Aparição em campanha em Taipé provoca alerta da mídia militar chinesa
Uma ameaça contra o apresentador de televisão Kevin Tsai tornou-se o foco do mais recente alerta de Taiwan sobre a interferência chinesa antes das eleições locais de 28 de novembro de 2026. Em 27 de outubro, um funcionário taiwanês de segurança nacional afirmou que Pequim intensificou a pressão, recorrendo à intimidação psicológica por meio de seu aparato de propaganda militar.
Conteúdo
- Aparição em campanha em Taipé provoca alerta da mídia militar chinesa
- O que aconteceu com Kevin Tsai?
- Os dois adversários em Taipé defendem a liberdade de participar de eventos
- As principais datas até a votação de novembro
- Seis táticas suspeitas vão além das ameaças públicas
- Acusações sobre apostas se tornam mais um ponto de disputa política
- Como a influência on-line chega aos eleitores
- Atividade cibernética representa ameaça de inteligência
- A pressão chega a familiares e críticos
- Responsável pela política de Taiwan em relação à China rejeita interferência
- Principais pontos
O alerta veio após a participação de Tsai, em 4 de outubro, na inauguração do comitê de campanha de Puma Shen, candidato do Partido Progressista Democrático à prefeitura de Taipé. O Jun Zhengping Studio, uma conta de rede social ligada ao Centro de Notícias e Comunicação do Exército de Libertação Popular, atacou a participação e advertiu que figuras públicas associadas à independência de Taiwan sofreriam consequências.
O funcionário de segurança nacional descreveu como incomum a intervenção, em uma eleição local e nas atividades de um artista, de uma instituição responsável pela propaganda militar. A preocupação se concentra no envolvimento dos militares na pressão pública contra pessoas que participam da vida política de Taiwan.
O episódio ocorre em meio a uma avaliação de inteligência mais ampla. O Departamento de Segurança Nacional de Taiwan afirma ter identificado mais de 2,5 milhões de conteúdos contestados ou falsos originados na China nos primeiros nove meses de 2026, ante mais de 1,69 milhão no ano anterior, um aumento de cerca de 48%.
Pequim reivindica Taiwan como parte de seu território, enquanto a ilha se governa e rejeita essa reivindicação. Autoridades chinesas já negaram interferir nas eleições taiwanesas ou disseminar desinformação. Agora, autoridades de Taiwan descrevem uma campanha que combina ameaças públicas, incentivos financeiros, manipulação on-line e tentativas de obter informações de inteligência sobre as eleições.
O que aconteceu com Kevin Tsai?
Tsai, de 64 anos, é amplamente conhecido por ter apresentado o programa taiwanês de entrevistas Kangsi Coming entre 2004 e 2016. Seu trabalho também lhe rendeu público e relações comerciais na China, o que torna as controvérsias políticas no país uma preocupação concreta para sua carreira.
A conta ligada ao ELP afirmou que não havia “espaço para ambiguidades” em relação à independência de Taiwan. Advertiu que pessoas que ganham dinheiro na China enquanto se associam a essa causa “pagarão um preço alto demais para suportar”. O Escritório de Assuntos de Taiwan da China também criticou a presença de Tsai no evento de Shen.
No fim de 25 de outubro, Tsai abordou a controvérsia no Weibo e no Xiaohongshu. Ele explicou que havia comparecido aos eventos para fazer entrevistas e reunir material, e que entrevistar alguém não significava compartilhar as opiniões dessa pessoa.
Tsai, apresentador de televisão e escritor, declarou sua posição diretamente:
Sempre defendi relações amistosas entre os dois lados do estreito de Taiwan. Nunca apoiei a independência de Taiwan.
Ele também pediu desculpas pelos mal-entendidos que causaram problemas a colaboradores e apoiadores. Sua declaração veio após consequências comerciais relatadas depois de sua participação em um evento de campanha em outubro, incluindo a retirada de conteúdo relacionado à sua colaboração com a fabricante chinesa de veículos elétricos Leapmotor.
Tsai participou, em 26 de outubro, da inauguração do comitê de campanha do atual prefeito de Taipé, Chiang Wan-an. A presença dele em eventos dos dois candidatos colocou sua explicação sobre a coleta de material lado a lado com suas efetivas participações em atos de campanha.
Os dois adversários em Taipé defendem a liberdade de participar de eventos
Chiang, prefeito do Kuomintang que busca um novo mandato, recebeu bem a presença prevista de Tsai na inauguração de seu comitê. Em 26 de outubro, afirmou respeitar as opiniões dos cidadãos, apoiem-no ou não, e se opor a ataques, boicotes ou exclusões motivados por diferenças políticas.
