A dupla crise que atinge a joia escondida do Sudeste Asiático
O Camboja está em uma encruzilhada onde a glória antiga encontra a infâmia moderna. O país que antes atraía milhões de pessoas para admirar os rostos de pedra de Angkor Wat e os intrincados baixos-relevos de Bayon vê agora seu setor de turismo desmoronar sob o peso de duas crises convergentes que redefiniram sua imagem global. Em 2024, o turismo contribuiu com apenas 9,4% do produto interno bruto nacional, uma queda acentuada em relação aos 12,1% de 2019, segundo dados do ministério divulgados nesta semana. Essa contração reflete não apenas os efeitos persistentes da pandemia global, mas algo muito mais insidioso: a reputação emergente do país como polo global de cibercrime, somada ao conflito militar em curso ao longo de sua fronteira oeste. As duas pressões criaram uma tempestade perfeita que está apagando duas décadas de cuidadoso trabalho de promoção turística e desenvolvimento de infraestrutura. Visitantes de toda a região da Ásia-Pacífico, que tradicionalmente formavam a espinha dorsal da economia turística cambojana, vêm deixando de viajar em grande número. As chegadas da região despencaram 20% ao longo de 2025, com alguns mercados de origem registrando quedas catastróficas superiores a 50%. Com o início do novo ano, os primeiros indicadores sugerem que a situação está piorando, em vez de se estabilizar, o que levanta questões urgentes sobre a viabilidade do setor durante a atual alta temporada.
Conteúdo
- A dupla crise que atinge a joia escondida do Sudeste Asiático
- Quando vizinhos se tornam barreiras
- Dos templos aos centros de fraude
- Em números: a dimensão do colapso
- Alertas internacionais e pressão diplomática
- Por dentro das fábricas de fraude
- Phnom Penh reage
- O longo caminho da recuperação
- Pontos principais
Quando vizinhos se tornam barreiras
Os antigos templos de Angkor resistiram a séculos de avanço da selva, mas não conseguem suportar o fechamento das fronteiras terrestres. Durante décadas, mochileiros e turistas interessados em cultura cruzaram a fronteira da Tailândia para o Camboja por terra, criando uma vibrante rota de viagem que conectava alguns dos destinos mais populares do Sudeste Asiático. Esse caminho foi interrompido pelo pior conflito fronteiriço entre os dois países em mais de uma década. As tensões que se acumulavam havia gerações em torno do território disputado perto do templo de Preah Vihear explodiram em um conflito armado prolongado ao longo de 2025. Os confrontos, que incluíram trocas de tiros de artilharia e ataques militares, resultaram na morte de pelo menos um soldado cambojano e levaram os dois países a impor severas restrições à circulação transfronteiriça.
A Tailândia proibiu por completo a passagem de turistas por sete províncias, impedindo a entrada de veículos e viajantes no Camboja por via terrestre. Os militares tailandeses afirmaram que as medidas correspondiam à atual situação de segurança, embora a primeira-ministra Paetongtarn Shinawatra também tenha relacionado explicitamente as restrições aos esforços para combater operações de golpes sediadas em cidades cambojanas na fronteira. O impacto sobre o turismo foi imediato e devastador. As chegadas por terra caíram 26,5% até setembro de 2025, o equivalente a cerca de 800 mil visitantes a menos em comparação com o ano anterior. O número de viajantes da Tailândia, historicamente o maior mercado de origem do Camboja, diminuiu mais de 35% entre janeiro e setembro e depois despencou impressionantes 91% apenas em setembro, quando o fechamento da fronteira entrou plenamente em vigor. O fechamento também interrompeu rotas de trânsito vindas do Laos, provocando uma forte queda no número de visitantes desse país. Até Siem Reap, distante das zonas fronteiriças, sentiu o impacto. Historicamente, muitos turistas chegavam a Angkor Wat de carro, vindos da Tailândia, e o bloqueio dessa rota isolou o Patrimônio Mundial da UNESCO de seu fluxo turístico geográfico natural.
