Pais sul-coreanos tiram cada vez mais licença-paternidade em meio à crise demográfica
A Coreia do Sul está passando por uma mudança notável na dinâmica familiar: cada vez mais pais estão optando pela licença-paternidade, uma tendência que reflete mudanças nas atitudes sociais e os esforços do governo para enfrentar a crise demográfica persistente do país. Com a taxa de natalidade em níveis historicamente baixos e o rápido envelhecimento da população, formuladores de políticas e famílias estão repensando os papéis tradicionais de gênero e o equilíbrio entre trabalho e vida familiar.
Conteúdo
- Pais sul-coreanos tiram cada vez mais licença-paternidade em meio à crise demográfica
- O que está impulsionando o aumento das licenças-paternidade?
- Transformações nas normas sociais e na cultura do ambiente de trabalho
- Reformas nas políticas: da proteção à maternidade à igualdade de gênero
- Qual é a eficácia dessas políticas?
- Crise demográfica: por que a taxa de natalidade da Coreia do Sul é tão baixa?
- Barreiras sociais e culturais
- Tendências recentes: um sinal de esperança?
- Implicações mais amplas: igualdade de gênero e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal
- Em resumo
Nos últimos anos, aumentou bastante o número de pais sul-coreanos que tiram licença-paternidade, sinalizando uma transformação mais ampla na forma como as responsabilidades de criação dos filhos são compartilhadas. Esse avanço é visto como um passo crucial para promover a igualdade de gênero e apoiar os pais que trabalham em uma sociedade há muito caracterizada por culturas de trabalho rígidas e expectativas profundamente arraigadas sobre maternidade e paternidade.
O que está impulsionando o aumento das licenças-paternidade?
O aumento da adesão à licença parental entre os pais sul-coreanos resulta da convergência de vários fatores: reformas nas políticas governamentais, mudanças nas normas do ambiente de trabalho e novas atitudes entre as gerações mais jovens. Segundo estatísticas oficiais, o número de sul-coreanos que tiraram licença parental aumentou 14,2%, chegando a quase 200 mil em 2022. Em particular, a proporção de homens entre os beneficiários da licença parental cresceu bastante: de apenas 5,6% em 2015 para mais de 28% em 2023, e relatórios recentes indicam que agora pode ultrapassar 36%.
Essa transformação não ocorre isoladamente. A taxa de fecundidade total (TFT) da Coreia do Sul — o número médio de filhos que se espera que uma mulher tenha — é a mais baixa do mundo há vários anos: caiu para 0,72 em 2023, antes de apresentar uma leve alta para 0,75 em 2024. É necessário atingir uma TFT de 2,1 para manter a população estável, por isso esses números acenderam o alerta entre formuladores de políticas preocupados com a sustentabilidade de longo prazo da economia e dos sistemas de assistência social do país.
As iniciativas governamentais tiveram um papel fundamental no incentivo à licença-paternidade. Emendas à Lei de Igualdade de Gênero no Emprego e Equilíbrio entre Trabalho e Família e à Lei de Normas Trabalhistas, aprovadas no fim de 2024, dobrarão a licença-paternidade remunerada, de 10 para 20 dias, a partir de fevereiro de 2025. Essas reformas fazem parte de uma estratégia mais ampla para facilitar a participação dos pais — especialmente dos pais homens — nos cuidados com os filhos na primeira infância e ajudar a reverter a queda da taxa de natalidade.
Transformações nas normas sociais e na cultura do ambiente de trabalho
Historicamente, a sociedade sul-coreana atribuiu quase exclusivamente às mães o peso dos cuidados com os filhos, enquanto se esperava que os pais se concentrassem no trabalho. Jornadas longas, a forte preferência pelos cuidados prestados pela própria família e o ceticismo em relação aos serviços formais de cuidado infantil dificultaram o equilíbrio de responsabilidades para famílias com dois provedores. No entanto, isso começa a mudar.
Pesquisas acadêmicas mostram que, embora o número de pais que tiram licença tenha quintuplicado nos últimos anos, muitos ainda recorrem a ela como último recurso, geralmente quando não há outras opções de cuidado infantil. Depois da licença, alguns pais se empenham em continuar participando da rotina doméstica, ajustando os horários de trabalho ou até mudando de emprego para atender às necessidades da família. Outros, porém, voltam a rotinas de trabalho exigentes e dependem dos avós ou das cônjuges para cuidar dos filhos.
Apesar desses desafios, a satisfação com a cultura de equilíbrio entre trabalho e família nas empresas melhorou tanto para homens quanto para mulheres. A proporção de trabalhadores homens que adotam horários flexíveis aumentou de 4,7% para 17,1% desde 2015, e mais empresas estão oferecendo apoio a funcionários com filhos pequenos. Essas mudanças indicam uma transformação gradual, mas significativa, nas expectativas profissionais e nos papéis de gênero.
