Picos menores nos rios trazem uma ameaça hídrica diferente
Os picos de cheias de monção nas partes oeste e central da bacia do Ganges caíram, em média, 17% por década entre 1970 e 2010, segundo uma pesquisa publicada em 6 de junho de 2025. Em muitos locais dessas regiões, a vazão estimada associada a uma cheia com período de retorno de 100 anos caiu mais da metade ao longo das quatro décadas. Os resultados apontam mudanças tanto nos riscos de inundação quanto nos fluxos sazonais que abastecem os reservatórios.
Conteúdo
- Picos menores nos rios trazem uma ameaça hídrica diferente
- O que os dados nacionais realmente mostram
- Chuvas e umidade do solo explicam o foco no Ganges
- Por que cheias menores podem pressionar os reservatórios
- Marathwada e Malabar seguem direções opostas
- As datas das cheias também estão mudando
- Barragens podem reduzir os picos sem eliminar o risco de cheias
- O Gomti revela pressões abaixo da superfície
- O que precisa ser atualizado e o que ainda não se sabe
- Principais pontos
O estudo, de Sai Kiran Kuntla, Manabendra Saharia e Sharad Kumar Jain, analisou registros de 173 estações fluviométricas fornecidos pela Comissão Central de Água da Índia. Publicada na npj Natural Hazards, a pesquisa sobre cheias fluviais constatou redução da magnitude das cheias em 128 estações, ou 74% do total. No entanto, apenas 47 dessas reduções atingiram o limiar de significância estatística estabelecido pelos pesquisadores.
Essa distinção é importante. Uma tendência de queda não equivale a uma forte evidência estatística de redução. Os resultados também não significam que a Índia esteja se tornando uniformemente mais segura contra inundações. Alguns rios costeiros registraram picos maiores, bacias menores tenderam a apresentar aumento da magnitude das cheias e as datas dos picos mudaram em direções diferentes entre as regiões.
Para os gestores de recursos hídricos, a principal preocupação é que padrões sazonais conhecidos estão mudando. Picos menores durante a monção podem significar menos água chegando aos reservatórios nos períodos de enchimento, enquanto cheias antecipadas ou atrasadas podem atrapalhar os cronogramas de operação. Um estudo separado do Gomti, afluente do Ganges em Uttar Pradesh, mostra outra pressão: o esgotamento das águas subterrâneas pode enfraquecer os fluxos que mantêm o rio entre as chuvas.
O que os dados nacionais realmente mostram
Das 173 estações, 128 registraram redução da magnitude das cheias e 45 registraram aumento. Dentro desses grupos, 47 reduções e quatro aumentos foram estatisticamente significativos, com nível de confiança de pelo menos 90%. Considerando o total da amostra, cerca de 27% das estações apresentaram redução significativa e aproximadamente 2% registraram aumento significativo.
Algumas reportagens descreveram o índice de 74% como a parcela com reduções significativas. O próprio artigo apresenta um resultado mais restrito: 74% registraram tendências de queda, e 47 estações atingiram o limiar de significância. Esse percentual também se refere às estações de monitoramento, não a uma medição da proporção do território indiano onde as cheias ficaram menores.
Os pesquisadores usaram métodos estatísticos para identificar tendências e estimar sua taxa de mudança. A vazão de pico mede o volume de água que passa por uma estação fluviométrica por unidade de tempo no auge de uma cheia. Ela não mede o volume total que percorre o rio ao longo de uma estação ou de um ano. Picos menores podem afetar as entradas de água nos reservatórios, mas não permitem, por si só, concluir que houve uma redução equivalente no abastecimento anual de água.
A análise não abrangeu o nordeste da Índia. O período de observação também terminou em 2010, apesar de o estudo ter sido publicado em 2025. Portanto, ele registra mudanças históricas em uma ampla rede de monitoramento, em vez de medir as condições dos rios durante a monção de 2025 ou comprovar que todas as tendências continuaram no mesmo ritmo.
Chuvas e umidade do solo explicam o foco no Ganges
O agrupamento mais expressivo de quedas nos picos de monção foi identificado nas partes oeste e central da bacia do Ganges, onde a redução média foi de 17% por década. Os pesquisadores relacionaram a queda à diminuição da precipitação e da umidade do solo. A análise de possíveis fatores climáticos se concentrou em grupos de estações cujas bacias não tinham barragens, ajudando a separar esses padrões dos efeitos diretos dos reservatórios.
