Juízes pedem investigação sobre a própria corte
Juízes da Suprema Corte do Nepal pediram uma investigação interna sobre os contatos entre o suposto intermediário Inam Sapkota e integrantes de alto escalão do Judiciário, depois que revelações sobre mensagens no WhatsApp, uma reunião em um hotel e supostas transações financeiras colocaram sob escrutínio o presidente da Suprema Corte, Manoj Kumar Sharma, e o juiz Hari Prasad Phuyal.
Conteúdo
- Juízes pedem investigação sobre a própria corte
- O que aconteceu na reunião do plenário?
- As mensagens sobre a detenção de Rohit Gupta
- Phuyal diz que alertou as autoridades
- Da detenção no aeroporto a um segundo processo judicial
- Acusações financeiras e negativa de Sharma
- Advogados exigem uma investigação confiável
- Como o Parlamento poderia agir?
- Pressão política se soma a tensões já existentes na corte
- Principais pontos
Em uma reunião extraordinária do plenário na sexta-feira, os juízes propuseram a formação de uma comissão no âmbito do Judiciário para analisar as acusações. Sharma e Phuyal apresentaram suas versões, e os juízes concordaram em se reunir novamente na segunda-feira para continuar a discussão. O encontro terminou com a proposta de uma investigação, e não com o anúncio de uma decisão que criasse uma comissão.
A controvérsia gira em torno de saber se Sapkota usou alegações de que tinha acesso ao primeiro-ministro Balendra Shah e a outras figuras poderosas para tentar influenciar instituições públicas. Uma conversa divulgada no WhatsApp dizia respeito à detenção do empresário Rohit Gupta: Sapkota teria pedido a Phuyal que rejeitasse uma petição para soltar Gupta, enquanto Phuyal afirmou posteriormente que a corte havia concedido liberdade sob fiança de 20 milhões de rúpias.
Phuyal reconheceu que se comunicou com Sapkota e se reuniu com ele, mas negou conduta imprópria ou negociações financeiras. Sharma negou conhecer Sapkota, ter tido contato direto ou indireto com ele ou estar envolvido nas transações alegadas.
Os juízes se reuniram antes do sorteio para distribuir os casos entre os colegiados, grupos de juízes que ouvem e decidem processos. Depois da discussão, realizaram o sorteio e deram início às audiências regulares. Assim, a resposta institucional imediata combinou a exigência de apuração com a continuidade das atividades diárias da corte.
A discussão de segunda-feira é o próximo passo previsto, enquanto juízes, advogados e líderes políticos cobram respostas sobre o acesso de Sapkota a pessoas que ocupam cargos públicos.
O que aconteceu na reunião do plenário?
Phuyal explicou suas relações com Sapkota no início da reunião. Disse que Sapkota abordava juízes usando o nome do primeiro-ministro e sustentou que nem ele nem os demais juízes haviam tomado decisões conforme a vontade de Sapkota.
Phuyal também disse que os juízes haviam informado a secretaria do primeiro-ministro sobre Sapkota, contribuindo para criar as condições para sua prisão. Como tanto seu nome quanto o do presidente da Suprema Corte foram associados publicamente à controvérsia, ele defendeu uma investigação imparcial conduzida pela própria corte.
Os juízes Nityananda Pandey, Meghraj Pokharel, Mahesh Sharma Paudel, Shrikanta Paudel e Sharanga Subedi estiveram entre os que falaram. Os participantes argumentaram que o Judiciário precisava examinar as acusações, além de qualquer medida que o Parlamento pudesse tomar.
O relato inicial informou que todos os juízes, exceto a juíza mais antiga, Sapana Pradhan Malla, estavam presentes; relatos posteriores também apontaram que o juiz Abdul Aziz Musalman estava ausente em licença. Malla estava no exterior. A reunião proposta para segunda-feira permitiria uma discussão mais ampla com a presença de todos os juízes.
