Projeto de US$ 1 milhão busca atender a uma necessidade de financiamento muito maior
O Cazaquistão e o Fundo Verde para o Clima (GCF, na sigla em inglês) assinaram um acordo para um projeto de mais de US$ 1 milhão destinado à criação da Plataforma de Investimentos Climáticos do Cazaquistão (QCIP, na sigla em inglês). O objetivo é transformar propostas climáticas em projetos que instituições financeiras possam avaliar e eventualmente financiar, diante de necessidades nacionais de investimento climático estimadas em US$ 175,6 bilhões entre 2026 e 2035.
Conteúdo
- Projeto de US$ 1 milhão busca atender a uma necessidade de financiamento muito maior
- De propostas tecnológicas a projetos financiáveis
- Quem vai administrar a plataforma?
- A agenda de investimentos de US$ 175,6 bilhões
- Por que o financiamento acessível é importante
- Conexão entre política climática e instrumentos financeiros
- Credores nacionais já têm um papel
- Como a plataforma se encaixa no cronograma das políticas
- O que vai demonstrar resultados?
- Principais pontos
O acordo foi assinado durante o Diálogo Regional do GCF com países da Europa Oriental e da Ásia Central, no âmbito da nova fase do programa de preparação Readiness III do fundo. Saken Kalkamanov, presidente do conselho de administração do Centro Internacional de Tecnologias Verdes e Projetos de Investimento (IGTIC, na sigla em inglês), e Thomas Eriksson, diretor regional do GCF para a Europa Oriental, a Ásia Central e o Oriente Médio, assinaram o acordo.
O anúncio de criação da plataforma do IGTIC informa que Nurken Sharbiev, vice-ministro da Ecologia e dos Recursos Naturais, participou da cerimônia. Outro relato o descreve como primeiro vice-ministro. Ambos identificam o mesmo representante como presente.
A distinção entre o orçamento da plataforma e as necessidades de investimento do Cazaquistão é importante. O valor superior a US$ 1 milhão corresponde ao projeto de criação do mecanismo, e não a um compromisso de financiar o programa de investimentos climáticos do país. A QCIP deve preparar uma carteira de projetos que possa buscar recursos muito maiores junto a parceiros financeiros nacionais e internacionais.
De propostas tecnológicas a projetos financiáveis
A QCIP vai coordenar investimentos climáticos e preparar projetos para possível financiamento do GCF, do Banco de Desenvolvimento do Cazaquistão (DBK, na sigla em inglês) e de outras instituições financeiras. Seu objetivo central é ir além de iniciativas tecnológicas isoladas e propostas de projetos, avançando para investimentos estruturados e prontos para avaliação financeira.
Uma tecnologia promissora não se transforma automaticamente em um projeto financiável. Investidores e credores precisam de uma proposta que possam avaliar, inclusive em relação às prioridades nacionais e à viabilidade de sua estrutura financeira. O papel anunciado para a plataforma é organizar essa transição e conectar os desenvolvedores a possíveis fontes de financiamento.
Nem o anúncio do acordo nem o plano climático apresentam uma lista inicial de projetos da QCIP, seus custos individuais ou compromissos de financiamento. Portanto, a plataforma representa uma etapa de preparação e coordenação de projetos, e não uma comprovação de que uma nova carteira já obteve recursos.
Quem vai administrar a plataforma?
Um comitê diretor presidido pelo Ministério da Ecologia e dos Recursos Naturais do Cazaquistão vai supervisionar a integridade ambiental e climática da QCIP. Também vai coordenar o diálogo com órgãos governamentais responsáveis por políticas tarifárias, finanças, planejamento e regulação econômica.
Essas atribuições estão diretamente relacionadas aos problemas de financiamento identificados nos compromissos climáticos do Cazaquistão. As tarifas afetam a receita que os projetos podem gerar, enquanto decisões financeiras e de planejamento influenciam a possibilidade de levar propostas climáticas adiante. A participação dessas autoridades dá à plataforma um papel que vai além de aproximar desenvolvedores e credores.
O secretariado ficará sediado no IGTIC, que dará apoio operacional e organizará a cooperação entre órgãos governamentais, desenvolvedores de projetos, instituições financeiras e parceiros internacionais. A estrutura anunciada separa a liderança e a supervisão ministeriais do trabalho cotidiano de coordenação do centro.
O anúncio não especifica os procedimentos detalhados para seleção de projetos e apresentação de candidaturas, nem o cronograma operacional da plataforma. Esses aspectos vão determinar como os desenvolvedores poderão acessar o apoio e como as propostas avançarão durante a preparação.
