O compromisso do Japão com a África: um farol em meio à redução da ajuda global
Enquanto o mundo assiste a uma queda acentuada da ajuda ao desenvolvimento por parte de muitos países ocidentais, o apoio constante do Japão à África se destaca como um pilar fundamental para o progresso do continente. Esse compromisso foi reafirmado na mais recente Conferência Internacional de Tóquio sobre o Desenvolvimento Africano (TICAD), na qual representantes do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e líderes africanos ressaltaram a importância do contínuo engajamento de Tóquio. Coorganizada pelo Japão e pelo PNUD, a conferência tornou-se um símbolo da cooperação multilateral e da capacidade de os africanos moldarem o próprio futuro.
Conteúdo
- O compromisso do Japão com a África: um farol em meio à redução da ajuda global
- O que é a TICAD e por que ela é importante?
- Da ajuda aos investimentos: um cenário em transformação
- O impacto do Japão: projetos concretos e parcerias estratégicas
- Parcerias estratégicas: BAD e engajamento do setor privado
- Capacitar os jovens da África: o centro do desenvolvimento sustentável
- Transformação digital e IA: construindo a economia do futuro
- Multilateralismo, protagonismo africano e o futuro da TICAD
- Desafios e oportunidades: navegando por um cenário complexo
- Em resumo
Haoliang Xu, administrador interino do PNUD, destacou em entrevista exclusiva que a assistência japonesa é especialmente vital neste momento, em que o multilateralismo enfrenta obstáculos em todo o mundo e muitas das nações mais vulneráveis da África correm o risco de ficar para trás. Xu observou:
A assistência do Japão por meio da TICAD é realmente significativa em um momento em que o multilateralismo está em declínio.Ele também chamou atenção para o foco do Japão na formação de recursos humanos em inteligência artificial (IA) e nos setores digitais, o que, segundo ele, ajudará a preparar os profissionais necessários para a nova economia africana e a atrair mais investimentos japoneses para o continente.
O que é a TICAD e por que ela é importante?
Lançada em 1993, a Conferência Internacional de Tóquio sobre o Desenvolvimento Africano (TICAD) é um fórum multilateral singular, coorganizado pelo Japão, pela União Africana, pelo PNUD, pelo Escritório do Assessor Especial das Nações Unidas para a África e pelo Banco Mundial. Diferentemente dos modelos tradicionais de doador e receptor, a TICAD foi estruturada para promover a apropriação africana, a parceria internacional e o diálogo inclusivo. Nas últimas três décadas, tornou-se uma plataforma que não apenas canaliza ajuda, mas também fomenta o comércio, os investimentos e o intercâmbio de conhecimento entre a África e o Japão.
O formato da TICAD é deliberadamente inclusivo e reúne governos, organizações internacionais, empresas privadas e a sociedade civil. Essa abordagem reflete valores diplomáticos japoneses de harmonia (wa), construção de consensos e liderança discreta. Como observam analistas, o engajamento do Japão é moldado por conceitos culturais como tatemae (posição pública) e honne (intenção verdadeira), que orientam sua abordagem não confrontacional e voltada à parceria para o desenvolvimento africano.
Da ajuda aos investimentos: um cenário em transformação
Uma das mudanças mais significativas dos últimos anos foi a transição da TICAD, que deixou de priorizar a ajuda para dar maior ênfase ao comércio, aos investimentos e à cocriação. Essa mudança está alinhada às próprias aspirações da África de passar da dependência da ajuda para um crescimento impulsionado por investimentos e pelo protagonismo dos países africanos. Hoje, o apoio do Japão abrange não apenas contribuições financeiras, mas também transferência de tecnologia, apoio ao empreendedorismo e desenvolvimento de capacidades em setores estratégicos, como inovação digital, energia limpa e saúde.
O impacto do Japão: projetos concretos e parcerias estratégicas
As contribuições do Japão à África, canalizadas pela TICAD e implementadas pelo PNUD e outros parceiros, são amplas e têm impacto significativo. Entre 2019 e 2021, o apoio constante do Japão permitiu que o PNUD prestasse assistência essencial a populações vulneráveis em toda a África, mesmo enquanto o continente enfrentava as crises simultâneas da pandemia de COVID-19, das mudanças climáticas e dos conflitos regionais.
