Uma oferta de financiamento vinculada a um acordo político
O primeiro-ministro Anwar Ibrahim ofereceu usar o acordo político de setembro de 2021 da Malásia como base para conceder verbas a parlamentares da oposição, ao mesmo tempo que defendeu os RM123 milhões aprovados para 197 projetos em Besut como prova de que os distritos eleitorais da oposição continuam recebendo recursos para o desenvolvimento.
Conteúdo
- Uma oferta de financiamento vinculada a um acordo político
- O que o acordo de 2021 previa
- Uma oferta apresentada pela primeira vez em março de 2023
- Quem controla o dinheiro?
- Números de Terengganu são questionados
- O que significam os RM123 milhões para Besut
- Como a disputa pelo financiamento se desenvolveu
- Por que os pedidos por uma lei continuam
- Principais pontos
Em discurso na Dewan Rakyat em 27 de outubro, Anwar disse que o vice-primeiro-ministro Fadillah Yusof tinha autoridade para negociar com a oposição. Ele propôs usar o formato do acordo anterior, sem alterações, e afirmou que o governo poderia aprovar um entendimento assim que fosse assinado.
A oferta veio após um questionamento de Che Mohamad Zulkifly Jusoh, parlamentar do Perikatan Nasional por Besut, sobre a promessa eleitoral do Pakatan Harapan de conceder verbas iguais aos distritos eleitorais. Che Mohamad perguntou se o governo apresentaria uma Lei de Distribuição Igualitária de Verbas aos Distritos Eleitorais antes da próxima eleição geral.
A resposta de Anwar se concentrou nas negociações e na forma como os projetos recebem financiamento. Ele não assumiu um compromisso definitivo de apresentar a lei nem estabeleceu um prazo para isso.
A divergência envolve duas questões relacionadas: quanto dinheiro público chega a um distrito eleitoral e quanta autoridade seu parlamentar eleito tem para escolher ou coordenar as obras. Anwar afirma que os moradores recebem projetos de desenvolvimento independentemente do partido de seu parlamentar. Parlamentares da oposição querem acesso igual aos mecanismos de financiamento dos distritos eleitorais, em vez de representantes do governo administrarem os recursos destinados às suas áreas.
Che Mohamad citou uma resposta parlamentar segundo a qual distritos eleitorais do governo e da oposição recebiam RM2 milhões por ano, mas o dinheiro destinado aos assentos da oposição era administrado pelo governo, e não pelos parlamentares eleitos para representá-los. Ele questionou se isso não configurava dois pesos e duas medidas.
O que o acordo de 2021 previa
O Memorando de Entendimento sobre Transformação e Estabilidade Política, de setembro de 2021, foi negociado entre o governo de Ismail Sabri Yaakob e o Pakatan Harapan, quando Anwar era líder da oposição. O acordo previa verbas iguais para o desenvolvimento dos distritos eleitorais de parlamentares do governo e da oposição abrangidos pelo pacto.
Em contrapartida, o Pakatan Harapan concordou em apoiar ou se abster em votações de confiança e projetos de lei orçamentários, incluindo o orçamento de 2022. Uma votação de confiança verifica se um governo tem apoio parlamentar suficiente para permanecer no poder. Projetos de lei orçamentários autorizam os gastos do governo, permitindo que ministérios e serviços públicos funcionem.
Assim, o acordo trocou uma cooperação parlamentar negociada por compromissos que incluíam o financiamento dos distritos eleitorais. Agora, Anwar propõe esse modelo anterior como caminho para um acordo com a atual oposição.
Ao descrever a rapidez com que seu governo poderia agir após as negociações, Anwar disse:
Se assinarem hoje, pode ser aprovado amanhã. Se não quiserem negociar, isso não é problema meu.
Anwar também reconheceu que a implementação do acordo anterior não correspondeu totalmente às expectativas e que os valores das verbas diferiram do que se esperava. Sua proposta de reutilizar a redação do pacto traz essa experiência anterior para as negociações atuais.
