Operação letal aprofunda crise dos ataques de Páscoa no Sri Lanka
Quinze pessoas, incluindo seis crianças, morreram quando uma operação contra um esconderijo suspeito de abrigar militantes no leste do Sri Lanka terminou em tiroteio e três explosões na sexta-feira, 26 de abril de 2019. O confronto em Sainthamaruthu, na região de Kalmunai, ocorreu enquanto as forças de segurança procuravam pessoas ligadas aos atentados do Domingo de Páscoa, que mataram mais de 250 pessoas em igrejas e hotéis.
Conteúdo
- Operação letal aprofunda crise dos ataques de Páscoa no Sri Lanka
- O que aconteceu na casa
- A reivindicação do Estado Islâmico e as provas encontradas
- Número de presos e buscas ainda em andamento
- Os ataques de Páscoa e o suposto líder
- Medidas de emergência e uma semana de buscas intensificadas
- Moradores fogem e igrejas suspendem celebrações
- Alertas ignorados aumentam a pressão sobre as autoridades
- Principais pontos
A polícia disse que três homens dentro da casa detonaram explosivos depois que os ocupantes abriram fogo contra as tropas que se aproximavam. Um porta-voz militar descreveu um tiroteio que durou mais de uma hora. Uma busca na manhã de sábado encontrou corpos dentro e fora do imóvel danificado, enquanto uma mulher e uma criança feridas foram levadas ao hospital.
As mortes expuseram os perigos imediatos da operação de busca em andamento: suspeitos de envolvimento nos atentados continuavam foragidos, crianças estavam em um imóvel com explosivos e moradores próximos fugiram de suas casas. Cerca de 600 muçulmanos se abrigaram em uma escola durante o confronto, segundo moradores.
O presidente Maithripala Sirisena prometeu revistar todas as casas do país. As autoridades usavam poderes de emergência para perseguir suspeitos, mas a dimensão da investigação permanecia incerta. O número de presos variava de 70, em um relato inicial, a mais de 100 em reportagens posteriores, enquanto também havia divergências nas estimativas de pessoas suspeitas de ligação com o Estado Islâmico.
O que aconteceu na casa
A operação foi realizada após uma denúncia sobre um imóvel em Sainthamaruthu, cidade costeira de maioria muçulmana a cerca de 360 a 370 quilômetros de Colombo. Alguns relatos também identificam o local como Saindamarudu, na região de Kalmunai. Segundo informações, os suspeitos chegaram um ou dois dias depois dos atentados de Páscoa e transferiram caixas de uma minivan cinza-clara para uma casa baixa atrás de um muro alto e de um portão de metal preto.
A polícia disse que homens armados abriram fogo quando as tropas se aproximaram na noite de sexta-feira. Durante o confronto, três explosões atingiram a casa, danificando o telhado e uma parede. A polícia informou que não houve vítimas entre as forças de segurança.
O relato da busca de sábado descreveu três homens, três mulheres e seis crianças encontrados mortos dentro da casa, além de outros três homens baleados do lado de fora. A polícia identificou os homens do lado de fora como suspeitos de serem homens-bomba. Outro relato disse que ao menos um civil morreu no fogo cruzado. Não ficou claro como essa vítima civil se encaixava na contagem publicada de 15 mortos.
O porta-voz da polícia Ruwan Gunasekara disse que a maioria das vítimas era considerada militante. Essa avaliação não estabeleceu a identidade nem o papel de cada adulto morto, e as seis crianças devem ser diferenciadas dos supostos combatentes. A mulher e a criança feridas foram resgatadas com vida, mas suas identidades não haviam sido confirmadas de forma conclusiva.
A reivindicação do Estado Islâmico e as provas encontradas
O Estado Islâmico, também conhecido como IS ou ISIL, afirmou no sábado que três de seus integrantes haviam enfrentado a polícia por várias horas antes de detonarem coletes explosivos. Seu canal Amaq não apresentou provas da afirmação. Os relatos da polícia confirmaram que houve tiroteio e três explosões, mas a declaração do grupo não comprovou de forma independente quem eram os homens nem como a operação foi coordenada.
Buscas separadas na região encontraram materiais que os investigadores ligaram aos autores dos atentados de Páscoa. Um porta-voz militar disse que uma operação nas proximidades apreendeu bandeiras do Estado Islâmico, 150 bastões de gelignita, milhares de esferas de aço e uma câmera de drone. A gelignita é um explosivo, enquanto esferas de aço podem se transformar em fragmentos letais quando colocadas ao redor de uma bomba.
