Menos ajuda chega ao Afeganistão enquanto as necessidades aumentam
O Afeganistão recebeu US$ 570 milhões em financiamento humanitário até agora em 2026, ante US$ 2 bilhões em 2023, enquanto milhões de migrantes que retornaram e a perda de serviços básicos de saúde aumentam a pressão sobre o país. Bruno Lemarquis, vice-representante especial das Nações Unidas para o Afeganistão e coordenador residente e humanitário, alertou que as necessidades crescerão acentuadamente em 2027.
Conteúdo
- Menos ajuda chega ao Afeganistão enquanto as necessidades aumentam
- O financiamento caiu enquanto a demanda continua crescendo
- Centenas de unidades de saúde correm risco de fechar
- Famílias que retornam precisam de documentos e trabalho
- Meninas continuam excluídas das escolas e universidades
- Restrições também atingem afegãs que trabalham para a ONU
- Produção de ópio revela pressão sobre a renda rural
- Riscos climáticos podem agravar a situação em 2027
- O alerta vai além do Afeganistão
- Principais pontos
Em declarações na sede da ONU, em Nova York, na sexta-feira, 6 de novembro de 2026, Lemarquis descreveu um país onde a relativa estabilidade e segurança coexistem com uma economia frágil, amplas restrições a mulheres e meninas e mais de 20 milhões de pessoas que precisam de assistência humanitária.
Cerca de 6,7 milhões de afegãos retornaram desde 2020, muitos após serem forçados a deixar o Paquistão e o Irã. A chegada deles aumenta a demanda por moradia, emprego, documentos e atendimento médico justamente quando as organizações humanitárias têm menos recursos para ajudar.
Lemarquis apontou três fatores por trás do alerta para 2027: novos retornos em massa, instabilidade regional e um possível fenômeno El Niño severo. Juntos, eles ameaçam o abastecimento de alimentos e o acesso a serviços essenciais. Ele pediu que o engajamento internacional continue, apesar da redução da assistência humanitária.
O financiamento caiu enquanto a demanda continua crescendo
A resposta humanitária recebeu cerca de US$ 2 bilhões em 2023 e US$ 1 bilhão em 2025, segundo Lemarquis. Isso representa uma redução pela metade do financiamento entre esses dois anos. Os US$ 570 milhões recebidos até agora em 2026 correspondem a 28,5% do total de 2023, embora o valor de 2026 cubra apenas parte do ano.
As comunidades afegãs enfrentam várias necessidades ao mesmo tempo. Os moradores precisam de alimentos e atendimento de saúde, as famílias que retornam precisam de ajuda para estabelecer moradia e obter renda, e as restrições à educação e ao emprego reduzem as oportunidades. Um orçamento menor para ajuda deixa as organizações humanitárias com menos capacidade para atender a todas essas necessidades.
Os números do financiamento também ajudam a explicar por que o alerta enfatiza os serviços, além dos suprimentos de emergência. Uma unidade de saúde precisa de apoio contínuo para manter profissionais, medicamentos e atendimento básico disponíveis. Quando o financiamento diminui, os efeitos podem atingir pessoas que dependem do mesmo serviço mês após mês.
Centenas de unidades de saúde correm risco de fechar
Lemarquis estimou em cerca de 700, de um total aproximado de 1.900, o número de unidades de atenção primária à saúde afetadas pela falta de financiamento. Suas declarações foram descritas tanto como indicando que 700 unidades fecharam no último ano quanto que cerca de 700 devem fechar em 2025 e 2026; não ficou claro quantas já encerraram as atividades.
O representante da ONU descreveu a perda ameaçada como equivalente a cerca de 40% da rede. Pelos números informados, 700 de 1.900 correspondem a aproximadamente 37%, ou mais de uma em cada três unidades. De qualquer forma, os dados apontam para uma redução substancial no acesso à atenção básica.
A atenção primária à saúde costuma ser o primeiro lugar a que as pessoas recorrem para obter assistência médica, em vez de um hospital especializado. Perder esse serviço próximo traz dificuldades específicas para mulheres, crianças e pessoas em áreas remotas, onde as alternativas já são limitadas. Os fechamentos também deixam menos unidades para atender comunidades que recebem famílias retornadas.
