Torneiras secas em meio à expansão do setor digital
O reservatório de Nongsa, em Batam, está produzindo apenas 30 litros de água por segundo, abaixo dos 80 litros habituais, segundo a operadora de água Air Batam Hilir. Isso representa uma redução de 62,5% na produção em um distrito insular da Indonésia onde moradores dizem que suas torneiras estão secas há meses, enquanto centros de dados se expandem nas proximidades.
Conteúdo
- Torneiras secas em meio à expansão do setor digital
- Famílias pagam mais por menos água
- Por que os reservatórios estão diminuindo
- O que dizem as autoridades sobre o abastecimento dos centros de dados
- Como evoluíram os protestos e a resposta política
- Dessalinização pode ser uma fonte alternativa, mas levará tempo
- Dimensão dos investimentos previstos em Batam
- Opções de resfriamento e demanda futura de água
- Vizinhos de Singapura enfrentam um desafio compartilhado pelos recursos
- Pontos principais
A crise levou famílias a comprar água, passar a noite esperando a entrega de caminhões-pipa e reduzir o consumo para cozinhar e lavar. Em 5 de outubro de 2026, moradores bloquearam o acesso ao Nongsa Digital Park, uma zona econômica especial que abriga instalações de apoio a serviços digitais e inteligência artificial. O bloqueio ocorreu após protestos em agosto e setembro.
As autoridades de Batam atribuem o problema ao tempo seco prolongado, à redução dos reservatórios e a falhas no abastecimento. Moradores acreditam que a construção de centros de dados aumentou a pressão sobre um sistema de água que já não era confiável. A discussão agora vai além da ilha: o governo da Indonésia começou a coordenar uma resposta entre ministérios em outubro, enquanto autoridades locais pressionaram investidores a criar seus próprios sistemas de abastecimento de água.
Em 4 de novembro, a BP Batam, órgão responsável por supervisionar o desenvolvimento da ilha, falava de um investimento em dessalinização com custo estimado entre Rp400 bilhões e Rp500 bilhões. A produção projetada de 300 litros por segundo equivaleria a 25,92 milhões de litros por dia, mostrando a dimensão da infraestrutura considerada em paralelo à expansão digital.
Para as famílias, a necessidade imediata é mais simples. Elas querem água confiável em casa, em vez de passar mais uma noite esperando ao lado de um reservatório vazio.
Famílias pagam mais por menos água
Dewi Susanti, moradora de Bakau Serip que participou dos protestos, disse que sua vila estava havia cerca de três meses sem água encanada. Ela descreveu a água entregue por caminhões-pipa como suja, turva e malcheirosa, e afirmou que a escassez estava tirando dinheiro destinado à alimentação e deixando os familiares exaustos.
Dewi explicou como a busca por água afetava sua família:
A falta de água está afetando nosso sustento... O dinheiro que deveria ser usado para comprar arroz agora é gasto com tambores de água.
Dewi disse que dois tambores de água comprada custavam Rp125.000 e duravam apenas um dia. Ela também relatou contas mensais de água de cerca de Rp150.000 a Rp200.000, apesar das interrupções no serviço. Ismadi Alim, gerente de serviços da Air Batam Hilir, disse que a tarifa básica de assinatura não deveria passar de Rp33.000 e pediu aos clientes que contestassem valores mais altos junto à empresa.
Em Batuampar, o morador Dede descreveu quase um ano dependendo de entregas de caminhões-pipa a cada dois dias. Ele disse que continuava pagando uma conta mensal de Rp30.000, além da eletricidade para bombear água do reservatório. Os inquilinos dos quartos que ele alugava às vezes precisavam comprar água adicional ou esperar até tarde da noite pelas entregas.
Sulastri, de 38 anos, disse que a escassez também prejudicou pequenos negócios. Donos de barracas que antes faziam cubos de gelo já não conseguiam fazê-lo. Na vila costeira de Mata Ikan, o manifestante Rahmat disse que os moradores passaram a usar água do mar para se lavar depois de usar o banheiro.
A Air Batam Hilir disse ter enviado oito cargas de caminhão-pipa para atender às necessidades dos moradores. Ismadi atribuiu uma queixa sobre entregas de água suja a um caminhão-pipa enferrujado e afirmou que o veículo não seria mais usado. Moradores relataram disputas pelo acesso às entregas, acrescentando mais uma fonte de tensão à vida nos bairros.
Por que os reservatórios estão diminuindo
Batam depende da chuva armazenada em seis reservatórios artificiais: Sei Harapan, Nongsa, Sei Ladi, Duriangkang, Tembesi e Muka Kuning. Sem fontes naturais confiáveis de água doce, como rios ou nascentes, a ilha tem poucas alternativas quando a precipitação diminui.