A umidade do solo ajuda a determinar quanto da chuva se transforma em escoamento para os rios. Quando o solo está relativamente seco, ele consegue absorver mais água antes que grandes volumes cheguem aos cursos d'água. Quando já está úmido, a chuva adicional tende a gerar escoamento rápido. Essa relação varia conforme as condições locais, mas ajuda a explicar por que a intensidade da chuva, sozinha, não é um indicador completo de cheias fluviais.
Ashish Sharma, professor da Universidade de Nova Gales do Sul que não participou do estudo, explicou a relação com a temperatura:
Com o aumento das temperaturas, a umidade do solo diminui por causa da maior evaporação, e o solo seco absorve mais água.
O artigo também se baseia em pesquisas anteriores que relacionam a queda das chuvas sobre a região central do Ganges ao aquecimento do oceano Índico e aos aerossóis atmosféricos. Esses fatores podem contribuir para mudanças nas condições de monção, mas não provam que um único fator explique a redução dos picos em todos os rios.
Por que cheias menores podem pressionar os reservatórios
Cerca de 85% das cheias identificadas no estudo ocorreram durante a monção, de junho a setembro. Essa concentração reflete a importância de uma estação que responde por cerca de 80% da precipitação anual da Índia. A operação dos reservatórios, os calendários de irrigação e a geração hidrelétrica dependem muito da captação de água nesses meses.
Sharad Jain, autor do estudo e professor do departamento de engenharia civil do IIT Roorkee, explicou que vazões elevadas nos rios, inclusive cheias moderadas, ajudam a reabastecer os reservatórios. Ao descrever a importância dessas entradas de água, ele afirmou:
Essas entradas são essenciais para atender às necessidades de irrigação, abastecimento doméstico de água e geração hidrelétrica.
A preocupação prática é a redução da captação de água em períodos importantes de enchimento, sobretudo onde o armazenamento depende do escoamento da monção. No entanto, o estudo não quantifica uma eventual perda na produção agrícola, na disponibilidade de água potável ou na geração de eletricidade. Esses resultados também dependem da duração das entradas de água, da capacidade dos reservatórios, das decisões de operação e da demanda por água.
Os pesquisadores também estimaram como a vazão associada a uma cheia de 100 anos mudou ao longo do tempo. O termo descreve uma magnitude de cheia com probabilidade de 1% de ser superada em determinado ano, segundo as condições consideradas, e não um evento que ocorre exatamente uma vez por século. Em muitos locais das partes oeste e central do Ganges, a magnitude estimada caiu mais da metade entre 1970 e 2010.
Estimativas em mudança desafiam o planejamento de infraestrutura que presume probabilidades de cheias constantes. Elas não justificam tratar uma queda histórica como garantia contra uma futura cheia destrutiva, especialmente onde a precipitação local, o uso do solo ou a operação de barragens podem produzir outros resultados.
Marathwada e Malabar seguem direções opostas
A tendência nacional oculta diferenças regionais acentuadas. Em Marathwada, uma região afetada pela seca no planalto do Decão, as vazões caíram, em média, 8% por década durante a monção e 31% por década entre março e maio. Essas estimativas se basearam em três estações, portanto são um resultado regional, não uma conclusão sobre todo o planalto.
A queda anterior à monção foi quase quatro vezes maior que a taxa observada durante a monção: 31% contra 8%. Isso indica que o padrão sazonal das mudanças é tão importante quanto a direção anual. A escassez de água antes das chuvas e a redução dos picos de monção representam problemas distintos para o planejamento.
Na costa de Malabar, o padrão de março a maio foi o oposto. Os rios que correm para oeste entre Tadri e Kanyakumari, incluindo Chaliyar, Periyar, Bharathapuzha e Vamanapuram, registraram aumento médio da magnitude das cheias de 8% por década. Os pesquisadores associaram esse aumento a chuvas mais intensas antes da monção.
Nesse foco costeiro, a magnitude das cheias e a precipitação apresentaram forte associação estatística positiva, com coeficiente de correlação de 0,88. Como esses rios não recebem neve, a chuva é a fonte direta de suas cheias. O aumento das vazões em um período importante para a colheita cria uma preocupação agrícola diferente da redução da captação sazonal de água que afeta outras regiões.
