Quatro campos de gás abastecem a produção de energia e fertilizantes
Quatro campos de gás natural na província de Jawzjan, no norte do Afeganistão, produzem cerca de 650 mil metros cúbicos por dia, segundo Akhtar Mohammad Mansour, diretor da Afghan Gas Enterprise. Dois grandes clientes recebem, juntos, cerca de 600 mil metros cúbicos: a estatal Mazar-i-Sharif Fertiliser and Power Company recebe 400 mil para a produção de fertilizantes, enquanto a Bayat Power recebe 200 mil para a geração de eletricidade.
Conteúdo
- Quatro campos de gás abastecem a produção de energia e fertilizantes
- Destino do fornecimento diário de gás
- Os riscos ambientais vão além dos poços
- O que as salvaguardas realmente preveem
- O tratamento do enxofre é uma questão técnica central
- Os números da produção precisam de data e contexto
- Décadas de infraestrutura e planos ainda não concluídos
- O monitoramento importa mais do que os rótulos de risco
- Pressões sobre a água, salários e experiências locais
- Principais pontos
Os números mostram o quanto a extração de gás está ligada à atividade industrial e ao fornecimento de eletricidade. Também deixam uma diferença de cerca de 50 mil metros cúbicos entre a produção declarada e as entregas a esses dois clientes. Mansour não especificou como esse volume é destinado. Como os números são aproximados, a diferença não pode ser considerada prova de desperdício, vazamento ou oferta excedente.
Mansour afirma que a extração em Khwaja Gogerdak, Yatimtaq, Jarqduq e Shakarak continua regularmente, com o gás sendo processado antes de ser transportado por gasodutos. Sete poços estão ativos em Yatimtaq, onde trabalham cerca de 850 engenheiros e trabalhadores.
O especialista em mineração de gás Maiwand Arya alerta que os benefícios exigem atenção contínua à água, ao solo, ao ar e a outros riscos ambientais durante toda a exploração, perfuração, extração e transporte. Documentos oficiais do projeto oferecem um panorama mais detalhado das salvaguardas previstas na etapa de geração de eletricidade dessa cadeia. Esses documentos preveem riscos administráveis, mas também pedem monitoramento, controle de resíduos e medidas corretivas. Eles não comprovam que os quatro campos de extração estejam atualmente cumprindo todos os requisitos ambientais.
Destino do fornecimento diário de gás
A empresa de fertilizantes recebe o dobro do volume fornecido à Bayat Power. Com base nos números de Mansour, sua parcela corresponde a cerca de 61,5% da produção diária dos campos, enquanto a da Bayat representa cerca de 30,8%. Juntos, os dois clientes mencionados respondem por aproximadamente 92,3% dos 650 mil metros cúbicos informados.
Essas proporções descrevem volumes de gás, não o valor econômico relativo da produção de fertilizantes e de eletricidade. O gás entregue a uma fábrica de fertilizantes abastece um processo industrial diferente daquele em que o gás é queimado para gerar eletricidade. As entregas informadas também não indicam quanto fertilizante ou eletricidade as empresas efetivamente produzem.
A Bayat recebe o gás por contrato, afirma Mansour. A avaliação do projeto previa a venda de eletricidade à Da Afghanistan Breshna Sherkat, a concessionária nacional, por meio de um contrato de compra de energia com duração de 20 anos. Esse acordo conecta a infraestrutura de extração de Jawzjan ao sistema elétrico mais amplo, e não apenas às residências próximas aos poços.
Os riscos ambientais vão além dos poços
Arya aponta possíveis riscos de poluição da água e do ar, poluição sonora e luminosa, subsidência do solo, mudanças climáticas e perda de biodiversidade. Subsidência do solo é o afundamento ou acomodação do terreno. O alerta abrange toda a cadeia de produção de gás, não apenas o momento em que o gás é extraído de um poço.
Ele também diferencia poluição de consumo de recursos. As águas subterrâneas e superficiais podem ser contaminadas, enquanto o uso de água pode gerar uma demanda separada sobre os recursos locais. O solo pode ser poluído ou degradado por atividades relacionadas. Esses são possíveis efeitos que, segundo ele, precisam de atenção, não constatações de que todos já tenham ocorrido em Jawzjan.
