Investigação de fraude com óleo de palma na Indonésia liga grandes empresas europeias de energia a esquema de rotulagem fraudulenta

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Investigação de fraude com óleo de palma na Indonésia liga grandes empresas europeias de energia a esquema de rotulagem fraudulenta

A fraude vem à tona

Autoridades indonésias prenderam 11 pessoas, incluindo funcionários da alfândega e executivos de empresas, em uma ampla investigação sobre fraude com óleo de palma que expôs fragilidades críticas nas cadeias internacionais de abastecimento de biocombustíveis. A investigação, conduzida pelo gabinete do procurador-geral da Indonésia, alega que empresas locais conspiraram com autoridades para disfarçar óleo de palma como um subproduto residual chamado efluente de usina de óleo de palma, ou POME, permitindo que evitassem impostos mais altos e causassem prejuízos de milhões de dólares ao Estado.

Conteúdo
  1. A fraude vem à tona
  2. Como funcionava o esquema
  3. Empresas e pessoas implicadas
  4. Resposta dos compradores europeus
  5. Sistemas de certificação falhos
  6. Devastação ambiental em Sumatra
  7. Respostas regulatórias na Europa
  8. Em resumo

A investigação envolve grandes empresas europeias de energia. Documentos mostram que a gigante petrolífera italiana Eni e a produtora finlandesa de combustível sustentável para aviação Neste receberam várias remessas das empresas indonésias agora implicadas no esquema. Não há indícios de que a Eni, a Neste ou outros compradores europeus soubessem da suposta fraude ou estivessem envolvidos nela. As duas empresas afirmaram que retiraram o óleo de palma de suas cadeias de abastecimento anos atrás, por preocupações ambientais. Ainda assim, as remessas recebidas entre 2023 e 2024 levantam questões preocupantes sobre os sistemas de verificação criados para evitar exatamente esse tipo de fraude.

Como funcionava o esquema

Para entender a suposta fraude, é útil conhecer a diferença entre os dois produtos. O óleo de palma é o principal óleo vegetal extraído do fruto da palmeira-dendê, amplamente usado em alimentos, cosméticos e, cada vez mais, como matéria-prima para biocombustíveis. O POME, ou efluente de usina de óleo de palma, é o resíduo líquido gerado durante o processamento e o refino, tradicionalmente considerado um subproduto que precisa ser tratado e descartado. Pelas regras tributárias da Indonésia, as exportações de óleo de palma estão sujeitas a impostos significativamente mais altos do que as de POME, classificado como material residual de menor valor. Ao supostamente declarar óleo de palma como POME, os exportadores podiam pagar impostos bem menores e ainda vender uma mercadoria valiosa a produtores internacionais de biocombustíveis.

A investigação indonésia sustenta que empresas subornaram funcionários da alfândega para facilitar essa falsa classificação entre 2022 e 2024. Para o governo indonésio, o esquema representa milhões de dólares em receita perdida, num momento em que o país busca maximizar o retorno obtido com seus recursos naturais. Para os compradores europeus, estão em jogo compromissos complexos de sustentabilidade. A União Europeia planeja proibir o uso de óleo de palma em biocombustíveis a partir de 2030, devido à sua relação comprovada com o desmatamento e a destruição de habitats. O POME, por ser um resíduo certificado, está sujeito a menos restrições pelas normas europeias de energia renovável, o que o torna uma alternativa atraente para empresas que buscam cumprir metas ambiciosas de descarbonização sem usar matérias-primas controversas sujeitas à proibição.

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Empresas e pessoas implicadas

No mês passado, autoridades indonésias detiveram 11 pessoas, entre elas diretores de três empresas importantes e vários funcionários da alfândega. Com base em dados comerciais, acordos de acionistas e documentos alfandegários obtidos por meio de pedidos de acesso à informação, jornalistas da AFP e da SourceMaterial identificaram três dos executivos presos.

Entre eles está Tony, que, como muitos indonésios, usa um único nome. Ele é diretor da Tanimas Edible Oil e também detém participação na Green Product International. As autoridades o identificam em documentos oficiais apenas pelas iniciais TNY. A Green Product International foi a principal fornecedora indonésia de produtos de óleo de palma para a Eni entre 2023 e 2025, com 21 remessas. A mais recente chegou em outubro. No mesmo período, a empresa também enviou pelo menos 27 cargas à Neste.

Os outros dois diretores presos são Van Ricardo, da Surya Inti Primakarya, e Erwin, da Bumi Mulia Makmur. Ambos autorizaram remessas à Eni entre 2022 e 2024. Segundo o gabinete do procurador-geral, os três executivos continuam detidos. A Green Product International não respondeu aos pedidos de comentário, e as tentativas de contato com a Surya Inti Primakarya e a Bumi Mulia Makmur não tiveram retorno.

