Quase um terço das mortes registradas não tem causa identificada
O Departamento de Conservação da Vida Selvagem do Sri Lanka registrou 289 mortes de elefantes selvagens entre 1º de janeiro e 23 de outubro de 2026, incluindo 42 causadas por ferimentos a bala, 34 por eletrocussão e 34 por dispositivos explosivos conhecidos como hakka patas. Outras 95 mortes, quase uma em cada três, não tiveram causa identificada.
Conteúdo
- Quase um terço das mortes registradas não tem causa identificada
- O que mostram os registros de mortes
- Onde as perdas se concentram
- Um tiro, um protesto e uma operação de proteção
- Como funciona a operação militar
- Famílias enfrentam ferimentos, perda de renda e mudanças na rotina
- Mais elefantes vivem perto de pessoas
- Por que a localização das cercas importa tanto quanto o número de funcionários
- Como o total atual se compara ao de anos anteriores
- Responsabilização significa vidas mais seguras para todos
- Principais pontos
A Região Leste da Vida Selvagem registrou 60 mortes, seguida por Anuradhapura, com 57, e Polonnaruwa, com 42. Juntas, essas três regiões somaram 159 mortes, cerca de 55% do total nacional. A Região Leste também teve o maior número de mortes em uma contagem anterior, referente ao período de 1º de janeiro a 15 de maio.
Os números descrevem uma crise que afeta tanto as pessoas quanto a vida selvagem. Até 15 de maio, o departamento havia registrado 128 mortes de elefantes e 35 mortes de pessoas em ataques de elefantes. O total de mortes de elefantes aumentou em mais 161 até o fim do período contabilizado, em 23 de outubro.
A indignação pública se intensificou após a morte, em 30 de outubro, do elefante de presas longas Kawanthissa, baleado em 16 de outubro. Sua morte ocorreu depois do limite da contagem estatística. Mais de 300 ativistas fizeram uma manifestação em Kandy no dia seguinte, exigindo uma investigação independente e medidas mais firmes para proteger elefantes e comunidades.
A resposta do governo inclui agora apoio militar aos agentes de proteção da vida selvagem, buscas por armas de fogo ilegais e armadilhas explosivas, além de uma operação inicialmente voltada a 17 elefantes identificados como estando em risco. Paralelamente às medidas de fiscalização, as mortes reacenderam o debate sobre cercas elétricas, a redução do habitat e se os planos de conservação existentes estão criando condições mais seguras para as famílias rurais.
O que mostram os registros de mortes
Tiros, eletrocussão e hakka patas somaram 110 mortes, cerca de 38% do total informado. Hakka patas são dispositivos explosivos escondidos em iscas, que podem detonar quando um animal as morde, causando ferimentos devastadores na boca e na mandíbula.
Entre as outras causas registradas pelo departamento estão 23 mortes atribuídas à putrefação, 11 a ferimentos infectados, nove a infestação por vermes, oito a quedas em poços ou fossos e sete cada a afogamentos e acidentes. Quatro foram atribuídas a envenenamento e três a acidentes ferroviários.
Duas mortes cada foram registradas como causas naturais, decomposição e em uma categoria denominada polietileno inglês. Três foram atribuídas a outras causas, enquanto nenhuma foi registrada como septicemia, uma infecção grave que envolve a corrente sanguínea. Putrefação e decomposição descrevem a deterioração de um corpo após a morte; essas classificações não esclarecem qual foi o ferimento ou a doença que causou a morte.
As categorias de causas listadas somam 286, três a menos que o total geral de 289. Os números por região somam 289. A razão dessa diferença contábil e o significado da categoria polietileno inglês não foram explicados no detalhamento.
Onde as perdas se concentram
Uva registrou 33 mortes de elefantes, a Região Noroeste da Vida Selvagem, 21, a Região Sul da Vida Selvagem, 19, Vavuniya, 18, a Região Central, 15, e Trincomalee, 14. Puttalam registrou nove mortes e Kilinochchi, uma.
