Por dentro de um surto de nove meses na ilha de Madura
Todos os dias, em Sumenep, cidade costeira na ilha de Madura, pequenas equipes de três pessoas percorrem as ruas de moto, levando caixas térmicas azuis de casa em casa. Dentro delas estão doses da vacina contra o sarampo ou contra sarampo e rubéola, além de listas de crianças que ainda não foram vacinadas. A ação de porta em porta é urgente. Um surto de sarampo na ilha já dura nove meses, com mais de 2.600 crianças infectadas neste ano e pelo menos 20 mortes.
Conteúdo
- Por dentro de um surto de nove meses na ilha de Madura
- Por que o status halal é importante para muitas famílias
- O que estudiosos islâmicos e juristas ensinam sobre a necessidade médica
- Cobertura vacinal, logística e por que o sarampo se espalha tão rápido
- Na linha de frente em Sumenep
- O papel dos líderes religiosos e da confiança na comunidade
- O que deu certo em outras províncias
- Há vacinas contra o sarampo com certificação halal disponíveis atualmente?
- O que os pais perguntam e o que diz a ciência
- A vacina contra o sarampo é halal ou haram?
- O que há na vacina?
- Qual é o nível de segurança?
- O que acontece se uma criança perder uma dose?
- Se uma criança já teve sarampo, ainda precisa ser vacinada?
- Lições de Aceh e pesquisas recentes
- Principais pontos
No auge do surto, entre maio e julho, as alas de isolamento dos hospitais regionais ficaram lotadas rapidamente. As equipes atenderam bem mais de cem casos de sarampo por dia. Agora, os centros de saúde tentam eliminar lacunas de imunidade antes do próximo período letivo e da estação chuvosa. O trabalho chega a comunidades profundamente religiosas, onde os pais ponderam sobre a vacina e questionam se ela está em conformidade com as normas halal.
A tensão gira em torno de um aditivo comum. Algumas vacinas contra o sarampo e contra sarampo e rubéola usam gelatina de porco como estabilizante, que ajuda o vírus vivo, frágil, a sobreviver ao transporte e ao armazenamento. Muitas famílias deste distrito de maioria muçulmana acreditam que tudo o que vem do porco é impuro. Outras aceitam a vacina depois de conversar com uma enfermeira ou um líder religioso local. O governo regional abriu dias de atendimento nas clínicas, levou equipes às escolas e iniciou visitas domiciliares. Mais de 78 mil doses foram disponibilizadas, embora os profissionais de saúde não possam obrigar pais hesitantes a consentir.
Por que o status halal é importante para muitas famílias
Halal se refere ao que é permitido pela lei islâmica. A carne suína e seus derivados são haram, ou seja, proibidos. A gelatina de porco é amplamente usada em alimentos e medicamentos porque protege ingredientes delicados do calor e ajuda a manter sua forma durante o transporte. Em vacinas de vírus vivos, a gelatina reduz o risco de a vacina perder potência enquanto os frascos percorrem longas cadeias de abastecimento e regiões de clima mais quente. Essa função técnica tem consequências reais para as pessoas em um país com milhares de ilhas, onde podem ocorrer interrupções na cadeia de frio.
A mais alta autoridade islâmica da Indonésia, o Conselho Indonésio de Ulemás (MUI), emitiu várias decisões sobre imunização. Um parecer de 2016 autorizou a vacinação e incentivou a certificação halal. Em 2018, após analisar a vacina contra sarampo e rubéola então em uso, o MUI declarou que ela era haram por conter gelatina de porco e por envolver, na produção do componente contra rubéola, elementos que usam linhagens de células humanas. A mesma decisão afirmou que a vacina poderia ser usada até que uma alternativa halal estivesse disponível, pois proteger a vida é uma prioridade.
Esse equilíbrio, proibida em princípio, mas permitida diante de uma emergência de saúde pública, ainda deixa muitos pais apreensivos. Alguns distritos suspenderam campanhas escolares após a decisão de 2018. Outros seguiram adiante com orientação e consentimento. A questão volta a surgir a cada novo foco de casos de sarampo e a cada nova campanha de vacinação.
