Um novo estudo de reabilitação inicia testes clínicos
Um estudo clínico em Tianjin vai avaliar se é seguro combinar a identificação da intenção de movimento de um paciente com AVC, a estimulação de circuitos nervosos da medula espinhal e o auxílio de um exoesqueleto robótico durante os passos. O projeto concluiu seu registro junto à Comissão Nacional de Saúde da China em 5 de novembro, tornando-se o primeiro estudo de interface cerebral não invasiva registrado sob as normas para tecnologias biomédicas que entraram em vigor em maio de 2026.
Conteúdo
- Um novo estudo de reabilitação inicia testes clínicos
- Quem pode se beneficiar do tratamento
- Como cérebro, medula e pernas se conectam
- Por que o tempo e a participação ativa importam
- O que muda com o registro
- A triagem de pacientes continua sendo essencial
- O que a experiência de outros pacientes revela
- Custos e acesso vão além do dispositivo
- O que a pesquisa de Tianjin precisa responder
- Principais pontos
O estudo é voltado a pessoas que continuam com movimentos das pernas comprometidos muito tempo depois de um AVC e cujo progresso com a reabilitação convencional estagnou. O objetivo imediato é avaliar a segurança e a viabilidade de combinar essas tecnologias em um ambiente clínico supervisionado.
Pesquisadores do Laboratório Haihe de Interação Cérebro-Computador e Integração Homem-Máquina da Universidade de Tianjin desenvolveram o sistema central, chamado Shengong-Shenchi. O Hospital Huanhu de Tianjin conduzirá a pesquisa clínica, com dispositivos preparados em conjunto pela Suishi (Tianjin) Intelligent Technology e pela Beijing PINS Medical.
O título do estudo descreve seu escopo: uma investigação exploratória sobre a combinação de estimulação da medula espinhal com um exoesqueleto híbrido não invasivo controlado pelo cérebro para dificuldades de movimento dos membros inferiores após um AVC crônico. A estimulação da medula espinhal costuma ser abreviada como SCS.
Para pacientes e familiares, o objetivo central é concreto: fazer com que a reabilitação responda à tentativa de movimento da própria pessoa, coordenando a assistência por meio da medula espinhal, dos músculos das pernas e de equipamentos para caminhar. Saber se essa combinação específica pode gerar melhorias duradouras na marcha é uma questão que a pesquisa clínica deverá responder.
Quem pode se beneficiar do tratamento
Um AVC ocorre quando um vaso sanguíneo que abastece o cérebro é bloqueado ou se rompe, causando danos ao tecido cerebral. Dependendo da área afetada, a pessoa pode ter dificuldade para movimentar um braço ou uma perna, falar ou realizar tarefas cotidianas.
O Relatório sobre Doenças Neurológicas da China de 2024, publicado em 2025 pelo Centro Nacional de Doenças Neurológicas, aponta o AVC como a principal causa de morte e incapacidade entre adultos na China. Segundo o relatório, de 70% a 80% dos sobreviventes apresentam algum grau de incapacidade. Em termos simples, isso corresponde a cerca de sete ou oito em cada 10 sobreviventes.
O projeto de Tianjin se concentra em um grupo mais específico: pessoas com AVC crônico que continuam com dificuldade para movimentar as pernas e chegaram a um platô na reabilitação. Isso significa que a melhora desacelerou ou se estabilizou apesar da continuidade do tratamento.
Alguns desses pacientes têm hemiplegia, ou seja, paralisia que afeta um lado do corpo. A dificuldade para controlar uma das pernas pode tornar muito mais complicado ficar em pé, manter o equilíbrio e caminhar, aumentando a dependência de outra pessoa ou de um dispositivo de mobilidade.
Os pesquisadores esperam que a coordenação de várias formas de assistência ajude pacientes que obtiveram poucos avanços adicionais com a reabilitação atual. Na abordagem planejada, a intenção de movimento do paciente dá início a cada ação assistida.