Ginda Alamsyah, porta-voz da Air Batam Hilir, atribuiu os baixos níveis do reservatório de Nongsa à seca e disse que uma falha elétrica prejudicou ainda mais a distribuição. Autoridades da BP Batam também citaram o tempo seco prolongado e o El Niño, um padrão climático do Pacífico que pode provocar condições mais secas na Indonésia.
A organização ambiental Akar Bhumi Indonesia mediu uma queda de cerca de quatro centímetros por dia no nível da água de Nongsa, com redução acumulada de 4,5 metros até o início de outubro. Ismadi informou um número diário menor, de cerca de dois centímetros desde junho. Segundo a simulação da organização, o reservatório poderia manter o abastecimento por 34 dias sem chuva.
O ativista da Akar Bhumi Indonesia Hendrik Hermawan atribuiu a pressão à baixa precipitação, à menor eficácia das áreas de captação de água e a uma demanda superior à capacidade de produção. Áreas de captação são terrenos ao redor que coletam a chuva e a direcionam para um reservatório.
A organização também identificou queda nos níveis de outros reservatórios. Seus dados apontam reduções diárias de cerca de três centímetros em Sei Harapan, Sei Ladi e Muka Kuning, dois centímetros em Tembesi e um centímetro em Duriangkang.
Dados do governo citados na avaliação indicam que a necessidade anual de água de Batam para seus 1,39 milhão de habitantes em 2026 é de 280 milhões de metros cúbicos, diante de uma disponibilidade anual de 139 milhões de metros cúbicos. A diferença de 141 milhões de metros cúbicos corresponde a pouco mais da metade da necessidade informada. Esse balanço geral da água revela um problema de abastecimento mais profundo do que uma interrupção em um único bairro.
O que dizem as autoridades sobre o abastecimento dos centros de dados
O prefeito de Batam, Amsakar Achmad, que também dirige a BP Batam, disse em outubro que a interrupção da distribuição foi causada por fatores meteorológicos e climáticos, e não por centros de dados ou investimentos em inteligência artificial. A BP Batam também negou que a água destinada às famílias estivesse sendo desviada para essas instalações.
As descrições dos arranjos de abastecimento industrial variam. Uma fonte do setor identificou o reservatório de Duriangkang como a fonte de água do Nongsa Digital Park. O vice-diretor da BP Batam, Denny Tondano, disse que a água de resfriamento dos centros de dados do parque vinha do polo industrial de Kabil, que tem seus próprios tanques de tratamento de água.
O consumo real de água e eletricidade dos centros de dados de Batam, assim como os detalhes dos arranjos de abastecimento, não foram esclarecidos publicamente nos relatos sobre a disputa. Esses dados são importantes porque os reservatórios da ilha têm capacidades e condições diferentes, e cada instalação usa sistemas de resfriamento distintos.
Agus Hasan, professor da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, disse que ainda havia poucas informações confiáveis sobre o uso de água pelos centros de dados na Indonésia, em parte porque as empresas tratavam esses dados como informações proprietárias.
A questão prática é saber se famílias e usuários industriais podem contar com abastecimento confiável durante períodos de seca. A vice-diretora da BP Batam, Ariastuty Sirait, disse que os investimentos precisam preservar o direito dos moradores à água potável e que as necessidades das famílias continuavam sendo prioritárias.
Como evoluíram os protestos e a resposta política
As reclamações dos moradores continuaram ao longo de várias rodadas de manifestações e respostas do governo. As datas mostram a sobreposição entre a demanda urgente pela retomada do serviço e os planos de infraestrutura, que levarão muito mais tempo para serem concretizados.
- Agosto e setembro de 2026: moradores protestaram contra a falta de água enquanto prosseguia o desenvolvimento de centros de dados.
- Fim de setembro: as autoridades orientaram os empreendedores a construir instalações de dessalinização da água do mar para resfriamento, em vez de aumentar a pressão sobre os recursos locais de água doce.
- 5 de outubro: moradores bloquearam o acesso ao Nongsa Digital Park após cerca de três meses de interrupções no abastecimento doméstico.
- 13 de outubro: a ministra das Comunicações e Assuntos Digitais, Meutya Hafid, disse que ministérios e órgãos estavam coordenando uma resposta.
- 4 de novembro: Ariastuty apresentou uma estimativa de investimento em dessalinização de Rp400 bilhões a Rp500 bilhões, com capacidade de cerca de 300 litros por segundo.
As estimativas sobre o número de pessoas na manifestação de 5 de outubro variaram de dezenas na entrada bloqueada a cerca de 300 participantes. Os moradores levavam garrafas vazias, recipientes de água e utensílios domésticos. Restrições de acesso impediram que alguns trabalhadores entrassem na área do projeto.