Entre as principais áreas dos projetos financiados pelo Japão estão:
- Construção da paz e segurança: apoio a ações de desminagem no Benim, treinamento para operações de paz no Mali e no Togo e esforços de estabilização no Sudão do Sul.
- Recuperação econômica e empreendedorismo: iniciativas para impulsionar a recuperação econômica na República Centro-Africana e na Nigéria, além de apoio a startups africanas por meio do programa ‘Meet the Tôshikas’.
- Saúde e proteção social: reabilitação da infraestrutura de saúde em Camarões, equidade no acesso a vacinas por meio do programa COVAX e projetos de proteção social no Senegal.
- Governança e democracia: apoio eleitoral na República Democrática do Congo e no Zimbábue, além de esforços para promover eleições livres e democráticas.
A Iniciativa de Crescimento Verde do Japão para a África, com investimentos de US$ 4 bilhões, combate as mudanças climáticas e apoia a transição verde do continente. Além disso, foi criado um fundo de US$ 130 milhões para combater a insegurança alimentar agravada pela guerra na Ucrânia, e mais de US$ 2,5 bilhões foram prometidos para enfrentar a escassez de vacinas e as lacunas nos sistemas de saúde.
Parcerias estratégicas: BAD e engajamento do setor privado
O Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) tem papel fundamental na TICAD, colaborando com o Japão para mobilizar recursos e impulsionar projetos transformadores nas áreas de energia, transportes, saúde e resiliência climática. Lançado em 2005, o programa de Assistência Ampliada ao Setor Privado (EPSA) viabilizou bilhões de dólares em cofinanciamento para empresas e infraestrutura africanas. A EPSA6, extensão mais recente do programa, deve ser assinada na TICAD9, aprofundando ainda mais essa parceria.
O engajamento do Japão com o setor privado também se evidencia em iniciativas como o Fórum de Investimentos na África e o Japan Investment Roadshow, que aproximam startups e empreendedores africanos de investidores e empresas japonesas. Esses esforços buscam destravar o potencial de inovação da África e criar empregos sustentáveis para sua população jovem, em rápido crescimento.
Capacitar os jovens da África: o centro do desenvolvimento sustentável
Com a projeção de que a África abrigará 25% da população mundial até 2050, investir nos jovens é visto tanto como uma necessidade quanto como uma oportunidade. A TICAD e seus parceiros priorizaram o desenvolvimento juvenil, a capacitação profissional e o empreendedorismo como pilares centrais de sua estratégia. O Programa de Bolsas para Jovens Líderes Africanas, apoiado pelo PNUD, exemplifica esse foco na formação da próxima geração de líderes.
Eventos temáticos recentes, como o ‘Africa-Japan Youth Drive: The Co-creation of the Future We Want’, reuniram jovens das duas regiões para discutir propostas para a TICAD9 e defender uma participação maior dos jovens na tomada de decisões. Esses fóruns destacam a importância da mentoria, dos intercâmbios entre pessoas e de sistemas que incorporem as vozes dos jovens em todos os níveis.
Ahunna Eziakonwa, administradora assistente do PNUD e diretora regional para a África, ressaltou o dividendo demográfico do continente:
A maior riqueza da África são seus habitantes, a população mais jovem do mundo. Envolver os jovens africanos e apoiar o desenvolvimento de suas habilidades é essencial para o progresso futuro.
Transformação digital e IA: construindo a economia do futuro
As iniciativas do Japão em capacitação digital e inteligência artificial merecem destaque especial. Ao investir no desenvolvimento de recursos humanos nesses setores, o Japão busca equipar os jovens africanos com as ferramentas necessárias para a nova economia digital. Isso não apenas responde aos desafios imediatos de emprego, como também posiciona a África como um futuro polo de inovação e crescimento impulsionado pela tecnologia.