A agenda de investimentos de US$ 175,6 bilhões
A terceira contribuição climática nacional do Cazaquistão, conhecida como NDC 3.0, abrange o período de 2026 a 2035. Uma contribuição nacionalmente determinada é o compromisso climático de um país no âmbito do Acordo de Paris. O documento do Cazaquistão relaciona as ações desta década à estratégia para alcançar a neutralidade de carbono até 2060.
A NDC estima necessidades indicativas de investimento de cerca de US$ 175,6 bilhões ao longo desse período. Desse total, US$ 128,5 bilhões seriam destinados à mitigação, ou seja, a ações para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, e US$ 47 bilhões à adaptação, isto é, a medidas para reduzir a exposição e a vulnerabilidade aos efeitos climáticos.
Esses valores somam US$ 175,5 bilhões, um pouco abaixo da estimativa total informada. Devem ser considerados valores aproximados, e não ajustados para formar um total oficial diferente. Com base no valor total informado, a mitigação representa cerca de 73% da necessidade de investimento, e a adaptação, cerca de 27%.
O documento estima que o total corresponda a aproximadamente 5,5% do produto interno bruto atual por ano. Também calcula em US$ 71,8 bilhões os custos adicionais em relação a um cenário de manutenção das tendências atuais, o equivalente a cerca de 2,5% do PIB anual. São medidas diferentes: o valor maior descreve as necessidades de investimento, enquanto o menor estima os gastos adicionais em comparação com a trajetória de referência.
Por que o financiamento acessível é importante
O Cazaquistão estima que serão necessários cerca de US$ 20 bilhões em financiamento internacional altamente concessional. Esse tipo de financiamento oferece condições mais favoráveis do que as de um empréstimo comercial comum, por meio de juros menores, prazos de pagamento mais longos ou outros mecanismos que reduzem o custo do investimento.
A NDC aponta várias razões para as difíceis condições de financiamento de projetos verdes. Entre elas estão as tarifas baixas pagas pelos consumidores finais, a continuidade dos subsídios aos combustíveis fósseis e o acesso limitado a financiamento acessível de longo prazo. Em conjunto, essas condições podem tornar os investimentos verdes menos atraentes do que os projetos baseados em combustíveis fósseis.
A NDC do Cazaquistão também identifica uma limitação específica para a obtenção de empréstimos envolvendo novas tecnologias:
Equipamentos inovadores muitas vezes não são aceitos como garantia, o que limita as opções de empréstimo.
Uma garantia é um bem que o credor pode tomar caso o devedor não pague o empréstimo. Se um equipamento não puder cumprir essa função, o desenvolvedor pode ter dificuldade para obter crédito, mesmo quando a tecnologia tem uma aplicação climática útil. A QCIP pode ajudar a organizar propostas e reunir as instituições relevantes, mas sua criação, por si só, não altera as regras sobre garantias, as tarifas ou os subsídios.
Conexão entre política climática e instrumentos financeiros
A NDC já prevê uma Plataforma Nacional para Mobilização de Financiamento Climático, que conectaria órgãos governamentais, empresas privadas e parceiros internacionais. O IGTIC descreve a QCIP como um mecanismo prático para implementar a NDC atualizada e seu plano de implementação, e não como uma iniciativa separada da política climática nacional.
A plataforma descrita na NDC conectaria o sistema de comércio de emissões do Cazaquistão, o mecanismo do Artigo 6 do Acordo de Paris, um Fundo de Carbono e planos de transição empresarial. Um sistema de comércio de emissões estabelece um limite para as emissões abrangidas e permite que os participantes regulados negociem permissões de emissão. O Artigo 6 oferece um marco para a cooperação internacional, incluindo transferências de reduções de emissões conforme regras acordadas.
A plataforma prevista na NDC reuniria a preparação de projetos, o financiamento e o monitoramento em um marco unificado. Também desenvolveria projetos adequados ao financiamento combinado, que reúne fontes como capital público ou concessional e investimento comercial para tornar os projetos mais atraentes aos investidores.
Outra tarefa prevista é alinhar os mercados financeiros nacionais aos padrões internacionais para títulos verdes, divulgação de informações e classificação de atividades verdes. O anúncio de criação da plataforma não explica os procedimentos detalhados para conectar cada um desses instrumentos à QCIP, portanto essa parte da implementação continua sem especificação.
Credores nacionais já têm um papel
O Banco de Desenvolvimento do Cazaquistão é citado como possível parceiro de financiamento da QCIP, o que vincula a plataforma a uma instituição nacional com experiência em energia renovável. A NDC registra que o DBK financiou sete grandes projetos eólicos, solares e hidrelétricos com empréstimos que somam aproximadamente US$ 237 milhões.