Como cérebro, medula e pernas se conectam
O Shengong-Shenchi combina uma interface cerebral não invasiva, estimulação da medula espinhal, um exoesqueleto híbrido e estimulação elétrica funcional de um músculo da perna. Cada componente tem uma função diferente na mesma sequência de reabilitação.
A interface cerebral decodifica sinais associados à imaginação de um movimento. Nesse tipo de reabilitação, o paciente imagina ativamente que está se movendo, em vez de apenas esperar que uma máquina movimente um membro. Uma interface cerebral não invasiva registra a atividade cerebral sem implantar eletrodos no cérebro.
Em seguida, a estimulação da medula espinhal altera a capacidade de resposta dos circuitos nervosos da medula. O exoesqueleto, uma estrutura mecânica vestível, ajuda a executar o movimento dos passos. A estimulação elétrica funcional também ativa o tibial anterior, músculo situado na parte da frente da perna que ajuda a levantar o pé durante a caminhada.
A equipe descreve essa configuração como uma cadeia que conecta a intenção gerada pelo cérebro, a transmissão pela medula e o movimento dos membros. O desafio de engenharia é sincronizar a decodificação da intenção, a estimulação medular e os passos assistidos com uma precisão de milissegundos.
A descrição “não invasiva” se aplica especificamente à interface cerebral. O anúncio do projeto não informa como será instalado o equipamento de estimulação da medula, por isso os pacientes precisarão receber da equipe clínica uma explicação sobre os procedimentos envolvidos na intervenção completa.
Por que o tempo e a participação ativa importam
O movimento de caminhar envolve mensagens que trafegam nas duas direções. O sistema nervoso envia comandos aos músculos, enquanto informações sobre a posição e o movimento dos membros voltam ao cérebro. Essas informações de retorno são chamadas de propriocepção, o sentido que permite saber onde está uma perna sem olhar para ela.
A equipe de Tianjin pretende alinhar de perto esses sinais enviados e recebidos. Quando o paciente imagina um passo e recebe assistência coordenada para se movimentar, além de retorno sensorial, os pesquisadores esperam que a prática repetida favoreça a neuroplasticidade, a capacidade do sistema nervoso de modificar suas conexões e sua atividade.
Ye Xiangming, diretor de medicina de reabilitação do Hospital Popular Provincial de Zhejiang, descreveu o papel da participação ativa na reabilitação com interfaces cerebrais não invasivas:
As interfaces cérebro-computador mudaram completamente os princípios da reabilitação, transformando o treinamento passivo em um treinamento verdadeiramente ativo.
Ye explicou que esses dispositivos exigem que o paciente imagine o movimento antes que uma ação possa ser gerada. Essa exigência muda o papel do paciente durante a sessão: a atenção e a tentativa de se mover passam a fazer parte da operação do sistema.
Os pesquisadores de Tianjin estão acrescentando a essa abordagem a estimulação coordenada da medula espinhal. O benefício proposto é aproximar a intenção do paciente, a capacidade de resposta dos circuitos medulares e o movimento assistido que vem em seguida.
O que muda com o registro
O projeto foi registrado com base no Regulamento sobre a Administração de Pesquisas Clínicas e Aplicações de Tradução Clínica de Novas Tecnologias Biomédicas, publicado por meio do Decreto nº 818 do Conselho de Estado. As normas entraram em vigor em maio de 2026.
Antes do registro, a equipe concluiu uma análise científica, uma avaliação da viabilidade da abordagem técnica e uma avaliação preliminar dos riscos éticos. A preparação incluiu a coleta de sinais cerebrais, intervenções destinadas a influenciar a neuroplasticidade e a segurança psicológica dos participantes.
A comissão de saúde de Tianjin prestou serviços relacionados ao registro. A administração municipal de produtos médicos também criou uma equipe dedicada a interfaces cerebrais, oferecendo orientação inicial, apoio adaptado a cada empresa e coordenação entre a pesquisa e a análise regulatória.
A sequência coloca o registro de novembro dentro de um contexto mais amplo de desenvolvimento da prática clínica e das formas de pagamento:
- Março de 2025: A Administração Nacional de Segurança da Saúde da China estabeleceu itens específicos de precificação de serviços médicos relacionados a interfaces cerebrais.