Reformas nas políticas: da proteção à maternidade à igualdade de gênero
As políticas de licença parental da Coreia do Sul evoluíram bastante nas últimas três décadas. Inicialmente, as reformas se concentravam na proteção à maternidade, concedendo licença parental não remunerada aos pais somente se suas esposas estivessem empregadas. Com a queda das taxas de fecundidade e o agravamento da crise demográfica, o foco das reformas passou a ser o incentivo à natalidade e o apoio à participação das mulheres no mercado de trabalho.
Na última década, o foco se voltou cada vez mais para a igualdade de gênero e a participação ativa dos pais nos cuidados com os filhos. Programas de incentivo, como o “mês do papai” — que oferece benefícios adicionais quando ambos os pais tiram licença —, foram criados para estimular a participação dos pais. O governo também aumentou os benefícios da licença para cuidar dos filhos, simplificou os processos de solicitação e introduziu novos subsídios para empregadores que contratam substitutos temporários durante a licença parental.
As principais mudanças nas políticas que entram em vigor em 2025 incluem:
- Dobrar a licença-paternidade remunerada, de 10 para 20 dias, a ser tirada em até 120 dias após o nascimento da criança
- Permitir que a licença-paternidade seja tirada em até três períodos
- Aumentar os subsídios salariais do governo para empregadores que apoiam a licença parental
- Ampliar de 90 para 100 dias a licença-maternidade em casos de parto prematuro
- Ampliar o acesso à redução da jornada de trabalho durante a gravidez e o período de cuidados com os filhos
- Criar a licença de curta duração para cuidados infantis e ampliar o apoio a tratamentos de fertilidade
As reformas foram concebidas para tornar a licença parental mais acessível e atraente, sobretudo para os pais, e reduzir o estigma que tradicionalmente cerca os homens que se afastam do trabalho por motivos familiares.
Qual é a eficácia dessas políticas?
A eficácia da ampliação das políticas de licença parental para aumentar a fecundidade e reduzir as desigualdades de gênero no mercado de trabalho ainda é motivo de debate. Alguns estudos indicam que benefícios mais generosos podem incentivar a natalidade e ajudar as mulheres a permanecer em carreiras profissionais, reduzindo as diferenças de gênero na oferta de mão de obra. Outros, porém, alertam que o impacto pode ser limitado se obstáculos culturais e estruturais mais amplos — como jornadas longas, altos custos de cuidado infantil e normas de gênero persistentes — não forem enfrentados.
Especialistas observam que incentivar o uso conjunto da licença parental (quando ambos os pais tiram licença) é mais eficaz para aumentar a participação masculina do que simplesmente torná-la obrigatória. Os esforços do governo para promover modalidades flexíveis de trabalho, ampliar os subsídios para cuidados infantis e apoiar os empregadores são vistos como passos na direção certa, mas o avanço sustentável exigirá uma abordagem abrangente que enfrente as causas fundamentais da baixa fecundidade e da desigualdade de gênero.
Crise demográfica: por que a taxa de natalidade da Coreia do Sul é tão baixa?
A crise demográfica da Coreia do Sul é impulsionada por uma combinação complexa de fatores econômicos, sociais e culturais. O alto custo de vida, a educação cara, a insegurança no emprego e uma cultura de trabalho exigente dificultam que muitos jovens imaginem um futuro estável com filhos. A idade média ao se casar aumentou, e o número de primeiros casamentos caiu mais de 37% desde 2015. Domicílios com apenas uma pessoa já representam mais de um terço do total, refletindo mudanças nos estilos de vida e nas prioridades.
Apesar de ter gasto mais de 360 trilhões de won (cerca de US$ 270 bilhões) em programas de apoio às famílias desde 2006 — incluindo pagamentos em dinheiro pelo nascimento de filhos, ampliação da licença parental e aumento dos subsídios para cuidados infantis —, a taxa de fecundidade continua muito abaixo do nível de reposição populacional. A recente alta no número de nascimentos, atribuída ao aumento dos casamentos após a pandemia e ao maior número de mulheres na faixa dos 30 anos, é vista por muitos especialistas como uma recuperação temporária, e não como uma reversão duradoura da tendência.
A Coreia do Sul agora é classificada como uma sociedade “superenvelhecida”, com mais de 20% da população com 65 anos ou mais. Projeções indicam que a população pode encolher de um pico de 51,8 milhões em 2020 para apenas 36,2 milhões em 2072, se as tendências atuais continuarem. Isso teria profundas implicações para a economia do país, seus sistemas de assistência social e sua posição global.