O Perikatan Nasional rejeitou anteriormente a minuta de memorando do governo, levantando preocupações sobre constitucionalidade, liberdade de expressão, discussões envolvendo raça, religião e realeza, declarações de bens e falta de clareza sobre valores e procedimentos de financiamento. Para chegar a um acordo, os dois lados precisariam resolver essas objeções, além de definir o valor e a administração dos recursos.
Uma oferta apresentada pela primeira vez em março de 2023
Anwar já havia aceitado, em princípio, a igualdade das verbas em 7 de março de 2023. Uma publicação do Ministério das Finanças registra sua posição de que os dois lados deveriam discutir o método e chegar a um entendimento comum.
O primeiro-ministro, que também é ministro das Finanças, disse ao Parlamento:
Em princípio, não tenho objeção a conceder à oposição a mesma verba recebida pelos parlamentares do governo.
A discussão surgiu após uma pergunta de Shahidan Kassim, parlamentar do PN por Arau, sobre ajuda às vítimas de enchentes. Muhyiddin Yassin havia proposto pelo menos RM300 mil para cada parlamentar, inclusive os da oposição, para ajudar os moradores afetados.
Na ocasião, Anwar disse que designaria o líder da bancada governista e os ministros responsáveis para negociar. Também afirmou que os parlamentares da oposição não haviam recebido verbas desse tipo durante o governo de Muhyiddin. Daquela discussão ao debate de 27 de outubro, a questão recorrente é como transformar a aceitação em princípio em um sistema de financiamento acordado.
Quem controla o dinheiro?
A queixa de Che Mohamad diz respeito ao papel dos representantes eleitos da oposição. As verbas para os distritos eleitorais da oposição são administradas por meio de mecanismos do governo, inclusive com agentes de coordenação nomeados, enquanto parlamentares do governo têm um papel na gestão ou coordenação das verbas destinadas aos distritos que representam.
Anwar descreveu os gastos com desenvolvimento em termos de aprovação de projetos, e não de dinheiro entregue a políticos. Ele disse que nem mesmo os parlamentares do governo recebem pessoalmente recursos para o desenvolvimento: eles endossam ou verificam projetos, e os gastos são administrados pelos órgãos públicos competentes.
O primeiro-ministro explicou sua posição da seguinte forma:
Mesmo nos distritos eleitorais representados por partidos do governo, o dinheiro não é entregue diretamente aos parlamentares. Eles verificam os projetos. Os recursos para o desenvolvimento não são dados aos parlamentares.
Para os moradores, a questão prática é quem pode encaminhar um pedido de reparo em uma estrada, melhoria em uma escola ou construção de um espaço comunitário durante o processo de aprovação. O papel do parlamentar na coordenação de projetos pode oferecer aos eleitores um caminho direto por meio de seu representante eleito. Quando agentes do governo administram a verba, o caminho para a aprovação é diferente.
Fadillah expressou uma posição semelhante em 4 de julho de 2024, dizendo que as verbas federais se destinavam ao desenvolvimento dos distritos eleitorais, e não aos parlamentares pessoalmente. Ele descreveu o papel do parlamentar como o de coordenar a verba. Na ocasião, disse que uma minuta de memorando estava sendo finalizada para ser encaminhada aos conselhos supremos dos partidos do governo e da oposição.
Segundo relatos, a gestão de verbas também foi retirada de parlamentares do PKR que não cumpriram as exigências do partido. Portanto, a disputa pelo controle vai além de saber se um distrito eleitoral é representado por um parlamentar do governo ou da oposição.
Números de Terengganu são questionados
Anwar citou Terengganu, estado governado pela oposição, para defender o histórico de investimentos federais em desenvolvimento. Ele disse que a verba federal do estado aumentaria de RM6 bilhões em 2022 para RM8,2 bilhões em 2027. Durante a discussão, Che Mohamad citou outro valor para Terengganu: RM2,1 bilhões. A diferença não foi explicada.