A concentração de mortes na Região Leste, em Anuradhapura e em Polonnaruwa oferece às autoridades um ponto de partida geográfico para as ações de proteção. Os números abrangem regiões administrativas da vida selvagem; portanto, o planejamento deve seguir essas divisões ao relacionar mortes a patrulhas, equipes veterinárias e manutenção de cercas.
Galgamuwa ilustra a pressão cotidiana por trás dos números nacionais. Uma cerca que se estende por 14 quilômetros ao longo do reservatório de Siyambalangamuwa, no noroeste, protege mais de 2 mil famílias em vilarejos próximos. Manter essa barreira em funcionamento é uma tarefa contínua para os agentes da vida selvagem e os moradores, e não um projeto de construção pontual.
Um tiro, um protesto e uma operação de proteção
Nos últimos dias de vida de Kawanthissa, visitantes e monges budistas foram rezar pelo elefante ferido. Sua morte levou a pedidos de investigação sobre o disparo e a questionamentos sobre se os funcionários responsáveis por sua proteção e tratamento cumpriram seus deveres.
A sequência de acontecimentos mostra como a contagem de mortes de outubro foi seguida por novos ferimentos, protestos públicos e medidas do governo:
- 16 de outubro de 2026: Kawanthissa sofreu o ferimento a bala que mais tarde seria fatal.
- 23 de outubro: A contagem do Departamento de Conservação da Vida Selvagem chegou a 289 mortes de elefantes.
- 28 de outubro: Outro elefante de presas longas conhecido, Agbo, teria sido baleado.
- 30 de outubro: Kawanthissa morreu.
- 31 de outubro: Mais de 300 ambientalistas e ativistas de direitos fizeram uma manifestação em Kandy.
- 1º de novembro: O líder da oposição Sajith Premadasa lançou uma iniciativa para construir uma estátua de Kawanthissa, um centro de pesquisa sobre a vida selvagem e uma biblioteca em Ambanpola.
- 2 de novembro: O Ministério da Defesa informa que a operação de proteção Hasthi Sena começou em Galgamuwa.
O centro de pesquisa e a biblioteca propostos ligariam a reação pública a um trabalho de longo prazo sobre a gestão de elefantes. Ativistas que apoiam a iniciativa pediram que pesquisas orientem o planejamento e que comunidades agrícolas recebam informações práticas sobre proteção de plantações e cercas elétricas.
Como funciona a operação militar
O Ministério da Defesa do Sri Lanka afirma que operações conjuntas em Meekiriyawa e Neeginiyawa, na área de Kekirawa, levaram a três prisões, incluindo a de uma mulher. Os agentes apreenderam uma arma de fogo ilegal de cartucho, armas de caça em forma de armadilha, munição, chumbinhos de chumbo, galhadas de cervo e facas feitas com galhadas de cervo. O ministério também informou a localização de armadilhas explosivas.
A nota do Hasthi Sena do ministério afirma que o secretário de Defesa, o vice-marechal do ar aposentado Sampath Thuyacontha, determinou o envolvimento dos militares. Uma sala de operações no Quartel-General do Exército coordena as Forças Armadas com o Ministério do Meio Ambiente, as autoridades responsáveis pela vida selvagem e outras instituições.
O Exército mobilizou 60 integrantes em 10 equipes operacionais, organizadas em seis grupos, para a fase inicial, voltada a 17 elefantes em risco. Agentes da vida selvagem e um veterinário da Força Aérea participaram das operações conjuntas em campo.
Segundo o ministério, a operação mais ampla pretende cobrir cerca de 80% das áreas de floresta identificadas onde os elefantes circulam. Seus alvos incluem armas de fogo ilegais, iscas explosivas, cercas elétricas não autorizadas e armadilhas, com o uso de vigilância, compartilhamento de informações, buscas em campo e aplicação da lei.
