China condena à morte líderes criminosos da família Bai em ampla operação de repressão

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China condena à morte líderes criminosos da família Bai em ampla operação de repressão

Por que Pequim agiu com rigor contra as organizações criminosas de Kokang

Um tribunal chinês condenou à morte cinco líderes da família Bai, uma organização criminosa baseada em Mianmar que, por anos, transformou a cidade fronteiriça de Laukkaing em um polo de cassinos e fraudes online. O Tribunal Popular Intermediário de Shenzhen condenou ao todo 21 réus ligados à rede por acusações que incluem fraude, homicídio doloso, lesão corporal dolosa, exploração da prostituição e organização de travessias ilegais de fronteira. O tribunal citou o patriarca, Bai Suocheng, e seu filho, Bai Yingcang, entre os condenados à morte, assim como Yang Liqiang, Hu Xiaojiang e Chen Guangyi.

Conteúdo
  1. Por que Pequim agiu com rigor contra as organizações criminosas de Kokang
  2. Quem são os Bai e como conquistaram poder
  3. Por dentro da máquina de golpes: dos cassinos à fraude cibernética
  4. Como funcionavam os complexos
  5. As decisões judiciais e o significado das penas
  6. Uma campanha mais ampla também teve como alvo a família Ming
  7. Guerra, política e a ofensiva na fronteira
  8. Resgates e repatriações em toda a região
  9. As organizações criminosas estão fugindo ou apenas se deslocando?
  10. O que isso significa para as pessoas comuns e para as relações entre China e Mianmar
  11. Em resumo

Os promotores descreveram uma operação de grande porte. Segundo as autoridades, os Bai controlavam uma milícia e construíram 41 complexos na região de Kokang, em Mianmar, para operações de cassinos e fraudes cibernéticas em larga escala. Os investigadores estimaram que as atividades criminosas movimentaram mais de 29 bilhões de yuans, ou cerca de 4,1 bilhões de dólares, e as relacionaram às mortes de seis cidadãos chineses, além de um suicídio e vários casos de lesão.

As sentenças representam uma das medidas mais duras até agora na campanha de Pequim contra a indústria de golpes no Sudeste Asiático. A ação ocorre após um caso separado em que um tribunal chinês condenou à morte integrantes da família Ming, outro centro de poder em Kokang acusado de comandar vastas redes de fraude e jogos de azar. Em conjunto, os casos mostram como organizações criminosas instaladas em zonas de conflito de Mianmar enriqueceram explorando trabalhadores traficados e vítimas estrangeiras.

A pressão aumentou em 2023, quando a polícia chinesa emitiu mandados de prisão contra figuras de destaque e confrontos na fronteira alteraram o controle do norte de Mianmar. Após meses de diplomacia e pressão na área de segurança, os militares de Mianmar transferiram vários suspeitos, incluindo Bai Suocheng e Bai Yingcang, para a custódia chinesa no início de 2024.

Quem são os Bai e como conquistaram poder

Por duas décadas, a família Bai esteve no centro da economia informal de Kokang. Kokang é um enclave de língua chinesa no estado de Shan, em Mianmar, situado em uma rota comercial ativa. Com as mudanças na política de Mianmar nos anos 2000, clãs locais estreitaram laços com figuras militares, entre elas o atual chefe da junta, Min Aung Hlaing. Os Bai tiraram proveito dessas relações e de sua própria milícia para dominar os negócios e a política locais. Laukkaing deixou de ser uma cidade remota e se tornou um movimentado polo de cassinos, hospedarias e vida noturna.

Quando a China apertou os controles sobre jogos de azar e viagens transfronteiriças, e os conflitos e a pandemia afetaram fontes de renda anteriores, os Bai migraram para os golpes online. A família construiu complexos com andares de escritórios, dormitórios e salas de detenção. Sua rede recrutava trabalhadores de toda a região com falsas ofertas de emprego e, depois, forçava muitos a participar de esquemas de fraude contra pessoas na China e em outras partes do mundo.

Em um documentário da mídia estatal divulgado em julho, Bai Yingcang refletiu sobre a influência da família no auge de seu poder.

Naquela época, nossa família Bai era a mais poderosa tanto nos círculos políticos quanto nos militares.

