Expansão da construção esbarra nos limites de energia e água
A Tailândia suspendeu, em setembro de 2026, as obras de 49 data centers e congelou as decisões de aprovação de 117 instalações planejadas, colocando em pausa um grande boom de investimentos digitais enquanto autoridades elaboram regras para energia, água, segurança e proteção das comunidades.
Conteúdo
- Expansão da construção esbarra nos limites de energia e água
- O que levou à suspensão?
- Como funcionariam as regras propostas
- Sete faixas de porte, com limites preliminares ainda em mudança
- Por que os pedidos de energia estão sob maior escrutínio
- Água e comunidades entram nos critérios de aprovação
- O boom regional dá contexto à decisão da Tailândia
- Um sistema único de aprovação substituiria a supervisão fragmentada
- O que vem pela frente para investidores e clientes?
- Principais pontos
A dimensão do desafio vai além das licenças de construção. O Ministério da Energia estima que os desenvolvedores de data centers solicitaram cerca de 35 gigawatts de capacidade elétrica, valor próximo ao pico de demanda nacional da Tailândia, de 40 gigawatts. O porta-voz do ministério, Pongpol Yodmuangcharoen, disse que as solicitações incluem pedidos inflados ou condicionais, levando as autoridades a verificar quanta energia os projetos realmente precisam.
O Conselho de Investimentos da Tailândia aprovou 88 projetos de inteligência artificial e data centers, avaliados em aproximadamente 886 bilhões de baht, cerca de US$ 27 bilhões, no primeiro semestre de 2026. Essas aprovações de investimento são uma coisa; outra é decidir se cada empreendimento tem as licenças, conexões com os serviços públicos e salvaguardas necessárias para avançar.
Danucha Pichayanan, secretário-geral do Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, anunciou a suspensão das obras. A resposta política agora abrange desde a segurança nos bairros até o planejamento da rede elétrica nacional, com regras propostas que dividem as instalações por demanda de energia e farão com que futuros solicitantes disputem recursos.
Para os moradores, as preocupações imediatas são práticas: se uma instalação deveria ficar ao lado de suas casas, como o combustível de reserva é armazenado e se o resfriamento industrial pressionará o abastecimento local de água. Para desenvolvedores e clientes de serviços em nuvem, a questão central é quando os projetos poderão avançar dentro de um sistema de aprovação previsível.
Um data center é um prédio cheio de computadores que armazenam informações e executam serviços, incluindo softwares em nuvem e IA. Esses computadores precisam de fornecimento contínuo de energia e refrigeração, o que torna cada grande projeto um compromisso significativo de recursos locais.
O que levou à suspensão?
Um vazamento de óleo na região de Rama IX, em Bangkok, em setembro chamou a atenção para um data center não autorizado que operava em uma comunidade residencial. Em seguida, a Administração Metropolitana de Bangkok começou a investigar 47 data centers na capital.
A investigação de Bangkok abrange um grupo diferente dos 49 projetos de construção afetados pela suspensão nacional. O incidente levou as permissões para os locais, o armazenamento de combustível e a proximidade das residências a entrar em um debate antes dominado por anúncios de investimento.
A Comissão da Câmara sobre Comunicações, Telecomunicações e Economia e Sociedade Digital também começou a examinar o marco regulatório de Bangkok. Os requisitos nacionais propostos abrangem planejamento urbano, afastamento de prédios vizinhos, sistemas elétricos, armazenamento de combustível de reserva, segurança e proteção ambiental.
Em setembro, a Tailândia criou um comitê de 21 integrantes para propor políticas e padrões, monitorar os efeitos do setor, apresentar relatórios ao gabinete e supervisionar a implementação. O comitê nacional de políticas é presidido pelo vice-primeiro-ministro.
O ministro das Finanças e vice-primeiro-ministro, Ekniti Nitithanprapas, disse que a reunião de 4 de setembro recebeu orientações do primeiro-ministro. A decisão suspendeu as obras e as autorizações pendentes até que fossem esclarecidos padrões ambientais e sociais mínimos.
Como funcionariam as regras propostas
Ekniti disse que uma proposta de marco regulatório seria encaminhada ao gabinete em 10 de novembro de 2026. Ela estabelece quatro áreas mínimas de avaliação: localização e uso do solo, conexões de energia e água, práticas ambientais e benefícios econômicos e sociais.
As regras de localização incluiriam condições para armazenar o combustível usado por geradores de reserva. Os requisitos ambientais seguiriam um Código de Prática, um conjunto de regras operacionais destinado a controlar o impacto das instalações sobre o entorno.