Famílias enfrentam ferimentos, perda de renda e mudanças na rotina
Dewagiri Mudiyanselage Thilakaratne Bandara, agente da vida selvagem nas proximidades de Galgamuwa, conhece o perigo tanto pelo trabalho quanto por um ataque ocorrido em casa. Em dezembro de 2025, um elefante entrou em seu quintal para comer mangas e o atacou. Sua esposa, Rathnayake Mudiyanselage Shirani Rathnayake, também foi atacada ao correr para ajudá-lo.
Bandara sofreu uma fratura na perna e deslocou o ombro. A perna direita de Rathnayake precisou ser amputada, e ela agora usa cadeira de rodas. O trabalho na agricultura e a rotina doméstica do casal mudaram, enquanto aumentaram as necessidades de cuidados e o desgaste emocional.
Bandara descreveu como o desmatamento mudou a relação entre o vilarejo e os elefantes das redondezas:
Quando éramos pequenos, tínhamos de ir até um canto do reservatório para ver elefantes. Agora, à noite, os elefantes vêm nos ver.
Os moradores adaptaram os horários da escola, do trabalho e dos eventos comunitários ao risco. Uma escola próxima começa às 8h, meia hora depois do horário de início determinado nacionalmente, para reduzir a exposição no começo da manhã. As pessoas encerram o trabalho mais cedo para voltar antes de escurecer, e casamentos e funerais são organizados levando em conta os deslocamentos dos elefantes.
Os vizinhos usam um grupo de WhatsApp para compartilhar avistamentos e ajudar a levar pessoas feridas ao hospital. Encontros fatais continuam ocorrendo em outras áreas: E.M. Rajeev Saman Bandara, pai de dois filhos, de 42 anos, foi morto por um elefante enquanto levava o gado para pastar em Hingurakgoda.
Mais elefantes vivem perto de pessoas
A estimativa do censo mais recente do Sri Lanka aponta uma população de 7.451 elefantes selvagens, um aumento de 27% em uma década. Estima-se que 70% vivam fora de áreas protegidas. Sua segurança depende, portanto, em grande medida do que acontece perto de fazendas, vilarejos, estradas e outras áreas usadas pelas pessoas.
Segundo dados do Banco Mundial citados em relatos sobre o conflito, a cobertura florestal caiu de cerca de 70% na década de 1920 para aproximadamente 34%. A agricultura, a ocupação de terras e outros empreendimentos aproximaram as pessoas das áreas de alimentação e das rotas de deslocamento dos elefantes.
Ranjan Marasinghe, diretor-geral do Departamento de Conservação da Vida Selvagem, também apontou a seca como um fator de pressão sobre a oferta de alimentos. Ele explicou a relação entre o clima e os danos às plantações:
Durante secas prolongadas, é mais provável que os elefantes invadam plantações, pois os alimentos ficam escassos em seus habitats naturais.
Para famílias que vivem da agricultura, uma safra danificada pode significar perder alimentos e a renda necessária para pagar empréstimos feitos para comprar sementes, fertilizantes e equipamentos. A proteção do habitat e das plantações se encontram nesse ponto: ambas influenciam a frequência com que os elefantes entram em áreas cultivadas e a reação dos moradores.
Por que a localização das cercas importa tanto quanto o número de funcionários
O Departamento de Conservação da Vida Selvagem contratou cerca de 3 mil funcionários para manter cercas elétricas. Devaka Weerakoon, pesquisador de elefantes e coordenador da seção de fauna da Lista Vermelha Nacional, alertou que muitas cercas estão mal localizadas, têm projeto inadequado ou recebem manutenção insuficiente.
Uma cerca elétrica de proteção deve desestimular um elefante a cruzar uma divisa. Instalações elétricas ilegais, por outro lado, podem matar animais. As 34 mortes por eletrocussão na contagem de 2026 tornam a segurança elétrica um aspecto central do desafio de proteção, assim como a questão prática de onde instalar as barreiras.
Weerakoon também questionou propostas de uso da Força de Defesa Civil sem treinamento adequado, citando dificuldades anteriores na manutenção de cercas. Segundo ele, os funcionários precisam de orientações apropriadas ao terreno, às comunidades próximas e ao comportamento dos elefantes. Mais funcionários precisam ser acompanhados de locais adequados para as cercas e manutenção regular.