Dos templos aos centros de fraude
Enquanto balas e fronteiras fechadas bloquearam a região oeste do país, outra invasão contaminou a reputação do Camboja por dentro. O país tornou-se sinônimo de uma nova forma de empreendimento criminoso em escala industrial: os complexos de golpes online. Essas operações, muitas vezes instaladas em resorts com cassinos e zonas econômicas especiais, transformaram partes do território cambojano em centros de ciberfraude que fazem vítimas no mundo todo. De acordo com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, os lucros dessas atividades ilícitas teriam chegado a integrantes da elite política do país, criando incentivos complexos que dificultaram as ações de repressão. A escala das operações é impressionante. Sindicatos criminosos montaram instalações sofisticadas capazes de abrigar milhares de trabalhadores, muitos deles vítimas de tráfico humano, atraídos por falsas ofertas de emprego e depois forçados a trabalhar em condições próximas à escravidão. Esses complexos geram bilhões de dólares por ano com golpes românticos, plataformas de investimento falsas, fraudes com criptomoedas e esquemas de falsidade ideológica. O dano à reputação tem sido particularmente grave nos mercados do Leste Asiático, onde notícias sobre sequestros, tortura e mortes dominaram as manchetes. A crise atingiu um trágico auge com a morte de um estudante sul-coreano que teria sido torturado após ser atraído para trabalhar em um complexo de golpes no Camboja. O caso levou Seul a emitir seu alerta de viagem mais severo, na prática proibindo viagens a partes do país onde os casos de fraude em ofertas de emprego dispararam. Ao contrário dos turistas ocidentais, que muitas vezes desconhecem esses perigos, os viajantes asiáticos recebem lembretes constantes nas redes sociais e em reportagens sobre os riscos de detenção e de serem forçados a participar de atividades criminosas no Camboja.
Em números: a dimensão do colapso
Os dados estatísticos sobre a crise do turismo no Camboja traçam um quadro preocupante, que vai além de quedas gerais e revela problemas específicos em determinados mercados. No principal atrativo turístico do país, o Parque Arqueológico de Angkor, o número de visitantes internacionais caiu 6,7% em 2025, para 955.131, gerando US$ 44,7 milhões em receita com ingressos, 6,5% a menos que no ano anterior. Os números de janeiro de 2026 revelam uma crise que se acelera: as visitas a Angkor despencaram 36% em relação ao mesmo mês de 2025, e a receita caiu 34,5%, para apenas US$ 4,52 milhões. A distribuição geográfica das perdas deixa clara a origem dos problemas. Enquanto os mercados europeus demonstraram resiliência, com as visitas de franceses subindo 9,7% e as chegadas do Reino Unido aumentando 17%, os mercados asiáticos desabaram. O turismo sul-coreano caiu 20,6% após a emissão do alerta de viagem. Os visitantes tailandeses desapareceram. Até o mercado chinês, que registrou alta de 41,5% em dezembro de 2025, continua abaixo da metade dos níveis pré-pandemia, privando a economia de turistas que gastam mais e que antes lotavam hotéis de luxo em Siem Reap e Phnom Penh.
A crise deixou de ser apenas um inconveniente e passou a ameaçar a estabilidade econômica. Com o turismo contribuindo com menos de 10% do PIB, contra mais de 12% cinco anos atrás, o setor já não é o motor econômico que antes impulsionava o desenvolvimento nacional. Hotéis e restaurantes em áreas turísticas relatam taxas de ocupação bem abaixo das projeções para 2026, levando empresários a reconsiderar investimentos e níveis de contratação. A queda atingiu empresas de transporte, operadoras de turismo e milhares de pequenos comerciantes que dependem dos visitantes dos templos para sua renda diária. A perda de viajantes da região, que antes formavam a base do turismo, representa uma mudança estrutural que pode levar anos para ser revertida, mesmo que as preocupações imediatas com a segurança sejam resolvidas.