Disposições preliminares mais detalhadas exigem o tratamento da água de purga, descartada pelos sistemas de refrigeração à medida que minerais e outras substâncias se acumulam. As saídas de exaustão não devem causar incômodo aos vizinhos, e o sistema automático de supressão de incêndio deve cobrir toda a instalação.
As propostas de transição preveem de oito a 12 meses para que as empresas se adaptem; uma descrição posterior dá aos operadores existentes um ano para atualizar a proteção contra incêndios, a energia de emergência e as medidas ambientais. Os requisitos estruturais seriam aplicados às instalações existentes quando elas solicitassem alterações. Projetos sem licenças teriam de cumprir integralmente os novos requisitos.
Não foram especificados o resultado da decisão do gabinete, o texto jurídico final, a identidade dos projetos afetados nem se a suspensão de setembro foi revogada. A expectativa é que novas solicitações voltem a ser aceitas no início de 2027, sem uma data de reabertura confirmada.
Sete faixas de porte, com limites preliminares ainda em mudança
O sistema proposto dividiria os data centers em sete grupos, de acordo com a demanda de energia. Uma proposta preparada para ser encaminhada ao gabinete em novembro lista as seguintes faixas:
- Nível 1: de zero a 0,5 megawatt.
- Nível 2: de 0,5 a 5 megawatts.
- Nível 3: de 5 a 10 megawatts.
- Nível 4: de 10 a 20 megawatts.
- Nível 5: de 20 a 50 megawatts.
- Nível 6: de 50 a 200 megawatts.
- Nível 7: mais de 200 megawatts.
Outra descrição da proposta do conselho inicia a menor categoria em 0,5 megawatt e abaixo de 1 megawatt, seguida de 1 a menos de 5 megawatts, e prevê três subdivisões entre 5 e 50 megawatts. Os limites e nomes das categorias serão definidos no texto final aprovado.
A proposta de novembro permitiria que os quatro menores grupos seguissem requisitos básicos e se instalassem em áreas comerciais, sob condições específicas. Empreendimentos maiores estariam sujeitos a condições mais rigorosas, levando em conta suas necessidades de recursos e a capacidade do entorno.
As autoridades pretendem classificar os projetos com base na carga total da instalação, que corresponde à demanda de energia de todo o local, incluindo refrigeração e equipamentos de apoio. A carga de TI abrange os equipamentos de computação propriamente ditos. Assim, a necessidade total de energia de uma instalação pode superar a capacidade informada para seus servidores.
Um gigawatt equivale a 1.000 megawatts. Manter essas unidades e métodos de medição consistentes é importante quando as autoridades comparam um projeto específico com a energia disponível em um distrito ou no país como um todo.
Por que os pedidos de energia estão sob maior escrutínio
Os 35 gigawatts estimados que os desenvolvedores solicitaram equivalem a 87,5% do pico de demanda nacional de eletricidade da Tailândia, de 40 gigawatts. O Ministério da Energia está verificando as solicitações porque os desenvolvedores podem reservar mais capacidade do que usarão no fim ou fazer pedidos condicionados ao avanço dos projetos.
A proposta do Plano de Desenvolvimento de Energia de 2026 usa 8,8 gigawatts como referência para a capacidade de data centers. Isso corresponde a aproximadamente um quarto dos 35 gigawatts solicitados, uma diferença expressiva que torna essenciais informações precisas sobre os projetos antes de as concessionárias investirem em nova infraestrutura.
Christopher Starling, diretor de estratégia da JERA Asia, projeta que a demanda por energia na Tailândia crescerá pelo menos 3% a 4% ao ano, impulsionada, entre outros fatores, por data centers, infraestrutura digital e serviços de IA. A JERA detém uma participação de aproximadamente 12,3% na Electricity Generating Plc, da Tailândia.
Starling explicou por que os desenvolvedores dão tanta importância ao acesso a um fornecimento confiável de energia:
"Falamos muito sobre a importância de ter acesso rápido à energia para poder agir com rapidez e ajudar a Tailândia a atender às necessidades de seus data centers, garantindo ao mesmo tempo que o fornecimento seja confiável, já que os data centers operam 24 horas por dia, sete dias por semana. Portanto, a resposta curta é sim: vemos um mercado com muito potencial", disse.
O ministro da Energia, Akanat Promphan, defendeu uma categoria tarifária separada, com preços mais altos, para data centers, citando a demanda por energia gerada com gás importado, que é caro. Isso vincularia mais diretamente o preço pago pelos operadores ao custo do fornecimento.
A Autoridade de Geração de Eletricidade da Tailândia planeja investir cerca de 35 bilhões de baht, aproximadamente US$ 1 bilhão, em melhorias na rede, sobretudo no Corredor Econômico Oriental. Os requisitos propostos pelo Código de Rede exigiriam que os operadores gerenciassem as variações de carga antes de recorrer à rede pública.