Famílias que retornam precisam de documentos e trabalho
Entre os cerca de 6,7 milhões de retornos desde 2020 estão muitos afegãos expulsos à força de países vizinhos, sobretudo do Paquistão e do Irã. Lemarquis disse que alguns nunca haviam vivido no Afeganistão, o que faz da chegada uma mudança para um país desconhecido, e não um retorno a um lar já estabelecido.
Ele contou ter conhecido um pai de 45 anos que nasceu no exterior e chegou com os filhos à aldeia de seus antepassados. O exemplo mostra por que ter raízes familiares no Afeganistão não significa necessariamente contar com uma casa, emprego ou experiência para lidar com os serviços locais.
Lemarquis disse que os retornados precisam de documentação legal, proteção e emprego. Ao descrever a urgência de encontrar uma forma de ganhar a vida, o coordenador humanitário da ONU pediu:
empregos, empregos, empregos.
Os documentos ajudam as pessoas a comprovar sua identidade e a lidar com instituições públicas. Proteção significa assistência a quem está exposto a perigos, abusos ou outras ameaças. O emprego permite que as famílias paguem por alimentos, abrigo e necessidades diárias além do período coberto pela assistência de emergência.
Meninas continuam excluídas das escolas e universidades
Mais de 2,6 milhões de meninas foram impedidas de cursar o ensino secundário desde 2021, disse Lemarquis. Atualmente, o número de mulheres matriculadas em universidades é zero. Esses dados descrevem duas barreiras em etapas sucessivas da educação: meninas adolescentes não podem continuar os estudos no ensino secundário, enquanto mulheres são excluídas das universidades.
Mulheres e meninas também enfrentam restrições ao trabalho e à participação na vida pública. Lemarquis, falando como representante da ONU e coordenador humanitário, descreveu as restrições como:
severas e abrangentes
As dificuldades econômicas do Afeganistão também afetam a educação dos meninos. Algumas famílias estão impedindo que os filhos continuem estudando por causa da pressão financeira. Assim, as famílias enfrentam obstáculos diferentes: as meninas são excluídas por políticas oficiais, enquanto a pobreza também limita a educação recebida por alguns meninos.
A perda de oportunidades de aprendizado e de acesso ao emprego afeta as finanças das famílias. As famílias que retornam precisam de trabalho, e as comunidades precisam de serviços funcionando, enquanto as mulheres enfrentam restrições para obter qualificações e participar da força de trabalho. Essas pressões ocorrem ao mesmo tempo, e não como problemas isolados.
Restrições também atingem afegãs que trabalham para a ONU
As mulheres afegãs empregadas pelas Nações Unidas estão proibidas de entrar nas instalações da ONU em todo o país desde setembro de 2025, disse Lemarquis. A restrição continuava em vigor no momento de sua apresentação, estendendo os limites ao trabalho das mulheres à organização que coordena a resposta humanitária.
Questionado sobre as justificativas do Talibã para as restrições a mulheres e meninas, Lemarquis descreveu uma combinação de extremismo religioso e práticas antigas de controle e discriminação. Ele disse que não houve mudança perceptível na política, apesar de declarações públicas da Organização da Cooperação Islâmica e de iniciativas de países muçulmanos e estudiosos islâmicos.
A Organização da Cooperação Islâmica é um grupo de países muçulmanos. Seu envolvimento, junto ao de estudiosos e governos, mostra que os apelos para mudar as restrições também vieram de dentro do mundo muçulmano. Ainda assim, Lemarquis afirmou que mulheres e meninas continuam perdendo oportunidades de estudar, trabalhar e participar da vida pública.
Produção de ópio revela pressão sobre a renda rural
Lemarquis citou um relatório recente da ONU segundo o qual a produção de papoula para ópio aumentou 330% em 2025. A produção havia caído acentuadamente depois que o Talibã impôs uma proibição em 2022. Um aumento de 330% significa que a produção chegou a 4,3 vezes o nível do período de comparação.
Durante décadas, o Afeganistão foi a maior fonte mundial de ópio ilícito, uma substância obtida da papoula e usada para fabricar heroína. Lemarquis disse que os agricultores encontraram formas de esconder a produção do Talibã, mas ressaltou a necessidade de outras maneiras viáveis de ganhar a vida.
Segundo Lemarquis, alguns agricultores descreveram como seria baixa sua renda se não cultivassem papoula. Ele relatou as palavras deles:
Não conseguimos sobreviver. E não queremos morrer.