A avaliação ambiental da Bayat, publicada pelo Banco Mundial, identifica várias fontes concretas de poluição no projeto de usina elétrica proposto. Durante a construção, os resíduos líquidos podem incluir águas pluviais contaminadas, esgoto sanitário, subprodutos químicos e fluidos de máquinas. O documento alerta que esses materiais podem poluir o solo, as águas superficiais e subterrâneas se não forem devidamente contidos, limpos e descartados.
A avaliação também aponta as emissões dos veículos, o maquinário de construção e a poeira como preocupações para a qualidade do ar. Iluminação, tráfego, remoção da vegetação, ruído e derramamentos acidentais podem afetar habitats e espécies. As conclusões dizem respeito ao projeto de geração de energia da Bayat e, portanto, não devem ser interpretadas como uma investigação ambiental concluída dos quatro campos de gás em produção.
O que as salvaguardas realmente preveem
Mansour afirma que equipes técnicas monitoram a extração e respondem a problemas nos equipamentos. Ele também diz que foram realizadas avaliações antes do início da extração e que as distâncias em relação às áreas residenciais foram definidas de acordo com as normas ambientais. Khwaja Gogerdak e Yatimtaq ficam a cerca de 15 quilômetros de áreas residenciais, afirma ele, enquanto Jarqduq e Shakarak ficam a cerca de 20 quilômetros.
A avaliação da Bayat localiza o projeto da usina elétrica em Yatimtaq, aproximadamente 20 quilômetros a leste de Sheberghan, próximo aos campos de gás de Yatimtaq e Jarquduk. Um trecho afirma que os conjuntos residenciais mais próximos ficam a mais de 15 quilômetros. Outro descreve as áreas residenciais e agrícolas mais próximas como estando a mais de 12 quilômetros a oeste e ao norte. Portanto, o documento apresenta diferentes distâncias, e nenhuma delas deve ser usada no lugar de um mapa atual e verificado dos locais de extração.
A avaliação classificou como baixos ou médios os impactos ambientais e sociais do projeto da usina e considerou que os efeitos cumulativos envolvendo águas residuais, resíduos sólidos e perigosos e recursos hídricos seriam muito mínimos. Essas eram previsões feitas durante a avaliação do projeto, não medições que comprovem a ausência de poluição durante a operação.
As recomendações vão além de manter as residências a certa distância. O documento pede medidas de mitigação para todos os possíveis impactos identificados, inclusive os classificados como baixos, além de monitoramento capaz de detectar problemas inesperados.
O tratamento do enxofre é uma questão técnica central
Mansour afirma que substâncias nocivas são separadas do gás e queimadas antes que ele chegue aos consumidores. Ele não identifica as substâncias, não descreve os equipamentos de tratamento nem fornece medições das emissões geradas por esse processo de queima.
O panorama setorial do projeto de Mazar, do Banco Asiático de Desenvolvimento (ADB), fornece um detalhe técnico importante: o gás dos campos de Sheberghan é descrito como ácido, com altos níveis de enxofre, e precisa ser tratado em uma unidade de aminas. Gás ácido é o gás que contém compostos de enxofre que precisam ser removidos para atender aos requisitos de segurança e qualidade do combustível. Uma unidade de aminas usa uma solução química para separar gases indesejados do combustível aproveitável.
O documento do ADB descreve uma unidade de tratamento financiada pelo governo dos Estados Unidos em 2014, com capacidade de um milhão de metros cúbicos por dia. Na época daquela avaliação, ela operava a 20% da capacidade e precisava ser otimizada. A conclusão dos trabalhos de calibração era esperada para o segundo trimestre de 2020. Esses números históricos não demonstram a vazão atual nem o desempenho presente do tratamento.
Separar os contaminantes protege o fornecimento de gás, mas a queima das substâncias separadas cria outro processo que também requer controle ambiental. Nem o relato de Mansour nem as informações do projeto estabelecem a quantidade ou a composição atual das emissões dessa atividade. A distinção é importante: o tratamento antes da entrega e o controle de emissões durante o tratamento são responsabilidades diferentes.
Os números da produção precisam de data e contexto
O panorama do ADB descreveu os campos de Sheberghan como capazes de fornecer potencialmente 500 mil metros cúbicos por dia. A produção informada por Mansour, de 650 mil metros cúbicos, é 150 mil maior, uma diferença de 30% em relação àquele número anterior. Essa é uma comparação entre uma estimativa anterior de potencial e uma produção informada posteriormente, não uma medição verificada do crescimento da produção.