Alertas internacionais e pressão diplomática
Governos estrangeiros responderam às duas crises do Camboja com alertas cada vez mais contundentes, que afastam ainda mais potenciais visitantes. A Austrália mantém um alerta de viagem que recomenda aos cidadãos alto grau de cautela e desaconselha explicitamente viagens a menos de 50 quilômetros da fronteira com a Tailândia devido ao conflito armado, aos ataques militares e aos riscos de minas terrestres. O alerta observa que a situação de segurança continua imprevisível e que as passagens terrestres de fronteira permanecem fechadas. A resposta da Coreia do Sul foi ainda mais severa. Após a morte de seu cidadão, Seul emitiu inicialmente alertas de viagem de nível 4, o grau mais alto do sistema, tratando na prática partes do Camboja como zonas proibidas, comparáveis a áreas em guerra ativa. Embora o alerta tenha sido posteriormente rebaixado para o nível 2 ou 1 em diferentes regiões, após negociações diplomáticas, o impacto psicológico sobre os viajantes sul-coreanos persiste.
A China exerceu pressão por canais diplomáticos, em vez de emitir alertas públicos. Em janeiro, a embaixada chinesa no Camboja publicou no WeChat que a reputação do país como polo de golpes poderia prejudicar as relações bilaterais. Pequim exigiu que Phnom Penh reprimisse as operações que têm como alvo principalmente cidadãos chineses, o que levou à extradição para a China do suposto chefe de golpes Chen Zhi, para que responda a julgamento. Essas pressões internacionais colocaram o governo cambojano em uma posição difícil, obrigado a equilibrar as relações econômicas com seus poderosos vizinhos diante do aparente envolvimento de estruturas de poder internas no lucrativo comércio de golpes. Essas contradições retardaram a resposta do governo, enquanto as autoridades tentam desmantelar redes criminosas sem afetar os interesses econômicos de integrantes bem relacionados da elite.
Por dentro das fábricas de fraude
A realidade dos centros de golpes do Camboja veio à tona de forma contundente após recentes ações militares e operações policiais. Na cidade fronteiriça de O'Smach, forças tailandesas ocuparam um complexo de seis andares chamado Royal Hill, depois de bombardeá-lo durante os confrontos de dezembro. O que encontraram revelou a escala industrial e a eficiência brutal das operações. Havia salas montadas para imitar delegacias de pelo menos sete países, entre eles Austrália, Singapura, China e Brasil, com uniformes e insígnias de aparência oficial. Essas instalações cenográficas eram usadas em golpes de falsidade ideológica, nos quais trabalhadores ameaçavam as vítimas com prisão a menos que transferissem dinheiro imediatamente. Outras salas reproduziam agências bancárias, incluindo uma de um banco vietnamita, completa com balcões de atendimento e áreas de espera, usadas para convencer os alvos de que estavam se comunicando com instituições financeiras legítimas.
Entre os documentos espalhados pelo local abandonado havia perfis detalhados de vítimas em potencial, como o de um aposentado japonês de 73 anos, com números de telefone e saldos bancários, além de roteiros para golpes românticos escritos em vários idiomas. Os militares tailandeses apreenderam 871 cartões SIM que permitiam comunicações internacionais anônimas, dezenas de smartphones e discos rígidos com o que pareciam ser vastos bancos de dados de alvos em potencial. O tenente-general Teeranan Nandhakwang, diretor da unidade de inteligência do Exército tailandês, descreveu a infraestrutura como altamente organizada, com bons sistemas e fluxos de trabalho projetados para maximizar a eficiência das fraudes. Os complexos também abrigavam equipamentos antimotim com padrão militar e protocolos para simulados de emergência, revelando que os operadores viam os trabalhadores como mão de obra cativa, a ser controlada pela força. A descoberta dessas instalações confirmou os piores temores sobre a sofisticação de redes criminosas que atuam com aparente impunidade nas regiões fronteiriças.
Phnom Penh reage
Diante do colapso econômico e do isolamento internacional, as autoridades cambojanas lançaram esforços intensivos para desmantelar as redes criminosas e reconstruir pontes diplomáticas. O Ministério do Interior anunciou que as autoridades realizaram quase 2 mil prisões em centros de golpes, com mais de 2 mil suspeitos detidos em operações recentes. Em uma ação de grande repercussão, a polícia cambojana prendeu Chen Zhi, suposto chefe de grandes operações de fraude, e o extraditou para a China para que responda a julgamento. A repressão também atingiu estrangeiros: 73 sul-coreanos foram repatriados para ser investigados por suposta participação em golpes que tiraram US$ 33 milhões de outros sul-coreanos. As autoridades cambojanas detiveram mais de 5 mil suspeitos de 23 nacionalidades e deportaram mais de 4.500 para seus países de origem nos últimos sete meses. O porta-voz do Ministério do Interior, Touch Sokhak, prometeu eliminar a ciberfraude até abril, embora persistam dúvidas diante das falhas anteriores na aplicação da lei.