Os Bai usavam poder de fogo e apadrinhamento para proteger os negócios. Relatos de testemunhas descrevem equipes de segurança vigiando portões, escoltando trabalhadores armados e coordenando-se com líderes locais que se beneficiavam do dinheiro que circulava por Kokang. Essa estrutura coercitiva preparou o terreno para os abusos descritos em documentos judiciais posteriores.

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Por dentro da máquina de golpes: dos cassinos à fraude cibernética

Centros de golpes cibernéticos em Mianmar funcionam como fábricas organizadas em equipes. Os funcionários são divididos em grupos que fingem ser parceiros românticos, consultores de investimento ou divulgadores de dicas de loteria. O objetivo é conquistar a confiança das vítimas e, depois, induzi-las a usar plataformas falsas de negociação ou carteiras ilícitas de criptomoedas para desviar seu dinheiro. Os trabalhadores recebem metas diárias e roteiros para usar em aplicativos de mensagens. Quem não atinge as metas enfrenta multas, espancamentos ou confinamento.

Como funcionavam os complexos

Os Bai construíram 41 complexos que combinavam alojamentos e áreas de operação. Os recém-chegados entregavam seus celulares e passaportes. Gerentes monitoravam as conversas, enquanto guardas patrulhavam corredores e escadarias. Os detidos eram transferidos entre complexos, prática que transformava seres humanos em ativos de um mercado criminoso. O tribunal de Shenzhen afirmou que a violência era rotineira e que os castigos mais severos eram reservados para tentativas de fuga ou atos de desobediência.

Um ex-trabalhador que apareceu no documentário da mídia estatal descreveu as torturas em um dos centros.

Além de me espancarem, arrancaram minhas unhas com um alicate e cortaram dois dos meus dedos com uma faca de cozinha.

Pesquisadores de direitos humanos e agências internacionais afirmam que o setor atrai dezenas de milhares de pessoas por meio do tráfico e da coerção. A Organização das Nações Unidas estima que cerca de 120 mil pessoas possam ter trabalhado em centros de golpes dentro de Mianmar, e outras 100 mil estejam presas no Camboja. Grupos de pesquisa independentes estimam que os golpes no Sudeste Asiático causem prejuízos de dezenas de bilhões de dólares por ano.

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As decisões judiciais e o significado das penas

O Tribunal Popular Intermediário de Shenzhen condenou cinco réus à morte: Bai Suocheng, Bai Yingcang, Yang Liqiang, Hu Xiaojiang e Chen Guangyi. Outros dois integrantes da rede receberam sentenças de morte com suspensão da execução por dois anos. Cinco pessoas foram condenadas à prisão perpétua, e outras nove receberam penas de três a vinte anos de prisão. Os juízes citaram uma série de crimes, incluindo fraude em telecomunicações, homicídio doloso e lesão corporal dolosa, organização e coerção à prostituição e organização de travessias ilegais de fronteira.

Os tribunais chineses às vezes suspendem a execução de uma sentença de morte por um período determinado. Depois desse prazo, a pena pode ser comutada para prisão perpétua caso o réu cumpra condições que incluem bom comportamento. Em processos separados, Bai Yingcang também foi condenado por conspirar para traficar e fabricar cerca de 11 toneladas de metanfetamina. O tribunal determinou o confisco de bens e a aplicação de multas, e alguns réus estrangeiros podem ser deportados após cumprir suas penas de prisão.

Um investigador chinês de alto escalão entrevistado no documentário de julho explicou o objetivo da ofensiva contra redes de golpes na fronteira.

Não importa quem você seja nem onde esteja: se cometer crimes tão hediondos contra o povo chinês, pagará o preço.

A mensagem se dirige a dois públicos. Ela responde à indignação interna com as perdas financeiras e os abusos violentos contra cidadãos chineses e sinaliza a parceiros estrangeiros que Pequim espera cooperação em prisões e extradições.

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Uma campanha mais ampla também teve como alvo a família Ming

Em um caso relacionado, um tribunal da província de Zhejiang condenou à morte integrantes e associados da família Ming por comandarem, a partir de Kokang, uma operação de golpes e jogos de azar que movimentava bilhões de dólares. As conclusões do tribunal descreveram homens armados que abriram fogo contra um complexo em outubro de 2023, matando quatro pessoas que eram escoltadas. Os promotores disseram que o grupo matou outras pessoas que resistiram às ordens ou tentaram fugir. O patriarca da família, Ming Xuechang, morreu sob custódia em Mianmar antes de ser entregue à China, enquanto seu filho e outros parentes foram julgados em território chinês.