Chiang descreveu sua posição sobre a pressão contra pessoas por causa de suas opiniões:
Não vou, de forma alguma, permitir ou aceitar esse tipo de intimidação antidemocrática.
Shen afirmou que os taiwaneses devem ter liberdade para participar dos eventos que escolherem, sem interferência da China. Disse que Tsai já havia explicado que suas visitas tinham o objetivo de entrevistar políticos e conhecer suas propostas.
Shen, candidato do PPD à prefeitura, descreveu essas visitas como uma forma normal de participação política:
Para os taiwaneses, essas atividades são perfeitamente normais, e o fato de a China interferir dessa maneira é profundamente angustiante.
Os dois adversários manifestaram a mesma oposição à intimidação, embora continuem disputando o mesmo cargo. Para artistas, equipes de campanha e eleitores, a questão imediata é se participar de um evento pode expô-los a ameaças ou pressões comerciais através do estreito de Taiwan.
As principais datas até a votação de novembro
A controvérsia se desenrolou ao longo de várias semanas, enquanto as agências de inteligência de Taiwan também informavam parlamentares sobre suspeitas de interferência. As principais datas mostram como uma participação individual em um evento de campanha passou a integrar um alerta de segurança mais amplo:
- 4 de outubro: Kevin Tsai participou da inauguração do comitê de campanha de Puma Shen, em Taipé.
- 22 de outubro: o diretor-geral do Departamento de Segurança Nacional, Tsai Ming-yen, detalhou táticas suspeitas de interferência eleitoral em uma apresentação a uma comissão legislativa.
- 25 de outubro: Kevin Tsai publicou uma declaração negando apoiar a independência de Taiwan.
- 26 de outubro: Chiang e Shen se opuseram publicamente à intimidação, e Tsai participou da inauguração do comitê de campanha de Chiang.
- 27 de outubro: um funcionário de segurança nacional alertou sobre intimidação psicológica envolvendo propaganda militar, enquanto o ministro do Conselho de Assuntos do Continente, Chiu Chui-cheng, condenou a interferência.
- 28 de novembro: está prevista a realização das eleições locais de Taiwan.
O Departamento de Segurança Nacional espera encaminhar às autoridades judiciais provas de possíveis interferências antes da votação. Tsai Ming-yen também disse que voos com desconto, destinados a trazer de volta para votar taiwaneses selecionados que vivem na China, eram esperados para cerca de três semanas antes do dia da eleição.
Seis táticas suspeitas vão além das ameaças públicas
Tsai Ming-yen, chefe do Departamento de Segurança Nacional e pessoa diferente do artista Kevin Tsai, disse a parlamentares que as operações eleitorais de Pequim estavam se tornando mais direcionadas a grupos e públicos específicos.
O departamento identificou seis principais métodos suspeitos: apoio financeiro ilícito a candidatos ou grupos políticos, viagens baratas à China, passagens aéreas com desconto para voltar a Taiwan, desinformação, mercados ilegais de apostas e invasões cibernéticas para obter informações de inteligência sobre as eleições.
Segundo o diretor, Pequim mobilizava companhias aéreas para oferecer passagens mais baratas a taiwaneses selecionados que vivem na China, a fim de que voltassem para votar nos candidatos favorecidos pelo governo chinês. O departamento também suspeita que passeios turísticos baratos à China sejam usados para subornar eleitores.
Direcionar ações a grupos específicos pode tornar uma operação mais precisa. Incentivos para viagens podem alcançar eleitores que vivem no exterior, o apoio financeiro pode beneficiar determinadas organizações políticas, e informações roubadas podem ajudar a identificar pessoas ou atividades de campanha que serão alvo de ações.
As agências de inteligência de Taiwan estão reunindo provas para que procuradores investiguem o caso. Nas apresentações públicas, não foram identificados as companhias aéreas ou os candidatos supostamente envolvidos, nem os valores do alegado financiamento político.
Acusações sobre apostas se tornam mais um ponto de disputa política
O alerta de segurança nacional de 27 de outubro também abordou uma acusação da mídia estatal chinesa segundo a qual o governo do PPD estaria usando mercados clandestinos de apostas para influenciar a eleição. O funcionário rejeitou a acusação, classificando-a como uma distorção dos esforços de Taiwan para combater o jogo ilegal.