O Sri Lanka já tem um Plano de Ação Nacional para Mitigar o Conflito entre Humanos e Elefantes, elaborado em 2020 por uma força-tarefa presidencial liderada por Prithviraj Fernando e Sumith Pilapitiya. O plano reconhece que as pessoas ocupam cerca de 70% das áreas habitadas por elefantes, o que torna a gestão de paisagens compartilhadas uma parte importante da conservação.
Como o total atual se compara ao de anos anteriores
O Departamento de Conservação da Vida Selvagem registrou um recorde de 488 mortes de elefantes em 2023. Relatos baseados em seus registros apontam médias anuais de cerca de 370 a 402 mortes de elefantes desde 2019, com análises detalhadas usando os números de 402 mortes de elefantes e 138 de pessoas por ano.
Uma análise dos registros do departamento contabilizou 245 mortes de elefantes até julho de 2025, embora o início do mesmo relato mencione 238. Os totais comparáveis de janeiro a julho foram 257 em 2022 e 260 em 2023. Considerando 245, o número de 2025 foi 15 abaixo do total equivalente de 2023, cerca de 6% menor.
As 289 mortes registradas até 23 de outubro de 2026 abrangem um período diferente. Para comparar de forma útil as mudanças na taxa de mortalidade, é preciso usar as mesmas datas em cada ano, sobretudo porque a seca e outras pressões sazonais influenciam os encontros.
A preocupação pública em 2025 levou o ministro do Meio Ambiente, Dammika Patabendi, a solicitar uma investigação do Departamento de Investigação Criminal sobre possíveis mortes organizadas. O pesquisador de elefantes e ativista Sameera Weerathunga atribuiu muitos ferimentos abaixo do joelho a armas de caça em forma de armadilha instaladas para animais menores, como javalis e cervos. Essa explicação relaciona as buscas por dispositivos de caça ilegais às iniciativas para reduzir os ferimentos em elefantes.
Responsabilização significa vidas mais seguras para todos
O debate após a morte de Kawanthissa inclui pedidos de investigação sobre seu tratamento e proteção, identificação de falhas no cumprimento dos deveres oficiais e divulgação do andamento do plano de ação de 2020. Entre as medidas propostas estão indenizações justas, prevenção mais eficaz dos danos às plantações e fontes alternativas de renda para famílias rurais afetadas.
Pedidos por programas de conservação nos distritos levariam agentes da vida selvagem, autoridades locais, organizações de agricultores, pesquisadores e moradores a participar das decisões. Os moradores contribuem com seu conhecimento sobre rotas de elefantes, cercas danificadas e pontos de perigo recorrentes, enquanto os funcionários públicos oferecem poderes legais, atendimento veterinário e conhecimento científico.
Os resultados práticos são concretos: menos mortes de pessoas e elefantes, menos danos às plantações, habitats protegidos e atendimento mais rápido a animais feridos. Esses resultados conectam as buscas por armas de fogo e as patrulhas militares à tarefa de longo prazo de tornar mais seguras as paisagens compartilhadas.
Principais pontos
- O Sri Lanka registrou 289 mortes de elefantes selvagens entre 1º de janeiro e 23 de outubro de 2026; 95 não tiveram causa identificada.
- Tiros mataram 42 elefantes, enquanto a eletrocussão e as iscas explosivas mataram 34 cada.
- A Região Leste, Anuradhapura e Polonnaruwa somaram 159 mortes, cerca de 55% do total.
- Kawanthissa morreu em 30 de outubro, depois do limite da contagem estatística, o que provocou protestos e pedidos de investigação independente.
- Segundo o Ministério da Defesa, a operação Hasthi Sena tem como alvo inicial 17 elefantes em risco, com o apoio de 60 integrantes do Exército.
- Cerca de 70% dos 7.451 elefantes selvagens estimados no país vivem fora de áreas protegidas, o que torna a segurança das comunidades e a gestão do habitat centrais para sua proteção.