O aumento na comparação de Anwar é de RM2,2 bilhões, ou cerca de 36,7% do valor inicial de RM6 bilhões. Ele argumentou que uma verba maior para um estado da oposição era incompatível com as acusações de que seu governo tratava os moradores de forma cruel.
Os números colocam lado a lado um grande total de investimentos estaduais em desenvolvimento e um debate sobre as verbas anuais dos distritos eleitorais e a autoridade dos parlamentares. Os gastos estaduais podem cobrir grandes instalações e infraestrutura, enquanto as verbas dos distritos eleitorais se destinam a um conjunto mais local de projetos e auxílios. Para entender por que Anwar e Che Mohamad enfatizaram medidas diferentes, é preciso considerar as duas escalas.
Anwar disse que o gabinete havia decidido que todos os distritos eleitorais parlamentares deveriam ser considerados para receber verbas de desenvolvimento. Ele afirmou que nenhum distrito eleitoral ou estado era excluído por causa da filiação política de seus representantes eleitos.
O que significam os RM123 milhões para Besut
Besut foi o exemplo mais detalhado apresentado por Anwar. Ele disse que RM123 milhões haviam sido aprovados para 197 projetos e obras menores em áreas como infraestrutura, saúde, habitação, agricultura, educação e prevenção de enchentes.
Entre os projetos mencionados estavam RM8 milhões para obras de recuperação e conservação ao longo do rio Sungai Besut, RM18 milhões para obras de segurança na Base Aérea de Gong Kedak e RM37 milhões para uma clínica de saúde no distrito. Ele também citou a construção do terminal integrado de ônibus e táxis de Jertih, sem especificar seu custo.
Os projetos do rio, da base aérea e da clínica somam RM63 milhões, pouco mais da metade do total de RM123 milhões. Essa divisão mostra como alguns projetos de grande porte podem representar boa parte dos gastos de desenvolvimento de um distrito eleitoral, ao lado de numerosas obras menores.
Anwar disse que as prioridades dos projetos eram definidas em consultas com ministérios e departamentos federais, governos estaduais e administrações distritais. As necessidades locais e a capacidade financeira do governo também influenciavam as decisões. Segundo ele, o governo continuava aberto a avaliar outras necessidades de desenvolvimento.
Entre os exemplos de gastos destinados a beneficiar moradores, independentemente de sua filiação partidária, Anwar mencionou reparos em escolas em más condições, escolas religiosas, estradas secundárias e mesquitas. Para os moradores de Besut, os projetos citados dizem respeito ao acesso à saúde, ao transporte, às condições do rio e às instalações de segurança; a disputa política, por sua vez, trata do papel do parlamentar que os representa nesse processo.
Como a disputa pelo financiamento se desenvolveu
A divergência atual vem após várias tentativas de negociar o financiamento e mudanças anteriores nos valores disponíveis aos parlamentares. As principais etapas são:
- Setembro de 2021: O governo de Ismail Sabri e o Pakatan Harapan assinaram o memorando de estabilidade política, que previa verbas iguais para os distritos eleitorais dos partidos abrangidos pelo acordo.
- 7 de março de 2023: Anwar aceitou, em princípio, conceder verbas iguais aos parlamentares da oposição, sujeito a discussões sobre o método.
- 4 de julho de 2024: Fadillah disse que os parlamentares coordenavam as verbas dos distritos eleitorais e descreveu os trabalhos para finalizar uma minuta de memorando a ser aprovada pelos partidos.
- 2 de setembro de 2024: Um comentário acadêmico registrou a persistência do acesso desigual às verbas dos distritos eleitorais e pediu a aprovação de uma lei.
- Debate parlamentar de 27 de outubro: Anwar voltou a oferecer o formato de 2021, enquanto Che Mohamad cobrou uma lei de distribuição igualitária antes da próxima eleição geral.