Meutya disse que a coordenação continuava, sem anunciar uma conclusão ou um cronograma para restabelecer o serviço doméstico. A resposta imediata se concentrou nas entregas de caminhões-pipa, enquanto as autoridades discutem arranjos de abastecimento de longo prazo.
Dessalinização pode ser uma fonte alternativa, mas levará tempo
A BP Batam está promovendo a osmose reversa da água do mar, ou SWRO, como alternativa à água dos reservatórios. O processo força a água do mar a passar por membranas especiais sob alta pressão, separando grande parte do sal para produzir água doce.
Segundo a estimativa apresentada por Ariastuty em novembro, a construção levaria de um a três anos, dependendo do tamanho e da capacidade de produção da instalação. Ela pediu aos investidores que financiem a infraestrutura de água e eletricidade junto com os edifícios de seus centros de dados, segundo o que a BP Batam chama de conceito de investimento integrado.
Denny havia descrito um sistema em construção com capacidade potencial de até 1.200 litros por segundo e conclusão prevista em até um ano. Mais tarde, Ariastuty apresentou uma capacidade de cerca de 300 litros por segundo. Os relatos não explicam a relação entre essas capacidades propostas e os cronogramas de construção.
A dessalinização poderia oferecer aos usuários industriais uma fonte menos dependente diretamente da chuva. Também exige eletricidade, infraestrutura para captar água do mar e gestão da água salgada concentrada que sobra após o tratamento. Essas exigências tornam o projeto das instalações e o planejamento ambiental parte do investimento.
A Air Batam Hilir também está dragando os seis reservatórios da ilha para aumentar a capacidade de armazenamento e considera provocar chuva artificial durante períodos secos. A dragagem remove sedimentos acumulados; a semeadura de nuvens busca estimular a chuva em nuvens adequadas. Nenhuma dessas medidas oferece às famílias a mesma certeza que um abastecimento diário em funcionamento.
Dimensão dos investimentos previstos em Batam
A BP Batam informou que os investimentos em centros de dados na ilha ultrapassaram US$ 6,7 bilhões até meados de 2026. A proximidade com Singapura, as conexões com as principais rotas de cabos submarinos e os custos operacionais relativamente baixos ajudaram a atrair investidores de vários países.
Em seu relato de novembro, Ariastuty listou 10 empresas de centros de dados registradas. Seis estavam no Nongsa Digital Park: duas haviam concluído a construção, uma estava em obras e três planejavam construir. Outras duas estavam construindo fora do parque, e mais duas desenvolviam instalações no polo industrial de Kabil.
Um relato de outubro da BP Batam mencionava 10 centros aprovados e pelo menos seis pedidos adicionais em análise. Reportagens ambientais citaram pelo menos 16 instalações autorizadas e outros 20 pedidos. Um cadastro público unificado que conciliasse empresas, instalações individuais, autorizações e pedidos ajudaria os moradores a acompanhar os projetos previstos.
Entre os grandes projetos está um acordo com a DayOne anunciado em abril para uma instalação com capacidade de cerca de 450 megawatts. Em junho, DayOne, Nvidia e a australiana Firmus Technologies anunciaram uma fábrica de inteligência artificial de 360 megawatts. Projeções oficiais apontam que a demanda de energia dos centros de dados de Batam ultrapassará 1.100 megawatts até 2030.
Um megawatt mede a potência, ou a taxa de consumo de eletricidade. Esses números elevados de capacidade indicam a dimensão da infraestrutura planejada para computação e resfriamento, e não uma conta mensal de eletricidade residencial.
Em 13 de outubro, Budi Satria Dharma Purba, diretor de redes da Telkom, disse que a instalação NeutraDC Nxera Batam estava perto de ser concluída e que as necessidades de água e eletricidade haviam sido consideradas desde o início. Entre as outras empresas responsáveis por instalações em operação ou planejadas em Nongsa estão BW Digital, Princeton Digital Group e Gaw Capital Partners.
Opções de resfriamento e demanda futura de água
Centros de dados abrigam computadores que armazenam informações e executam aplicativos, inclusive sistemas de inteligência artificial. A eletricidade alimenta essas máquinas, que produzem calor. Os equipamentos de resfriamento precisam remover esse calor para que os computadores funcionem de maneira confiável.
O consumo de água varia conforme o tamanho da instalação, a carga de trabalho, o clima e a tecnologia de resfriamento. A Gaw Capital Partners disse que sua abordagem inclui sistemas que circulam e reutilizam água, reduzindo a necessidade de água doce adicional, além de medidas de engenharia e do uso de energia renovável.