Essas decisões foram influenciadas pela pressão iniciada no fim de 2023. A polícia chinesa ofereceu recompensas por suspeitos procurados, e autoridades divulgaram repatriações em uma escala raramente vista na região. Segundo as autoridades, mais de 53 mil suspeitos e vítimas chineses ligados aos complexos do norte de Mianmar foram enviados de volta à China desde o início da repressão.

Guerra, política e a ofensiva na fronteira

A repressão ocorreu em paralelo a uma grande mudança no cenário do conflito. Em outubro de 2023, uma aliança de exércitos étnicos lançou a Operação 1027 no nordeste de Mianmar, tendo como alvos posições militares e centros criminosos perto da fronteira chinesa. Analistas afirmam que a China não impediu uma ofensiva que enfraqueceu a junta e interrompeu as atividades de centros de golpes que prejudicavam cidadãos chineses.

Após a ofensiva, autoridades chinesas negociaram um cessar-fogo e pressionaram todos os lados, tanto a junta quanto os grupos armados, a encerrar operações criminosas e manter o comércio fronteiriço em funcionamento. Desde o golpe de 2021, Pequim mantém certa distância da junta. A China prioriza a estabilidade na fronteira e exerce influência por meio de relações com autoridades provinciais e grupos armados, em vez de se aproximar politicamente do regime.

O resultado é um conjunto fragmentado de acordos temporários. A China busca extradições, reforça o policiamento nas províncias vizinhas e pressiona milícias locais, ao mesmo tempo que evita assumir responsabilidade direta pelo conflito interno de Mianmar.

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Resgates e repatriações em toda a região

O foco em Mianmar faz parte de um esforço regional mais amplo. Ações conjuntas de China, Tailândia e Mianmar levaram à libertação de milhares de pessoas detidas na fronteira. Autoridades tailandesas organizaram operações aéreas para retirar cidadãos chineses resgatados de centros de golpes. Uma dessas operações transportou cerca de 200 pessoas em um único dia, e havia planos para repatriar até mil pessoas ao longo de vários dias. Estimativas internacionais indicam que, no auge, quase 120 mil pessoas trabalhavam em centros de golpes em Mianmar, e outras 100 mil estavam no Camboja.

A Tailândia cortou o fornecimento de eletricidade e outros serviços a centros criminosos e intensificou as patrulhas. A situação continua complexa. Milícias aliadas aos militares de Mianmar, como a Força de Guarda de Fronteira e o Exército Benevolente Democrático Karen, controlam complexos e lucram com esquemas de extorsão em troca de proteção. Autoridades afirmam que mais de 7 mil pessoas retidas em uma cidade fronteiriça ainda precisam passar por triagem e receber autorização para voltar para casa em segurança.

Rangsiman Rome, presidente da Comissão de Segurança Nacional da Câmara dos Representantes da Tailândia, alertou que medidas de fiscalização, por si só, não acabariam com o modelo de negócios.

A Tailândia não pode fazer isso sozinha. Só com esforços internacionais coordenados será possível desmantelar completamente essas redes e impedir que voltem a operar.

A triagem das pessoas resgatadas é difícil. Muitas foram atraídas por ofertas de empregos legítimos e traficadas através das fronteiras. Outras foram coagidas a participar dos golpes depois de chegar. Agora, as autoridades separam as vítimas dos suspeitos de facilitar as operações e tentam identificar os financiadores e intermediários que mantêm o setor em funcionamento.

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As organizações criminosas estão fugindo ou apenas se deslocando?

Informações de organizações da sociedade civil e da mídia local em Mianmar indicam que o negócio não desapareceu. Sob forte pressão perto da fronteira chinesa, os operadores se deslocaram para áreas do leste e do sul do estado de Shan, longe dos principais pontos de travessia. Relatos apontam atividades em municípios como Kunhing, Mongpan, Mong Hsu, Mongyai, Laihka, Tangyan, Namhsan, Mongnawng e Mongping. Recrutadores e gerentes também foram para Yangon, onde alugam imóveis e reconstroem suas redes discretamente.