Tricia Yeoh, pesquisadora sênior visitante no Instituto ISEAS – Yusof Ishak e professora associada de prática na Universidade de Nottingham, na Malásia, descreveu as mudanças anteriores no financiamento em seu comentário de setembro de 2024.
Yeoh escreveu que alguns partidos da oposição abrangidos pelo acordo de 2021 receberam RM600 mil em 2021 e RM1,5 milhão em 2022. Ela também registrou que, durante governos anteriores do PH, os parlamentares do partido receberam RM1 milhão em 2018, valor que subiu para RM3,5 milhões em 2019 e permaneceu nesse nível em 2020.
Para 2024, seu comentário apontou que os parlamentares do governo recebiam uma verba anual de RM4,1 milhões, incluindo mais RM2 milhões para o Projek Mesra Rakyat. Ela atribuiu esses números a uma entrevista com um assessor de parlamentar. Esses valores, referentes a anos específicos, mostram como as verbas mudaram entre governos e mecanismos de financiamento.
Por que os pedidos por uma lei continuam
A lei proposta por Che Mohamad abordaria a questão por meio da legislação, em vez de outro acordo político negociado. O secretário-geral do DAP, Anthony Loke, e o presidente do partido, Gobind Singh Deo, também defenderam a igualdade no financiamento dos distritos eleitorais, aumentando a pressão sobre o governo dentro da própria coalizão.
Yeoh defendeu uma Lei Federal de Desenvolvimento dos Distritos Eleitorais e uma legislação semelhante nos estados. Sua proposta definiria responsabilidades pela distribuição do dinheiro e tornaria transparente a fórmula de cálculo das verbas, com condições equitativas para parlamentares independentemente de sua filiação política.
A acadêmica descreveu a fragilidade de depender de acordos políticos temporários:
Não há garantia de que essas verbas para o desenvolvimento dos distritos eleitorais continuarão para sempre.
Perak e Kelantan já concedem verbas iguais para o desenvolvimento dos distritos eleitorais a representantes do governo e da oposição por meio de ordens executivas. Uma lei estabeleceria as regras na legislação, enquanto um mecanismo executivo depende de decisões da administração que estiver no poder.
Yeoh também relacionou o acesso ao financiamento às escolhas políticas. Seu comentário mencionou seis parlamentares do Bersatu que sinalizaram apoio a Anwar em troca de verbas para seus distritos eleitorais e foram posteriormente expulsos do partido. Ela argumentou que regras previsíveis de financiamento reduziriam a dependência de negociações políticas.
Suas propostas também incluíram financiamento público para partidos políticos por meio de uma Lei de Financiamento Político. O financiamento partidário ajudaria a cobrir os custos de funcionamento das organizações, enquanto as verbas de desenvolvimento dos distritos eleitorais pagam projetos e auxílios locais. Na disputa parlamentar imediata, a escolha continua sendo entre outro memorando negociado e uma lei que estabeleça regras comuns.
Principais pontos
- Anwar está disposto a usar o formato do acordo de setembro de 2021 para negociar um pacto de financiamento com a oposição, com Fadillah à frente das negociações.
- Che Mohamad pediu uma lei de distribuição igualitária das verbas antes da próxima eleição geral; Anwar não assumiu um compromisso legislativo definitivo.
- Anwar disse que RM123 milhões haviam sido aprovados para 197 projetos e obras menores em Besut.
- O primeiro-ministro citou RM8,2 bilhões para Terengganu em 2027, em comparação com RM6 bilhões em 2022. Che Mohamad apresentou outro valor, de RM2,1 bilhões, que não foi explicado.
- A disputa central envolve o acesso igualitário às verbas dos distritos eleitorais e a autoridade dos parlamentares para coordená-las, além da continuidade dos gastos do governo com projetos locais.
- As objeções do Perikatan Nasional à minuta de memorando incluem preocupações constitucionais, restrições à liberdade de expressão, declarações de bens e procedimentos de financiamento pouco claros.