Uma operação em Sammanthurai, a cerca de 14 quilômetros do local do tiroteio, teria encontrado uma bandeira do Estado Islâmico e uniformes semelhantes aos usados pelos suspeitos dos atentados de Páscoa em um vídeo no qual juravam lealdade ao líder do grupo. Essas descobertas deram respaldo à investigação sobre a atividade de militantes locais, mas não estabeleceram, por si só, a extensão da orientação do Estado Islâmico no exterior.
Imagens da casa danificada em Sainthamaruthu também mostraram explosivos, baterias, um gerador e um drone. Não foi informada nenhuma finalidade confirmada para o drone. Sua presença não deve ser tratada como prova de que os militantes planejavam um ataque aéreo.
Número de presos e buscas ainda em andamento
O número de pessoas detidas aumentou à medida que as buscas prosseguiram, mas as reportagens divulgaram totais diferentes. O relato inicial indicou 70 prisões. Um relato posterior disse que as 10 prisões de sexta-feira elevaram para 80 o total desde o Domingo de Páscoa. Outras reportagens apontaram que pelo menos 94 pessoas estavam sob custódia, enquanto um relato posterior citou a polícia dizendo que mais de 100 suspeitos haviam sido presos.
Esses números não podem ser combinados em uma contagem única confirmada. Eles podem refletir atualizações em diferentes etapas da operação, mas não foi apresentada uma conciliação definitiva. A prisão também não comprova culpa nem demonstra que todos os detidos pertenciam ao grupo responsável pelos atentados.
As estimativas sobre a ameaça restante também continuavam indefinidas. Sirisena disse que os serviços de inteligência acreditavam que cerca de 130 pessoas ligadas ao Estado Islâmico estavam no Sri Lanka e que a polícia procurava 70 que continuavam foragidas. Outro relato atribuiu a ele uma estimativa de cerca de 140 pessoas com supostas ligações.
O primeiro-ministro Ranil Wickremesinghe também estimou em cerca de 70 o número de pessoas ainda procuradas, descrevendo-as como apoiadores e simpatizantes da célula responsável pelos ataques de Páscoa. Ele alertou que algumas poderiam realizar atentados suicidas.
A diferença entre suspeitos, detidos e pessoas ainda procuradas é importante. Essas categorias não são intercambiáveis, e os números não permitem calcular com segurança quantos integrantes da rede responsável pelos atentados foram capturados.
Os ataques de Páscoa e o suposto líder
As buscas foram iniciadas após atentados coordenados no domingo, 21 de abril, contra igrejas lotadas para as celebrações de Páscoa e hotéis frequentados por turistas. Naquele momento, as reportagens indicavam um número de mortos de pelo menos 250 ou pelo menos 253, além de mais de 500 feridos. Portanto, o total divulgado variava, embora todos os relatos descrevessem um grande número de vítimas.
As autoridades responsabilizaram o grupo extremista local National Thowheeth Jama'ath, cujo nome também apareceu com outras grafias em inglês. O Estado Islâmico reivindicou participação nos ataques. Os investigadores suspeitavam que nove pessoas haviam realizado os atentados.
Sirisena disse que o suposto líder, Zahran Hashim, morreu no ataque ao hotel Shangri-La, em Colombo. As autoridades estavam realizando testes de DNA para confirmar sua identidade. A polícia também acreditava que a mulher e a criança resgatadas em Sainthamaruthu poderiam ser sua esposa e filha, mas essa identificação ainda era provisória.
Segundo relatos, dois suspeitos de envolvimento nos atentados eram filhos do comerciante de especiarias Mohammad Yusuf Ibrahim, que foi detido e interrogado. Um dos filhos, identificado como Ilham Ibrahim, teria atacado o Shangri-La ao lado de Hashim. O outro teria sido o responsável pelo restaurante do hotel Cinnamon Grand.
Rohan Karr, gerente do Cinnamon Grand, descreveu como o suspeito de ser o homem-bomba se hospedou no hotel na noite anterior e, na manhã seguinte, entrou no restaurante carregando uma mochila. Karr disse que o homem comeu e esperou os clientes se reunirem perto do bufê antes de atacar.
Ele se sentou, comeu e esperou as pessoas se reunirem perto do bufê. Quando viu um grupo maior, decidiu que aquele era o momento de causar o máximo de danos.
Medidas de emergência e uma semana de buscas intensificadas
Sirisena proibiu o National Thowheeth Jama'ath e outro grupo suspeito de radicalismo, identificado em um relato como Jamathei Millathu, com base em medidas de emergência. Tropas foram mobilizadas para apoiar as buscas policiais. A proibição foi anunciada enquanto as autoridades procuravam tanto os suspeitos de participação nos ataques quanto pessoas que acreditavam tê-los apoiado.
