Sete dos nove especialistas dizem que querem sair
Sete dos nove especialistas em medicina de emergência pediátrica do Hospital Universitário Ajou, em Suwon, na Coreia do Sul, informaram ao hospital que pretendem pedir demissão após uma busca policial contestada relacionada à morte de um bebê. O hospital confirmou as intenções em 28 de outubro, mas informou que nenhum deles havia apresentado uma carta formal de demissão ou deixado o cargo.
Conteúdo
- Sete dos nove especialistas dizem que querem sair
- A morte do bebê e a queixa da família
- Como a disputa se desenrolou
- Polícia defende busca limitada
- Médicos contestam a versão da polícia
- Conversa no fim da noite revela angústia dos médicos
- Pedido de desculpas se torna exigência central
- Por que o risco de falta de profissionais vai além de Suwon
- Parlamentares pedem investigação e regras práticas
- Principais pontos
As saídas anunciadas deixariam o centro com apenas dois especialistas, em vez de nove, uma redução de quase 78%. O hospital afirmou que o serviço de emergência pediátrica continuava funcionando normalmente, sem interrupções no atendimento.
A Agência Provincial de Polícia de Gyeonggi Nambu realizou buscas no centro em 30 de setembro, no âmbito de uma investigação sobre uma queixa da família do bebê, que alega negligência médica. Médicos e sua associação profissional dizem que os policiais interromperam o atendimento de emergência. A polícia afirma que a busca foi realizada após conversas prévias com o hospital e se limitou a salas clínicas vazias.
A disputa se intensificou durante a auditoria da Comissão de Saúde e Bem-Estar da Assembleia Nacional, em 27 de outubro, quando parlamentares dos dois principais partidos exigiram um pedido de desculpas do alto oficial responsável pela investigação. Naquela noite, um parlamentar informou à comissão que sete especialistas haviam decidido que queriam sair.
Para as famílias, a preocupação imediata é o acesso ao atendimento. Ajou é um dos apenas 14 centros especializados em emergência pediátrica do país. Atende crianças de Suwon e das áreas vizinhas, além de pacientes gravemente doentes vindos de províncias sem um centro desse tipo.
A morte do bebê e a queixa da família
A investigação começou após a morte de um bebê no Hospital Universitário Ajou, em 15 de julho. Segundo o relato da visita ao hospital, a criança, identificada como cidadã uzbeque, havia ido a uma consulta pediátrica ambulatorial e apresentou dificuldades para respirar e cianose enquanto aguardava.
Cianose é uma coloração azulada da pele que pode ocorrer quando o sangue transporta pouco oxigênio. A equipe levou o bebê ao centro de emergência pediátrica e realizou reanimação cardiopulmonar, ou RCP, por cerca de uma hora. Relatos apresentados durante os trabalhos parlamentares descreveram a criança como estando em parada cardíaca ao chegar ao centro de emergência e recebendo RCP por mais de uma hora.
A RCP utiliza compressões torácicas e outras medidas de emergência para tentar manter o fluxo de sangue e oxigênio quando o coração para. Apesar dos esforços de reanimação, o bebê morreu. Posteriormente, a família apresentou uma queixa à polícia, alegando negligência médica.
A investigação sobre negligência médica e a controvérsia em torno da forma como a polícia realizou a busca agora se desenrolam em paralelo. A família busca respostas sobre o atendimento da criança, enquanto a equipe de emergência exige mudanças na forma como os investigadores atuam em um departamento que atende outros pacientes.
Como a disputa se desenrolou
Passaram-se mais de três meses entre a morte do bebê e a divulgação pública de que sete médicos queriam pedir demissão. Os principais acontecimentos foram:
- 15 de julho: O bebê morreu após receber atendimento de emergência no Hospital Universitário Ajou. Mais tarde, a família alegou negligência médica e apresentou uma queixa.
- 30 de setembro: A polícia de Gyeonggi Nambu realizou buscas no centro de emergência pediátrica e em outras dependências do hospital.
- 7 de outubro: A ministra da Saúde e do Bem-Estar, Jeong Eun-kyeong, informou aos parlamentares que estavam em andamento conversas com a polícia sobre diretrizes para investigações e buscas que levassem em conta as preocupações da área médica.
- 27 de outubro: Parlamentares questionaram o chefe da investigação policial durante uma auditoria parlamentar. No fim daquela noite, a deputada Han Zee-a revelou a intenção dos especialistas de pedir demissão.
- 28 de outubro: O hospital confirmou que sete especialistas haviam manifestado vontade de sair. A Sociedade Coreana de Medicina de Emergência Pediátrica exigiu um pedido de desculpas e diretrizes até novembro.
A busca de setembro já havia provocado objeções de profissionais de saúde antes da audiência de 27 de outubro. O confronto parlamentar ampliou o debate sobre as objeções, os procedimentos policiais e a continuidade das operações do centro.