As mensagens sobre a detenção de Rohit Gupta
A conversa divulgada no WhatsApp começou quando Sapkota enviou a Phuyal uma captura de tela relacionada a uma petição de habeas corpus envolvendo Gupta, ex-diretor da Himalayan Reinsurance. A petição contestava uma detenção determinada por uma ordem da Corte Especial.
Uma petição de habeas corpus pede que a corte examine se alguém está sendo mantido preso legalmente. Ela permite que uma pessoa detida, ou alguém que atue em seu nome, solicite uma revisão judicial da prisão.
Sapkota, o suposto intermediário investigado, teria invocado o nome do primeiro-ministro ao pedir que Phuyal rejeitasse a petição:
Por favor, impeça isso, senhor. O primeiro-ministro também está interessado neste assunto. Por favor, rejeite o pedido.
Mais tarde, Phuyal informou a Sapkota que um colegiado do qual fazia parte não havia encontrado motivos suficientes para manter Gupta detido e havia concedido liberdade sob fiança de 20 milhões de rúpias. Ele teria compartilhado um link para a decisão e proposto um encontro no Hotel Himalaya, em Pulchowk, na noite seguinte.
A fiança permite a soltura sob determinadas condições enquanto o processo judicial continua. Phuyal afirma que a decisão se baseou nos méritos do caso de Gupta, e não no pedido de Sapkota.
Phuyal diz que alertou as autoridades
Phuyal reconheceu tanto as mensagens quanto uma reunião no Hotel Himalaya, a cerca de dois quilômetros da Suprema Corte. Ele disse que Sapkota inicialmente se apresentou como alguém que transmitia as preocupações do primeiro-ministro, em meio a rumores de que alguns juízes poderiam sofrer um processo de impeachment após a nomeação de Sharma.
Segundo Phuyal, ele conheceu Sapkota por meio de um alto funcionário que era parente dele. Mais tarde, Sapkota começou a falar sobre processos pendentes, incluindo a disputa pela liderança do Congresso Nepalês e casos envolvendo o empresário Deepak Bhatta.
Phuyal disse que ele e outros juízes começaram a desconfiar, conversaram sobre a conduta de Sapkota e repassaram informações e comunicações à secretaria do primeiro-ministro. Também afirmou que as preocupações foram relatadas ao chefe da polícia e ao chefe do Exército.
A investigação proposta precisaria reconstituir esses contatos, incluindo as datas dos encontros, das mensagens e dos alertas às autoridades. Essa sequência é importante porque a explicação de Phuyal se baseia na alegação de que os juízes identificaram uma possível tentativa de influência e alertaram as autoridades.
Da detenção no aeroporto a um segundo processo judicial
Sapkota, de 30 anos, passou a ser investigado pela polícia depois que investigadores que examinavam o telefone do ex-presidente da Suprema Corte Cholendra Shumsher Rana teriam encontrado ligações frequentes entre os dois. A polícia deteve Sapkota no Aeroporto Internacional de Tribhuvan em 27 de setembro, quando ele se preparava para viajar à Índia.
Em seguida, os investigadores examinaram seus dispositivos eletrônicos. Eles suspeitam que ele atuava como intermediário para pessoas que buscavam decisões judiciais favoráveis e para funcionários que tentavam obter promoções. Também investigam possíveis vínculos com lavagem de dinheiro.
Os principais acontecimentos descritos nos relatos seguem esta sequência:
- Maio: Sharma assumiu a presidência da Suprema Corte depois que o Conselho Constitucional preteriu três juízes mais antigos, entre eles Phuyal.
- 27 de setembro: A polícia deteve Sapkota no Aeroporto Internacional de Tribhuvan.
- 9 de outubro: Um colegiado formado por Phuyal e pelo juiz Sunil Pokharel rejeitou uma petição apresentada pela esposa de Sapkota para contestar a detenção.
