Bilhões em novos investimentos, custos crescentes para Halmahera
Uma expansão industrial de US$ 10,2 bilhões no Parque Industrial da Baía de Weda, na Indonésia, está ampliando o processamento de níquel, a produção de alumínio e a fabricação de baterias em um litoral que já enfrenta perda de florestas, cursos d’água poluídos e enchentes. O presidente Prabowo Subianto lançou o pacote em 8 de outubro de 2026, enquanto moradores e ativistas pediam uma avaliação independente do que novos empreendimentos significariam para Halmahera.
Conteúdo
- Bilhões em novos investimentos, custos crescentes para Halmahera
- Como a proibição de exportar transformou o litoral
- O que moradores e mapas florestais revelam
- Pesca cada vez mais distante de casa
- Enchentes e abastecimento de água sob pressão crescente
- Alertas de saúde exigem investigação mais ampla
- Empregos vêm acompanhados de custos de vida e preocupações com segurança
- Carvão enfraquece promessa de energia limpa
- Roteiro nacional esbarra nos limites de Halmahera
- Quem paga pelo crescimento industrial?
- Principais pontos
O anúncio do governo indonésio confirma 11 projetos de processamento de níquel, com investimento total de US$ 10,2 bilhões, ou cerca de 180 trilhões de rupias. Prabowo afirmou que quatro projetos industriais haviam iniciado operações comerciais e que sete novos projetos começariam a ser construídos, além da primeira exportação de baterias para veículos elétricos. O ministro do Investimento e da Industrialização e CEO da Danantara, Rosan Perkasa Roeslani, estimou em US$ 3,4 bilhões o investimento nos quatro projetos concluídos.
Os quatro projetos que entraram em operação comercial abrangem precipitado misto de hidróxidos (MHP) da PT Blue Sparking Energy, materiais para baterias de níquel-manganês-cobalto (NMC) e fosfato de ferro-lítio (LFP) da PT REPT Batero Indonesia, alumínio eletrolítico da PT Pioneer Aluminium Industries e componentes para equipamentos pesados elétricos da PT XCMG Indonesia Manufacturing.
Os sete projetos que começarão a ser construídos são PT Guang Ching Nickel Cobalt, PT Inno Prima Material, PT Tinci Materials Indonesia, PT Weda Bay Aluminium, PT Bintang Karya Aluminium, PT Flat Solar Energy Indonesia e PT Foton Guangqing Motor Indonesia. Rosan disse que a nova leva inclui materiais para baterias à base de níquel, separadores de baterias para veículos elétricos e componentes eletrônicos, produtos de alumínio, equipamentos pesados elétricos e vidro fotovoltaico para a indústria de energia solar.
Os interesses econômicos são significativos. Segundo o ministro do Investimento da Indonésia, o parque emprega cerca de 117 mil trabalhadores, e o processamento de níquel responde por aproximadamente metade da economia de Maluku do Norte. A expansão inclui empresas dos setores de máquinas, caminhões, baterias, vidro solar e produtos químicos, ampliando a cadeia industrial para além do processamento do minério.
Os riscos ambientais são igualmente concretos. Um estudo de 2025 com 46 moradores de Weda Bay constatou que cerca de 47% tinham níveis de mercúrio no sangue acima do valor de referência dos pesquisadores, enquanto aproximadamente 32% tinham níveis de arsênio acima do valor de referência. Os resultados justificam novas investigações, mas, por si só, não determinam a origem da exposição nem sua prevalência na população em geral.
Para Abdullah Ambar, pescador de 64 anos de Lelilef Sawai, a transformação chegou à sua porta. Depois de décadas trabalhando em embarcações pesqueiras estrangeiras, ele voltou para montar uma frota de três barcos. Cada um podia transportar até meia tonelada de atum-bonito e cavala após uma viagem de 12 horas. Agora, ele descreve barulho, dificuldades para pescar, água desagradável e preços em alta na região onde sua família vive há gerações.
Como a proibição de exportar transformou o litoral
A política de industrialização da Indonésia significa processar minerais no país, em vez de exportar minério bruto. Restrições parciais à exportação de níquel começaram em 2014, com exceções para empresas que se comprometessem a construir refinarias locais. Em 2020, entrou em vigor a proibição total das exportações de minério de níquel bruto, que ajudou a atrair investimentos para fundições e fábricas de materiais para baterias.
