Um pedido de desculpas a um personagem que o Cazaquistão nunca reconheceu
Sacha Baron Cohen pediu desculpas publicamente ao povo do Cazaquistão por Borat, o jornalista fictício cujo primeiro filme, em 2006, associou o nome do país a um universo inventado de costumes ofensivos e comportamentos absurdos. Em conversa com o jornalista americano Josh Horowitz no podcast Happy Sad Confused, o ator britânico disse que o personagem não tinha nada a ver com o país real.
Conteúdo
- Um pedido de desculpas a um personagem que o Cazaquistão nunca reconheceu
- Como o personagem ganhou uma nacionalidade
- O sotaque e a aparência eram invenções
- Quem deveria ser alvo da piada?
- Das ameaças diplomáticas à controvérsia nos cinemas
- Por que uma campanha de turismo adotou Very Nice
- A sequência provocou protestos e recebeu prêmios
- Borat volta enquanto Cohen pede desculpas
- Principais pontos
O pedido de desculpas ocorre enquanto Borat volta a aparecer na divulgação do novo projeto de Cohen com Ali G, Ali G: Who Iz I? Também vem após duas décadas de reações muito distintas: reclamações diplomáticas, protestos contra os filmes, uma campanha de turismo que adotou o bordão de Borat e objeções persistentes de pessoas que consideram o personagem ofensivo.
Cohen apresentou suas declarações como seu primeiro pedido de desculpas ao Cazaquistão. Em comentários reproduzidos em russo, ele disse:
Quero pedir desculpas ao povo do Cazaquistão pela primeira vez, porque Borat não tem nada a ver com o Cazaquistão.
Cohen também expressou respeito pelo povo e pela cultura do país e disse que não queria magoar ninguém. A data em que o podcast foi gravado não foi informada.
Sua explicação retoma a principal controvérsia em torno de Borat: Cohen diz que a piada é sobre pessoas dispostas a acreditar em histórias absurdas a respeito de um país que não conhecem. Os críticos contestam que o insulto recai sobre o Cazaquistão e seu povo, mesmo quando o alvo pretendido é um entrevistado americano ou o preconceito ocidental.
Como o personagem ganhou uma nacionalidade
A identidade de Borat se desenvolveu em diferentes versões para a televisão, e não como uma tentativa de retratar o Cazaquistão. Cohen contou que mudou o nome e a nacionalidade do personagem ao passar de uma emissora para outra e negociar projetos.
Antes de Borat Sagdiyev se tornar conhecido pelo público do cinema, Cohen interpretou um personagem moldavo, Alexi Krickler, em FSF, na Granada Talk TV. Uma versão albanesa, Kristo Shki ptari, apareceu no Comedy Nation, da BBC Two, em 1998. The Ali G Show estreou no Channel 4 em 2000 e depois chegou ao público americano pela HBO.
Cohen associou a escolha do Cazaquistão à transferência do projeto para a HBO. Ele queria um país que, acreditava, fosse pouco conhecido pelo público americano, permitindo que o personagem contasse histórias cada vez mais ridículas sem ser contestado de imediato.
Algumas descrições do desenvolvimento do personagem apontam a Albânia como a primeira nacionalidade pretendida. O histórico mais completo na televisão também inclui a versão moldava anterior. A explicação do próprio Cohen se concentra no mesmo aspecto prático: a identidade mudava conforme a emissora, enquanto o recurso cômico permanecia o mesmo, com um entrevistador supostamente estrangeiro fazendo perguntas provocativas.
Para o Cazaquistão, essa decisão de produção teve consequências duradouras. Uma nacionalidade escolhida por ser pouco conhecida ficou associada a um personagem reconhecido no mundo todo, deixando pessoas reais tendo de responder por uma figura fictícia que não ajudaram a criar.
O sotaque e a aparência eram invenções
Cohen reconheceu que não sabe como as pessoas no Cazaquistão realmente falam. Ele descreveu como limitado seu conhecimento dos sotaques da Ásia Central, embora continue usando a voz conhecida de Borat.
O ator também recordou reclamações da embaixada do Cazaquistão sobre a aparência do personagem, incluindo seu bigode proeminente. Segundo Cohen, diplomatas disseram que as pessoas no Cazaquistão não tinham a aparência de Borat. Hoje, ele reconhece que a reclamação tinha fundamento.
As objeções da embaixada chegaram a ele por volta do lançamento do primeiro filme. Relatos situam o contato após o anúncio ou depois da estreia e mencionam tanto uma reclamação quanto uma carta. Cohen disse que, na época, não levou as críticas a sério.
