Energia mais limpa ainda deixa emissões acima dos níveis atuais
As emissões do setor de energia do Sudeste Asiático seriam cerca de 22% maiores em 2050 do que em 2024, mesmo no cenário de transição mais ambicioso da nona Perspectiva Energética da ASEAN, revelando uma lacuna entre os planos energéticos da região e seus compromissos climáticos.
Conteúdo
- Energia mais limpa ainda deixa emissões acima dos níveis atuais
- O que mudou na perspectiva?
- Compromissos climáticos e planos energéticos seguem caminhos diferentes
- As metas para 2030 exigem acelerar as obras
- Por que mais capacidade renovável não acaba com o uso de carvão
- Uma transição mais rápida exigiria construir e desativar mais usinas
- O que muda nas residências, no transporte e na indústria?
- O comércio de eletricidade exige cabos, regras e financiamento
- O custo da demora e as próximas decisões
- Principais pontos
O Centro de Energia da ASEAN (ACE, na sigla em inglês) projeta que as emissões permanecerão acima dos níveis atuais até 2060 em todas as três trajetórias analisadas. Seu cenário de cooperação mais forte reduz as emissões em cerca de dois terços em relação à trajetória baseada nas tendências atuais até 2060. Ainda assim, elas se estabilizam por volta da metade do século antes de voltar a crescer.
Sete dos 10 países abrangidos prometeram atingir emissões líquidas zero ou neutralidade de carbono até 2050. Diferentemente da edição anterior, publicada em 2024, a perspectiva mais recente não inclui uma trajetória elaborada com base nesses compromissos.
A página oficial de publicação do ACE informa que a nona Perspectiva Energética da ASEAN foi lançada em 8 de outubro de 2026, após a reunião dos ministros de Energia, em 7 de outubro. Os ministros aprovaram o documento, que analisa a demanda, a oferta e as emissões de energia até 2060.
O desafio central é concreto: fábricas, veículos, residências e centros de dados precisarão de muito mais energia, enquanto usinas a carvão e gás continuarão em operação. No Cenário de Transição Coordenada da ASEAN (ACTS, na sigla em inglês), o consumo final de energia sobe de 485 milhões de toneladas equivalentes de petróleo em 2025 para 1.073 milhões em 2060. Essa medida reúne diferentes combustíveis e eletricidade em uma unidade comum, permitindo comparar seu conteúdo energético.
Eficiência e tecnologias mais limpas fazem uma diferença substancial. Sem ações coordenadas mais fortes, o consumo chega a 2.047 milhões de toneladas equivalentes de petróleo em 2060, mais de quatro vezes o nível inicial de 2025. O ACTS limita o consumo a quase metade desse patamar, mas a demanda ainda mais que dobra.
O que mudou na perspectiva?
O ACE usa dados históricos de 2005 a 2024 e dois modelos desenvolvidos pelo Instituto do Meio Ambiente de Estocolmo. A Plataforma de Análise de Baixas Emissões acompanha o uso e a oferta de energia, além das emissões. O sistema Next Energy Modeling for Optimization ajuda a selecionar o sistema elétrico de menor custo dentro das premissas estabelecidas.
Três cenários exploram escolhas diferentes. O Cenário de Referência prolonga as tendências atuais. O Cenário de Metas dos Estados-Membros da ASEAN reflete as políticas e metas nacionais declaradas. O ACTS acrescenta uma cooperação mais forte em comércio de eletricidade, eficiência, tecnologia e investimentos.
O ACE afirmou que os governos membros concordaram por consenso em substituir a trajetória anterior, baseada em promessas de neutralidade de carbono. As datas nacionais para atingir emissões líquidas zero deixaram de ser metas usadas na elaboração dos cenários.
O ACE, órgão intergovernamental responsável pela perspectiva, explicou o objetivo do ACTS:
O ponto principal é que o ACTS é um cenário de transição energética coordenada, não uma trajetória de cumprimento de metas de emissões líquidas zero.
Com as tendências atuais, as emissões mais que triplicam até 2050, passando de 2.465 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente em 2024. Com as políticas nacionais, chegam a 5.185 milhões de toneladas, mais que o dobro do nível inicial. O dióxido de carbono equivalente expressa em uma unidade comum os efeitos de diferentes gases de efeito estufa sobre o aquecimento global.
O ACTS limita esse crescimento a cerca de 22% até 2050. Segundo o ACE, para atingir emissões líquidas zero seriam necessários o desligamento mais rápido de usinas a combustíveis fósseis e cortes mais profundos em setores nos quais é difícil eliminar as emissões.