Polícia defende busca limitada
Ham Young-wook, chefe da divisão de investigação metropolitana da Agência Provincial de Polícia de Gyeonggi Nambu, disse aos parlamentares que os investigadores consultaram representantes do hospital antes de executar o mandado de busca. Segundo ele, foi informado de que as salas de exames e tratamento estavam vazias quando os policiais realizaram a busca necessária.
Ham também afirmou que os investigadores esperaram quatro horas, até que os pacientes terminassem de receber atendimento. A polícia sustentou que um representante do hospital estava presente e que os agentes limitaram a busca ao mínimo necessário.
A investigação envolveu prontuários médicos eletrônicos, frequentemente chamados de EMR, sigla em inglês. São registros digitais de consultas, tratamentos, prescrições e outras informações clínicas. Ham disse que os investigadores consideraram necessários os procedimentos de perícia porque os registros poderiam ser alterados após o atendimento e porque a polícia precisava preservar provas adequadas para processos judiciais.
A perícia digital consiste em preservar e examinar informações eletrônicas, inclusive dados que possam indicar quando um registro foi criado ou alterado. Questionado sobre a existência de indícios específicos de que Ajou tivesse alterado registros ou tentado destruir material, Ham se recusou a dar detalhes porque a investigação continuava.
Ham reconheceu que a polícia não havia consultado profissionais de saúde antes da busca. Também afirmou que aquela era sua primeira busca em um departamento de emergência pediátrica em 32 anos de carreira policial.
Médicos contestam a versão da polícia
A Sociedade Coreana de Medicina de Emergência Pediátrica afirmou que a polícia foi ao centro de emergência três vezes em 30 de setembro e que o atendimento e a prescrição de medicamentos continuavam durante essas visitas. O relato contestou diretamente a descrição policial de uma busca realizada sem interferência no atendimento.
A deputada Han Zee-a, do Partido do Poder Popular, disse à comissão que, segundo a explicação do hospital, os policiais mandaram um médico que atendia um paciente se afastar. Ela também afirmou que nenhum integrante da equipe jurídica do hospital acompanhou os agentes. A polícia declarou que um representante do hospital estava presente.
Han disse que pediu imagens das câmeras de segurança para esclarecer o que aconteceu, mas acreditava que o hospital temia entrar em conflito com a agência policial responsável pela região. A divergência também envolve o momento em que os policiais se deslocaram, quem os acompanhou e quais procedimentos estavam sendo realizados nas proximidades.
Han também informou aos parlamentares que a polícia havia solicitado os nomes de todos os profissionais de saúde que trabalharam em 15 de julho. Ela relatou a preocupação da equipe de que a própria exigência dificultasse a continuidade do atendimento aos pacientes.
A polícia também foi criticada por realizar a busca sem antes solicitar ao hospital materiais relacionados à morte. A justificativa de Ham se concentrou na preservação de provas eletrônicas, enquanto representantes da área médica argumentaram que a abordagem deu pouca importância às exigências do atendimento de emergência.
Conversa no fim da noite revela angústia dos médicos
Han disse que conversou com a diretora do centro, Lee Ji-sook, por volta das 22h30 de 27 de outubro e soube que sete professores haviam decidido pedir demissão após assistir à auditoria. Segundo relatos, o grupo incluía a diretora.
Han, integrante da Comissão de Saúde e Bem-Estar da Assembleia Nacional, descreveu sua tentativa de convencer os médicos a ficar:
Implorei para que não se demitissem, mas a chefe do centro me disse: 'Minhas mãos estão tremendo tanto que já não consigo atender pacientes em nenhum lugar sob a jurisdição da Agência Provincial de Polícia de Gyeonggi Nambu.'
Na declaração de 28 de outubro, o hospital deixou clara a situação funcional: sete especialistas haviam manifestado a intenção de sair, mas nenhum havia apresentado formalmente uma demissão ou deixado o cargo desde a busca. Já a associação médica afirmou que outras cartas de demissão estavam sendo apresentadas após a auditoria.
O hospital continuou afirmando que o centro funcionava normalmente. O problema imediato era manter a equipe atual antes que as manifestações de intenção se transformassem em saídas efetivas.
Pedido de desculpas se torna exigência central
Ham manifestou pesar pelo sofrimento da equipe médica e pelos transtornos causados aos pacientes, mas manteve que o procedimento de busca foi adequado. Ele não apresentou o pedido explícito de desculpas exigido por parlamentares dos dois principais partidos.
Han argumentou que um pedido de desculpas poderia ter evitado a crise de demissões. Outros parlamentares também pressionaram Ham por uma resposta mais clara, entre eles Lee Man-hee, presidente da Comissão de Saúde e Bem-Estar.
Em 28 de outubro, a Sociedade Coreana de Medicina de Emergência Pediátrica publicou uma declaração criticando a resposta de Ham como um insulto à equipe. Exigiu um pedido imediato de desculpas da polícia pelo que alegou terem sido interferência no atendimento e falso testemunho.