Dados do Fórum da Indústria de Níquel da Indonésia mostram que a produção de minério subiu de 7,8 milhões de toneladas em 2015 para 265 milhões de toneladas em 2025, cerca de 34 vezes o volume anterior. No mesmo período, o número de refinarias aumentou de seis para 79, com outras 90 em construção. A produção de níquel processado passou de 368 mil toneladas para 2,2 milhões de toneladas. Tonelagem de minério e produção de níquel processado são medidas diferentes e não devem ser tratadas como equivalentes.
Em Halmahera, as concessões de mineração cobrem cerca de 2.560 quilômetros quadrados, aproximadamente um sétimo da ilha. Nos arredores da Baía de Weda, as instalações industriais se estendem por 11 quilômetros do litoral, transformando Lelilef, Kobe, Gemaf e Sagea em vilarejos com alojamentos, pensões, estradas movimentadas e iluminação industrial.
Os relatos divergem sobre os primeiros anos do parque industrial. Um relato situa em 2018 o início das operações de uma unidade de processamento. A Climate Rights International registra o começo da construção em 2018 e o início das operações do IWIP em 2020. A diferença pode se referir a instalações distintas, mas as datas não devem ser reunidas como se correspondessem a uma única inauguração.
- 2014: A Indonésia introduziu restrições parciais às exportações de níquel bruto.
- 2018: Começou a construção do IWIP, segundo a Climate Rights International.
- 2020: Entrou em vigor a proibição total das exportações de minério de níquel, e a CRI situa neste ano o início das operações do IWIP.
- 21 de julho de 2024: Uma grande enchente atingiu comunidades nos arredores da Baía de Weda.
- 12 de junho de 2025: Bappenas e WRI Indonesia lançaram o roteiro nacional de descarbonização do níquel.
- 8 de outubro de 2026: Prabowo lançou o novo pacote de investimentos industriais.
O que moradores e mapas florestais revelam
O relatório Nickel Unearthed, publicado pela Climate Rights International em janeiro de 2024, baseia-se em pesquisas de campo realizadas entre fevereiro e setembro de 2023. Os pesquisadores entrevistaram 45 moradores, incluindo 39 que se identificaram como indígenas: 20 do povo Sawai e 19 do povo Tobelo.
Em parceria com a Iniciativa de Clima e Inteligência Artificial da Universidade da Califórnia em Berkeley, a CRI estimou que pelo menos 5.331 hectares de floresta haviam sido desmatados dentro das concessões de níquel de Halmahera. As florestas perdidas armazenavam aproximadamente 2,04 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente, uma medida que expressa diferentes gases de efeito estufa em uma escala comum.
Dados separados, atribuídos à organização ambiental Walhi, indicam que a perda florestal em áreas de mineração acima de vilarejos afetados pelas enchentes de julho de 2024 ultrapassou 7.167 hectares. Halmahera Central tinha cerca de 109 mil hectares de floresta em 2016, enquanto 26 autorizações de mineração abrangem 57.627 hectares. Esses números se referem a limites geográficos e períodos de avaliação diferentes dos usados pela CRI e, portanto, não podem ser somados.
A CRI também documentou denúncias de aquisição de terras sem consentimento, indenizações insuficientes e intimidação. Maklon Lobe, agricultor Sawai de Gemaf, disse que representantes do IWIP derrubaram suas árvores e bloquearam o acesso às suas terras em 2018. Apesar de ter um certificado que abrangia 38 hectares, ele afirmou ter recebido pagamento por apenas oito hectares. São denúncias registradas em entrevistas, não decisões judiciais.
O relatório identifica Tsingshan Holding Group, Huayou Cobalt e Zhenshi Holding Group como acionistas do IWIP. Também aborda instalações propostas à época pela Eramet e pela BASF, e pela POSCO. Essas propostas registram planos descritos em janeiro de 2024, mas não confirmam que todas as instalações tenham sido construídas posteriormente.
Pesca cada vez mais distante de casa
Abdullah se lembra de um litoral onde as pessoas conseguiam encontrar peixes a poucos metros da praia. Ele diz que o tráfego de cargueiros afastou os peixes migratórios, enquanto as âncoras danificaram os corais. Quando chove, a água leva para a baía o solo vermelho e alaranjado das colinas desmatadas.
Max Sigoro, pescador Sawai de Gemaf entrevistado pela CRI em 8 de fevereiro de 2023, descreveu como a degradação das águas e as restrições de acesso mudaram seu trabalho:
Costumávamos remar com nossos barcos perto da praia para pescar; agora temos de ir mais longe. É mais perigoso ir para longe, e precisamos calcular as marés. Também fica mais caro.
