Um novo papel para a Uzbekfilm após forte aumento nos gastos
O Uzbequistão transferirá toda a produção cinematográfica para estúdios privados e cineastas independentes, extinguirá sua Agência de Cinematografia e transformará a Uzbekfilm em uma empresa nacional que financiará e distribuirá filmes, em vez de produzi-los. O presidente Shavkat Mirziyoyev anunciou as mudanças em 26 de outubro de 2026, no estúdio da Uzbekfilm, em Tashkent.
Conteúdo
- Um novo papel para a Uzbekfilm após forte aumento nos gastos
- Quem ficará à frente do setor?
- Como os subsídios substituirão as encomendas estatais?
- Por que o sistema atual foi criticado
- Como levar os filmes dos estúdios ao público
- Complexo de serviços cinematográficos custará centenas de bilhões
- Que histórias o presidente quer ver nas telas?
- Críticos e cineastas terão novas organizações
- Formação em IA e apoio aos trabalhadores do cinema
- O cronograma: das propostas anteriores ao início das obras
- Principais pontos
A reformulação vem após um forte aumento nos gastos públicos. Segundo o relato da reunião publicado pela UzA, o financiamento estatal anual para a produção cinematográfica subiu de 10 bilhões de soms em 2016 para 218 bilhões de soms em 2026. O valor é 21,8 vezes maior que o anterior. O financiamento total na década chegou a 1,2 trilhão de soms.
Mirziyoyev disse que os orçamentos maiores ajudaram a trazer dezenas de estúdios privados para o setor, junto com uma nova geração de cineastas. No entanto, também descreveu um sistema em que quase metade das encomendas estatais era destinada a estúdios públicos, alguns diretores conduziam até seis projetos ao mesmo tempo e cumprir as encomendas podia se tornar mais prioritário do que fazer filmes que o público quisesse assistir.
A solução proposta separa três funções: definir a política cinematográfica, decidir quais projetos receberão recursos e produzir os filmes. O Ministério da Cultura ficará responsável pela política, a nova empresa Uzbekfilm selecionará e financiará projetos e ajudará a levá-los ao público, e cineastas privados produzirão as obras.
O secretário de imprensa presidencial Sherzod Asadov disse que, ao fim da reunião, Mirziyoyev anunciou ter assinado um decreto com as mudanças. Os prazos estabelecidos para os responsáveis vão de uma semana para organizar a nova empresa a março de 2027 para iniciar a construção de um complexo de serviços cinematográficos.
Quem ficará à frente do setor?
A Agência de Cinematografia, as 19 organizações ligadas a ela e o Fundo de Cinematografia serão extintos. A responsabilidade pela implementação da política cinematográfica estatal passará ao Ministério da Cultura, onde será criado um novo Departamento de Arte Cinematográfica.
O chefe do departamento terá status equivalente ao de vice-ministro. Os responsáveis receberam a instrução de organizar o departamento e concluir a dissolução do sistema da agência em até um mês após a reunião. Os imóveis liberados pela reestruturação, assim como os ativos cinematográficos estatais sem uso, serão oferecidos em leilões abertos.
A Uzbekfilm também mudará sua forma jurídica e operacional. A atual instituição estatal será dissolvida e substituída por uma empresa nacional de cinema, que funcionará segundo um novo modelo de negócios. Suas atividades deverão ser organizadas em uma semana.
A empresa selecionará projetos, concederá financiamento, promoverá filmes concluídos, organizará sua distribuição e ajudará as produções a chegar a mercados internacionais e festivais. Estúdios privados e cineastas independentes ficarão responsáveis pela produção. Assim, instituições públicas continuarão influenciando o financiamento e o acesso ao público, enquanto as filmagens deixarão o sistema de estúdios estatais.
Como os subsídios substituirão as encomendas estatais?
As encomendas estatais darão lugar a subsídios. No modelo atual, o governo encomenda um filme com base em uma tarefa aprovada. No modelo anunciado, recursos públicos apoiarão projetos selecionados pela nova empresa nacional.
Ao explicar como o Estado pretende se relacionar com os cineastas, Mirziyoyev disse:
De agora em diante, o Estado não será o contratante dos filmes, mas um parceiro confiável dos profissionais criativos e do setor privado.
Os responsáveis deverão implementar o mecanismo de financiamento em até um mês. A partir de 2027, o orçamento estatal fornecerá recursos anuais em resposta às solicitações da empresa nacional Uzbekfilm.
O anúncio não especificou critérios de seleção, valores dos subsídios ou procedimentos de distribuição dos recursos. Essas regras definirão como cineastas privados poderão solicitar apoio e como a empresa escolherá entre projetos concorrentes. A reforma muda quem produzirá filmes com apoio público, mas mantém o governo envolvido no financiamento.
Por que o sistema atual foi criticado
Mirziyoyev criticou a concentração das encomendas em um grupo limitado de cineastas. Segundo ele, atribuir até seis projetos a um diretor e sete a um roteirista dificultava o trabalho cuidadoso em cada produção. Quase metade das encomendas era destinada a estúdios estatais, restringindo as oportunidades para concorrentes privados.
