Recorde de emprego convive com longos afastamentos para mães
A Coreia do Sul tem mais mães trabalhando do que nunca, mas muitas das que interrompem a carreira passam anos fora da força de trabalho. Dados do governo referentes ao primeiro semestre de 2025 mostram que 64,3% das mulheres casadas de 15 a 54 anos que vivem com filhos menores de 18 anos estavam empregadas. A proporção aumentou 1,9 ponto percentual em relação ao ano anterior e avançou 8,8 pontos percentuais em cinco anos. A taxa de emprego geral das mulheres casadas, tenham filhos ou não, chegou a 67,3%, um recorde.
Conteúdo
- Recorde de emprego convive com longos afastamentos para mães
- Quem trabalha hoje e em quais áreas
- Por que as interrupções de carreira duram tanto
- A virada dos 30 anos e o declínio da curva em M
- Pressão financeira mantém mães na força de trabalho
- É possível voltar após longos afastamentos, mas não é fácil
- O que empresas e governo estão fazendo
- O que ajudaria mais mães a permanecer no emprego e avançar na carreira
- Em resumo
Por trás desses avanços, persiste uma realidade difícil de mudar. Entre as mulheres casadas que deixaram o emprego por causa do casamento, da gravidez, do parto ou dos cuidados com os filhos, 42,1% estavam afastadas havia pelo menos 10 anos. Outras 22,3% estavam fora do mercado havia de cinco a dez anos. No primeiro semestre do ano, cerca de 1,11 milhão de mulheres foram classificadas como tendo interrompido a carreira, o equivalente a 14,9% de todas as mulheres casadas de 15 a 54 anos. Essa proporção é a menor desde 2014, mas o afastamento ainda é longo para muitas mães.
O padrão pesa mais sobre as mulheres no início dos 30 anos. Nessa faixa etária, 21,8% das mulheres casadas foram classificadas como tendo deixado o emprego por motivos familiares. Longas interrupções nessa fase podem desacelerar o desenvolvimento de habilidades, reduzir as redes profissionais e dificultar o retorno ao mercado de trabalho, o que afeta os rendimentos ao longo da vida e as perspectivas de alcançar cargos de liderança.
Quem trabalha hoje e em quais áreas
A maioria das mães que trabalham tem empregos assalariados estáveis. Oitenta e três por cento das mães empregadas são assalariadas e quatro em cada cinco delas, ou 80,6%, ocupam vagas regulares em tempo integral. Essa estrutura reflete um mercado de trabalho em que o emprego padrão em tempo integral é a norma e os cargos profissionais de meio período são menos comuns, o que pode dificultar a conciliação entre trabalho e cuidados quando os filhos são pequenos.
Em termos de ocupação, 35,1% das mães que trabalham são gerentes, profissionais ou exercem funções relacionadas. As taxas de emprego variam bastante conforme a idade dos filhos que vivem em casa. A taxa de emprego das mães de adolescentes é de 70,4%, enquanto a das mães de crianças em idade pré-escolar é de 57,7%. A diferença acompanha a maior demanda por cuidados e os custos com creches quando as crianças ainda não estão em idade escolar. As interrupções de carreira também aumentam com o tamanho da família. Entre as mulheres casadas com filhos, a proporção das que já haviam interrompido a carreira era de 20,2% entre as que tinham um filho, 22,3% entre as que tinham dois e 23,9% entre as que tinham três ou mais.
Por que as interrupções de carreira duram tanto
As responsabilidades com os cuidados são o motivo mais citado para deixar o trabalho. Nos dados mais recentes, 44,3% das mulheres que saíram do emprego apontaram os cuidados com os filhos como principal razão, seguidos pelo casamento, com 24,2%, e pela gravidez ou pelo parto, com 22,1%. Essas decisões são tomadas dentro de um sistema marcado por longas jornadas, expectativas rígidas em relação à presença no trabalho e confraternizações depois do expediente. Sair mais cedo para buscar os filhos ou pedir horários flexíveis ainda pode ser malvisto em alguns locais de trabalho, o que desestimula mães e pais a usufruir de licenças e opções de flexibilidade.