Os mecanismos ecológicos vão além da Baía de Weda. Em uma nota da Universidade IPB de 12 de junho de 2026 sobre a Baía de Buli, no leste de Halmahera, a professora de pesca e ciências marinhas Meutia Ismet explicou que o desmatamento facilita o transporte da camada superficial do solo pela chuva até as águas costeiras.
Os sedimentos em suspensão bloqueiam a luz do sol e podem reduzir o oxigênio à medida que a matéria orgânica se decompõe. Quando os sedimentos cobrem os corais, prejudicam as algas que os ajudam a sobreviver, o que pode causar estresse, branqueamento e morte. Pradarias marinhas e manguezais também podem ser afetados. A explicação identifica riscos relevantes para a mineração costeira, mas não mede as condições da água na Baía de Weda.
Meutia também alertou que metais como níquel, ferro, manganês e cádmio podem se acumular em organismos marinhos e passar pela cadeia alimentar. Ela recomendou análises regulares da água, dos sedimentos e dos metais, controles mais rigorosos dos sedimentos, revegetação e apoio às comunidades afetadas.
Enchentes e abastecimento de água sob pressão crescente
As enchentes de julho de 2024 teriam deslocado 1.726 pessoas e matado uma. Moradores acreditam que as operações das empresas e o desmatamento agravaram o desastre. Em Kobe, Adrian Patapata, de 65 anos, diz que havia enchentes antes da mineração, mas que antes elas se limitavam a algumas áreas às margens do rio e raramente passavam da altura dos joelhos.
Ele conta que, mais recentemente, a água chegou ao peito. Durante uma enchente em agosto, sem indicação do ano, uma lama vermelha e alaranjada submergiu seu bairro por seis dias. Sua família dormiu em plataformas improvisadas no alto da casa, e as inundações repetidas deixaram frágeis e pouco produtivos seus pés de cacau, mandioca e banana.
Moradores de Sagea temem danos às florestas que alimentam o Lago Sagea e o sistema da caverna de Boki Maruru e seu rio subterrâneo. Mardani Harid, porta-voz do movimento Save Sagea, diz que a deterioração em vilarejos vizinhos mostra por que essas fontes de água precisam ser protegidas. Uma investigação de setembro de 2024 relatou contaminação por metais pesados no Rio Sagea, supostamente ligada à atividade de mineração de níquel rio acima, e água subterrânea salobra em Lelilef.
Reportagens posteriores sobre análises realizadas em 2025 pela Fundação Nexus3 descrevem níveis de cromo e níquel acima dos limites seguros nos rios Ake Jira e Ake Sagea, além de arsênio em peixes da baía em níveis 20 vezes superiores aos registrados em 2007. A comparação indica um aumento relatado, mas não permite determinar, por si só, se todas as amostras de peixe ultrapassaram um limite de segurança alimentar.
A avaliação do rio no estudo adotou os padrões de água de classe 1 para o Ake Jira, porque as comunidades locais o usam como fonte de água potável e limpa. Os resultados de 2024 para demanda bioquímica de oxigênio (DBO5) e demanda química de oxigênio (DQO) ultrapassaram os limites da classe 1 e ficaram dentro dos padrões da classe 3, adequada para usos como criação de peixes de água doce, pecuária e irrigação agrícola.
O Ministério do Meio Ambiente da Indonésia informou em julho de 2025 que a PT Weda Bay Nickel havia aberto cerca de 3.099 hectares até 2024. O órgão identificou aproximadamente 2.791 hectares com baixa capacidade de retenção de água e pediu a aceleração da recuperação ambiental. O ministério também disse que a PT Huafei Nickel Cobalt produz mais de 3,4 milhões de toneladas de rejeitos perigosos por ano. Rejeitos são resíduos do processamento, e seu armazenamento próximo à drenagem superficial cria risco de escoamento contaminado se os sistemas de contenção falharem.
Alertas de saúde exigem investigação mais ampla
O estudo de 2025 da Fundação Nexus3 e da Universidade de Tadulako usou valores de referência de 9 microgramas por litro para o mercúrio no sangue e de 12 microgramas por litro para o arsênio. Os 46 participantes fornecem indícios de possível exposição que precisa ser investigada, mas não constituem uma pesquisa representativa de todos os moradores de Weda Bay.
