foi publicada na terça-feira.
O Departamento de Educação da Cidade de Baku afirmou que as verificações buscavam estabelecer um ambiente educacional disciplinado, organizado e igualitário. O órgão atribuiu às administrações escolares a responsabilidade de fiscalizar o cumprimento das regras e aos pais a obrigação de enviar os estudantes à escola com os uniformes exigidos.
Estudantes e professores enfrentam consequências imediatas
Foram registrados protestos em frente às escolas nº 322 e nº 69 de Baku, além dos distritos de Masalli e Jalilabad. Segundo relatos, estudantes de pelo menos duas escolas boicotaram as aulas em solidariedade a colegas que usam hijab. Em Khokhmeli, pais ameaçaram tirar os filhos da escola por causa das restrições que afetam as meninas.
Vídeos que circulam na internet foram descritos como mostrando estudantes reunidos em frente às escolas, chorando ou abraçando professores depois de terem sido barrados. Outras imagens teriam mostrado professores e estudantes dando aulas do lado de fora dos prédios escolares. Esses relatos descrevem interrupções em escolas específicas, mas não determinam a dimensão das exclusões em todo o Azerbaijão.
Os professores enfrentam uma consequência potencial distinta: perder o emprego se os administradores insistirem que o véu contraria os novos requisitos. Os relatos de Sumgayit se basearam em professores que pediram anonimato. Não há um total confirmado de docentes demitidos ou estudantes permanentemente excluídos da matrícula.
Zahra Hasanova, professora que disse ter sido informada de que não poderia mais usar hijab na escola, descreveu o impacto emocional da instrução:
Para ser sincera, estou um pouco emocionada. Estou magoada.
Hasanova também disse que a decisão de retirar o véu deveria caber a ela:
Se um dia eu quiser tirá-lo, essa também deve ser uma escolha minha.
O que as autoridades alegam sobre as 37 prisões
O Ministério do Interior afirmou que os detidos haviam participado de confrontos com profissionais da educação, depredado instalações educacionais e perturbado a ordem pública. Relatos das acusações do ministério também mencionam bloqueio do trânsito e interferência no funcionamento normal das escolas.
Foi aberto um inquérito criminal com base no artigo 233 do Código Penal do Azerbaijão, que trata da organização de ações que perturbem a ordem pública ou da participação ativa nelas. Com o anúncio, a controvérsia ultrapassa a disciplina escolar e passa a ser objeto de investigação criminal.
Os relatos divergem na terminologia: alguns dizem que as 37 pessoas foram presas, outros que foram detidas. Uma versão situa as prisões em Baku; outras descrevem incidentes relacionados à aplicação das regras de uniforme sem especificar o local de cada detenção. Esses relatos não esclarecem a situação jurídica posterior de cada pessoa.
As alegações do ministério não foram verificadas de forma independente. As autoridades não divulgaram publicamente os nomes e as idades de todos os envolvidos nem descreveram a conduta atribuída a cada pessoa. Portanto, não está claro se havia menores entre eles, quantos foram acusados individualmente ou como a polícia distinguiu protestos pacíficos de supostos atos criminosos.
Educação secular e direitos constitucionais
A Constituição do Azerbaijão contém dispositivos relevantes para os dois lados da disputa. O artigo 18 separa religião e Estado e determina que o sistema público de ensino seja secular. O artigo 48 protege a liberdade de consciência e de prática religiosa. O artigo 42 garante o direito à educação.
Educação secular significa que o ensino público funciona de forma independente de autoridades religiosas. A divergência imediata é se esse princípio exige restrições à vestimenta religiosa de uma pessoa, sobretudo quando a aplicação dessas restrições impede um estudante de entrar na sala de aula.
O YAP afirma que as regras educacionais se baseiam na igualdade, no secularismo, no Estado de Direito e na igualdade de oportunidades. Os críticos se concentram no efeito prático: segundo relatos, o acesso às aulas passa a depender da retirada do véu. A alegação de que se busca tratar todos igualmente não basta, por si só, para determinar se a aplicação da regra protege os direitos das pessoas afetadas.
Segundo relatos, cerca de 96% da população do Azerbaijão se identifica como muçulmana. Esse dado ajuda a explicar a sensibilidade da controvérsia, mas a identidade religiosa não determina a estrutura constitucional do país nem indica quantas pessoas usam hijab. Também não permite calcular quantas foram afetadas pelas exigências escolares.
O analista político Azer Garayev defendeu a aplicação dos uniformes como forma de reduzir diferenças sociais visíveis e manter padrões comuns. Ele argumentou que apresentar automaticamente as regras como um ataque à religião distorce seu propósito. Também pediu que fossem investigadas possíveis manipulações de crianças e a atuação de grupos radicais. Essas preocupações continuam sendo alegações, e não explicações comprovadas para todos os protestos.
Críticas de Saral provocam resposta contundente
Saral, assessor-chefe de Erdogan, argumentou em uma publicação nas redes sociais que impedir o acesso de estudantes que cobrem a cabeça viola o direito à educação. Suas declarações contestaram diretamente a justificativa para barrar meninas nos portões das escolas:
Como pode ser moral ou legalmente justificável barrar uma estudante no portão da escola porque ela cobre a cabeça por motivos religiosos? O hijab não é um obstáculo; é uma exigência da fé! O direito à educação não pode ser sacrificado em nome de imposições ideológicas!
