Guerra entre máfias chinesas explode no polo de fast fashion da Itália: por dentro da “guerra dos cabides” em Prato

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Guerra entre máfias chinesas explode no polo de fast fashion da Itália: por dentro da “guerra dos cabides” em Prato

Violência e disputas de poder em Prato: o coração da indústria de fast fashion da Itália

Quando Zhang Dayong, uma figura de destaque do submundo chinês, foi morto a tiros em uma calçada de Roma, poucos suspeitavam que as raízes da violência se estendiam ao norte, até Prato, cidade próxima a Florença. No entanto, esse chocante assassinato foi apenas o mais recente episódio de uma impiedosa disputa por território que transformou Prato — o maior centro de confecção de roupas da Europa e um dos pilares da marca “Made in Italy” — em campo de batalha de grupos rivais da máfia chinesa. A chamada “guerra dos cabides” não se resume ao controle dos cabides, mas envolve o domínio de uma vasta e lucrativa rede de produção têxtil, logística e atividades ilícitas que se estende por toda a Europa.

Conteúdo
  1. Violência e disputas de poder em Prato: o coração da indústria de fast fashion da Itália
  2. Como Prato se tornou o epicentro da fast fashion na Europa
  3. A ascensão da máfia chinesa em Prato
  4. Por dentro da “guerra dos cabides”: violência, corrupção e medo
  5. O custo humano: trabalhadores presos no fogo cruzado
  6. As forças de segurança reagem: uma batalha em várias frentes
  7. O “sistema de Prato”: corrupção, irregularidades e a cadeia de suprimentos global
  8. Impacto sobre as empresas italianas tradicionais
  9. Além de Prato: a dimensão europeia da máfia chinesa
  10. O que vem pela frente para Prato e o combate ao crime organizado?
  11. Em resumo

Como Prato se tornou o epicentro da fast fashion na Europa

A transformação de Prato começou no fim dos anos 1980 e ao longo dos anos 1990, quando ondas de imigrantes chineses, principalmente das províncias de Zhejiang e Fujian, chegaram em busca de oportunidades. Eles encontraram uma indústria têxtil em crise e logo a revitalizaram, importando tecidos baratos da China e criando milhares de pequenas e ágeis oficinas. Essas empresas se especializaram em fast fashion — produzindo roupas acessíveis em tempo recorde para mercados de toda a Europa. Hoje, Prato abriga uma das maiores comunidades chinesas da Europa, com mais de 5 mil empresas de confecção e malharia, em sua maioria administradas por chineses, segundo estimativas.

Muitas dessas oficinas operam à margem da legalidade. Abrem e fecham rapidamente, muitas vezes para escapar de impostos, inspeções trabalhistas ou multas. O setor depende fortemente de mão de obra barata e disponível 24 horas por dia. Trabalhadores — principalmente da China e do Paquistão — receberiam apenas 3 euros por hora por jornadas extenuantes de 13 horas, sete dias por semana. Esse sistema, por vezes chamado de “sistema de Prato”, é marcado por corrupção, violações trabalhistas e de segurança, além de fraudes fiscais e aduaneiras. Tecidos são frequentemente contrabandeados da China, e os lucros são enviados de volta por meio de transferências clandestinas.

A ascensão da máfia chinesa em Prato

À medida que a comunidade chinesa de Prato prosperava, o crime organizado também crescia. Grupos da máfia chinesa, muitas vezes chamados de “tríades”, começaram a se infiltrar no setor, concentrando-se inicialmente no tráfico de pessoas e na imigração ilegal. Com o tempo, seus interesses migraram para a extorsão, a exploração criminosa de atividades comerciais e, sobretudo, o controle da logística e do transporte de mercadorias. Os valores em jogo são enormes: estima-se que o mercado de cabides, por si só, movimente 100 milhões de euros, mas o verdadeiro prêmio é o monopólio do transporte de roupas por toda a Europa.

Segundo reportagens investigativas, o mais proeminente desses grupos é liderado por Zhang Naizhong, conhecido como “O Homem Negro”, considerado o “chefão dos chefões” da máfia chinesa na Itália. A organização de Zhang tem estrutura semelhante à das máfias italianas, exige lealdade absoluta e usa violência e intimidação para manter o controle. Seu braço direito, Zhang Dayong, foi o homem morto em Roma — assassinato que, segundo se acredita, está diretamente ligado à disputa territorial em curso em Prato.