Os cuidados com as crianças continuam sendo um ponto crítico. Em muitas comunidades, ainda é limitado o acesso a serviços de qualidade e com preços acessíveis para bebês e crianças pequenas, e a oferta de atendimento após o horário escolar costuma ser irregular. Quando os avós não estão disponíveis e os cuidados privados são caros, muitas mães não veem alternativa prática a interromper a carreira, sobretudo após o nascimento do primeiro ou do segundo filho.
O resultado é uma penalidade da maternidade bem documentada. As mães enfrentam riscos maiores de estagnação profissional e salários menores em comparação com homens e mulheres sem filhos. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) constatou repetidamente que a Coreia do Sul tem a maior diferença salarial entre homens e mulheres entre seus países-membros. As expectativas culturais sobre o trabalhador ideal e o cuidador principal, combinadas com promoções baseadas no tempo de serviço, dificultam a continuidade da carreira nos anos logo após o parto.
A penalidade aparece no formato da trajetória de emprego das mulheres ao longo da vida, há muito conhecida como curva em M. O emprego cresce na faixa dos 20 anos, cai na dos 30 durante os anos de gravidez e de cuidados intensivos e volta a subir nas faixas dos 40 e 50 anos. Dados recentes sugerem que essa curva está se achatando, mas o longo afastamento enfrentado por muitas mães mostra que o avanço é desigual e ainda frágil.
A virada dos 30 anos e o declínio da curva em M
Há sinais de mudança na década em que a maioria das mulheres tem filhos. Com base em dados mensais, a taxa de emprego das mulheres na faixa dos 30 anos chegou à média de 73% neste ano, um novo recorde pelo quarto ano consecutivo. O índice agora supera a taxa das mulheres na faixa dos 40 anos, invertendo o padrão de longa data no ponto mais alto da curva em M. Mais mulheres estão mantendo o emprego durante a gravidez e os primeiros anos de cuidados com os filhos e, depois, continuam no mercado de trabalho quando as crianças começam a frequentar a escola.
Vários fatores explicam a mudança. As atitudes sociais estão se tornando mais favoráveis às famílias com duas fontes de renda, e mais pais estão participando dos cuidados com os filhos e das tarefas domésticas. O crescimento de setores com maior participação feminina, como saúde e assistência social, creches e educação, criou mais empregos com horários previsíveis. Esses setores foram menos afetados pela desaceleração recente da indústria e da construção, o que ajudou a sustentar o emprego feminino, mesmo com a perda de força do emprego masculino em algumas faixas etárias.
O aumento do emprego na faixa dos 30 anos é importante para os resultados de longo prazo. A experiência acumulada nessa década contribui para promoções a cargos de gestão nas faixas dos 40 e 50 anos e fortalece a formação de futuras lideranças. O aumento recente da presença de mulheres em cargos de nível intermediário sugere que o avanço na retenção pode ampliar, com o tempo, a representatividade nos níveis mais altos.
Pressão financeira mantém mães na força de trabalho
O aumento do custo de vida levou mais famílias a depender de dois salários. Dados de pesquisas indicam que a renda familiar cresceu cerca de 430 mil won de 2022 para 2023, enquanto os gastos aumentaram aproximadamente 570 mil won no mesmo período. A pressão causada por moradia, educação e despesas do dia a dia tem incentivado mães que talvez tivessem pedido demissão a continuar trabalhando, muitas vezes recorrendo à licença parental ou negociando ajustes de horário em vez de deixar o emprego de vez.