Ele pediu que o Azerbaijão revertesse essa abordagem, em vez de criar obstáculos para o futuro dos jovens. O YAP tratou a intervenção como parte de uma campanha mais ampla e afirmou que, até então, havia mantido a moderação para proteger as relações entre os países, mas que precisava responder agora que altas figuras políticas turcas haviam aderido a ela.
O partido acusou Saral e parlamentares do AKP de fazer declarações populistas e irresponsáveis, sem levar em conta a ordem constitucional do Azerbaijão. Também argumentou que as constituições do Azerbaijão e da Turquia estabelecem Estados seculares e pediu ao governo do AKP que deixasse de usar a questão do hijab como instrumento de pressão política.
Em seu discurso de setembro na Assembleia Geral da ONU, Erdogan havia descrito as restrições ao uso do hijab nas escolas como um ataque aos direitos fundamentais das mulheres e as associou à islamofobia. Ele não mencionou o Azerbaijão. Portanto, interpretar o discurso como uma referência direta a Baku é uma leitura possível, ao contrário das críticas explícitas de Saral ao Azerbaijão.
Por que Israel e Palestina entraram na declaração
A resposta do YAP aborda as críticas às relações do Azerbaijão com Israel junto com a disputa escolar. O partido descreveu esses laços como relações interestatais normais, baseadas no direito internacional e em interesses mútuos, e rejeitou tentativas de apresentá-los como motivo excepcional para acusações contra Baku.
Em seguida, expôs a posição do Azerbaijão sobre a Palestina: apoio à criação de um Estado palestino conforme as resoluções pertinentes da ONU, com Jerusalém Oriental como capital, ao lado de Israel. O partido afirmou que o Azerbaijão forneceu ajuda financeira e humanitária aos palestinos e apoiou financeiramente a embaixada palestina no país.
A declaração citou o presidente palestino Mahmoud Abbas e o primeiro-ministro Mohammad Mustafa entre as autoridades que visitaram o Azerbaijão. Também mencionou a previsão de que o país sediará a próxima cúpula da Organização da Cooperação Islâmica, em 2027, como evidência de sua posição entre os Estados muçulmanos.
Esses pontos ajudam a explicar o alcance da réplica do partido. O YAP respondia tanto às acusações sobre a relação do Azerbaijão com o mundo islâmico quanto às críticas à aplicação das regras de vestuário nas escolas. Seu histórico diplomático, porém, não resolve a questão distinta de saber se determinados estudantes ou professores podem frequentar a escola usando hijab.
Solidariedade no exterior e advertências contra interferência
Manifestantes também se reuniram em frente ao consulado do Azerbaijão em Istambul. O grupo de trabalho do Parlamento do Azerbaijão para as relações com a Turquia divulgou uma declaração própria, contestando as acusações de Saral e de parlamentares do AKP e manifestando preocupação com manifestações diante de missões diplomáticas azerbaijanas. O grupo acusou o AKP de não impedir ações provocativas.
Tanto o grupo de trabalho quanto o YAP invocaram o princípio de Heydar Aliyev: uma nação, dois Estados. O argumento era que a frase descreve os laços estreitos entre dois países independentes, não uma autorização para que um imponha ao outro suas preferências políticas ou ideológicas.
O presidente Ilham Aliyev também alertou contra interferências externas no modo de vida do Azerbaijão, sem mencionar diretamente a Turquia. O xeique-ul-Islã Allahshukur Pashazade, presidente do Escritório dos Muçulmanos do Cáucaso, acusou de forma semelhante forças estrangeiras de fomentar tensões. Ele pediu paciência aos fiéis, observou que a decisão do Conselho de Ministros não menciona o hijab e citou a restauração de mesquitas e a assistência estatal aos fiéis para rejeitar alegações de pressão contra os muçulmanos.
Outra manifestação veio do jornalista preso Polad Aslanov, que anunciou uma greve de fome contra as exigências em uma mensagem compartilhada por sua esposa, Gulmira Aslanova. Separadamente, usuários relataram dificuldades para acessar o Instagram e o TikTok. Não há confirmação de um bloqueio nacional, nem foi estabelecida uma ligação direta entre os problemas de acesso e os protestos.
Não foi anunciada uma data para a revisão das regras, uma decisão judicial sobre sua aplicação ao hijab ou audiências envolvendo os detidos. As questões imediatas ainda sem resposta são a dimensão das exclusões, a situação profissional dos professores afetados e a situação jurídica das 37 pessoas. A cúpula de cooperação islâmica prevista para 2027 é um evento diplomático futuro, não um prazo para resolver a disputa escolar.
Principais pontos
- As decisões sobre vestuário de estudantes e professores, adotadas em 21 de setembro e 6 de outubro, não mencionam explicitamente o hijab.
- Segundo relatos, algumas escolas impediram a entrada de meninas que usam hijab ou disseram a professores que retirassem o véu.
- O Ministério do Interior anunciou 37 prisões e a abertura de um inquérito criminal com base no artigo 233; as alegações não foram verificadas.
- O YAP repreendeu Oktay Saral, assessor de Erdogan, e parlamentares do AKP, classificando as críticas como interferência nos assuntos internos do Azerbaijão.
- A Constituição do Azerbaijão exige educação pública secular, ao mesmo tempo que protege a liberdade religiosa e o direito à educação.
- O número de estudantes e professores afetados e os desfechos jurídicos individuais das prisões continuam sem esclarecimento.