Compromissos climáticos e planos energéticos seguem caminhos diferentes
Brunei, Camboja, Laos, Malásia, Singapura, Tailândia e Vietnã têm metas de emissões líquidas zero ou neutralidade de carbono até 2050. A meta formal da Indonésia é 2060 ou antes, embora o presidente Prabowo Subianto tenha dito em 2024 estar otimista quanto a alcançá-la até 2050. Mianmar e Filipinas não têm metas que abranjam toda a economia.
Os compromissos nacionais mudaram ao longo do tempo, enquanto o plano energético regional da ASEAN avança em períodos sucessivos de cinco anos:
- 2022: Singapura atualizou sua estratégia de desenvolvimento para incluir a meta de emissões líquidas zero até 2050, e o Vietnã aprovou sua meta para 2050 por meio de uma decisão do primeiro-ministro.
- 2023: Os ministros da Economia da ASEAN aprovaram uma Estratégia para a Neutralidade de Carbono, sem definir um ano como meta regional.
- 2024: A edição anterior da Perspectiva Energética da ASEAN incluiu um cenário baseado em promessas de neutralidade de carbono.
- Novembro de 2025: A Tailândia apresentou uma contribuição climática nacional que antecipou sua meta de emissões líquidas zero de 2065 para 2050.
- 2026 a 2030: O atual Plano de Ação da ASEAN para a Cooperação Energética estabelece as metas energéticas imediatas da região.
Os compromissos nacionais podem incluir florestas, uso da terra e compensações de carbono, permitindo que o carbono absorvido em outras partes da economia compense algumas emissões do setor energético. Em geral, neutralidade de carbono se refere ao dióxido de carbono, enquanto as metas de emissões líquidas zero de gases de efeito estufa abrangem um grupo mais amplo de gases. Por isso, as regras de contabilização de cada país são importantes.
A perspectiva regional de 2024 da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) estimou que o cumprimento das metas nacionais de emissões líquidas zero exigiria uma redução de quase dois terços nas emissões até 2050. A lista incluía oito países com metas, contando a meta da Indonésia para 2060 e o prazo então vigente da Tailândia, 2065.
Putra Adhiguna, diretor-geral do Energy Shift Institute, afirmou que o planejamento energético nacional precisa acompanhar os compromissos climáticos:
Os planos energéticos de cada país precisarão ser mais bem conciliados com os compromissos assumidos.
A trajetória de políticas declaradas da IEA projeta um aumento de cerca de um terço nas emissões de dióxido de carbono relacionadas à energia até 2050. A trajetória de políticas nacionais do ACE projeta um aumento muito maior nas emissões medidas em dióxido de carbono equivalente. As perspectivas usam estruturas de modelagem e medidas de emissões diferentes, mas ambas apontam para um crescimento contínuo sob as políticas atuais.
As metas para 2030 exigem acelerar as obras
O plano de cooperação energética da ASEAN estabelece três metas para 2030: as fontes renováveis devem fornecer 30% da energia primária total e responder por 45% da capacidade instalada de geração de eletricidade, enquanto a intensidade energética primária deve cair 40% em relação ao nível de 2005.
Energia primária é aquela disponível antes de ser convertida em eletricidade ou em outras formas utilizáveis. A intensidade energética mede a energia necessária para produzir uma unidade de atividade econômica. Uma intensidade menor significa que a economia pode produzir mais bens e serviços com menos energia.
A ASEAN chegou a 2025 abaixo das três metas de seu plano anterior. O resumo executivo da perspectiva afirma que atingir a nova meta de capacidade renovável exige acréscimos de cerca de 31 gigawatts por ano, ante a média histórica de 6,5 GW. A apresentação geral da publicação principal do ACE aponta uma necessidade menor, de cerca de 26 GW por ano. Ambos os números indicam que as obras precisam acelerar bastante.
O resumo executivo alerta que manter o ritmo histórico de implantação até 2027 elevaria a necessidade anual para cerca de 55 GW nos anos restantes. Esperar significaria concluir mais projetos, conexões à rede e financiamentos em menos tempo.
O resumo executivo registra cerca de 91 GW de capacidade fóssil e 62 GW de capacidade renovável adicionados entre 2015 e 2024; outros números apresentados junto à perspectiva apontam, respectivamente, cerca de 85 GW e 67 GW. Em ambos os conjuntos de dados, a construção de usinas fósseis superou a de renováveis.
Por que mais capacidade renovável não acaba com o uso de carvão
O ACTS projeta que as fontes renováveis responderão por cerca de 64% da capacidade de geração em 2060. Sua participação renovável fica pouco abaixo de 68% em 2050. Esses percentuais descrevem a produção máxima que os equipamentos podem fornecer, e não a eletricidade que geram ao longo de um ano.