- Quinta-feira: Detalhes das conversas no WhatsApp vieram a público.
- Sexta-feira: Juízes da Suprema Corte discutiram a controvérsia em uma reunião extraordinária do plenário.
- Segunda-feira: Os juízes concordaram em se reunir novamente para continuar a discussão.
Kabita Pandey, esposa de Sapkota, apresentou a petição de habeas corpus em 9 de outubro. A participação de Phuyal nessa decisão passou a ser outro foco de escrutínio por causa das comunicações anteriores que ele reconheceu ter mantido com Sapkota.
Acusações financeiras e negativa de Sharma
Documentos supostamente recuperados do telefone de Sapkota e divulgados publicamente mencionam transações financeiras atribuídas a Sharma, ao deputado do Partido Rastriya Swatantra Bishwaraj Pokharel e ao alto oficial da Força Policial Armada Banshiraj Dahal.
Os registros mencionam depósitos que totalizam 198.333, sem especificar a moeda, ao longo de três meses, além de um pedido de mais US$ 7.500. São mencionadas contas no Nepal e nos Estados Unidos, e os pagamentos teriam sido direcionados a contas de parentes de Sapkota. Não é possível somar os valores de forma significativa sem saber a moeda do primeiro montante.
Sharma negou conhecer Sapkota, ter tido contato direto ou indireto com ele ou participar das transações alegadas. A titularidade, a finalidade e os destinatários dos pagamentos ainda precisam ser investigados.
Dahal já foi demitido após uma investigação sobre suas comunicações com Sapkota e uma visita tarde da noite a Rana, depois que o ex-presidente da Suprema Corte foi levado sob custódia policial.
As conclusões preliminares da polícia teriam ampliado a rede de contatos para incluir secretários particulares de três ex-primeiros-ministros, ex-altos oficiais da polícia e outros funcionários públicos. Também foram relatadas comunicações envolvendo o inspetor-geral da polícia, Dan Bahadur Karki. Os investigadores apuram como Sapkota usava essas relações.
Advogados exigem uma investigação confiável
A Associação de Advogados do Nepal, organização nacional que representa os advogados, pediu uma investigação com garantias tanto de prestação de contas pública quanto de respeito às pessoas acusadas. Em seu comunicado, estabeleceu o padrão que deseja ver aplicado:
Assuntos sensíveis dessa natureza devem ser investigados por meio de um processo baseado em provas, imparcial, confiável e transparente.
A associação pediu medidas legais quando houver comprovação de irregularidades, independentemente do cargo ocupado pela pessoa. Também afirmou que as conclusões devem proteger a reputação de indivíduos e instituições quando as acusações não forem comprovadas e que todos devem ter a oportunidade de apresentar sua versão.
O ex-juiz da Suprema Corte Balaram KC defendeu que o Parlamento ou a própria corte conduza a investigação. Ele propôs uma comissão que poderia incluir juízes em exercício, representantes da associação de advogados, ex-juízes e integrantes da sociedade civil, com autoridade para examinar acusações envolvendo o próprio presidente da Suprema Corte.
KC também criticou as reuniões de juízes com aparentes intermediários e suas respostas públicas às revelações. Sua proposta incluiria pessoas de fora do Judiciário em exercício, enquanto os juízes que participaram da reunião de sexta-feira discutiram principalmente uma comissão interna à corte.
Como o Parlamento poderia agir?
O artigo 101 da Constituição do Nepal prevê o processo de impeachment para destituir um juiz da Suprema Corte. Esse processo é diferente das apurações preliminares e investigações do Conselho Judicial sobre queixas contra juízes de tribunais distritais e tribunais superiores.
Nos termos do artigo 101(2), pelo menos um quarto dos integrantes em exercício da Câmara dos Representantes pode apresentar uma moção de impeachment. Os motivos incluem violações graves da Constituição ou da lei, má conduta, incapacidade ou descumprimento honesto dos deveres oficiais.