Os responsáveis pelo planejamento energético também pretendem usar a Expectativa de Perda de Carga (LOLE, na sigla em inglês) para avaliar a confiabilidade. Essa medida estima com que frequência a demanda por eletricidade poderia superar a oferta disponível, ajudando a identificar possíveis faltas de energia em vez de se basear apenas no volume de capacidade de geração excedente.
Um programa de painéis solares em telhados, com meta de atender a um milhão de residências, acrescentaria 5.000 megawatts. Integrar essa oferta variável a grandes cargas industriais contínuas exige mudanças na rede, além de capacidade adicional de geração.
Água e comunidades entram nos critérios de aprovação
O Corredor Econômico Oriental enfrenta pressão sobre a água, além da energia. Somnuck Jongmeewasin, diretor de pesquisa do grupo de pesquisa e defesa de interesses EEC Watch, apontou uma preocupação específica em Chonburi:
"O reservatório Khlong Luang, em Chonburi, no leste da Tailândia, é um dos principais focos de tensão", afirma Somnuck Jongmeewasin.
Somnuck disse que o reservatório era raso e estava sob pressão enquanto as autoridades canalizavam sua água para zonas industriais. Os requisitos propostos para as conexões tornariam a disponibilidade local de água parte da avaliação dos projetos, junto com o acesso à eletricidade.
A consulta às comunidades foi um dos temas da Semana Internacional de Energia de Singapura, em outubro de 2026. Allyson Anderson Book, diretora de sustentabilidade, assuntos governamentais e políticas públicas da Baker Hughes, descreveu como os moradores receberam informações insuficientes sobre a instalação de um data center em seu bairro.
Jie-Sheng Tan-Soo, professor assistente da Escola de Políticas Públicas Lee Kuan Yew, em Singapura, explicou por que os números de investimento, por si só, podem não satisfazer as comunidades:
"Embora os data centers possam gerar investimentos substanciais e movimentar a construção civil, em geral criam menos empregos de longo prazo do que muitos outros setores que exigem quantidades comparáveis de terra, eletricidade e água", afirma Jie-Sheng Tan-Soo.
A avaliação proposta pela Tailândia sobre benefícios econômicos e sociais incluiria emprego, desenvolvimento de competências e impactos nas comunidades no mesmo processo de aprovação que analisa os requisitos de uso do solo e de serviços públicos. Esses critérios dariam às autoridades uma base para comparar a contribuição dos projetos com os recursos de que precisam.
O boom regional dá contexto à decisão da Tailândia
A atualização do primeiro semestre de 2026 sobre data centers da Ásia-Pacífico, publicada pela Cushman & Wakefield, registrou uma carteira de projetos de 26,5 gigawatts: 4,8 gigawatts em construção e 21,7 gigawatts planejados. O Sudeste Asiático respondeu por aproximadamente metade da capacidade em construção.
A Malásia tinha 1.039 megawatts em construção, e a Tailândia, 859 megawatts. Juntos, os 1.898 megawatts dos dois países representavam cerca de 40% do total em construção na Ásia-Pacífico. Os números foram publicados em 5 de agosto, antes da suspensão determinada pela Tailândia em setembro.
Bangkok tinha 134 megawatts em operação e uma carteira de projetos de 2.084 megawatts. Sua capacidade em construção havia crescido 148%, mostrando a rapidez com que as necessidades de serviços públicos se expandiam em relação ao mercado existente.
Johor ilustra as pressões associadas a esse crescimento. Sua capacidade em operação passou de 94 megawatts em 2023 para 1.110 megawatts em 2026, quase doze vezes mais. A Wood Mackenzie estima que os data centers já consomem 24% da eletricidade do estado, proporção que pode chegar a 40% até 2035.
Singapura restringiu a construção de novos data centers entre 2019 e 2022 e, depois, vinculou as aprovações a condições de eficiência e sustentabilidade. Johor anunciou restrições a novas instalações de Nível 1 e Nível 2, enquanto um projeto em Java Ocidental, na Indonésia, foi paralisado por falta de licenças e por uma avaliação ambiental incompleta.
Os operadores também estão mudando a forma de lidar com a água. A Bridge Data Centres construiu uma estação de tratamento de água de reúso e uma rede de tubulações em Johor, enquanto a AirTrunk anunciou uma parceria com a Johor Special Water para reutilizar águas residuais. Em fevereiro, moradores de Johor protestaram contra outro empreendimento por causa da poeira da construção e dos possíveis efeitos sobre o abastecimento de água.