Musthafa, secretário-geral do Conselho Indonésio de Ulemás em Sumenep, disse que a solução de longo prazo está em fazer compras públicas que atendam à lei religiosa.
Temos grandes esperanças para os muçulmanos da Indonésia, que são os consumidores. Vamos pedir ao governo, neste caso à Secretaria de Saúde e ao Ministério da Saúde, que encontre uma vacina halal.
Líderes religiosos locais relatam casos de pais que querem vacinar os filhos, mas se sentem divididos. Autoridades de saúde pública dizem que um diálogo transparente com líderes religiosos costuma ajudar a obter consentimento, especialmente quando as famílias já viram casos de sarampo na vizinhança.
O que estudiosos islâmicos e juristas ensinam sobre a necessidade médica
Em todo o mundo muçulmano, muitos estudiosos aplicam princípios que priorizam a preservação da vida quando não há uma alternativa permitida pela lei religiosa. Juristas costumam invocar a necessidade e o interesse público para permitir medicamentos que normalmente seriam proibidos. Alguns estudiosos acrescentam o argumento da transformação, a ideia de que uma substância pode se transformar em outra durante o processamento. Outros discordam. Na prática, os pais ouvem diferentes ênfases, dependendo do pregador e da província.
Essa diversidade de opiniões também aparece em Sumenep.
Pujiati Wahyuni, enfermeira muçulmana e mãe na cidade, percebe isso ao orientar as famílias.
"Sim, há algumas. O islã é uma religião grande. Talvez alguns muçulmanos simplesmente não queiram se vacinar, e isso não acontece só agora, mas desde que nasceram", disse ela.
Para muitas famílias, uma simples garantia de um ustaz ou de uma ustaza de confiança de que, durante um surto, proteger a criança vem em primeiro lugar pode ser decisiva.
Cobertura vacinal, logística e por que o sarampo se espalha tão rápido
O sarampo é um dos vírus mais contagiosos que se conhecem. Uma pessoa infectada pode transmitir a doença a nove em cada dez pessoas não vacinadas que estejam por perto. O vírus se propaga pelo ar e permanece em um ambiente muito depois de alguém tossir. Por isso, as agências de saúde estabelecem uma meta alta. Pelo menos 95% das crianças precisam receber duas doses para conter surtos. As estimativas globais do ano passado indicaram que 84% das crianças receberam a primeira dose e 76%, a segunda. A Indonésia ficou abaixo das metas: a vacinação contra sarampo e rubéola alcançou 86,6% da meta em 2023 e, depois, 82,3% em 2024.
Quando a cobertura cai, o sarampo encontra brechas. Em 2018, um grande surto na província oriental de Papua causou dezenas de mortes. A atual sequência de casos na ilha de Madura reflete a mesma lógica. O vírus encontra bolsões de pessoas não vacinadas, incluindo famílias que adiaram a vacinação por motivos religiosos, famílias que perderam os dias de atendimento nas clínicas enquanto viajavam e famílias que enfrentaram dificuldades de transporte ou de trabalho. Para eliminar essas lacunas, são necessários recursos para combustível e caixas térmicas, profissionais para atender nas escolas e vozes da comunidade em quem os pais confiem.
O debate sobre o estabilizante também tem um aspecto prático. A gelatina ajuda as vacinas de vírus vivos a resistir a problemas na cadeia de frio. Qualquer mudança para outro estabilizante exigiria novos dados de estabilidade e análise regulatória para evitar uma redução da proteção, sobretudo em áreas rurais, onde pode ser mais difícil manter uma refrigeração confiável.
Na linha de frente em Sumenep
Em um jardim de infância islâmico no vilarejo de Pamolokan, a diretora do centro comunitário de saúde se reuniu com as mães em uma pequena sala de aula antes de abrir qualquer frasco. Ela explicou como o sarampo se espalha, por que as duas doses são importantes e quais efeitos colaterais podem ocorrer. Durante os meses de pico do surto, os hospitais locais atenderam mais de cem casos por dia, e alguns pais viram vizinhos correrem para buscar atendimento para crianças com febre.
Ayu Resa Etika, mãe de 28 anos do vilarejo de Kebunan, havia adiado a segunda dose do filho. Mudou de ideia depois de ver as dificuldades enfrentadas por famílias próximas.