Por dentro da “guerra dos cabides”: violência, corrupção e medo

A “guerra dos cabides” é uma disputa brutal pelo domínio. Grupos da máfia chinesa são acusados de planejar agressões, incêndios criminosos e até assassinatos para intimidar rivais e consolidar seu controle sobre o setor. Nos últimos meses, empresários chineses e trabalhadores de fábricas em Prato foram espancados ou ameaçados, carros e galpões foram incendiados, e um clima de medo tomou conta das zonas industriais da cidade. A violência ultrapassou as fronteiras da Itália, com incêndios em galpões registrados em Paris e Madri — indícios da expansão da atuação da máfia.

Promotores e autoridades policiais descrevem uma sofisticada organização criminosa. A máfia não controla apenas a produção e o transporte de roupas e cabides, mas também mantém casas de apostas, redes de prostituição, tráfico de drogas e sistemas bancários clandestinos. Esses grupos facilitam a imigração ilegal, garantindo um fluxo constante de mão de obra barata para as fábricas de Prato. Também oferecem serviços clandestinos de transferência de dinheiro, ajudando empresários chineses a sonegar impostos e retirar lucros da Europa.

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A corrupção também favoreceu a ascensão da máfia. Em maio de 2024, um alto oficial da polícia foi acusado de vazar informações sigilosas para empresários, enquanto denúncias de trabalhadores atacados muitas vezes não eram investigadas. O prefeito de Prato renunciou em junho em meio a uma investigação por corrupção, evidenciando os desafios enfrentados pelas autoridades no combate ao crime organizado.

O custo humano: trabalhadores presos no fogo cruzado

Para os milhares de trabalhadores do setor de fast fashion de Prato, a guerra entre máfias faz parte do cotidiano. Muitos são imigrantes sem documentos, vulneráveis à exploração e à violência. Representantes sindicais afirmam que os trabalhadores muitas vezes têm medo demais para protestar ou denunciar abusos, receosos de sofrer represálias tanto dos empregadores quanto das quadrilhas criminosas. Embora alguns tenham conseguido contratos legais e melhores condições, a maioria continua presa a um sistema descrito como “livre de leis e contratos”.

Um representante sindical explicou:

O setor opera à margem da lei. Imigrantes trabalham longas jornadas por pouca remuneração, e quem reclama corre o risco de perder o emprego — ou coisa pior.
O clima de medo é generalizado, e pessoas comuns correm o risco de se ferir ou morrer em um conflito que pouco tem a ver com seu trabalho diário.

As forças de segurança reagem: uma batalha em várias frentes

A dimensão da crise motivou pedidos urgentes de ajuda. Luca Tescaroli, promotor-chefe de Prato, pediu ao governo italiano que criasse uma divisão especializada no combate à máfia e enviasse reforços de juízes e policiais. Em 2018, a polícia italiana prendeu 33 pessoas suspeitas de comandar uma organização da máfia chinesa que dominava o transporte de produtos chineses na Europa. A operação chamou a atenção internacional e evidenciou o alcance econômico e a sofisticação das quadrilhas chinesas na Itália.

As autoridades apreenderam bens avaliados em milhões de euros, entre eles contas bancárias, veículos e imóveis. Apesar desses esforços, porém, muitos dos presos — incluindo Zhang Naizhong — foram soltos por falta de provas. O caráter fechado da comunidade chinesa, as barreiras linguísticas e o uso do medo e da intimidação pela máfia tornam as investigações extremamente difíceis. Muitas vezes, os crimes não são denunciados, e as testemunhas relutam em colaborar com a polícia.

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Promotores afirmam que o modelo de negócios da máfia está evoluindo. Embora atividades tradicionais, como o tráfico de drogas e a prostituição, continuem lucrativas, o poder de fato está no controle dos setores de logística e transporte. A rede da quadrilha ultrapassa as fronteiras italianas, com ramificações em Paris, Neuss (Alemanha), Madri e Barcelona. A polícia acredita que ataques e ameaças nessas cidades fazem parte de uma estratégia coordenada para eliminar concorrentes e estabelecer o monopólio sobre a circulação de produtos fabricados na China por toda a Europa.

O “sistema de Prato”: corrupção, irregularidades e a cadeia de suprimentos global

O chamado “sistema de Prato” está no centro do problema. O termo se refere à rede de corrupção, irregularidades e brechas legais que permite ao setor de fast fashion operar, em grande medida, sem fiscalização. As empresas sonegam impostos e descumprem leis trabalhistas regularmente, contrabandeiam tecidos e mercadorias para evitar taxas alfandegárias e recorrem a redes informais para movimentar dinheiro e pessoas. O sistema se sustenta numa combinação de necessidade econômica, fiscalização deficiente e cumplicidade de alguns funcionários públicos locais.