Divulgado em 26 de maio de 2025, o estudo baseou-se em trabalho de campo realizado em julho de 2024 nos arredores da Baía de Weda, em Halmahera Central, Maluku do Norte. Segundo o resumo da Fundação Nexus3, foram coletadas amostras de sangue de trabalhadores do IWIP, famílias de pescadores, agricultores e funcionários de centros de saúde locais, e analisadas seis substâncias: arsênio, mercúrio, níquel, cádmio, tálio e chumbo. Moradores que não trabalhavam no IWIP apresentaram concentrações de mercúrio e arsênio no sangue superiores às dos trabalhadores. Nas entrevistas, os participantes relataram consumir em média de duas a seis porções de frutos do mar nos dois dias anteriores à coleta de sangue.
A Nexus3 e a Walhi de Maluku do Norte também coletaram aleatoriamente 16 amostras de peixes pescados na Baía de Weda. Todas apresentaram resultado positivo para mercúrio e arsênio na carne. As concentrações de mercúrio variaram de 0,02 a 0,28 miligrama por quilo, com o valor mais alto na barracuda, enquanto as de arsênio variaram de 0,43 a 3,03 miligramas por quilo. O maior resultado para arsênio foi encontrado em um peixe sorihi pescado por um morador de Gemaf. O resumo cita limites da OMS para peixes de 0,5 miligrama por quilo para mercúrio e 2 miligramas por quilo para arsênio: a faixa de mercúrio relatada ficou abaixo do limite, enquanto a de arsênio ultrapassou esse valor.
A comparação com os dados de referência de 2007 da avaliação de impacto ambiental da Weda Bay Nickel constatou que a menor concentração de arsênio em peixes medida em 2024 era 20 vezes superior ao nível anterior. O menor resultado de cromo entre duas amostras de peixe da Nexus3 era 13 vezes superior ao máximo observado nos dados de referência de 2007. O resumo disponível não inclui o estudo completo, protocolos detalhados de amostragem nem uma explicação de como os valores de referência para o sangue foram escolhidos.
Separadamente, dados atribuídos ao centro de saúde de Lelilef Waibulan registram 813 casos de infecção respiratória aguda entre janeiro e agosto de 2026. Poeira ambiental e emissões industriais foram apontadas como possíveis fatores, mas o número de casos não demonstra que a indústria tenha causado todos ou qualquer caso específico.
O relatório da CRI de janeiro de 2024 também registrou preocupações de moradores com problemas respiratórios e de pele, reconhecendo, ao mesmo tempo, a falta de estudos que atribuíssem diretamente essas doenças às atividades do IWIP. O relatório também afirmou que os moradores não conseguiam acessar facilmente informações públicas sobre a qualidade do ar e da água do parque ou do governo.
O alerta acadêmico de Meutia aponta possíveis consequências da exposição prolongada a altas concentrações de metais, entre elas doenças de pele e neurológicas, redução da função renal e risco de câncer. São possíveis efeitos à saúde, não diagnósticos de moradores de Halmahera. Para determinar as vias e concentrações de exposição e suas causas, são necessárias análises ambientais e avaliações clínicas.
O impacto não se limita a Halmahera. O relatório separado da CRI, Busy Surviving: Women on Indonesia's Nickel Frontier, documenta impactos desproporcionais sobre a saúde, os meios de subsistência e a cultura de mulheres que vivem perto de operações ou rio abaixo delas em Sulawesi do Sudeste e Sulawesi Central. O documento compara regiões produtoras de níquel da Indonésia, mas não é um estudo direto sobre as mulheres de Weda Bay.
Empregos vêm acompanhados de custos de vida e preocupações com segurança
Os empregos atraíram trabalhadores de várias partes da Indonésia, incluindo Ambon e Manado. No entanto, o número de vagas não revela quanto sobra dos salários depois dos gastos com moradia e transporte, quais são as condições de trabalho nem quanto da renda permanece nas comunidades próximas.
Um relato da Conflict Resolution Unit descreve a experiência de Mirna, pseudônimo de uma ex-funcionária do IWIP. Ela informou ganhar cerca de 6 milhões de rupias por mês, com o pagamento estreitamente vinculado à presença no trabalho. O aluguel de quartos fora dos alojamentos da empresa pode custar cerca de 1,5 milhão de rupias por mês, equivalente a um quarto do salário relatado, antes de outras despesas.