Muitas mulheres casadas trabalham nos setores de saúde e assistência social, seguidos por educação e comércio varejista. Essas áreas costumam ter barreiras de entrada menores e demanda estável, especialmente diante do rápido envelhecimento da população e da demanda contínua por serviços de cuidados. Essa combinação sustentou o aumento das taxas de emprego entre mulheres casadas, mesmo com a queda no número total de mães em razão da redução dos nascimentos.
As modalidades de trabalho flexível introduzidas durante a pandemia facilitaram a permanência no emprego ou o retorno para algumas mães. O trabalho remoto eliminou o tempo de deslocamento, e horários flexíveis de entrada e saída ajudaram a levar e buscar as crianças na escola. A retenção melhora quando gestores e equipes normalizam essas modalidades e priorizam o desempenho, em vez da presença física.
É possível voltar após longos afastamentos, mas não é fácil
Mulheres que deixaram o emprego por vários anos enfrentam outros obstáculos quando tentam voltar. A tecnologia e as práticas mudam, as redes de contatos se desfazem e os anúncios de vagas muitas vezes tratam períodos fora do mercado como sinais de alerta. Programas de retorno ao trabalho que oferecem estágios estruturados, mentoria e atualização profissional podem ajudar a superar essa lacuna. Um exemplo no setor de tecnologia foi o de uma mulher que se afastou por 11 anos para criar um filho e participou de um estágio de seis meses voltado a profissionais que retornavam ao mercado, para atualizar suas habilidades. Ela passou por treinamentos na empresa e estudou por conta própria; depois, em três meses, foi contratada para um cargo sênior em tempo integral. Histórias como essa mostram que é possível voltar quando os empregadores criam caminhos de reinserção e as candidatas recebem apoio adequado às suas necessidades.
Na Coreia do Sul, mais empresas dos setores financeiro e de tecnologia estão testando iniciativas semelhantes. Programas que combinam vagas temporárias com a garantia de consideração para posições permanentes, além de acesso a cursos de atualização em áreas como computação em nuvem e análise de dados, têm ajudado candidatas a superar o risco percebido de lacunas no currículo. As iniciativas mais bem-sucedidas capacitam gestores para avaliar habilidades e potencial, e não apenas a experiência recente, e para acolher trajetórias profissionais não lineares.
O que empresas e governo estão fazendo
Grandes empregadores da Coreia do Sul começaram a ampliar o apoio às famílias com o objetivo de reter talentos. Vários grandes bancos agora oferecem licenças prolongadas para cuidar dos filhos, com garantia de emprego. O KB Kookmin Bank permite até três anos de licença não remunerada para cuidados com os filhos, e o Woori Bank oferece dois anos e meio. O Citibank Korea introduziu licença-paternidade remunerada e opções de trabalho flexível, enquanto o Standard Chartered oferece globalmente 20 semanas de licença parental remunerada a todos os funcionários. Algumas empresas oferecem incentivos em dinheiro por ocasião do nascimento de filhos. O Shinhan Bank já ofereceu bônus por nascimento, e o Booyoung Group, uma construtora, concede aos funcionários 100 milhões de won por filho, com pagamentos retroativos para crianças nascidas desde 2021.
Essas políticas atraem trabalhadores que querem formar família sem sacrificar a carreira. Os benefícios para a retenção já são visíveis no setor financeiro, onde as mulheres representam hoje mais da metade da força de trabalho e o tempo médio de permanência delas se aproxima do dos homens. O risco é que esses benefícios se concentrem em grandes empresas lucrativas, enquanto os trabalhadores de empresas menores não têm as mesmas opções. A disseminação de boas práticas por meio de associações setoriais e cadeias de fornecedores pode ajudar a reduzir essa diferença.
O governo ampliou os subsídios para cuidados infantis e o apoio financeiro aos pais na tentativa de enfrentar a baixa fecundidade. A taxa de fecundidade total subiu ligeiramente para 0,75 em 2024, o primeiro aumento em nove anos, mas ainda está muito distante dos 2,1 filhos necessários para manter o tamanho da população. Os formuladores de políticas têm priorizado a ampliação de vagas em creches, a expansão da licença parental e a ajuda financeira para recém-nascidos. O desafio agora é aumentar o uso dos benefícios por ambos os pais, simplificar o acesso e alinhar as práticas dos empregadores aos direitos previstos em lei.