"Fico um pouco em dúvida porque não é halal. Mas, apesar de tudo, isso é pela saúde da criança. Os efeitos são bastante extraordinários; pode causar a morte. Tenho medo de que, se meu filho não for vacinado contra o sarampo, esse seja o risco. Então, tudo bem, desde que os efeitos sejam bons", disse ela.
Profissionais de saúde dizem que histórias como essa são comuns. Muitos pais que hesitam no início voltam depois de conversar com uma parteira, um líder religioso ou um professor. O consentimento aumenta quando as mães podem fazer perguntas em espaços familiares e veem os vizinhos fazendo o mesmo.
O papel dos líderes religiosos e da confiança na comunidade
Os líderes religiosos influenciam as decisões de maneira significativa. O MUI, em âmbito nacional, estabelece orientações. As seções provinciais e distritais, assim como os imãs locais, os líderes de pesantren e os círculos de estudo de mulheres, traduzem essas orientações para o cotidiano. O planejamento conjunto entre as secretarias de saúde e os líderes religiosos pode reduzir a confusão e evitar mensagens contraditórias entre os bairros.
A divulgação funciona melhor quando há diálogo. As equipes de saúde explicam os ingredientes e os efeitos colaterais em linguagem simples. Os líderes religiosos explicam os limites do que é permitido, incluindo a autorização atual para usar a vacina enquanto não houver uma alternativa halal. Os pais ficam mais esclarecidos e não se sentem pressionados.
O que deu certo em outras províncias
- Fóruns regulares em que autoridades de saúde e ulemás analisam os componentes das vacinas, as etapas da cadeia de frio e a redação exata das fatwas.
- Sermões de sexta-feira e encontros nas aldeias que explicam por que a vacina é permitida durante um surto quando não há uma opção halal.
- Dias de vacinação em pesantren e mesquitas, com espaços reservados e profissionais de saúde mulheres para responder às dúvidas das mães.
- Sessões com os frascos abertos, em que enfermeiras mostram os rótulos e explicam cada ingrediente em termos simples.
- Formulários de consentimento que mencionam as orientações religiosas e indicam líderes religiosos locais disponíveis para consultas.
Há vacinas contra o sarampo com certificação halal disponíveis atualmente?
A maioria das vacinas licenciadas contra o sarampo ou contra sarampo e rubéola em uso amplo contém gelatina de porco como estabilizante. Pesquisadores e fabricantes estudaram opções como gelatina de peixe, polímeros de origem vegetal e excipientes à base de açúcar. Substituir um ingrediente de uma vacina de vírus vivo não é uma simples troca. É necessário produzir novos lotes, realizar testes de estabilidade e obter a análise dos órgãos reguladores de medicamentos para confirmar que a tolerância ao calor e a eficácia não foram alteradas. A Indonésia está buscando alternativas, mas contratos de fornecimento, licenciamento e treinamento levariam tempo, mesmo depois que um produto halal recebesse aprovação.
O processo de certificação halal acompanharia os ingredientes desde as matérias-primas até o frasco final. Também incluiria auditorias dos produtos de limpeza, das embalagens e da rotulagem. A transferência de tecnologia para um produtor regional ou a fabricação por contrato com um processo de auditoria halal transparente poderia ajudar. A cooperação entre países de maioria muçulmana poderia criar um mercado maior para um único produto, incentivando os fabricantes a investir em uma fórmula em conformidade com as normas halal.
O que os pais perguntam e o que diz a ciência
A vacina contra o sarampo é halal ou haram?
O MUI decidiu que a vacina contra sarampo e rubéola em uso atualmente é haram porque contém gelatina de porco e porque partes do processo de produção do componente contra rubéola usam linhagens de células humanas. A decisão também afirma que o uso da vacina é permitido enquanto não houver uma alternativa halal, pois proteger a vida é prioridade. Muitos estudiosos islâmicos na Indonésia e em outros países emitiram orientações semelhantes, priorizando a prevenção de doenças quando não há uma opção permitida pela lei religiosa.
O que há na vacina?