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Resposta dos compradores europeus

A Eni e a Neste agiram rapidamente para se distanciar dos fornecedores implicados. A Eni afirmou que mantém uma política de tolerância zero a violações regulatórias e que não tinha contratos diretos com as empresas acusadas. Em vez disso, a gigante italiana de energia recebeu as remessas por meio de um fornecedor credenciado, a Enviq, que suspendeu imediatamente todas as operações com as empresas envolvidas depois que a investigação veio a público. A Enviq não respondeu aos pedidos de comentário.

A Neste, que se apresenta como líder em combustível sustentável para aviação, disse que instruiu seu fornecedor a excluir as empresas implicadas da cadeia de abastecimento no dia seguinte ao anúncio das prisões pelas autoridades indonésias. A empresa finlandesa ressaltou que leva a sério os riscos de fraude e desenvolveu métodos rigorosos de análise. Segundo a Neste, amostragens periódicas de entregas da Green Product International entre 2023 e 2025 apresentaram resultados compatíveis com resíduos e subprodutos derivados de óleo de palma, e não com o perfil típico do óleo de palma bruto.

Além da Eni e da Neste, registros comerciais indicam que a Green Product International forneceu produtos à trading suíça Kolmar, à gigante petrolífera espanhola Repsol e à gigante americana do agronegócio Cargill. Nenhuma dessas empresas enviou declarações para publicação sobre as acusações.

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Sistemas de certificação falhos

O caso expôs falhas gritantes nos sistemas de certificação de terceiros dos quais reguladores e empresas europeus dependem para prevenir fraudes. A Eni observou que suas remessas foram processadas por uma empresa certificada pela International Sustainability and Carbon Certification, ou ISCC, entidade reconhecida pela União Europeia para verificar importações de óleo de palma destinadas a biocombustíveis. O sistema da ISCC foi criado para rastrear os produtos da origem ao destino e garantir que o que chega aos portos europeus corresponde à documentação e aos critérios de sustentabilidade declarados.

No entanto, um porta-voz da ISCC reconheceu que um dos fornecedores visados pela investigação, a Surya Inti Primakarya, está atualmente impedido de obter uma nova certificação, enquanto outro, a Bumi Mulia Makmur, já havia sido excluído por violações não especificadas. Chama a atenção que a Green Product International, empresa que enviou dezenas de remessas a grandes companhias europeias de energia, incluindo a Eni e a Neste, ainda tenha um certificado válido da ISCC, segundo o cadastro on-line da entidade. A ISCC não respondeu quando questionada se a certificação seria reavaliada diante da investigação criminal e da detenção ainda em curso de um acionista da empresa.

Especialistas independentes afirmam que essa lacuna na certificação aponta para falhas fundamentais de verificação. James Cogan, chefe de políticas públicas da ClonBio, fabricante irlandesa de biocombustíveis que compra exclusivamente dentro da União Europeia para evitar riscos desse tipo, defendeu transparência radical.

Eu desafiaria qualquer processadora de POME ou de biocombustíveis à base de POME a divulgar seus volumes, suas fontes e a documentação, para permitir o escrutínio público e independente.

A declaração de Cogan reflete a preocupação crescente entre profissionais do setor de que a verificação se tornou tão problemática que compradores e reguladores deveriam desconfiar de qualquer remessa de POME. Algumas análises independentes sugerem que o volume total de POME usado na União Europeia e no Reino Unido supera a oferta global estimada, o que indicaria uma classificação fraudulenta generalizada no setor, embora associações comerciais do segmento contestem esses cálculos e os considerem imprecisos.

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Devastação ambiental em Sumatra

A suposta fraude tem graves consequências ambientais que vão muito além da perda de receita tributária. A Green Product International opera no extremo norte de Sumatra, ilha que abriga algumas das florestas mais ameaçadas do mundo e o único habitat remanescente onde orangotangos-de-sumatra, rinocerontes, elefantes-asiáticos e tigres ainda convivem na natureza. A turfeira de Tripa, já celebrada como a capital mundial dos orangotangos, sofreu perdas catastróficas: sua área diminuiu 86% desde a virada do milênio, enquanto interesses agrícolas derrubam a floresta para instalar plantações de palma.

O impacto sobre a vida selvagem foi catastrófico. Ian Singleton, responsável pela conservação no Orangutan Haven, no norte de Sumatra, documentou o colapso das populações de orangotangos na região.