- Agosto de 2025: Zhejiang incluiu a taxa de adaptação de interface cerebral não invasiva na cobertura do seguro de saúde.
- Fevereiro de 2026: Um consenso de especialistas recomendou considerar o treinamento em circuito fechado com interface cerebral por EEG baseado em imagética motora para tratar comprometimentos motores após um AVC.
- Maio de 2026: Entraram em vigor as novas normas nacionais para tecnologias biomédicas.
- 5 de novembro: O estudo de reabilitação combinada de Tianjin concluiu o registro sob essas normas.
O próximo passo é a pesquisa clínica no Hospital Huanhu de Tianjin, conforme o plano registrado. A equipe pretende continuar avaliando a segurança e a viabilidade enquanto aperfeiçoa os programas de reabilitação para cada paciente.
A triagem de pacientes continua sendo essencial
A reabilitação com interface cerebral exige mais do que colocar uma touca de registro na cabeça do paciente. A pessoa precisa ser capaz de compreender instruções, imaginar um movimento e manter a atenção por tempo suficiente para que o sistema detecte sinais úteis.
Li Lin, médico-chefe de medicina de reabilitação do Hospital de Zhejiang, afirmou que comprometimentos cognitivos graves podem impedir o paciente de produzir a imagética motora necessária ao treinamento. Funções cardíaca e pulmonar debilitadas, sinais vitais instáveis e epilepsia não controlada também podem tornar o paciente inelegível.
Li descreveu de forma direta a necessidade de selecionar os pacientes:
As interfaces cérebro-computador também têm indicações específicas; não são adequadas para todos.
A experiência clínica em Zhejiang também aponta para a importância da localização e do tempo de evolução da lesão. Os médicos avaliam se as vias nervosas relevantes ainda têm capacidade suficiente para responder, além de verificar se o paciente consegue lidar com as exigências do treinamento repetido.
O consenso de especialistas de fevereiro de 2026 apoia o uso de sistemas de circuito fechado com interface cerebral por EEG baseada em imagética motora na reabilitação após um AVC. O EEG registra a atividade elétrica do cérebro, enquanto “circuito fechado” significa que o sistema associa a atividade detectada a uma resposta e a um retorno durante o treinamento. O estudo de Tianjin incorpora a esse ciclo a estimulação da medula e o auxílio à caminhada.
O que a experiência de outros pacientes revela
Um sobrevivente de AVC de 53 anos identificado como Lao Zhou começou o treinamento com interface cerebral depois que um AVC, no outono de 2023, o deixou quase sem força no braço esquerdo. Usando uma touca de EEG, ele praticava associar a intenção de se mover ao retorno exibido em uma tela.
As primeiras sessões foram exigentes. A primeira durou 20 minutos e o deixou suando, enquanto o retorno foi irregular nas duas primeiras semanas. Após dois meses, o dedo indicador da mão esquerda se moveu ligeiramente. Mais tarde, ele recuperou movimentos suficientes para realizar algumas tarefas cotidianas com essa mão, embora ainda não conseguisse controlá-la com firmeza.
Outra experiência de reabilitação envolveu Xiaolu, que sofreu uma lesão na medula espinhal em 2024 e recebeu uma interface neural medular de circuito fechado no Segundo Hospital Afiliado da Faculdade de Medicina da Universidade de Zhejiang, em agosto de 2025. Após cerca de um ano de reabilitação, ela conseguia caminhar com um andador, percorrendo de 100 a 200 metros em atividades cotidianas e cerca de 300 metros durante o treinamento.
Zhu Junming, neurocirurgião-chefe do hospital, explicou que o dispositivo oferece assistência e que a recuperação da função própria exige reabilitação prolongada. A capacidade de caminhar diminui quando a estimulação é desligada.
Essas experiências mostram o trabalho prático envolvido na reabilitação: sessões repetidas, progresso variável e dependência contínua de assistência. No estudo de Tianjin, os pesquisadores precisarão avaliar tanto o desempenho dos pacientes durante o treinamento assistido quanto as mudanças em seus movimentos ao longo do tempo.