Projeções da BP Batam citadas em outubro estimavam que a necessidade potencial de água de nove instalações em Nongsa chegaria a cerca de 29 milhões de litros por dia até 2032, o equivalente a 8,4% do abastecimento total declarado da ilha. Outra estimativa de desenvolvimento apontava uma demanda futura dos centros de dados entre 20 milhões e 50 milhões de litros por dia quando as instalações planejadas estivessem em operação.
A projeção para as nove instalações se refere a um cenário futuro de operação. Para os moradores que enfrentam interrupções agora, a divulgação do consumo atual junto com as previsões ajudaria a mostrar como a demanda está mudando e quanto abastecimento adicional cada projeto exige.
A associação do setor de centros de dados da Indonésia, IDPRO, defende um plano nacional de desenvolvimento que abranja locais adequados, fontes adicionais de eletricidade, eficiência no uso da água, água reciclada e fiscalização dos impactos sobre as comunidades. O presidente da entidade, Hendra Suryakusuma, disse que as decisões sobre a localização devem levar em conta a infraestrutura local e a capacidade ambiental, e não apenas a disponibilidade de terrenos e o interesse dos investidores.
A discussão também envolve a Lei nº 17 de 2019 da Indonésia sobre Recursos Hídricos, que dá prioridade às necessidades básicas das famílias. Wahyu Eka Setyawan, ativista da Walhi, pediu a suspensão de novas autorizações, controles de zoneamento e requisitos específicos de água e energia para centros de dados. Denny disse que a BP Batam avaliaria o pedido de moratória das autorizações.
Vizinhos de Singapura enfrentam um desafio compartilhado pelos recursos
Singapura suspendeu novos projetos de centros de dados de 2019 a 2022 devido a limitações de terreno e energia e, depois, retomou o desenvolvimento com novos requisitos de eficiência. Os investimentos se espalharam para a vizinha Batam e para Johor, na Malásia, ambas próximas da economia digital consolidada de Singapura.
Uma projeção da KPMG estima que a capacidade dos centros de dados do Sudeste Asiático em 2030 será três vezes maior que em 2025, junto com um aumento projetado de dez vezes no uso de inteligência artificial. A expansão cria demanda por infraestrutura de construção, energia e telecomunicações, além de pressionar sistemas de água e redes elétricas que ainda dependem muito de combustíveis fósseis.
James Chai, pesquisador do Instituto ISEAS-Yusof Ishak, estimou a capacidade dos centros de dados de Johor em 2,1 gigawatts, ante 10 megawatts cerca de cinco anos atrás. Como 2,1 gigawatts equivalem a 2.100 megawatts, os números representam uma expansão de 210 vezes.
Em julho, o vice-primeiro-ministro da Malásia disse ao Parlamento que a previsão era de que os centros de dados respondessem por um terço do consumo nacional de energia até 2035. O governo afirmou que novos projetos só seriam aprovados após a garantia de capacidade suficiente de água e energia.
Moradores de Johor protestaram contra a poeira das obras, enchentes repentinas e construções perto de residências. Em Kota Damansara, perto de Kuala Lumpur, um empreendedor retirou em agosto um pedido de autorização para construir um centro de dados, depois que vizinhos reuniram mais de 9.000 assinaturas em uma petição.
O ministro de Recursos Humanos da Malásia, Ramanan Ramakrishnan, disse apoiar o desenvolvimento e os investimentos, mas defendeu que os moradores tenham voz nos grandes projetos:
"Em projetos de grande escala que podem afetar a vida dos moradores, a população precisa ter voz".
O desafio imediato de Batam é restabelecer o abastecimento doméstico e, ao mesmo tempo, adequar as novas aprovações industriais à infraestrutura disponível de água e eletricidade. Famílias que compram tambores de água já estão pagando um preço concreto pela insuficiência do abastecimento da ilha, anos antes de alguns projetos propostos entrarem em plena operação.
Pontos principais
- A produção do reservatório de Nongsa caiu de 80 litros por segundo, o nível habitual, para 30, segundo a Air Batam Hilir.
- Moradores protestaram em 5 de outubro de 2026, depois que alguns bairros passaram cerca de três meses sem abastecimento confiável de água encanada.
- As autoridades atribuem o problema à seca e a falhas no abastecimento; moradores e ambientalistas dizem que o crescimento industrial aumenta a pressão sobre recursos hídricos limitados.
- A BP Batam está pressionando investidores a desenvolver sistemas próprios de abastecimento de água, inclusive usinas de dessalinização que podem levar de um a três anos para serem construídas.
- Os investimentos em centros de dados ultrapassaram US$ 6,7 bilhões até meados de 2026, enquanto a demanda projetada de energia passa de 1.100 megawatts até 2030.
- O governo está coordenando uma resposta entre ministérios, com prioridade formal para as necessidades domésticas de água.