Aumentar a proporção de pais que tiram licença é especialmente importante. Muitos homens hesitam por causa da cultura no local de trabalho e do receio de perder oportunidades de promoção. Quando os pais se afastam do trabalho para cuidar dos filhos, a flexibilidade se torna mais normal para todos, a penalidade enfrentada pelas mães diminui e a divisão dos cuidados em casa se torna mais igualitária.
O que ajudaria mais mães a permanecer no emprego e avançar na carreira
O progresso é real, mas longas interrupções de carreira continuam comuns entre as mães que deixam o emprego. Para sustentar o aumento do número de mães trabalhadoras e encurtar os afastamentos, será necessária uma ação coordenada de empregadores e governo. O foco deve ser tornar a continuidade no emprego uma opção viável nos primeiros anos de vida dos filhos e facilitar o retorno de quem se afastou.
- Ampliar o acesso a cuidados infantis de qualidade e com preços acessíveis para bebês e crianças pequenas, além de aumentar o atendimento após o horário escolar, com horários estendidos que correspondam à jornada de trabalho típica.
- Garantir o direito de solicitar horários flexíveis e trabalho remoto, e capacitar gestores para avaliar resultados, em vez das horas passadas à mesa.
- Fazer cumprir os limites para horas extras excessivas e incentivar reuniões que terminem antes do período de cuidados noturnos.
- Garantir que ambos os pais tenham pleno acesso à licença parental, reservando aos pais uma parte intransferível para incentivar seu uso, e assegurar a proteção do emprego durante a licença.
- Ampliar programas de retorno ao trabalho, cursos de atualização e caminhos para certificação em áreas em rápida transformação, como habilidades digitais e saúde.
- Reforçar a aplicação das normas antidiscriminação contra o preconceito relacionado à gravidez e aos cuidados com filhos em contratações e promoções, e ampliar a transparência salarial para reduzir a diferença de remuneração entre homens e mulheres.
- Apoiar pequenas e médias empresas com subsídios para cobrir substituições temporárias de funcionários em licença, para que os benefícios não se limitem às grandes companhias.
- Oferecer apoio direcionado a famílias com vários filhos, já que as interrupções de carreira são mais comuns à medida que o tamanho da família aumenta.
Em resumo
- No primeiro semestre de 2025, 64,3% das mulheres casadas de 15 a 54 anos com filhos menores de 18 anos estavam empregadas, a maior proporção desde o início da série comparável, em 2016.
- Entre todas as mulheres casadas, a taxa de emprego chegou ao recorde de 67,3%.
- O número de mulheres que interromperam a carreira caiu para 1,11 milhão, ou 14,9% das mulheres casadas dessa faixa etária, a menor proporção desde 2014.
- As interrupções de carreira continuam longas. Entre as mulheres que deixaram o emprego, 42,1% estão afastadas há pelo menos 10 anos e 22,3%, há cinco a dez anos.
- Os cuidados com os filhos foram o principal motivo para deixar o emprego, citados por 44,3% das mulheres, seguidos pelo casamento, com 24,2%, e pela gravidez ou pelo parto, com 22,1%.
- Mães de adolescentes têm muito mais chances de estar empregadas do que mães de crianças em idade pré-escolar: 70,4% contra 57,7%.
- A taxa de emprego das mulheres na faixa dos 30 anos subiu para cerca de 73% na média mensal, ajudando a achatar a curva em M.
- Empresas e governo ampliaram as licenças, a flexibilidade e o apoio aos cuidados infantis, mas é essencial que esses benefícios sejam amplamente adotados e que mais pais tirem licença para encurtar os longos afastamentos.