Custos e acesso vão além do dispositivo
Os sistemas não invasivos representam 86% do mercado de interfaces cerebrais da China, e os departamentos de reabilitação são apontados como o principal ambiente clínico. Zhejiang tem 1.058 patentes de invenção válidas relacionadas a interfaces cerebrais, mais de 90% delas em Hangzhou, o que ilustra a concentração do desenvolvimento em um importante centro médico e tecnológico.
As formas de pagamento também começaram a se desenvolver. O sistema nacional de precificação de serviços médicos, introduzido em março de 2025, incluiu taxas de serviço de implantação invasiva de aproximadamente 6.000 a 6.600 yuans e uma taxa de adaptação não invasiva de cerca de 960 yuans.
Em agosto de 2025, Zhejiang incluiu a taxa de adaptação não invasiva na cobertura do seguro de saúde, com os pacientes inicialmente responsáveis por 10% do valor. Taxas relacionadas a cirurgias invasivas passaram a ter cobertura em junho de 2026. Esses itens cobrem partes específicas do atendimento; as despesas do paciente também dependem dos dispositivos, da reabilitação e das condições do seguro aplicável.
A família de Xiaolu descreveu a reabilitação como sua maior despesa. Como participante de um ensaio inicial, ela não pagou pelo dispositivo, mas sua mãe disse que os custos de reabilitação passaram a ser totalmente responsabilidade da família depois que terminou a cobertura do seguro para o período de reabilitação.
O deslocamento e o tempo também podem pesar. Os serviços de reabilitação com interface cerebral em Zhejiang estão concentrados em hospitais de referência, e o tratamento pode exigir comparecimento frequente por várias semanas seguidas. Para quem tem dificuldade para caminhar, chegar às sessões pode, por si só, exigir o apoio da família.
O que a pesquisa de Tianjin precisa responder
O estudo do Hospital Huanhu de Tianjin avaliará se a intervenção combinada é segura e viável para pessoas com AVC crônico e comprometimento dos movimentos das pernas. O anúncio não informa o número de participantes, o cronograma de recrutamento, a programação do tratamento nem a data de divulgação dos resultados. Também não informa o preço nem as condições de cobertura do seguro para essa combinação específica.
O avanço proposto pela equipe de pesquisa é coordenar várias ações a partir de uma única intenção de movimento. A decodificação dos sinais cerebrais precisa funcionar em conjunto com a estimulação da medula, a ativação muscular e o auxílio do exoesqueleto, de uma forma que os pacientes tolerem e os profissionais de saúde consigam aplicar de maneira consistente.
Para o paciente, um resultado útil seria conseguir se movimentar com mais facilidade no dia a dia, por exemplo, ficar em pé com mais segurança ou precisar de menos ajuda para caminhar. Determinar o nível de melhora que o sistema pode proporcionar, quanto tempo os ganhos duram e quais pacientes se beneficiam exigirá avaliações clínicas ao longo do tempo.
O registro agora oferece à equipe um marco definido para realizar esse trabalho. Os participantes pretendidos são pacientes que chegaram a um platô na reabilitação, e as prioridades imediatas são a segurança e a viabilidade.
Principais pontos
- O estudo de Tianjin concluiu o registro nacional em 5 de novembro, sob normas para tecnologias biomédicas em vigor desde maio de 2026.
- O Shengong-Shenchi combina uma interface cerebral não invasiva, estimulação da medula, um exoesqueleto e estimulação muscular.
- O estudo é voltado a dificuldades persistentes de movimento das pernas após um AVC crônico, especialmente quando o progresso da reabilitação desacelerou.
- O Hospital Huanhu de Tianjin avaliará a segurança e a viabilidade da abordagem combinada.
- A triagem de pacientes, o treinamento repetido, os custos e o acesso continuam sendo desafios práticos.
- O número de participantes, as datas de recrutamento e o cronograma de divulgação dos resultados ainda não foram anunciados.