O mesmo documento do ADB informou que a capacidade de produção da Afghan Gas Enterprise era superior a 1,6 milhão de metros cúbicos por dia. Capacidade é a quantidade que uma operação pode conseguir produzir em determinadas condições; produção efetiva é o que ela realmente produz. O número referente à empresa não pode ser considerado equivalente à produção diária dos quatro campos de Jawzjan mencionados.
O ADB também citou reservas de gás identificadas no Afeganistão de 75 bilhões de metros cúbicos e uma estimativa de 444 bilhões de metros cúbicos de recursos não descobertos e tecnicamente recuperáveis no norte do país. Recursos não descobertos são estimativas de gás que pode ser encontrado e extraído com a tecnologia disponível, não reservas confirmadas prontas para venda.
Uma descrição anterior do projeto da Bayat estimou em 15,7 trilhões de pés cúbicos os recursos de gás da região norte, o equivalente a aproximadamente 445 bilhões de metros cúbicos. A escala é semelhante à estimativa de recursos do ADB, mas isso não demonstra que os documentos tenham usado exatamente os mesmos limites geográficos ou definições de recursos.
Décadas de infraestrutura e planos ainda não concluídos
O fornecimento atual de Jawzjan depende de infraestrutura desenvolvida ao longo de décadas. O panorama do ADB situa em 1967 o início da exploração de gás natural em Khwaja Gogerdak e descreve um gasoduto de 89 quilômetros, construído em 1974, que abastecia a Northern Fertilizer Power Plant e outros clientes.
O documento afirmava que aquele gasoduto não podia suportar a pressão do gás necessária para o projeto de geração de eletricidade de Mazar. Um novo gasoduto de 94,5 quilômetros entre Sheberghan e Mazar estava em construção, com 45 quilômetros concluídos e previsão de conclusão até o fim de 2020. Esse era o prazo de um plano anterior, não uma confirmação de que o gasoduto tenha sido concluído.
Marcos importantes mostram como a extração, a regulamentação e os investimentos em geração de energia se desenvolveram em conjunto:
- 1967: Começou a exploração de gás natural em Khwaja Gogerdak.
- 1974: Foi construído o gasoduto existente de 89 quilômetros.
- 2009: O Afeganistão aprovou sua primeira lei de hidrocarbonetos.
- 2013: O ADB apoiou a recuperação de poços de Sheberghan, incluindo os de Yatimtaq, e a elaboração de um Plano Diretor de Desenvolvimento do Gás.
- Outubro de 2016: A Bayat Energy assinou um memorando de entendimento com o governo afegão.
- Abril de 2018: A Bayat recebeu aprovação para a primeira fase do projeto e assinou um contrato de compra de energia que abrange 40 megawatts.
- Setembro de 2018: A lei de hidrocarbonetos foi alterada.
- Março de 2019: Uma autoridade independente de petróleo e gás começou oficialmente a operar sob a lei alterada.
O plano de desenvolvimento original da Bayat propunha três fases, um investimento estimado em US$ 250 milhões e uma capacidade final superior a 200 megawatts. A primeira fase deveria começar a operar em 2019. A capacidade proposta de 41 megawatts para as turbinas e a compra contratada de 40 megawatts de eletricidade eram medidas diferentes. O plano não comprova que as três fases tenham sido construídas nem que toda a capacidade proposta esteja em operação atualmente.
O monitoramento importa mais do que os rótulos de risco
A avaliação da Bayat especifica as verificações que fundamentam as classificações de risco baixo e médio. Ela prevê auditorias ambientais, sociais, de saúde e de segurança trimestrais durante a construção e anuais durante a operação. Foram propostas inspeções semanais de águas residuais durante a construção, com frequência mensal durante a operação, além de análises do solo e da água quando necessário.
Para as emissões atmosféricas durante a operação, a avaliação pede a modelagem da dispersão de poluentes nas proximidades da usina e prevê que as emissões das chaminés atendam aos padrões da Corporação Financeira Internacional para óxidos de nitrogênio, monóxido de carbono e material particulado. Esses poluentes podem afetar a qualidade do ar, por isso medições reais durante a operação são importantes, além das expectativas quanto ao projeto dos equipamentos.