O programa ‘Meet the Tôshikas’ do PNUD, apoiado pelo Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão, é um exemplo emblemático. A iniciativa conecta startups africanas a investidores japoneses, oferecendo financiamento, mentoria e acesso à experiência do Japão no desenvolvimento de ecossistemas de inovação. No mais recente Japan Investment Roadshow, seis startups africanas se reuniram com mais de 30 investidores e líderes empresariais japoneses, dando origem a novas parcerias e ao intercâmbio de conhecimento.
Multilateralismo, protagonismo africano e o futuro da TICAD
Uma das características definidoras da TICAD é a ênfase no protagonismo africano e na cooperação multilateral. O processo foi concebido para garantir que os países africanos definam suas próprias prioridades de desenvolvimento, com o Japão e outros parceiros oferecendo apoio alinhado a esses objetivos. Essa abordagem é reforçada por consultas regulares de alto nível, como a recente reunião entre o PNUD e o Corpo Diplomático Africano no Japão, na qual foram discutidas as prioridades para a TICAD9.
Entre os principais temas da próxima TICAD9, marcada para agosto de 2025 em Yokohama, estão:
- Recuperação e resiliência pós-pandemia
- Comércio, investimentos e industrialização
- Agricultura e segurança alimentar
- Educação, tecnologia e transformação digital
- Empoderamento de jovens e mulheres
- Mudanças climáticas e energia sustentável
Eziakonwa apresentou a visão para o futuro da TICAD e ressaltou a necessidade de continuidade, parcerias público-privadas mais fortes e foco em prestação de contas e resultados. Ela observou:
A TICAD deve continuar sob o protagonismo africano, manter a continuidade, estar vinculada aos marcos globais de desenvolvimento, fortalecer a prestação de contas e promover parcerias público-privadas.
Desafios e oportunidades: navegando por um cenário complexo
Apesar dos avanços, a África enfrenta desafios significativos. O continente precisa de cerca de US$ 1,3 trilhão por ano para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), mas sistemas financeiros restritivos e classificações de crédito especulativas dificultam a atração de investimentos. Muitas economias africanas pagam bilhões em juros excedentes devido a classificações de crédito desfavoráveis, o que reforça a necessidade de uma reforma do sistema financeiro global.
A falta persistente de investimentos em infraestrutura, especialmente em energia, continua sendo um grande obstáculo: 600 milhões de africanos não têm acesso confiável à eletricidade e 900 milhões não dispõem de meios para cozinhar de forma limpa. Superar essas lacunas exige não só recursos financeiros, mas também parcerias inovadoras e transferência de tecnologia, áreas em que a experiência e o compromisso do Japão podem fazer diferença.
Também surgem complexidades diplomáticas, como mostram os debates sobre a participação de certas entidades nas reuniões da TICAD. A abordagem do Japão, baseada nos princípios de harmonia e neutralidade, busca lidar com esses desafios sem perder de vista o foco do fórum no desenvolvimento e nas parcerias.
Em resumo
- A continuidade da ajuda do Japão à África, especialmente por meio da TICAD, é fundamental diante da redução da assistência ao desenvolvimento oferecida por outros países.
- A TICAD evoluiu de um modelo de doadores e receptores para uma plataforma multilateral que enfatiza o protagonismo africano, as parcerias e o crescimento impulsionado por investimentos.
- O apoio japonês abrange construção da paz, recuperação econômica, saúde, inovação digital e resiliência climática, com forte foco nos jovens e no empreendedorismo.
- Parcerias estratégicas com o BAD, o PNUD, a JICA e o setor privado mobilizaram bilhões em cofinanciamento e assistência técnica.
- Capacitar os jovens africanos e investir em habilidades digitais são medidas centrais para construir uma economia sustentável e impulsionada pela inovação.
- A TICAD9, em 2025, terá como foco a recuperação pós-pandemia, o comércio, a industrialização, a segurança alimentar e as mudanças climáticas, com o empoderamento de jovens e mulheres no centro das discussões.
- Persistem desafios, como lacunas de infraestrutura e barreiras financeiras, mas a abordagem do Japão, baseada em princípios e orientada por parcerias, oferece um modelo de cooperação internacional eficaz.