A associação alertou que outras saídas poderiam ocorrer se suas exigências não fossem atendidas. Pediu regras para a atuação da polícia em departamentos de emergência, inclusive em visitas após chamadas para o número de emergência 112, e solicitou que as regras fossem concluídas e publicadas até novembro.
A associação também queria que um relatório formal fosse apresentado à Comissão de Saúde e Bem-Estar da Assembleia Nacional. Suas exigências relacionaram o tratamento dado às equipes durante as investigações à capacidade dos hospitais de manter os serviços de emergência em funcionamento.
Por que o risco de falta de profissionais vai além de Suwon
Os nove especialistas de Ajou trabalham em turnos para oferecer atendimento de emergência pediátrica 24 horas por dia, durante todo o ano. A saída de sete deixaria dois médicos em um serviço atualmente organizado para uma equipe muito maior.
Entre os 14 centros especializados em emergência pediátrica da Coreia do Sul, Ajou é descrito como o segundo em volume de pacientes e o primeiro em número de pacientes nas categorias de gravidade 1 e 2, as mais urgentes. Portanto, o problema de pessoal envolve tanto o número de crianças atendidas quanto a gravidade de seus quadros.
Gangwon e Chungcheong do Norte não têm centros especializados em emergência pediátrica, e crianças gravemente doentes dessas províncias também são levadas a Ajou. Qualquer redução na capacidade de atendimento pode afetar famílias muito além do sul da província de Gyeonggi.
Park Su-hyun, diretor de relações públicas da Sociedade Coreana de Medicina de Emergência Pediátrica, alertou que o colapso de um centro regional que já enfrenta dificuldades para continuar funcionando pode indicar problemas mais amplos na rede nacional de emergência pediátrica.
O hospital não anunciou o fechamento do centro nem a redução do horário de funcionamento. O risco concreto apontado por parlamentares e representantes da área médica é que saídas dessa dimensão dificultem a manutenção do serviço atual e obriguem crianças a buscar atendimento de urgência em outros lugares.
Parlamentares pedem investigação e regras práticas
Lim Yi-ja, presidente do comitê de políticas do Partido do Poder Popular, pediu em 28 de outubro uma investigação interna imediata sobre a busca. Ela exigiu apuração sobre possível interferência dos policiais no atendimento ou abuso de autoridade, além da responsabilização por qualquer irregularidade.
A deputada Kim Eun-hye, que preside a seção provincial do partido em Gyeonggi, reuniu-se naquele dia com a Associação Médica de Gyeonggi, em Suwon, para discutir as saídas anunciadas. O deputado do Partido Reformista Lee Joo-young, ex-especialista de um centro de emergência pediátrica, pediu que a polícia explicasse a base legal e as provas que motivaram a investigação e a busca iniciais.
Kim Kyo-heung, deputado do governista Partido Democrático, pediu que a polícia, o Hospital Universitário Ajou e outras instituições coordenassem sua resposta. Kim Yoon, também do Partido Democrático, manifestou preocupação de que as saídas criassem uma lacuna no atendimento regional de emergência pediátrica.
Durante a auditoria, a polícia reconheceu que não tinha diretrizes internas específicas para buscas em departamentos de emergência. Ham concordou em elaborar e publicar orientações que levassem em conta as opiniões da área médica e protegessem a segurança dos pacientes e a continuidade do atendimento.
A ministra da Saúde, Jeong Eun-kyeong, disse que continuavam as conversas de trabalho com a Agência Nacional de Polícia e que o ministério havia transmitido as preocupações da área médica. Ela prometeu novas consultas após a divulgação das intenções de demissão. Lee Man-hee, presidente da comissão, afirmou que apuraria o que aconteceu e consultaria representantes dos dois principais partidos sobre uma resposta da comissão.
O prazo solicitado pela associação médica era novembro. Não foi anunciada uma data final para a publicação das diretrizes, a conclusão da investigação sobre negligência ou a saída dos sete médicos. As prioridades imediatas eram manter a equipe do centro, esclarecer as versões divergentes sobre a busca e definir procedimentos que permitam reunir provas sem interromper o atendimento de emergência.
Principais pontos
- Sete dos nove especialistas em emergência pediátrica do Hospital Universitário Ajou manifestaram a intenção de pedir demissão; o hospital informou que nenhum havia apresentado uma carta formal ou deixado o cargo.
- A polícia realizou buscas no centro em 30 de setembro, após uma queixa da família que alegava negligência relacionada à morte do bebê em 15 de julho.
- A polícia afirmou que a busca foi limitada e coordenada com o hospital. Representantes da área médica disseram que o atendimento foi interrompido.
- Ajou continuava funcionando normalmente, mas a saída de sete especialistas deixaria apenas dois no centro.
- A associação médica exigiu um pedido de desculpas e diretrizes para a atuação em departamentos de emergência até novembro.
- O Ministério da Saúde e a polícia disseram que discutiam diretrizes que levassem em conta as preocupações da área médica.