O documento também trata da exposição dos trabalhadores. Ele estimou o ruído da construção entre 83 e 87 decibéis a uma distância de 10 metros e recomendou proteção auditiva para os trabalhadores que atuassem nas proximidades. Separadamente, cita diretrizes de ruído residencial de 55 decibéis durante o dia e 45 à noite, medidos como média ao longo de uma hora. As estimativas de ruído da construção perto do maquinário não equivalem a medições em uma aldeia.
Segundo a avaliação, também foi criado um mecanismo de reclamações, com comitês locais que incluem representantes de aldeias em um raio de 15 quilômetros e encaminhamento das reclamações não resolvidas a um comitê provincial. Esses relatos não comprovam a existência de resultados atuais de auditorias, medições de emissões ou desfechos das reclamações.
Pressões sobre a água, salários e experiências locais
A avaliação ambiental situa o projeto em uma região que enfrenta pressões mais amplas sobre os recursos hídricos. O documento cita um aumento de 0,6 grau Celsius na temperatura média anual do Afeganistão desde 1960 e projeta um aumento adicional de 1,4 a 4 graus até 2060. Para o norte do Afeganistão, descreve uma queda na precipitação média no longo prazo, acompanhada por secas e inundações mais frequentes.
Essas projeções não provam que a extração de gás tenha causado uma escassez local de água. Elas explicam por que as preocupações de Arya sobre o consumo de água merecem atenção, assim como as questões de contaminação. A avaliação também descreve camadas alternadas de cascalho, areia, silte e argila na área do projeto, reforçando a necessidade de análises específicas do solo e da água em cada local, em vez de pressupostos baseados apenas na distância das residências.
Os trabalhadores descrevem outro aspecto do setor: renda e emprego. Mohammad, de 45 anos, que trabalha no setor de gás há mais de um ano, afirma que os funcionários verificam os equipamentos antes dos turnos e precisam manter a atenção enquanto o maquinário, os veículos e os poços operam continuamente. Ele descreve os poços como essenciais para o sustento das famílias:
Para nós, cada poço não é apenas um poço; é a esperança de uma família.
Aziz, de 50 anos, afirma que a perfuração, a inspeção, a extração, o transporte e o processamento envolvem muitos trabalhadores, técnicos e engenheiros. Ele defende mais investimentos e a criação de empregos para os moradores da região. Os cerca de 850 trabalhadores e engenheiros informados em Yatimtaq não devem ser somados à estimativa de aproximadamente 70 empregos na construção da avaliação da Bayat, pois os números se referem a atividades e períodos diferentes.
Qurban Murad, morador da região, afirma que o gás ajudou a atender às necessidades diárias de energia e que não observou nenhum problema de saúde específico atribuível à extração. Rozi, morador de Yatimtaq, também descreve benefícios para as necessidades domésticas e os meios de subsistência. As experiências deles são relevantes, mas observações pessoais não substituem o acompanhamento médico nem os testes ambientais.
O quadro imediato, portanto, combina um fornecimento industrial documentado com salvaguardas cujos resultados atuais não foram estabelecidos. Mansour relata produção regular e supervisão técnica; Arya aponta riscos que exigem atenção contínua; e a avaliação da Bayat especifica medidas de monitoramento e correção. Esses relatos não anunciam nenhuma nova audiência, prazo para inspeção ou data de divulgação de resultados ambientais atuais.
Principais pontos
- Quatro campos de gás de Jawzjan produzem, segundo informações divulgadas, cerca de 650 mil metros cúbicos por dia.
- A empresa de fertilizantes de Mazar recebe cerca de 400 mil metros cúbicos, e a Bayat Power, cerca de 200 mil metros cúbicos por dia.
- Yatimtaq tem sete poços ativos e cerca de 850 engenheiros e trabalhadores, segundo a Afghan Gas Enterprise.
- Os possíveis riscos incluem poluição da água e do solo, emissões atmosféricas, ruído, subsidência e perda de biodiversidade.
- A avaliação da Bayat prevê impactos baixos ou médios no projeto, mas exige medidas de mitigação, monitoramento e auditorias.
- Documentos anteriores do ADB apontam o tratamento do enxofre e a capacidade dos gasodutos como importantes limitações técnicas.
- Trabalhadores e moradores descrevem benefícios econômicos, mas não há comprovação de medições ambientais ou conclusões de auditorias atuais.