Painéis solares geram energia quando há luz solar, e turbinas eólicas dependem das condições do vento. Usinas que queimam combustíveis podem operar por períodos mais longos, conforme a disponibilidade de combustível e a manutenção. Assim, uma grande participação das renováveis na capacidade pode coexistir com uma geração substancial de eletricidade a partir de combustíveis fósseis.
No ACTS, o carvão ainda fornece cerca de um décimo da eletricidade regional em 2060. O modelo permite até 20 GW de nova capacidade a carvão em cada Estado-membro onde, de acordo com suas premissas, usinas a carvão mais eficientes sejam a opção de menor custo.
Juntas, as usinas a carvão e gás respondem por cerca de 1.500 milhões de toneladas das 3.355 milhões de toneladas de emissões do setor energético projetadas para 2060. Isso equivale a aproximadamente 45% do total, o que torna sua continuidade em operação central para a parcela de emissões que ainda precisa ser eliminada.
Dinita Setyawati, da organização de pesquisa energética Ember, afirmou que o acréscimo de fontes renováveis precisa substituir a geração fóssil para reduzir as emissões. Os dados da IEA ajudam a entender por quê: em 2023, o carvão gerou metade da eletricidade do Sudeste Asiático, mas respondeu por 80% das emissões da geração elétrica.
Uma transição mais rápida exigiria construir e desativar mais usinas
A Agência Internacional de Energias Renováveis (IRENA, na sigla em inglês) parte de outro ponto em seu cenário alinhado à limitação do aquecimento global a 1,5 °C. Ela parte do orçamento de carbono global restante, ou seja, da quantidade de dióxido de carbono que o mundo ainda pode emitir dentro de um limite de aquecimento escolhido, para identificar as mudanças necessárias no setor energético.
A trajetória da IRENA eleva a capacidade renovável do Sudeste Asiático para cerca de 2.800 GW em 2050, ou aproximadamente 90% do total. O ACTS projeta cerca de 1.800 GW. A diferença é de aproximadamente 1.000 GW, o que significa que a trajetória da IRENA exige cerca de 56% mais capacidade renovável do que o ACTS.
As usinas a carvão, gás e petróleo sem captura de carbono caem para cerca de 190 GW na trajetória da IRENA, ante aproximadamente 730 GW no ACTS. Equipamentos de captura de carbono coletam parte das emissões antes que cheguem à atmosfera.
Alcançar o nível de renováveis projetado pela IRENA exigiria acréscimos de cerca de 100 GW por ano até 2050. A região instalou cerca de 11 GW em 2025, aproximadamente um nono desse ritmo. Mesmo a trajetória da IRENA deixa cerca de 600 milhões de toneladas de emissões de dióxido de carbono relacionadas à energia em 2050.
O cenário do ACE ainda proporciona ganhos expressivos: a economia cresce mais de quatro vezes até 2060, enquanto energia mais limpa e eficiência evitam cerca de 79% das emissões adicionais que esse crescimento geraria. Para reduzir as emissões totais, esses ganhos precisam superar o aumento da demanda e substituir mais geração fóssil.
O que muda nas residências, no transporte e na indústria?
No ACTS, a eletricidade responde por 57,2% do consumo final de energia em 2060, ante 27,1% no cenário de políticas nacionais. Essa mudança altera a forma como as pessoas se deslocam, cozinham, resfriam suas casas e fabricam produtos.
No ACTS, carros e motocicletas se tornam totalmente elétricos até 2060, e a eletrificação também chega a ônibus e caminhões. Até lá, a eletricidade fornece cerca de 43% da energia usada no transporte. Em comparação com o cenário de referência, o cenário reduz o consumo de petróleo no transporte em cerca de 8 milhões de barris por dia em 2060.
As residências adotam o cozimento elétrico cerca de 15 anos antes do previsto pelas metas nacionais, e todos os aparelhos de ar-condicionado domésticos passam a ser modelos de alta eficiência energética até 2060. Eletrodomésticos e iluminação melhores reduzem o consumo de energia das residências para níveis inferiores tanto à projeção do cenário de referência quanto ao atual.
As indústrias de alimentos, têxteis e papel passam a usar eletricidade quase totalmente. À medida que os altos-fornos a carvão são desativados, a produção de aço migra para fornos elétricos que usam sucata e para a produção de ferro com hidrogênio. Essas mudanças reduzem a queima direta de combustíveis, mas aumentam a necessidade de eletricidade confiável e mais limpa.