A vacina contra o sarampo contém uma forma enfraquecida do vírus que ensina o sistema imunológico a combater a doença. O vírus é cultivado em células de embrião de galinha. Na vacina contra sarampo e rubéola, o componente contra rubéola é produzido com uma linhagem de células humanas desenvolvida há décadas. O produto final é purificado. Uma pequena quantidade de gelatina, açúcar e outros sais é usada para manter a vacina estável durante o transporte.
Qual é o nível de segurança?
As vacinas contra o sarampo são usadas há décadas e têm um sólido histórico de segurança. Os efeitos colaterais geralmente são leves, como dor no braço, febre passageira ou erupção cutânea. Reações alérgicas graves são muito raras. Os riscos do próprio sarampo são muito maiores. A doença pode causar pneumonia, inchaço cerebral e morte, especialmente em crianças muito pequenas e naquelas que sofrem de desnutrição.
O que acontece se uma criança perder uma dose?
As crianças precisam de duas doses para ter uma proteção robusta. Se uma dose foi perdida, as clínicas podem oferecer a vacinação de recuperação. Os profissionais de saúde de Sumenep estão oferecendo atendimento nas escolas e nas casas para que as famílias completem o esquema vacinal.
Se uma criança já teve sarampo, ainda precisa ser vacinada?
A maioria das pessoas que se recuperam do sarampo fica com imunidade duradoura contra o vírus. A vacina combinada contra sarampo e rubéola também protege contra a rubéola, doença que pode causar defeitos congênitos graves se uma gestante for infectada. As clínicas locais podem orientar sobre o melhor esquema para cada criança.
Lições de Aceh e pesquisas recentes
Uma pesquisa recente em Aceh, onde a sharia é aplicada localmente, analisou 1.689 pais muçulmanos. Apenas 34% das crianças estavam com a vacinação completa. Vinte e nove por cento dos pais expressaram hesitação em relação às vacinas e 32% manifestaram preocupação específica de que os ingredientes não fossem halal. Entre os pais hesitantes, a probabilidade de ter uma criança com a vacinação completa era muito menor. Os resultados sugerem que preocupações religiosas estão estreitamente ligadas à conclusão do esquema vacinal infantil.
Análises nacionais de décadas anteriores mostram algum avanço, apesar dos reveses. Entre 1991 e 2017, a vacinação contra o sarampo aumentou entre muçulmanos e não muçulmanos, e a diferença entre os dois grupos diminuiu. A cobertura entre os muçulmanos estagnou nos anos seguintes, quando os debates religiosos sobre os ingredientes ganharam mais destaque. Persistem grandes diferenças entre as províncias, e Aceh está historicamente entre as que têm os índices mais baixos. Renda, escolaridade e acesso aos serviços também influenciam os resultados, além da religião.
As evidências apontam para medidas práticas. Estabelecer parcerias com ulemás locais. Publicar listas claras de ingredientes em Bahasa Indonesia. Convidar mães e pais para acompanhar os dias de vacinação e fazer perguntas. Transmitir mensagens consistentes nas clínicas, escolas e mesquitas. Facilitar a conclusão das duas doses, levando os serviços até os lugares onde as famílias vivem e estudam.
Principais pontos
- O surto de sarampo na ilha de Madura já dura nove meses, infectou mais de 2.600 crianças e causou pelo menos 20 mortes.
- As equipes de saúde de Sumenep estão levando vacinas de casa em casa e disponibilizaram mais de 78 mil doses.
- As preocupações com o halal se concentram na gelatina de porco usada como estabilizante em algumas vacinas contra o sarampo e contra sarampo e rubéola.
- O MUI declarou a vacina haram em 2018, mas permite seu uso enquanto não houver uma alternativa halal, priorizando a proteção da vida.
- A cobertura da vacinação contra sarampo e rubéola na Indonésia caiu para 86,6% da meta em 2023 e 82,3% em 2024, abaixo dos 95% necessários para evitar surtos.
- No auge do surto, entre maio e julho, os hospitais de Sumenep atenderam mais de cem casos de sarampo por dia.
- Estudos em Aceh associam preocupações religiosas a menores índices de conclusão da vacinação infantil.
- O envolvimento de líderes religiosos, as respostas às dúvidas sobre ingredientes e a facilidade de acesso à vacinação são fundamentais para aumentar a cobertura.