As autoridades judiciais taiwanesas há muito atuam contra apostas clandestinas em eleições e jogos ilegais, afirmou o funcionário. A mensagem de Pequim usava o tema para enfraquecer a confiança nas eleições e aprofundar as divisões em Taiwan.
As apostas ilegais também aparecem na própria lista do Departamento de Segurança Nacional de métodos suspeitos de interferência chinesa. Na avaliação do órgão, esses mercados são um possível canal de manipulação. Já na acusação da mídia estatal chinesa, foram apresentados como uma ferramenta do partido governista.
O funcionário de segurança afirmou que o objetivo mais amplo de Pequim era inundar os eleitores com alegações enganosas, reduzir sua capacidade de avaliar os candidatos e estimular escolhas favoráveis à China. Também disse que a combinação de manipulação on-line, mensagens da mídia estatal e pressão abaixo do nível de um conflito aberto preocupa outras democracias.
Como a influência on-line chega aos eleitores
A avaliação do Departamento de Segurança Nacional descreve um sistema de disseminação que se estende pelo Facebook, Threads, YouTube e fóruns on-line. Segundo o órgão, a mídia oficial chinesa pode introduzir narrativas que depois são difundidas por empresas de relações públicas, contas falsas, fazendas de conteúdo e grupos coordenados que publicam um grande número de comentários.
Segundo o departamento, a inteligência artificial ampliou a variedade de materiais que essas operações podem produzir. Vídeos gerados por IA podem imitar pessoas ou acontecimentos reais, enquanto ferramentas automatizadas podem ajudar a coletar informações sobre candidatos, debates políticos e pesquisas eleitorais.
O departamento afirmou que os mais de 2,5 milhões de conteúdos contestados ou falsos identificados entre janeiro e setembro tinham como alvo energia, segurança alimentar, política de defesa e candidatos específicos. Com base nos números informados, o aumento em relação aos mais de 1,69 milhão do ano anterior equivale a cerca de 810 mil conteúdos adicionais.
O Departamento de Assuntos da China do PPD também alertou, separadamente, para pesquisas de opinião falsas, trechos retirados de contexto, escândalos inventados, rumores amorosos e anúncios fabricados de que candidatos estariam desistindo. Segundo o partido, material sensacionalista pode ser disseminado pouco antes da votação, deixando pouco tempo para verificação.
O partido pediu aos investigadores que rastreiem os responsáveis pela organização e pelo financiamento da interferência. O alerta também abrangeu tentativas de provocar retaliações por meio de acusações não verificadas, que, segundo o partido, poderiam agravar as tensões. O Departamento de Segurança Nacional afirma que usa ferramentas de IA para rastrear a origem de conteúdo enganoso.
Atividade cibernética representa ameaça de inteligência
Segundo a apresentação legislativa do Departamento de Segurança Nacional, a Rede de Serviços Governamentais de Taiwan enfrentava cerca de 2,58 milhões de tentativas diárias de invasão cibernética em setembro. O órgão descreveu um forte aumento em relação a junho e afirmou que a atividade poderia incluir preparativos para interferir nas eleições.
Os dados do departamento registraram 185,6 milhões de ameaças detectadas em julho e 106,4 milhões em agosto. O número de julho foi cerca de 74% superior ao de agosto. Outra descrição da apresentação informou, de forma mais ampla, que o total de julho passou de 100 milhões.
A tática eleitoral suspeita consiste em invadir alvos selecionados para roubar informações que possam ser úteis em futuras interferências. Planos de campanha, contatos ou outros dados confidenciais poderiam ajudar a decidir quem abordar ou pressionar. O Departamento de Segurança Nacional identificou a coleta de informações de inteligência e os preparativos para assédio como possíveis objetivos do aumento da atividade.
O alerta cibernético se soma à pressão no mar. Tsai Ming-yen afirmou que as operações da Guarda Costeira da China a leste de Taiwan estavam se tornando mais rotineiras, às vezes com a participação de navios de pesquisa, e manifestou preocupação com barcos da milícia chinesa a leste e a sudoeste da ilha. Autoridades taiwanesas descrevem esse padrão mais amplo como uma pressão que permanece abaixo do nível de uma guerra aberta, mas consome atenção e recursos.
A pressão chega a familiares e críticos
Shen foi alvo de sanções chinesas e incluído em uma lista de procurados por seu trabalho sobre operações de influência chinesa. Em outubro de 2024, Pequim o adicionou à lista de pessoas que classifica como separatistas comprometidos com a independência de Taiwan.