As datas das cheias também estão mudando
O período das cheias não mudou de maneira uniforme em todo o sistema do Ganges. Na parte baixa da bacia do Yamuna, as cheias tenderam a ocorrer mais cedo, acompanhando a antecipação das chuvas. Doze locais nesse foco apresentaram mudança estatisticamente significativa no período, com nível de confiança de pelo menos 90%.
No foco do Alto Ganges, as cheias passaram a ocorrer mais tarde, em sintonia com o atraso das chuvas. Também foi relatado que as cheias na bacia do Kosi ficaram mais tardias, sem grandes mudanças na magnitude. Essas diferenças tornam inadequado um ajuste único do calendário de cheias para todo o país: as mudanças precisam ser compreendidas no nível de cada bacia hidrográfica e área de drenagem.
Os gestores de reservatórios precisam equilibrar a manutenção de espaço disponível para cheias com a retenção de água para uso posterior. Se as entradas de água ocorrerem antes ou depois do esperado, uma regra baseada no calendário histórico pode deixar de corresponder às condições atuais. O planejamento da irrigação e os cronogramas de alerta de cheias enfrentam o mesmo problema de mudança no período.
Reportagens também apontam que cheias repentinas mais precoces nas partes altas das bacias do Ganges e do Indo podem estar relacionadas a mudanças na fronteira entre chuva e neve. Com o aquecimento, a precipitação pode cair como chuva em vez de ficar armazenada temporariamente como neve. Esse é um mecanismo possível, não uma explicação comprovada para todos os eventos no Himalaia. O artigo observa que a chuva contribui mais para a vazão dos rios do Alto Ganges do que a neve e o derretimento de geleiras.
Barragens podem reduzir os picos sem eliminar o risco de cheias
Na bacia do Narmada, a redução da magnitude das cheias de monção pode estar relacionada às barragens construídas durante o período estudado. Os reservatórios podem reter água que, de outro modo, contribuiria para um pico de cheia a jusante. Portanto, um pico medido menor nessa região pode refletir a regulação da água, e não as mesmas mudanças na chuva e na umidade do solo identificadas no foco do Ganges.
No conjunto nacional de dados, bacias maiores tenderam a apresentar reduções mais acentuadas na magnitude das cheias. Bacias menores que 1.000 quilômetros quadrados mostraram predominantemente aumentos. Os pesquisadores sugerem que áreas de drenagem menores podem responder mais intensamente a chuvas locais fortes e ter menor capacidade natural de distribuir ou armazenar a vazão resultante.
O volume de armazenamento das barragens e o número de habitantes tiveram correlação negativa com as mudanças na magnitude das cheias, com coeficientes de menos 0,32 e menos 0,33, respectivamente. A área da bacia e o armazenamento total das barragens tiveram correlação positiva de 0,67. Essas relações reforçam a possibilidade de que o armazenamento e as retiradas de água ajudem a reduzir os picos em bacias maiores, mas correlação não determina a parcela causada por cada fator.
A operação das barragens continua sendo fundamental. Os pesquisadores alertam que barragens operadas de forma inadequada podem agravar as inundações. As áreas urbanas também podem sofrer inundações destrutivas mesmo onde os grandes picos dos rios diminuíram. M K Roxy, cientista do clima do Instituto Indiano de Meteorologia Tropical, em Pune, que não participou do estudo, descreveu a mudança no padrão das chuvas:
Em vez de chuvas constantes e moderadas ao longo da estação, agora vemos períodos secos mais longos, interrompidos por pancadas intensas e breves.
O Gomti revela pressões abaixo da superfície
Um estudo sobre águas subterrâneas no Gomti, publicado em 2020 no Indian Journal of Ecology, analisou a vazão do rio entre 1978 e 2015 e dados de 764 poços de monitoramento de águas subterrâneas. Os autores Urvashi Sharma, Adeeba Khan e Venkatesh Dutta relacionaram a queda dos níveis das águas subterrâneas à redução das vazões nesse afluente do Ganges.