Mirna descreveu segurança rigorosa, vigilância por drones, restrições a visitas e deslocamentos e possíveis descontos salariais por violações das regras. Ela também relatou jornadas longas, trabalho em feriados e notícias de acidentes fatais e exaustão. São depoimentos de uma trabalhadora, não um registro de acidentes verificado nem uma conclusão independente sobre todas as instalações do parque.
Mirna disse que continuou trabalhando mesmo doente porque faltar significava perder renda. O seguro nacional de saúde cobriu o tratamento posterior. Moradores e trabalhadores também relataram água de poços turva e com cheiro desagradável, poeira industrial e fornecimento de eletricidade instável fora do complexo da empresa.
A estimativa anterior de 80 mil trabalhadores indonésios em quatro vilarejos de Weda Bay, além de milhares de trabalhadores chineses, difere do número posterior de aproximadamente 117 mil trabalhadores no parque. Diferenças de período e cobertura geográfica impedem um cálculo confiável do crescimento da força de trabalho.
Carvão enfraquece promessa de energia limpa
O níquel é usado na produção de aço inoxidável e em algumas composições químicas de baterias para veículos elétricos, nas quais permite maior armazenamento de energia e autonomia. Portanto, a expansão da Indonésia abastece vários mercados, não apenas o de carros elétricos. Seu desempenho ambiental depende muito da forma como o minério é processado e da eletricidade usada nesse processo.
Um documento de Bappenas de junho de 2025 estima que o carvão responde por 97% da eletricidade usada no processamento de níquel na Indonésia. O setor consumiu cerca de 100 bilhões de quilowatts-hora em 2023. O documento estimou emissões médias de 93 toneladas de dióxido de carbono equivalente para cada tonelada de níquel grau bateria produzida.
As estimativas publicadas para a frota de usinas a carvão de Weda Bay são divergentes. O relatório da CRI de janeiro de 2024 descreveu pelo menos cinco usinas construídas e outras 12 planejadas, com capacidade total estimada em 3,78 gigawatts. Reportagens posteriores mencionam 11 usinas em operação e três em construção. Uma coalizão cita dados do Global Energy Monitor sobre 14 unidades, totalizando 4.540 megawatts. Outro relato descreve uma instalação a carvão de seis gigawatts. Esses números refletem datas ou definições diferentes e não constituem um único total de capacidade verificado.
A participação da Indonésia no fornecimento mundial de níquel também varia conforme o relato. A estimativa original é de cerca de 40%; a CRI cita 48% da demanda mundial em 2022; e Bappenas afirma que a Indonésia fornece 60%. Esses percentuais não devem ser tratados como observações equivalentes de um mesmo ano.
O problema central é menos ambíguo: usinas cativas, construídas para abastecer fábricas em vez da rede pública, dominam o fornecimento de eletricidade do setor. Tecnologias automotivas mais limpas não significam automaticamente uma produção mineral mais limpa.
Roteiro nacional esbarra nos limites de Halmahera
Bappenas e WRI Indonesia lançaram o roteiro nacional de descarbonização em 12 de junho de 2025. Sua elaboração começou no início de 2024 e envolveu mais de 30 empresas de mineração e fundição, 15 ministérios e órgãos públicos e acadêmicos.
Leonardo A. A. T. Sambodo, vice-ministro de Bappenas para alimentação, recursos naturais e meio ambiente, descreveu a meta:
Este roteiro prevê uma redução de até 81% nas emissões da indústria de níquel até 2045, em linha com o compromisso da Indonésia de alcançar emissões líquidas zero antes de 2060.
O WRI Indonesia estima que, sem intervenção, as emissões poderiam aumentar até 86% até 2045. O roteiro recomenda 47,3 gigawatts de capacidade renovável, incluindo 5,1 gigawatts de geração baseada em hidrogênio verde em Maluku do Norte. O hidrogênio verde é produzido com eletricidade renovável, e não com combustíveis fósseis.
As estratégias incluem eficiência energética e material, substituição de combustíveis e materiais e eletricidade com menos emissões. Entre as políticas propostas estão preços competitivos para energia limpa e um padrão nacional de níquel verde. O registro do roteiro na biblioteca de Bappenas identifica infraestrutura limitada, custos elevados e incerteza regulatória como obstáculos. Sua descrição menciona um período de planejamento de longo prazo diferente do citado no anúncio de lançamento, que faz referência ao plano nacional de 2025 a 2045.