Uma Comissão de Recomendação de Impeachment, composta por 11 integrantes da Câmara, examina os fundamentos e pode recomendar o impeachment após investigação. A aprovação da moção exige o apoio de pelo menos dois terços de todos os integrantes em exercício da Câmara. Portanto, o número mínimo de assinaturas dá início ao processo; o quórum mais alto para votação determina a destituição.
O artigo 101(8) permite medidas legais por crimes cometidos no exercício do cargo mesmo depois da destituição por impeachment. Uma investigação interna da corte teria outra função: examinar a conduta e produzir conclusões, enquanto cabe ao Parlamento o poder constitucional de destituir um juiz da Suprema Corte por meio de impeachment.
Pressão política se soma a tensões já existentes na corte
O primeiro-ministro Shah e o presidente do Partido Rastriya Swatantra, Rabi Lamichhane, discutiram a controvérsia em uma reunião de quase quatro horas na residência de Lamichhane, em Budhanilkantha, na quarta-feira. Relatos atribuídos a pessoas familiarizadas com as conversas descreveram divergências sobre a rapidez das medidas: Shah teria defendido uma resposta imediata, enquanto Lamichhane queria provas suficientes antes de iniciar procedimentos contra indivíduos.
O porta-voz do partido, Jagdish Kharel, declarou publicamente que o primeiro-ministro e o presidente do partido continuavam conversando e que o partido apoiava as reformas necessárias. Sudip Dhakal, assessor do primeiro-ministro para políticas, administração e boa governança, disse que o governo agiria com base nos poderes previstos pela Constituição e pelas leis em vigor.
Dhakal também mencionou a agenda do governo, que inclui 100 medidas de reforma da governança. O advogado e deputado do Partido Rastriya Swatantra Yagyamani Neupane pediu uma investigação imparcial sobre o Judiciário e outras instituições, com decisões baseadas em provas.
A controvérsia atingiu uma corte já dividida por disputas sobre nomeações e administração. A nomeação de Sharma em maio preteriu três juízes mais antigos sem que fossem apresentados critérios claros de seleção. Divergências sobre nomeações judiciais, o Tribunal Constitucional, transferências e promoções também haviam desgastado as relações.
A retirada de Rana de sua residência pela polícia em setembro provocou outra disputa. Inicialmente, a polícia descreveu a ação como uma prisão e, depois, disse que ele havia sido levado para sua própria segurança. Em um comunicado posterior, o plenário condenou uma ação arbitrária do Executivo e prometeu impedir influências externas e internas nos processos judiciais.
A reunião de segunda-feira reunirá essas tensões institucionais a acusações específicas sobre mensagens, encontros e dinheiro. Os juízes voltarão à questão prática levantada na sexta-feira: como estabelecer uma investigação capaz de examinar a conduta da própria cúpula da corte.
Principais pontos
- Juízes da Suprema Corte propuseram uma investigação interna sobre contatos envolvendo Inam Sapkota e concordaram em se reunir novamente na segunda-feira.
- O juiz Hari Prasad Phuyal reconheceu as mensagens e os encontros com Sapkota, negou conduta imprópria e disse que os juízes alertaram as autoridades.
- As mensagens divulgadas diziam respeito à detenção de Rohit Gupta; Phuyal afirmou que a corte concedeu liberdade sob fiança de 20 milhões de rúpias com base nos méritos do caso.
- O presidente da Suprema Corte, Manoj Kumar Sharma, negou conhecer Sapkota ou estar envolvido nas transações financeiras alegadas.
- Phuyal e o juiz Sunil Pokharel rejeitaram, em 9 de outubro, o pedido da esposa de Sapkota para contestar a detenção.
- A Associação de Advogados do Nepal quer uma investigação imparcial e transparente, enquanto o artigo 101 estabelece o processo de impeachment pelo Parlamento.