Os índices de vazão de base estimados foram de 0,78 em Neemsar, 0,76 em Lucknow e 0,69 em Maighat. A vazão de base é a contribuição mais lenta que mantém um rio entre episódios de chuva, fornecida em grande parte, nesse caso, pelas águas subterrâneas. Os índices indicam que essa contribuição respondeu por cerca de 78%, 76% e 69% da vazão nas respectivas estações.
O estudo registrou quedas nas vazões médias de pico em setembro, de 96,26 para 55,68 pés cúbicos por segundo em Neemsar, de 351,10 para 121,41 em Lucknow e de 1.175,2 para 266,81 em Maighat. A comparação foi feita entre o período de 1978 a 1988 e o período mais recente de cinco anos discutido no estudo. Um pé cúbico por segundo equivale a um cusec. Calculadas a partir desses valores, as reduções foram de aproximadamente 42%, 65% e 77%.
Essas mudanças não são diretamente comparáveis às reduções percentuais por década do estudo nacional, pois os períodos e as medições diferem. Ainda assim, elas demonstram outra via para a redução das vazões dos rios. O bombeamento pode interceptar águas subterrâneas que, de outro modo, alimentariam um rio, e poços próximos ao curso d'água podem puxar água do rio para o aquífero. O estudo do Gomti informou que 23 de seus 26 afluentes estavam secos durante a estação de vazão baixa em 2018.
O que precisa ser atualizado e o que ainda não se sabe
Os dois estudos identificam pressões sobre diferentes partes do ciclo dos rios: mudanças na chuva, na umidade do solo e na regulação afetam os picos de cheia, enquanto a extração de águas subterrâneas pode enfraquecer as vazões entre as chuvas. Os pesquisadores do Gomti recomendaram regular o bombeamento, gerir conjuntamente as águas superficiais e subterrâneas e promover a recarga dos aquíferos por meio de corpos d'água para manter as vazões ecológicas.
Para o planejamento de cheias e reservatórios, o estudo nacional embasa decisões adaptadas às mudanças regionais tanto na magnitude quanto no período das cheias. Manabendra Saharia, autor do estudo e professor associado do IIT Delhi, descreveu a principal conclusão:
Nossos resultados indicam um regime hidrológico que está se tornando mais errático.
Saharia defendeu a atualização das regras dos reservatórios, dos projetos de drenagem urbana e dos planos de ajuda em períodos de seca. Essas são recomendações, não mudanças de política já anunciadas. Não foi identificado prazo de implementação nem decisão governamental programada. Ampliar a análise das vazões para além de 2010 ajudaria a determinar se as tendências históricas persistiram ou mudaram.
As evidências abrangem vários períodos distintos:
- 1970 a 2010: período de observação da análise nacional de 173 estações fluviométricas.
- 1978 a 2015: período de vazão do rio analisado no estudo do Gomti.
- 2018: ano em que 23 afluentes do Gomti foram registrados como secos durante a estação de vazão baixa.
- 2020: publicação do estudo sobre águas subterrâneas no Gomti.
- 6 de junho de 2025: publicação do estudo nacional sobre cheias fluviais.
A conclusão mais sólida não é que as inundações desapareceram nem que todos os rios estejam perdendo água no mesmo ritmo. É que os padrões históricos de cheias variam entre regiões e estações, enquanto o armazenamento de água e o uso das águas subterrâneas podem alterar o que chega aos rios. O planejamento precisa levar essas diferenças em conta, em vez de se apoiar em uma única tendência nacional.
Principais pontos
- Os picos de cheias de monção nas partes oeste e central do Ganges caíram, em média, 17% por década entre 1970 e 2010.
- Das 173 estações, 128 registraram redução da magnitude; 47 dessas reduções foram estatisticamente significativas.
- As cheias na costa de Malabar antes da monção aumentaram 8% por década, enquanto Marathwada registrou reduções nas duas estações analisadas.
- As cheias passaram a ocorrer mais cedo no foco da parte baixa do Yamuna e mais tarde no foco do Alto Ganges.
- O estudo do Gomti relacionou o esgotamento das águas subterrâneas à redução das vazões e informou que 23 afluentes estavam secos durante a estação de vazão baixa em 2018.
- Picos históricos menores nos rios não descartam inundações locais destrutivas nem comprovam uma redução equivalente no abastecimento anual de água.