O Escritório de Assuntos de Taiwan da China também anunciou sanções contra a VWAY, empresa pertencente ao pai de Shen, Shen Tu-cheng. As restrições a proíbem de negociar com organizações, empresas ou indivíduos na República Popular da China.
O direcionamento contra familiares amplia o custo econômico para além dos políticos. Outros casos relatados incluem a proibição de entrada na China do irmão de Robert Tsao, fundador da United Microelectronics Corp, e a perda do emprego na China pelo sobrinho da ministra do Interior, Liu Shyh-fang.
Uma intimidação física também está sendo investigada. Procuradores de Nova Taipé alegam que um cidadão chinês conhecido como K contratou uma colisão de trânsito encenada para impedir a apresentação do comediante Huang Yi-hao, que ridiculariza o presidente chinês, Xi Jinping.
Após as acusações relacionadas ao ataque contra Huang, Tsai Ming-yen afirmou que os investigadores examinavam se organizações criminosas e empresas de investigação particular haviam recebido instruções e financiamento do Partido Comunista Chinês. Cinco homens taiwaneses foram acusados por causa da suposta operação; K foi identificado como o organizador suspeito. Algumas descrições do caso também incluíram K entre os indiciados.
O diretor do Departamento de Segurança Nacional afirmou que proteger a vítima e rastrear a rede por trás do suposto ataque eram prioridades. Ele descreveu o caso como parte de uma repressão transnacional crescente, ou seja, uma pressão exercida por um governo contra pessoas fora do território que controla.
Responsável pela política de Taiwan em relação à China rejeita interferência
Chiu Chui-cheng, ministro do Conselho de Assuntos do Continente de Taiwan, afirmou em 27 de outubro que Pequim deveria parar de ameaçar a liberdade de escolha dos taiwaneses. Em discurso no Legislativo, pediu o fim da interferência eleitoral e da repressão transnacional.
Chiu respondeu assim à pressão em torno da declaração de Tsai:
Isso não vai dar certo. Só vai sair pela culatra.
O ministro também citou uma pesquisa recente do Conselho de Assuntos do Continente na qual mais de 88% dos entrevistados rejeitaram ser governados pelo Partido Comunista Chinês. Ele afirmou que Taiwan e a República Popular da China não estão subordinados um ao outro.
As trocas culturais estão se tornando parte da mesma disputa. Chiu afirmou que Taiwan continuava aberto a intercâmbios com artistas chineses com base no respeito mútuo e na igualdade de dignidade. Ainda assim, defendeu que uma possível visita do ator chinês Zhang Linghe aguardasse até que não houvesse riscos políticos nem objetivos de frente unida, termo usado por Pequim para designar esforços de conquista de apoio entre grupos externos ao partido.
Chiu apontou a participação de Zhang no Fórum do Estreito, organizada com o envolvimento do Escritório de Assuntos de Taiwan da China, assim como publicações nas redes sociais que, segundo ele, depreciavam a soberania de Taiwan. A posição do ministro vincula a autorização de uma visita específica a preocupações com mobilização política durante o período eleitoral.
Para as autoridades de Taiwan, os próximos passos concretos são encaminhar provas antes de 28 de novembro e investigar dinheiro, redes locais e operações on-line. Para eleitores e figuras públicas, o que está em jogo no imediato é a liberdade de participar de eventos, discutir candidatos e fazer escolhas eleitorais sem ameaças.
Principais pontos
- Um funcionário taiwanês de segurança nacional afirma que as ameaças de uma conta ligada ao ELP contra Kevin Tsai representam uma escalada da pressão psicológica em torno das eleições locais.
- Tsai negou apoiar a independência de Taiwan após participar de um evento de campanha de Puma Shen e, depois, compareceu à inauguração do comitê do adversário Chiang Wan-an.
- Os dois candidatos à prefeitura de Taipé se opuseram publicamente à intimidação de pessoas por sua participação política.
- O Departamento de Segurança Nacional identificou seis métodos suspeitos de interferência, incluindo financiamento ilícito, incentivos para viagens, desinformação, mercados de apostas e invasões cibernéticas.
- O departamento contabilizou mais de 2,5 milhões de conteúdos contestados ou falsos nos primeiros nove meses de 2026, um aumento de cerca de 48%.
- As agências de inteligência pretendem encaminhar provas às autoridades judiciais antes das eleições locais de 28 de novembro.