As supostas cenas no Cazaquistão acrescentaram outra camada à controvérsia. Moradores da Romênia foram apresentados como cazaques, e os participantes locais das filmagens acreditavam estar participando de um documentário. Para os espectadores que não conheciam a região, o nome do país, o sotaque inventado e as imagens apareciam juntos como um retrato único.
A admissão de Cohen sobre a voz explica por que o pedido de desculpas vai além de uma atuação exagerada. O sotaque fazia parte de um personagem criado sem conhecimento do povo cuja identidade nacional ele usava.
Quem deveria ser alvo da piada?
O filme de 2006 acompanha Borat, um jornalista cazaque fictício, em uma viagem pelos Estados Unidos para fazer um documentário. Ele usa o formato de falso documentário, apresentando cenas de comédia encenadas e encontros com pessoas no estilo de uma produção documental.
Cohen diz que o humor depende de seus interlocutores aceitarem afirmações absurdas sobre um lugar que conhecem pouco. A disposição deles para acreditar nele se torna o foco da cena, expondo ignorância ou preconceito por meio de suas reações.
Ele apresentou essencialmente a mesma defesa quando o primeiro filme foi lançado, em 2006: segundo ele, o riso era dirigido às pessoas capazes de acreditar que o Cazaquistão inventado por ele existia. Em suas declarações recentes, ele combina essa explicação de longa data com um pedido pessoal de desculpas às pessoas cujo país forneceu o nome.
Os críticos cazaques destacam a experiência de quem está do outro lado da piada. O público pode se lembrar mais facilmente da suposta nacionalidade de Borat do que das atitudes americanas que a cena busca expor. Um personagem fictício pode se tornar a referência mais conhecida de um país real, sobretudo quando a própria comédia depende de os espectadores saberem muito pouco sobre ele.
Por isso, as reações no Cazaquistão continuam divididas. Algumas pessoas veem uma sátira à ignorância ocidental. Outras consideram que é uma representação humilhante de seu país e de sua cultura. Essas reações ajudam a explicar por que uma campanha oficial de turismo adotou o bordão mais tarde, enquanto ativistas continuaram exigindo um pedido de desculpas.
Das ameaças diplomáticas à controvérsia nos cinemas
O governo do Cazaquistão contestou Cohen antes de o primeiro longa-metragem chegar ao público. Em 2005, o Ministério das Relações Exteriores ameaçou recorrer à Justiça e sugeriu que as aparições do ator na televisão faziam parte de um esforço político para prejudicar a reputação internacional do país.
Antes do lançamento do filme, em 2006, as autoridades pagaram por um suplemento de quatro páginas no The New York Times e no International Herald Tribune. O material apresentava as conquistas do Cazaquistão no século 21 e oferecia uma visão diferente de um país que muitos possíveis espectadores mal conheciam.
O filme original não foi formalmente proibido no Cazaquistão, mas não estreou nos cinemas do país. Uma grande rede de cinemas se recusou a exibi-lo. Na Rússia, o filme não recebeu o certificado de distribuição necessário para estrear nas salas.
Os principais acontecimentos se desenrolaram ao longo de mais de duas décadas:
- 1998: Cohen apareceu como um personagem albanês no Comedy Nation, da BBC Two.
- 2000: The Ali G Show estreou no Channel 4 e, mais tarde, foi exibido nos Estados Unidos pela HBO.
- 2005: O Ministério das Relações Exteriores do Cazaquistão ameaçou recorrer à Justiça por causa da representação de Cohen.
- 2006: O primeiro filme de Borat foi lançado internacionalmente.
- 2017: Turistas tchecos foram multados em Astana depois de aparecerem fantasiados de Borat.
- 2020: A sequência provocou protestos, enquanto a organização de turismo do Cazaquistão adotou a frase "Very Nice!"
- 2026: O pedido de desculpas de Cohen e a aparição de Borat na divulgação de seu novo projeto com Ali G reacenderam a discussão.
Por que uma campanha de turismo adotou Very Nice
Em 2020, a organização de turismo do Cazaquistão adotou outra abordagem e usou o bordão característico de Borat, "Very Nice!", em uma campanha oficial de promoção do país. A entidade responsável pela promoção do turismo decidiu aproveitar o reconhecimento do personagem, em vez de simplesmente rejeitá-lo.