A sequência mostra a rapidez com que a resposta passou da investigação dos atentados de Páscoa para o confronto com um grupo armado em um imóvel residencial:
- 21 de abril: atentados coordenados atingiram igrejas e hotéis no Domingo de Páscoa.
- 22 ou 23 de abril: segundo relatos, os ocupantes suspeitos se mudaram para a casa em Sainthamaruthu.
- 23 de abril: Sirisena declarou estado de emergência condicional, segundo um relato.
- 26 de abril: forças de segurança invadiram a casa, dando início a um tiroteio e a três explosões.
- 27 de abril: as buscas documentaram as mortes, o Estado Islâmico reivindicou participação no confronto e Sirisena anunciou a proibição de dois grupos.
Não foi definida uma data para a conclusão das buscas em todo o país. Sirisena disse que os suspeitos seriam presos nos dias seguintes, mas isso foi uma promessa, não um cronograma confirmado.
Moradores fogem e igrejas suspendem celebrações
A operação afetou um bairro de maioria muçulmana, cujos moradores temiam novos episódios de violência. Cerca de 600 pessoas se abrigaram em uma escola, e os vizinhos deixaram a rua ao redor da casa danificada. A segurança foi reforçada nas mesquitas para as orações de sexta-feira, enquanto alguns muçulmanos não compareceram por medo de ataques de retaliação.
A Igreja Católica suspendeu as missas públicas de domingo até novo aviso. O cardeal Malcolm Ranjith, arcebispo de Colombo, disse que havia visto um documento de segurança vazado que alertava sobre novos ataques e pediu aos fiéis que permanecessem em casa e rezassem.
Uma pequena celebração na residência do cardeal estava prevista para ser transmitida pela televisão nacional. Outra celebração foi anunciada em uma tenda do lado de fora da igreja de São Sebastião, em Negombo, onde mais de 100 pessoas morreram durante a missa de Páscoa. Essas iniciativas foram descritas separadamente da suspensão mais ampla das celebrações nas igrejas.
As restrições significavam que os efeitos dos ataques se estendiam para além dos edifícios atingidos pelas bombas. Moradores muçulmanos deslocados, católicos impossibilitados de participar de suas celebrações habituais e pessoas que evitavam as orações de sexta-feira enfrentavam mudanças imediatas na vida cotidiana devido à ameaça persistente.
Alertas ignorados aumentam a pressão sobre as autoridades
O governo enfrentava uma indignação crescente por não ter agido diante de um alerta de inteligência estrangeiro, segundo o qual o grupo extremista local planejava atentados suicidas contra igrejas. O chefe de polícia Pujith Jayasundara e o alto funcionário do Ministério da Defesa Hemasiri Fernando teriam renunciado por causa das falhas.
O cardeal Ranjith disse que os líderes da Igreja não haviam sido informados sobre os alertas. Ao descrever sua reação como líder da comunidade católica de Colombo, ele afirmou:
Senti que fui um pouco traído. Fiquei triste. Foi uma falha muito grave dos órgãos de segurança não terem nos avisado.
Wickremesinghe pediu desculpas na sexta-feira em nome do governo:
Assumimos a responsabilidade coletiva e pedimos desculpas aos nossos concidadãos por nossa falha em proteger as vítimas desses acontecimentos trágicos.
O primeiro-ministro também disse que os alertas não chegaram até ele e rejeitou a sugestão de que deveria renunciar por não ter agido com base em informações que não recebeu. A falha na comunicação voltou a chamar atenção para sua relação conturbada com Sirisena. O presidente o havia demitido em outubro de 2018, antes que decisões judiciais levassem à sua recondução ao cargo em dezembro.
As questões imediatas ainda sem resposta eram concretas: a identidade dos mortos na operação, a confirmação da morte de Hashim por meio de testes de DNA, o número e as capacidades dos suspeitos ainda foragidos e a responsabilidade pelos alertas ignorados. Não foram informadas datas de audiências nem prazos para resolver essas questões.
Principais pontos
- Quinze pessoas, incluindo seis crianças, morreram durante a operação de 26 de abril em Sainthamaruthu.
- A polícia relatou um tiroteio e três explosões. Uma mulher e uma criança feridas sobreviveram.
- O Estado Islâmico reivindicou participação no confronto, mas não apresentou provas.
- Os números divulgados de presos variaram de 70 inicialmente a mais de 100 posteriormente. Segundo relatos, cerca de 70 pessoas continuavam foragidas.
- Buscas nas proximidades encontraram explosivos, esferas de aço, bandeiras do Estado Islâmico e outros equipamentos.
- Cerca de 600 moradores muçulmanos buscaram abrigo em uma escola, enquanto as celebrações públicas católicas foram suspensas.
- Alertas de inteligência ignorados levaram a renúncias e a um pedido de desculpas do governo.