As organizações criminosas se adaptam rapidamente. Alguns complexos usam internet via satélite e energia solar para funcionar em vales remotos. Outros se especializam em lavagem de dinheiro e treinamento, enquanto unidades mais abaixo na cadeia aplicam golpes românticos ou de investimento em grande escala. Investigadores documentaram sequestros para extorsão. Famílias são instruídas a pagar para libertar um parente, e algumas fazem isso por meio de transferências de criptomoedas, difíceis de rastrear.

A crise econômica em Mianmar alimenta esse ciclo. Estima-se que o país tenha perdido 1,6 milhão de empregos em 2021, após o golpe, com jovens e mulheres entre os mais afetados. A falta de trabalho leva as pessoas a aceitar propostas arriscadas, enquanto propinas pagas pelas organizações criminosas atraem autoridades locais e grupos armados. Aldeias próximas a novos polos agora recebem um fluxo constante de jovens vindos das cidades, além de cidadãos chineses; algumas famílias obtêm renda alugando quartos ou vendendo comida aos trabalhadores dos complexos.

O que isso significa para as pessoas comuns e para as relações entre China e Mianmar

Para as vítimas e suas famílias, as decisões judiciais não vão desfazer rapidamente o trauma ou as dívidas. Sobreviventes relatam espancamentos, isolamento forçado e ameaças contra parentes. Muitos voltam para casa com antecedentes policiais ou multas, e alguns sofrem pressão para pagar recrutadores mesmo depois de serem resgatados.

Para a política fragmentada de Mianmar, os casos evidenciam o poder de grupos armados e economias ilícitas em áreas onde o Estado é fraco. As organizações criminosas prosperam onde militares, milícias e elites empresariais fazem acordos em troca de proteção. Para desmantelar essas operações, é necessária uma coordenação contínua que vá muito além de um único ponto de passagem na fronteira.

Para a China, as sentenças contra os líderes Bai buscam dissuadir outros criminosos e tranquilizar a opinião pública. Também reforçam uma estratégia que combina pressão sobre a junta, diálogo com grupos armados étnicos e policiamento intenso do lado chinês da fronteira. A campanha eliminou figuras de destaque e interrompeu as operações de muitos complexos, mas as quadrilhas continuam se deslocando e inovando. Os resultados de longo prazo dependerão da cooperação entre países, de um rastreamento financeiro mais eficaz e do apoio a atividades econômicas legais em lugares antes dominados pelo crime.

Em resumo

  • Cinco líderes da organização criminosa da família Bai foram condenados à morte em Shenzhen, como parte de um processo que condenou 21 réus ligados a operações de golpes sediadas em Kokang.
  • Os juízes concluíram que a rede operava 41 complexos, praticava fraude em telecomunicações e crimes violentos e causou a morte de pelo menos seis cidadãos chineses.
  • Dois réus receberam sentenças de morte com suspensão da execução por dois anos, cinco foram condenados à prisão perpétua e outros nove receberam penas de três a vinte anos de prisão.
  • O caso dos Bai ocorre após condenações à morte de integrantes da família Ming por crimes semelhantes em Kokang, entre eles um tiroteio fatal em um complexo em outubro de 2023.
  • A pressão chinesa sobre Mianmar levou à entrega de suspeitos procurados no início de 2024 e coincidiu com uma ofensiva étnica que interrompeu as atividades de centros criminosos na fronteira.
  • Segundo as autoridades, mais de 53 mil pessoas ligadas a centros de golpes no norte de Mianmar foram repatriadas à China desde o início da repressão.
  • As operações de resgate continuam na fronteira entre Tailândia e Mianmar, com retiradas aéreas de cidadãos chineses e milhares de pessoas ainda aguardando triagem e retorno.
  • Os operadores estão se deslocando para regiões mais afastadas de Mianmar, usando conexões via satélite e locais remotos, além de diversificar suas atividades para incluir lavagem de dinheiro e extorsão por sequestro.
  • O avanço contínuo depende da cooperação transfronteiriça, do rastreamento financeiro e do apoio a economias locais legais em áreas antes dominadas pelo crime.
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