O argumento dele foi que as iniciativas para eliminar o cultivo de papoula precisam ser acompanhadas de alternativas práticas para as famílias de agricultores. A questão conecta a economia das drogas à crise humanitária mais ampla: as famílias precisam de renda e, quando o cultivo de uma planta é restringido, precisam de outra fonte confiável de ganhos.
Riscos climáticos podem agravar a situação em 2027
Lemarquis alertou que um fenômeno El Niño excepcionalmente severo poderia agravar as necessidades humanitárias do Afeganistão em 2027. El Niño é o aquecimento periódico de parte do oceano Pacífico tropical, que pode alterar os padrões climáticos muito além do Pacífico, afetando as chuvas e as temperaturas em outras regiões.
A preocupação para o Afeganistão é a possibilidade de seca, insegurança alimentar mais grave e interrupção de serviços essenciais. Segurança alimentar significa ter acesso confiável a uma quantidade suficiente de alimentos seguros e nutritivos. Um choque climático pode ameaçar esse acesso quando famílias agricultoras perdem produção ou renda.
O Afeganistão enfrentaria um choque desse tipo enquanto recebe grandes contingentes de pessoas retornadas e opera com menos financiamento humanitário. Para uma comunidade que já divide recursos limitados de água, atendimento médico e emprego, uma pressão climática adicional poderia dificultar o atendimento às necessidades diárias. Lemarquis apresentou essa previsão junto à instabilidade regional e à migração como riscos interligados para o próximo ano.
Os principais acontecimentos por trás do alerta abrangem vários anos:
- Desde 2020: Cerca de 6,7 milhões de afegãos retornaram ao país.
- Desde 2021: Mais de 2,6 milhões de meninas foram impedidas de cursar o ensino secundário.
- 2022: O Talibã proibiu o cultivo de papoula para ópio.
- 2023: O financiamento humanitário chegou a cerca de US$ 2 bilhões.
- 2025: O financiamento ficou em US$ 1 bilhão, e um relatório da ONU citado por Lemarquis registrou um aumento de 330% na produção de ópio.
- Setembro de 2025: Mulheres afegãs que trabalham para a ONU foram proibidas de entrar nas instalações da organização.
- 6 de novembro de 2026: Lemarquis alertou em Nova York que as necessidades humanitárias cresceriam acentuadamente em 2027.
O alerta vai além do Afeganistão
Lemarquis pediu que a comunidade internacional não vire as costas ao Afeganistão. Ele afirmou que as consequências de um agravamento da crise poderiam chegar aos países vizinhos e afetar a segurança, a estabilidade e as rotas migratórias, vinculando a assistência humanitária dentro do Afeganistão a preocupações em toda a região.
O coordenador humanitário da ONU descreveu as possíveis consequências como "muito, muito, muito significativas" e alertou:
As consequências podem ultrapassar as fronteiras do Afeganistão e afetar potencialmente a segurança regional, a estabilidade regional e as rotas migratórias.
Paquistão e Irã já estão diretamente envolvidos na crise devido ao grande número de afegãos que retornam dos dois países. Dentro do Afeganistão, as prioridades imediatas são concretas: manter os serviços médicos disponíveis, ajudar os retornados a obter documentos e trabalho, apoiar famílias que enfrentam a fome e restabelecer oportunidades para mulheres e meninas.
A principal pressão vem da diferença entre necessidades crescentes e recursos cada vez menores. Mais pessoas precisam de apoio de comunidades cujos serviços já estão sobrecarregados, enquanto as restrições à educação e ao emprego limitam as oportunidades de obter uma renda familiar mais segura.
Principais pontos
- A ONU prevê que as necessidades humanitárias do Afeganistão crescerão acentuadamente em 2027, em meio a retornos em massa, instabilidade regional e riscos climáticos.
- O financiamento humanitário caiu de US$ 2 bilhões em 2023 para US$ 1 bilhão em 2025; até agora, foram recebidos US$ 570 milhões em 2026.
- Cerca de 700 das aproximadamente 1.900 unidades de atenção primária à saúde fecharam ou correm risco de fechar por falta de financiamento.
- Cerca de 6,7 milhões de afegãos retornaram desde 2020, incluindo muitos expulsos à força do Paquistão e do Irã.
- Mais de 2,6 milhões de meninas foram impedidas de cursar o ensino secundário, e não há mulheres matriculadas em universidades.
- Lemarquis pediu a continuidade do apoio internacional e alertou para consequências à segurança, à estabilidade e à migração na região.