Barreiras sociais e culturais
Um dos maiores desafios da Coreia do Sul é a persistência dos papéis tradicionais de gênero e das expectativas no ambiente de trabalho. Apesar das reformas nas políticas, muitos pais ainda sofrem pressão para priorizar o trabalho em detrimento da família, e as mães continuam assumindo a maior parte das responsabilidades de cuidado infantil. A diferença salarial entre homens e mulheres permanece significativa, e muitas vezes se espera que as mulheres deixem o mercado de trabalho ou interrompam a carreira após o nascimento dos filhos.
Há esforços em andamento para mudar essas normas, mas o avanço é lento. Alguns especialistas defendem que é necessária uma “mudança de paradigma” que reconheça a parentalidade como um serviço público e ofereça licença parental universal e obrigatória a todos os pais, com apoio financeiro suficiente para manter o padrão de vida. Outros pedem mais investimentos em serviços de cuidado infantil de alta qualidade e a preços acessíveis, além de opções de trabalho mais flexíveis para homens e mulheres.
Tendências recentes: um sinal de esperança?
Pela primeira vez em quase uma década, a taxa de natalidade da Coreia do Sul apresentou um aumento modesto. Em 2024, o número de nascimentos cresceu 3,6%, chegando a 238.300, e a taxa de fecundidade subiu para 0,75. Essa melhora é atribuída, em grande parte, ao salto de 14,9% no número de casamentos, já que casais que adiaram as cerimônias durante a pandemia de COVID-19 finalmente se casaram. O aumento dos nascimentos também está ligado a uma mudança demográfica: mais mulheres no início dos 30 anos, a faixa etária mais fértil, estão tendo filhos.
Incentivos governamentais, como bônus em dinheiro pelo nascimento de filhos, ampliação da licença-paternidade e maior apoio a pais que trabalham, contribuíram para a tendência positiva. Cidades como Pyeongtaek, que investiram em novas moradias e oportunidades de emprego, registram taxas de natalidade superiores à média nacional. O Ministério da Igualdade de Gênero e da Família continua acompanhando mudanças na população, nos domicílios e na participação no mercado de trabalho, usando dados para orientar futuras decisões de políticas públicas.
No entanto, especialistas alertam que essa alta recente pode não durar. Atualmente, o número de pessoas na faixa dos 20 anos é menor do que o de pessoas na faixa dos 30, o que indica que o contingente de potenciais pais diminuirá nos próximos anos. A sustentabilidade de longo prazo dependerá de convencer mais jovens a se casar e ter filhos, além de criar um ambiente em que as famílias se sintam apoiadas e seguras.
Implicações mais amplas: igualdade de gênero e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal
O número crescente de pais sul-coreanos que tiram licença-paternidade é um sinal positivo para a igualdade de gênero e o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Ao compartilhar as responsabilidades de cuidado infantil, os pais podem apoiar a carreira de suas parceiras e ajudar a reduzir a desigualdade de gênero no emprego. As taxas de emprego das mulheres melhoraram: entre as que têm de 15 a 64 anos, chegaram a 61,4%, e as interrupções de carreira entre mulheres casadas diminuíram cerca de 35% desde 2015.
Apesar disso, ainda há desafios significativos. Muitos pais só tiram licença quando não há outras opções, e, quando eles voltam ao trabalho, o peso dos cuidados costuma recair sobre os avós ou as mães. O avanço sustentável exigirá reformas coordenadas na jornada de trabalho, na cultura das empresas e na oferta de serviços de cuidado infantil de alta qualidade.
A experiência da Coreia do Sul oferece lições valiosas para outros países que enfrentam desafios demográficos semelhantes. A interação entre políticas públicas, cultura e realidades econômicas evidencia a necessidade de soluções abrangentes e sensíveis ao contexto, que vão além de medidas isoladas.
Em resumo
- A Coreia do Sul registra um aumento significativo no número de pais que tiram licença-paternidade, refletindo mudanças de atitude e reformas nas políticas governamentais.
- A taxa de natalidade do país continua sendo a mais baixa do mundo, mas dados recentes mostram um leve aumento, atribuído ao maior número de casamentos e a incentivos específicos.
- As reformas do governo incluem dobrar a licença-paternidade remunerada, ampliar os subsídios para cuidados infantis e apoiar modalidades flexíveis de trabalho.
- Apesar dos avanços, normas culturais arraigadas e expectativas no ambiente de trabalho continuam sendo obstáculos à igualdade de gênero e ao equilíbrio entre trabalho e vida familiar.
- Especialistas destacam a necessidade de uma mudança de paradigma, com licença parental universal, mais investimentos em cuidados infantis e políticas que reconheçam a parentalidade como um serviço público.
- A sustentabilidade das melhorias recentes depende de enfrentar desafios econômicos e sociais subjacentes e de criar um ambiente em que as famílias se sintam apoiadas.