É devastador. Quando a floresta é derrubada, os orangotangos ficam sem lugar para viver.

Segundo Singleton, a população local de orangotangos despencou de aproximadamente 60 mil indivíduos na década de 1980 para cerca de 30 sobreviventes hoje, empurrada à beira da extinção local pela destruição de habitats, causada em grande parte pela expansão do óleo de palma.

Documentos da investigação revelam ligações preocupantes entre os executivos presos e a destruição ambiental. Tony e outro diretor da Green Product International também são diretores da Inno-Wangsa Oils & Fats, empresa regional que comprou óleo de palma de fornecedores multados anteriormente por incendiar florestas na turfeira de Tripa. Registros do governo mostram que esses fornecedores foram multados em 2014 e 2018 por incêndios florestais ilegais, mas continuaram operando. Imagens de satélite analisadas pela SourceMaterial indicam que o desmatamento em uma dessas áreas de fornecimento esteve entre os mais intensos registrados em toda a Indonésia no último ano, sugerindo que as penalidades pouco fizeram para deter crimes ambientais.

Ficamos muito orgulhosos de obter aquelas condenações. Mas, na prática, elas não fizeram muita diferença.

A avaliação de Singleton destaca a distância entre a aplicação da lei e os resultados concretos de conservação na região.

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Respostas regulatórias na Europa

As falhas de verificação expostas pela investigação indonésia levaram alguns governos europeus a agir por conta própria antes da proibição geral da União Europeia. A Irlanda já encerrou todos os incentivos financeiros ao uso de POME em biocombustíveis, concluindo que os problemas de verificação tornam essa matéria-prima arriscada demais para receber recursos públicos. A Alemanha adotará uma moratória semelhante no próximo ano, fechando, na prática, dois mercados europeus importantes às importações de POME, independentemente do status de certificação.

Ativistas ambientais argumentam que o sistema de certificação atual não consegue distinguir de forma confiável resíduos legítimos de óleo de palma rotulado de maneira fraudulenta, deixando as metas climáticas europeias vulneráveis a fraudes. Cian Delaney, ativista por biocombustíveis da Transport and Environment, ONG ambiental sediada em Bruxelas, afirmou que a União Europeia tomou a decisão correta em 2019 ao eliminar gradualmente os biocombustíveis à base de óleo de palma por causa de sua relação comprovada com o desmatamento. Ele alertou, porém, que lacunas no marco regulatório ainda permitem que agentes mal-intencionados explorem o sistema.

A verificação e a certificação dessas importações claramente estão falhando. A política climática da União Europeia, que deveria promover combustíveis verdes, está sendo fraudada.

As acusações ameaçam abalar a confiança nos mercados de combustível sustentável para aviação justamente quando as companhias aéreas enfrentam pressão crescente de reguladores e consumidores para reduzir as emissões de carbono. Bruxelas determinou que os aeroportos europeus deverão garantir que pelo menos 70% do combustível de aviação seja sustentável até 2050, criando uma enorme demanda por biocombustíveis que empresas como a Eni e a Neste esperam atender. Recentemente, a Eni assinou um contrato de cinco anos para fornecer à Ryanair até 100 mil toneladas de combustível sustentável para aviação, enquanto a Neste prorrogou em outubro um acordo plurianual com a United Airlines e abastece grandes aeroportos internacionais, como Schiphol, em Amsterdã, e o Aeroporto Internacional de Los Angeles. Se óleo de palma associado ao desmatamento entrar nessas cadeias de abastecimento disfarçado de resíduo, os benefícios climáticos atribuídos aos biocombustíveis poderão ser completamente anulados, alertou Delaney.

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Em resumo

  • Autoridades indonésias prenderam 11 pessoas, entre elas funcionários da alfândega e três diretores de empresas, por supostamente rotular óleo de palma como POME para sonegar impostos entre 2022 e 2024.
  • As gigantes europeias de energia Eni e Neste receberam várias remessas identificadas como POME das empresas indonésias, embora ambas neguem ter conhecimento da fraude e tenham rompido relações com os fornecedores.
  • O sistema da International Sustainability and Carbon Certification está sob escrutínio, pois uma das empresas implicadas ainda tem certificação válida apesar da investigação criminal.
  • Grupos ambientais alertam que a fraude compromete as metas climáticas da União Europeia, já que a produção de óleo de palma impulsiona o desmatamento em Sumatra e ameaça habitats essenciais de orangotangos ameaçados de extinção e outras espécies.
  • Irlanda e Alemanha já restringiram incentivos ao POME, enquanto a proibição geral da União Europeia ao óleo de palma em biocombustíveis entrará em vigor em 2030.
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