Um sistema único de aprovação substituiria a supervisão fragmentada
O Ministério da Economia e Sociedade Digital da Tailândia desenvolveria o Dashboard TH-DC para reunir registros de projetos e autorizações. Também lideraria o Serviço Único para Data Centers (DC-OSS, na sigla em inglês), coordenando solicitações, conectando bancos de dados e acompanhando projetos.
A necessidade de um cadastro compartilhado fica clara nos números nacionais. Dados de setembro reunidos por 16 órgãos listavam 35 projetos ou empresas em operação, cerca de 49 em construção e mais de 117 aguardando autorização ou análise. Mais tarde, Ekniti mencionou 63 instalações em operação, 20 em construção e mais de 100 operadores que haviam apresentado propostas. Os números usam descrições e períodos de referência distintos; as autoridades não apresentaram uma conciliação.
A vice-ministra da Economia e Sociedade Digital, Nan Boonthida Somchai, disse que os projetos futuros disputariam energia, água e incentivos ao investimento de acordo com sua contribuição econômica. As obras em andamento e as instalações que aguardam inauguração seriam analisadas separadamente dos novos pedidos de investimento.
Uma iniciativa paralela na área de eletricidade conectaria informações da autoridade nacional de geração, da Autoridade Provincial de Eletricidade, da Autoridade Metropolitana de Eletricidade e da Comissão Reguladora de Energia. O compartilhamento de dados atualizados ajudaria as concessionárias a comparar os pedidos com os projetos reais e as condições da rede.
O que vem pela frente para investidores e clientes?
Ruth Porat, presidente e diretora de investimentos do Google e da Alphabet, reuniu-se com o primeiro-ministro Anutin Charnvirakul em 6 de novembro. Segundo Ekkapob Pianpises, porta-voz do gabinete do primeiro-ministro, o Google reafirmou seu compromisso com a Tailândia e discutiu possíveis mudanças nas regras de energia e água.
Anutin também conversou sobre um serviço centralizado de licenças que usaria IA ao longo de todo o processo. A reunião não resultou em anúncio de um novo valor de investimento. Separadamente, o Google anunciou investimentos de US$ 15 bilhões na Malásia entre 2027 e 2028, mostrando que a expansão regional continua enquanto a Tailândia define seu marco regulatório.
A Tailândia já abriga uma infraestrutura de nuvem expressiva. A Amazon Web Services inaugurou uma região de nuvem em janeiro de 2025, o Google lançou sua região de Bangkok em janeiro de 2026, a Microsoft está desenvolvendo uma região e a Alibaba Cloud opera dois data centers no país. Uma região de nuvem é um conjunto de instalações que atende a clientes de uma área geográfica específica.
Os principais marcos políticos mostram como o foco passou da expansão para a alocação de recursos:
- Primeiro semestre de 2026: o Conselho de Investimentos aprovou 88 projetos de IA e data centers, avaliados em cerca de 886 bilhões de baht.
- 5 de agosto: os dados regionais de construção documentaram a rápida expansão da Tailândia.
- 4 de setembro: o comitê nacional concordou em suspender as obras e as autorizações pendentes enquanto os padrões eram esclarecidos.
- 6 de novembro: o Google discutiu com o primeiro-ministro regras para energia, água e licenças.
- 10 de novembro: Ekniti planejava encaminhar a proposta de marco regulatório ao gabinete.
- Início de 2027: a expectativa é que novas solicitações voltem a ser aceitas.
Para os desenvolvedores, o sistema em elaboração torna a localização, a disponibilidade de serviços públicos e os benefícios econômicos elementos centrais para obter autorização para construir. Para os clientes que precisam de mais capacidade computacional, os prazos de entrega dependerão do cumprimento dessas condições pelos projetos. Os moradores passariam a contar com padrões explícitos para questões que as aprovações de investimento, por si só, não resolvem, do armazenamento de combustível ao descarte da água de refrigeração.
Principais pontos
- A Tailândia suspendeu, em setembro de 2026, as obras de 49 data centers e as decisões de aprovação de 117 instalações planejadas.
- Os desenvolvedores solicitaram cerca de 35 gigawatts de energia; a proposta do plano nacional de energia usa como referência 8,8 gigawatts para o setor.
- Os padrões propostos abrangem uso do solo, eletricidade, água, práticas ambientais, segurança e benefícios econômicos.
- As sete faixas de porte propostas usariam a demanda total de energia das instalações; os limites finais ainda dependem de aprovação.
- Um banco de dados compartilhado de projetos e um serviço centralizado de solicitações coordenariam a supervisão entre os órgãos.
- A expectativa é que novas solicitações voltem a ser aceitas no início de 2027, em um processo que vinculará recursos e incentivos à contribuição econômica.