Os centros de dados acrescentam outra pressão sobre a oferta. A AEO9 estima que eles respondam por cerca de um quinto do crescimento da demanda por eletricidade entre 2025 e 2030. A IEA também prevê que o resfriamento impulsione quase um terço do crescimento da demanda regional por eletricidade até 2035, tornando edifícios e aparelhos de ar-condicionado eficientes uma questão imediata de planejamento.
O comércio de eletricidade exige cabos, regras e financiamento
O ACTS amplia em cerca de vinte vezes a capacidade de interconexão elétrica entre países até 2060, enquanto o volume de eletricidade trocado entre sub-regiões das redes cresce cerca de doze vezes. Quinze novas linhas internacionais se somam às oito que já estão em operação.
Essas conexões permitem que o excedente de eletricidade renovável de um país atenda à demanda de outro. Compartilhar uma rede de geração mais ampla também dá aos sistemas elétricos mais opções quando a produção local de energia solar ou eólica cai.
A reunião ministerial de outubro informou que foram aprovadas operações de comércio de eletricidade em várias direções no âmbito do Projeto de Integração Energética entre Laos, Tailândia, Malásia e Singapura. O trabalho também inclui uma estrutura de estudos entre Camboja e Laos, além de conexões propostas entre Camboja e Vietnã e entre Filipinas e Indonésia.
A visão para a Rede Elétrica da ASEAN se estende até 2045. O trabalho regional abrange planejamento coordenado e regras para instalar, manter, reparar e proteger cabos submarinos. Novas consultas nacionais sobre diretrizes para cabos são esperadas durante a presidência de Singapura na ASEAN, em 2027.
As necessidades de financiamento são substanciais. O ACTS exige investimentos médios anuais de cerca de US$ 405 bilhões até 2060 em toda a oferta e o uso de energia. Separadamente, o resumo executivo identifica US$ 4,2 trilhões em investimentos adicionais no uso de energia em relação ao cenário de referência entre 2026 e 2060. Esse segundo valor é acumulado e calculado a preços de 2020.
O custo da demora e as próximas decisões
Segundo a IEA, o custo de financiamento de projetos de energia limpa no Sudeste Asiático é pelo menos duas vezes maior do que nas economias avançadas ou na China. Em 2023, a região recebeu apenas 2% dos gastos globais com energia limpa, apesar de responder por 5% da demanda mundial de energia e 9% da população do planeta.
A IEA estima que uma trajetória alinhada às metas climáticas regionais exige mais de US$ 190 bilhões em investimentos em energia limpa em 2035. Esse valor abrange energia limpa, enquanto a necessidade anual de US$ 405 bilhões estimada pelo ACE inclui uma gama mais ampla de investimentos em oferta e consumo.
Os danos climáticos acrescentam outro risco econômico. Em 2024, o Banco Asiático de Desenvolvimento estimou que um cenário de altas emissões globais poderia reduzir a produção econômica na Ásia em desenvolvimento e no Pacífico em 16,9% até 2070. As perdas estimadas chegam a 30,2% no Vietnã e 26,8% na Indonésia.
O ACE recomenda uma orientação energética regional explícita que se estenda pelo menos até 2050, com planos sucessivos de cooperação energética servindo como marcos. Entre suas prioridades de política estão padrões de eficiência, planejamento da nova geração em conjunto com o desligamento de usinas, redução da dependência do petróleo e alinhamento do financiamento às prioridades da transição.
Uma perspectiva futura poderia analisar uma trajetória de emissões zero, mas nenhum cenário desse tipo foi confirmado para a AEO10. O ACE afirmou que os cenários da próxima edição serão definidos por meio de consultas e consenso entre os Estados-membros. No plano atual, o teste concreto mais próximo é saber se a construção de usinas renováveis e os ganhos de eficiência vão acelerar o suficiente para cumprir as metas de 2030.
Principais pontos
- O cenário de maior cooperação da ASEAN projeta emissões do setor energético cerca de 22% acima dos níveis de 2024 em 2050.
- Sete países abrangidos pela perspectiva prometeram atingir emissões líquidas zero ou neutralidade de carbono até 2050.
- A perspectiva mais recente substitui o cenário anterior, baseado em compromissos climáticos, por outro voltado a medidas coordenadas para o setor energético.
- Segundo os números publicados pelo ACE, cumprir a meta de capacidade renovável para 2030 exige a instalação de cerca de 26 a 31 GW por ano.
- No ACTS, usinas a carvão e gás produzem aproximadamente 45% das emissões projetadas do setor energético em 2060.
- O cenário de transição exige investimentos médios anuais de cerca de US$ 405 bilhões até 2060.
- Uma trajetória de emissões zero é uma possibilidade para modelagens futuras, mas ainda não há decisão confirmada para a próxima perspectiva.