O setor de fast fashion de Prato é um microcosmo do lado mais sombrio da globalização. Por um lado, revitalizou uma economia local em crise, criou empregos e tornou produtos “Made in Italy” acessíveis a milhões de pessoas. Por outro, alimentou a exploração, a criminalidade e as tensões sociais. A presença da máfia chinesa despertou preocupações sobre a integridade da indústria da moda italiana, e alguns temem que o selo “Made in Italy” esteja sendo comprometido por práticas ilegais e pela influência do crime organizado estrangeiro.

Impacto sobre as empresas italianas tradicionais

As empresas têxteis italianas tradicionais têm enfrentado dificuldades para competir com a rapidez e os baixos custos das oficinas administradas por chineses. Algumas acusam os recém-chegados de concorrência desleal, sonegação de impostos e desrespeito aos costumes locais. Outras reconhecem que a comunidade chinesa deu novo impulso à economia de Prato, embora tenha mudado o tecido social da cidade. A relação é complexa, marcada tanto pela cooperação quanto pelas tensões.

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Marcas de luxo como Gucci e Prada terceirizaram a produção em Prato, aproveitando a mão de obra qualificada da região e suas eficientes cadeias de suprimentos. No entanto, o maior escrutínio das cadeias de suprimentos e as periódicas operações repressivas do governo levaram algumas fábricas chinesas a se adaptar, contratando trabalhadores de outros países e buscando parcerias com empresas italianas para conquistar legitimidade.

Além de Prato: a dimensão europeia da máfia chinesa

A disputa por Prato não se limita à Toscana. A influência da máfia chinesa se estende por toda a Europa, com operações na França, na Espanha, na Alemanha e em outros países. O controle do grupo sobre a logística e o transporte lhe dá uma vantagem estratégica, permitindo movimentar mercadorias, pessoas e dinheiro entre fronteiras com relativa facilidade. Autoridades policiais da Alemanha e da França confirmaram investigações sobre grupos de crime organizado dominados por chineses e citaram crimes que vão de fraudes fiscais e aduaneiras a delitos ligados à vida noturna.

Promotores italianos alertam que a escalada da criminalidade se transformou em uma operação de negócios gigantesca, com potencial para desestabilizar não apenas Prato, mas também o setor da moda europeu como um todo. A violência em Prato é um sintoma de uma disputa maior pelo controle das cadeias de suprimentos globais que sustentam a fast fashion — um setor que movimenta bilhões de euros e depende de rapidez, flexibilidade e, muitas vezes, da exploração de trabalhadores vulneráveis.

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O que vem pela frente para Prato e o combate ao crime organizado?

O futuro de Prato — e a integridade da indústria da moda italiana — está em jogo. As autoridades estão intensificando os esforços para combater o crime organizado, mas os desafios são consideráveis. O caráter fechado da comunidade chinesa, a capacidade de adaptação das redes criminosas e as pressões econômicas que impulsionam o setor de fast fashion dificultam o combate.

Houve alguns avanços. Os sindicatos conseguiram contratos legais para uma minoria dos trabalhadores, e o maior escrutínio por parte das marcas de luxo levou algumas fábricas a melhorar as condições. Ainda assim, a maioria dos trabalhadores continua vulnerável, e a guerra entre máfias não dá sinais de arrefecimento. A renúncia do prefeito de Prato em meio a um escândalo de corrupção e a revelação de conluio policial ressaltam a necessidade de uma reforma sistêmica.

Especialistas argumentam que só uma resposta coordenada e em vários níveis — que combine aplicação da lei, proteção trabalhista e participação da comunidade — pode desmantelar o domínio da máfia em Prato. Enquanto a cidade enfrenta violência, corrupção e mudanças sociais, seu destino servirá como teste da capacidade da Europa de encarar o lado mais sombrio da globalização.

Em resumo

  • Prato, polo de fast fashion da Itália, está no centro de uma violenta disputa territorial entre grupos da máfia chinesa que disputam o controle dos setores de confecção e logística.
  • A chamada “guerra dos cabides” envolve não apenas os cabides, mas também o transporte e a produção de roupas de forma mais ampla, em um mercado que movimenta centenas de milhões de euros.
  • Grupos da máfia chinesa recorreram à violência, à intimidação e à corrupção para consolidar seu poder, explorando trabalhadores imigrantes vulneráveis e escapando da fiscalização.
  • O “sistema de Prato” — marcado pela corrupção, por violações trabalhistas e pela sonegação de impostos — favoreceu a ascensão do crime organizado e comprometeu a integridade da marca “Made in Italy”.
  • As autoridades enfrentam dificuldades para combater a influência da máfia, e há pedidos de criação de uma divisão especializada no combate ao crime organizado e de reformas sistêmicas para proteger os trabalhadores e restabelecer a ordem.
  • O desfecho da disputa em Prato terá consequências para o setor da moda europeu e para o combate ao crime organizado transnacional.
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