O documento também informa que a Baiterek Holding e suas subsidiárias haviam destinado cerca de US$ 355 milhões a projetos verdes até 1º de julho de 2023, por meio de empréstimos, arrendamentos financeiros, garantias e subsídios. Esses valores descrevem atividades de financiamento nacional já existentes, e não recursos recém-prometidos pelo acordo da QCIP. Não devem ser somados como compromissos separados sem antes verificar se há sobreposição entre eles.
O Plano de Ação para a Economia Verde do Cazaquistão, de 2024 a 2030, busca ampliar a emissão de empréstimos e títulos verdes até 2030. A NDC também defende o uso mais amplo de títulos soberanos e municipais, financiamento combinado, garantias, fundos conjuntos e mecanismos de liquidez.
Para a QCIP, a oportunidade prática é conectar projetos preparados a esses canais de financiamento. O plano climático aponta a energia renovável, o transporte com menores emissões e a infraestrutura de adaptação como áreas em que é preciso desenvolver carteiras de projetos para atrair capital privado. Essas são prioridades nacionais, não uma seleção anunciada dos primeiros investimentos da QCIP.
Como a plataforma se encaixa no cronograma das políticas
A QCIP se insere em vários períodos de planejamento que se sobrepõem. A NDC descreve uma etapa de implementação de dez anos, enquanto o plano de economia verde e o plano nacional de desenvolvimento têm metas anteriores. Espera-se que a plataforma conecte a preparação de projetos a esses compromissos de política pública.
- 1º de julho de 2023: data de referência dos cerca de US$ 355 milhões em apoio a projetos verdes registrado para a Baiterek Holding e suas subsidiárias.
- 2024 a 2030: o Plano de Ação para a Economia Verde inclui metas para ampliar a emissão de empréstimos e títulos verdes.
- 2026 a 2035: a NDC 3.0 abrange o próximo período de ação climática nacional, com necessidades indicativas de investimento de US$ 175,6 bilhões.
- 2029: o Plano Nacional de Desenvolvimento vai até esse ano e pretende ajudar a integrar objetivos climáticos ao planejamento do desenvolvimento.
- 2060: a meta de neutralidade de carbono do Cazaquistão estabelece o horizonte de longo prazo, com necessidades de investimento estimadas em US$ 610 bilhões.
A NDC também menciona um Plano Nacional de Adaptação, a ser elaborado, que integrará objetivos climáticos ao planejamento setorial e territorial. Os anúncios não especificam a data de publicação desse plano, o prazo para candidaturas a projetos da QCIP nem a data da primeira decisão de financiamento.
O que vai demonstrar resultados?
O Ministério da Ecologia e dos Recursos Naturais identificou uma medida prática da eficácia da QCIP: o número de projetos que chegam à maturidade para investimento e são conectados a fontes específicas de financiamento. Essa medida diferencia a criação da instituição da elaboração de propostas que os parceiros financeiros possam levar adiante.
Estar pronto para investimento e ter o financiamento aprovado são etapas distintas. Um credor ou investidor pode avaliar um projeto preparado sem necessariamente financiá-lo. Portanto, para avaliar a plataforma será preciso observar tanto as propostas que ela desenvolver quanto as decisões de financiamento que vierem depois.
Não foi anunciada uma meta numérica de projetos preparados, uma primeira carteira publicada nem um cronograma detalhado para chegar a essas etapas. O acordo estabelece uma base institucional para a cooperação, mas não determina em quanto tempo serão atendidas as necessidades de investimento muito maiores do Cazaquistão.
O principal teste será saber se a QCIP consegue transformar compromissos nacionais em investimentos concretos e, ao mesmo tempo, enfrentar as condições financeiras descritas na NDC. A supervisão ministerial, o secretariado do IGTIC e os vínculos com parceiros nacionais e internacionais fornecem uma estrutura para esse trabalho. Os resultados dependerão dos projetos que surgirem e das instituições que concordarem em financiá-los.
Principais pontos
- O Cazaquistão e o GCF assinaram um acordo para um projeto de mais de US$ 1 milhão destinado a criar a QCIP no âmbito do programa Readiness III.
- A plataforma vai preparar projetos climáticos para possível financiamento, em vez de criar um novo fundo de investimento anunciado.
- O Ministério da Ecologia presidirá o comitê diretor, e o IGTIC sediará o secretariado.
- O Cazaquistão estima necessidades de investimento climático de US$ 175,6 bilhões entre 2026 e 2035, incluindo US$ 128,5 bilhões para mitigação e US$ 47 bilhões para adaptação.
- A NDC aponta a necessidade de cerca de US$ 20 bilhões em financiamento internacional altamente concessional.
- Não foram anunciados uma carteira inicial de projetos da QCIP, um prazo para candidaturas ou um cronograma de decisões de financiamento.