O momento era importante. A sequência de Borat atraía atenção internacional e voltava a colocar o nome do país na cobertura de entretenimento. O slogan ofereceu aos responsáveis pela promoção turística uma frase conhecida que podiam associar ao Cazaquistão nos próprios termos.
Um episódio menor já havia mostrado uma resposta menos confrontadora. Em 2017, turistas tchecos em Astana receberam multas de baixo valor depois de circular vestidos como Borat. Cohen se ofereceu para pagar as multas.
A campanha de turismo e as multas mostram como as reações mudaram desde as ameaças legais de 2005. Também partiram de pessoas e instituições diferentes. Uma entidade de turismo em busca de visitantes, autoridades reagindo ao comportamento em público e cidadãos preocupados com a imagem nacional tinham decisões distintas a tomar.
Ao adotar o bordão, uma entidade de promoção conseguiu redirecionar a atenção para o país. Para quem considerava o próprio personagem degradante, esse uso comercial não mudou nada em suas objeções.
A sequência provocou protestos e recebeu prêmios
O segundo longa-metragem de Borat chegou em 2020 e renovou a oposição de ativistas cazaques e integrantes da diáspora nos Estados Unidos. Manifestantes em frente ao consulado-geral dos Estados Unidos em Almaty exigiram que a sequência fosse proibida.
A Associação Cazaque-Americana pediu à Amazon que cancelasse o lançamento, argumentando que o filme incentivava o racismo e a xenofobia. Xenofobia é a hostilidade contra pessoas percebidas como estrangeiras. Em novembro de 2020, a associação também pediu que a sequência fosse excluída da disputa pelo Oscar, pelo Globo de Ouro e por outros prêmios.
A sequência, apesar disso, recebeu um Globo de Ouro. O sucesso nos círculos do entretenimento e as objeções dos ativistas cazaques ocorreram ao mesmo tempo, revelando a distância entre o reconhecimento da comédia e a experiência das pessoas que se sentiram alvo de suas imagens.
A sensibilidade do público persistiu depois do lançamento da sequência. Em julho de 2026, a marca cazaque de moda masculina Shoqansuits enfrentou pedidos de boicote após publicar um anúncio com Borat. A reação mostrou que usar o personagem em uma campanha comercial local ainda podia provocar oposição, seis anos depois do slogan de turismo.
O pedido de desculpas agora atende a uma reivindicação que ativistas já haviam feito durante protestos anteriores. A declaração de respeito de Cohen pela cultura cazaque responde diretamente a essa queixa, enquanto sua explicação sobre a comédia continua essencialmente a mesma de 2006.
Borat volta enquanto Cohen pede desculpas
Cohen falou sobre o personagem enquanto divulgava Ali G: Who Iz I?, um projeto centrado em outra de suas identidades cômicas já conhecidas. Borat aparece no segundo trailer, falando em nome de instituições cazaques inventadas e pedindo um boicote ao trabalho de Cohen.
A aparição promocional transforma o histórico de objeções oficiais em mais uma piada. Também significa que o pedido de desculpas vem acompanhado do uso contínuo da mesma nacionalidade fictícia, em vez da aposentadoria do personagem.
Durante a participação no podcast, Cohen misturou o pedido de desculpas a piadas dirigidas aos cazaques presentes na plateia, brincando sobre qualquer pessoa que pudesse ter chegado em uma missão especial. Em seguida, disse que não tinha a intenção de causar dano e que respeitava o povo e a cultura do país.
A mudança, portanto, é específica: Cohen fez um pedido de desculpas explícito e reconheceu a distância entre Borat e o Cazaquistão. O país continua sendo o lar fictício do personagem, enquanto seus cidadãos seguem divididos sobre se a fama dele é útil, ofensiva ou as duas coisas.
Principais pontos
- Sacha Baron Cohen pediu desculpas ao Cazaquistão no Happy Sad Confused, dizendo que Borat não tem nada a ver com o país real.
- Ele disse que a nacionalidade do personagem mudou entre projetos de televisão e que escolheu o Cazaquistão por acreditar que o público sabia pouco sobre o país.
- O Cazaquistão contestou a representação antes do lançamento do primeiro filme, em 2006; o longa não chegou aos cinemas do país.
- A organização de turismo do Cazaquistão usou "Very Nice!" em 2020, enquanto ativistas e grupos da diáspora se opuseram à sequência.
- Borat voltou na divulgação de Ali G: Who Iz I?, mantendo o personagem em circulação enquanto Cohen reconhece as críticas.