Halmahera enfrenta limitações específicas. Um documento do WRI datado de 6 de janeiro, sem indicação do ano, diz que a região não tem infraestrutura de rede elétrica nem grandes rios adequados à geração hidrelétrica, enquanto a energia solar e a eólica enfrentam restrições de espaço. Isso dificulta a implementação de uma matriz elétrica nacional descrita como composta por 61% de energia hidrelétrica, 30% solar e 9% eólica.
O IWIP afirma que planeja instalar até dois gigawatts de capacidade solar e 500 megawatts de energia eólica, com o objetivo de reduzir as emissões anuais em quatro milhões de toneladas. Também propõe plantar árvores em mais de 40 mil hectares de bacias hidrográficas, usar caminhões elétricos para transportar minério e tratar resíduos perigosos. As datas para o início das operações não estão claras. Além disso, capacidade solar instalada não equivale a fornecimento contínuo de eletricidade.
Quem paga pelo crescimento industrial?
Segundo o ministro da Energia da Indonésia, o setor de níquel atraiu US$ 47,36 bilhões e criou 180.600 empregos no país. O financiamento e a tecnologia chineses ajudaram a construir refinarias rapidamente, mas o custo público total para atrair esses investimentos não foi consolidado.
O Ministério das Finanças projetou que os gastos tributários totais chegariam a 564 trilhões de rupias em 2026, ante 293 trilhões em 2021. O cálculo abrange incentivos fiscais de toda a economia, não apenas do setor de níquel. Grandes investidores podem receber isenção de impostos por até 20 anos, enquanto empresas em zonas econômicas especiais podem obter isenções de imposto de importação sobre equipamentos e de imposto sobre valor agregado.
Um estudo do Banco Mundial constatou que uma versão anterior das restrições à exportação aumentou o valor agregado nacional nas exportações, mas também atraiu empresas pequenas e ineficientes. Grande parte da produção continua sendo ferro-gusa de níquel para aço inoxidável, e não baterias acabadas. A adoção pela Indonésia de um imposto mínimo global de 15% a partir de 2025 torna ainda mais complexa a avaliação dos benefícios de isenções fiscais prolongadas para grandes multinacionais.
A dificuldade de reproduzir a expansão do setor de níquel fica evidente na bauxita. Quando a proibição à exportação de minério bruto começou, em 2023, a capacidade das refinarias era de cerca de 13,9 milhões de toneladas por ano, diante de uma produção de mineração de aproximadamente 30 milhões de toneladas, menos da metade do volume extraído. A Indonésia planeja ampliar o processamento interno para outros 27 minerais e produtos básicos até 2040, mas capital, eletricidade e escala de mercado continuam sendo obstáculos.
Muhammad Al Amien, coordenador da Koalisi Indonesia Timur, pediu a Prabowo que se reunisse com os moradores afetados, ordenasse uma auditoria ambiental e social independente, exigisse a recuperação das áreas pelas empresas e adiasse a expansão que aumenta a pressão ecológica até que sua adequação seja demonstrada. Quatorze moradores de Sagea e Kiya teriam sido convocados pela polícia em fevereiro de 2026 após se oporem à mineração. A coalizão afirma que os moradores precisam poder participar sem intimidação.
Não há prazo definido para a conclusão de uma auditoria independente nem para a recuperação ambiental e as instalações de energia prometidas pelo IWIP. Para Abdullah, a questão é saber se sua comunidade ainda poderá viver da terra e do mar quando a mineração terminar. Ele explica por que é difícil partir:
Nossos antepassados confiaram esta terra a nós. Quando as minas se esgotarem, seremos nós que ainda estaremos aqui.
Principais pontos
- Prabowo lançou 11 projetos industriais no valor de US$ 10,2 bilhões, ou cerca de 180 trilhões de rupias, em Weda Bay, em 8 de outubro de 2026: quatro entraram em operação comercial e sete começaram a ser construídos.
- A CRI e a Universidade da Califórnia em Berkeley estimaram a perda de pelo menos 5.331 hectares de floresta dentro das concessões de níquel de Halmahera.
- Análises de água, amostras de sangue e registros de casos respiratórios justificam investigações, mas não determinam a origem de todas as exposições nem a causa de doenças específicas.
- Bappenas prevê uma redução de até 81% nas emissões da indústria de níquel até 2045.
- As instalações solares e eólicas, de recuperação ambiental e de tratamento de resíduos propostas pelo IWIP não têm datas claras para começar a operar.
- Moradores e ativistas pedem uma auditoria independente, dados públicos sobre poluição e proteção dos meios de subsistência afetados.