No campo diplomático, o Camboja trabalha com a Coreia do Sul desde novembro de 2025 para coordenar respostas a casos transnacionais de golpes, o que levou Seul a reduzir o nível dos alertas de viagem. Para atrair visitantes legítimos, o Ministério do Turismo introduziu uma isenção de visto para cidadãos chineses válida de 15 de junho a 15 de outubro, na esperança de recuperar esse importante mercado de alto poder de consumo. O CEO do Conselho de Turismo, Kim Minea, reconheceu a necessidade de uma nova estratégia de divulgação e sugeriu campanhas centradas no povo cambojano e em atrações gastronômicas e litorâneas ainda pouco conhecidas, em vez de depender apenas de Angkor Wat. O governo também tentou lidar com a crise fronteiriça por meio de acordos de cessar-fogo, embora a trégua de 27 de dezembro continue frágil após o colapso de um acordo anterior, firmado em junho.
O longo caminho da recuperação
Reconstruir o setor de turismo do Camboja exige mais do que prisões e acordos de fronteira; é preciso reconquistar a confiança. Especialistas do setor observam que os danos à reputação se espalham mais rapidamente do que as notícias sobre a recuperação. Stephen Higgins, sócio-diretor da Mekong Strategic Capital, observou que as percepções de perigo afetam os viajantes do Leste Asiático com mais intensidade do que os ocidentais, criando uma recuperação desigual: os números de visitantes europeus se mantêm estáveis, enquanto mercados regionais essenciais continuam deprimidos. O desafio é convencer potenciais visitantes de que os complexos isolados em províncias remotas não têm relação com a segurança dos principais corredores turísticos, como Siem Reap e Phnom Penh. A tarefa, porém, é dificultada por relatos contínuos de crimes com armas de fogo, explosões decorrentes de disputas pessoais e crimes de rua, como furtos de bolsas, que ocorrem regularmente em áreas turísticas.
Para recuperar seu status de destino de primeira linha, o Camboja precisa, segundo analistas, eliminar de forma sustentada as operações de golpes, em vez de apenas deslocá-las temporariamente; resolver as tensões fronteiriças por meio de marcos jurídicos definitivos, em vez de cessar-fogos frágeis; e investir em campanhas que destaquem o acolhimento da cultura cambojana, e não apenas as pedras antigas. O caminho à frente continua incerto. Embora o mercado chinês dê sinais de retomada e visitantes europeus continuem descobrindo o reino, a perda de viajantes da região representa uma mudança estrutural que pode levar anos para ser revertida. Até que as sombras da fraude e do conflito se dissipem, os templos de Angkor podem continuar magníficos, mas pouco visitados, como monumentos de um presente conturbado, e não de um passado glorioso.
Pontos principais
- A contribuição do turismo para o PIB do Camboja caiu de 12,1% em 2019 para 9,4% em 2024
- O número de visitantes da Ásia-Pacífico caiu 20% em 2025 na comparação anual, com queda superior a 50% entre os visitantes tailandeses
- O Parque Arqueológico de Angkor recebeu 955.131 visitantes em 2025, uma queda de 6,7%; em janeiro de 2026, as visitas despencaram 36%
- A Tailândia fechou todas as passagens terrestres de fronteira para turistas após confrontos armados e preocupações com centros de golpes
- As autoridades cambojanas prenderam quase 2 mil suspeitos de golpes e extraditaram figuras-chave para a China
- A Coreia do Sul emitiu e depois reduziu alertas de viagem após acordos de cooperação para reprimir golpes
- As chegadas de turistas chineses aumentaram 41,5% em dezembro de 2025, mas continuam abaixo da metade dos níveis pré-pandemia
- Um cessar-fogo entre o Camboja e a Tailândia entrou em vigor em 27 de dezembro de 2025, após meses de conflito