Uma análise apresentada em uma reunião anterior sobre a reforma do cinema examinou 181 projetos planejados. Foram identificados temas e períodos históricos repetidos, criadores trabalhando em vários projetos ao mesmo tempo e alguns estúdios e equipes criativas com experiência insuficiente.
A análise também apontou roteiros fracos e lacunas entre gerações de profissionais especializados em cinematografia, direção de som e montagem. Essas são áreas distintas da produção cinematográfica: diretores de fotografia definem a aparência do filme, diretores de som cuidam do áudio e montadores organizam o material gravado para compor a história final.
O desempenho da agência passou a ser avaliado pela conclusão dos planos aprovados, e não pela receptividade ou popularidade entre o público. Mirziyoyev argumentou que os filmes precisam de espaço para que os roteiros e as decisões criativas evoluam durante a produção, em vez de serem adquiridos por meio de instruções técnicas detalhadas, como se fossem produtos comuns ou obras de construção.
A reforma do financiamento e as propostas de formação abordam partes diferentes do problema. Mudar o acesso aos recursos públicos pode abrir oportunidades para equipes privadas; aprimorar roteiros e habilidades técnicas diz respeito ao trabalho que essas equipes deverão entregar.
Como levar os filmes dos estúdios ao público
Mirziyoyev disse que filmes estrangeiros continuavam a lotar as salas de cinema e argumentou que o público havia mudado seus gostos e expectativas, em vez de abandonar os cinemas. Ele reconheceu que as produções nacionais não estavam correspondendo a essas expectativas.
O governo apontou a distribuição como um ponto particularmente fraco. Distribuição é o processo que leva um filme concluído ao público, incluindo a organização das exibições, a promoção do lançamento e a venda para outros mercados. Um filme pronto precisa desse trabalho para encontrar espectadores e gerar receita.
A nova empresa Uzbekfilm reunirá o financiamento de projetos e a responsabilidade pela promoção e distribuição. Uma apresentação anterior sobre a reforma também propôs uma plataforma nacional de cinema on-line pela qual os filmes poderiam gerar renda. Entre os planos discutidos em torno da reunião estavam a expansão de cinemas modernos em Tashkent e nas regiões e a melhoria do lançamento de produções locais.
Para os cineastas privados, isso coloca a empresa em duas posições importantes: ela ajudará a decidir quais projetos receberão apoio público e, depois, ajudará os filmes concluídos a chegar aos cinemas, compradores estrangeiros e festivais. Para o público, a mudança pretende criar um caminho mais confiável para assistir a filmes uzbeques após sua produção.
Complexo de serviços cinematográficos custará centenas de bilhões
Uma nova cidade do cinema da Uzbekfilm ocupará os 10 hectares do estúdio em Tashkent. O governo planeja destinar 400 bilhões de soms ao projeto, reunindo serviços de produção cinematográfica em um único polo industrial.
Outros 80 bilhões de soms estão previstos para um centro moderno de dublagem e som. As propostas incluem um estúdio equipado com Dolby Atmos, tecnologia de som que permite posicionar o áudio ao redor do ouvinte. A dublagem substitui os diálogos por vozes gravadas em outro idioma, enquanto a produção de som também abrange a gravação de diálogos, os efeitos e a mixagem final do áudio.
As duas verbas anunciadas somam 480 bilhões de soms. O valor equivale a cerca de 2,2 vezes os 218 bilhões de soms destinados à produção cinematográfica em 2026, embora os recursos para construção sejam voltados à infraestrutura e não tenham sido apresentados como gastos anuais.
Os responsáveis têm dois meses para preparar o plano diretor do complexo e os documentos de projeto e orçamento com uma organização de projeto qualificada. A construção deverá começar em março de 2027.
A Uzbekfilm já passou por uma reconstrução completa nos últimos anos. O novo complexo amplia esse investimento para incluir serviços compartilhados em um setor no qual empresas privadas ficarão responsáveis pela produção.
Que histórias o presidente quer ver nas telas?
Mirziyoyev incentivou os cineastas a retratar pessoas contemporâneas, além de figuras históricas. Ele apontou professores, médicos, atletas, soldados, empresários, construtores e jovens como personagens cujas vidas podem servir de matéria-prima para filmes envolventes.
O presidente descreveu o cinema como instrumento de "soft power", ou seja, a capacidade de um país ampliar sua influência por meio de sua cultura e de seu poder de atração. Nesse caso, o objetivo é apresentar a história, o povo e a identidade nacional do Uzbequistão ao público internacional.
Ao explicar sua ideia de O'z no cinema, Mirziyoyev disse:
Conscientes de nossa identidade, devemos contar ao mundo a nossa própria história, com a nossa própria voz.
Ele situou essa ambição em uma tradição cinematográfica mais longa e citou produções da era da independência, entre elas Abdullajon, Fields Left by My Father, Dilkhiroj, Vatan e O'tov. Entre os filmes históricos mais recentes destacados na reunião estavam Ibrat, Avloniy, Abdulla Qodiriy, Ilhaq e Uzbek Girl.
As propostas também incluem competições especiais mais abrangentes e subsídios estatais para obras de caráter nacional e alto mérito artístico. Em conjunto, as prioridades declaradas combinam alcance internacional com histórias em que o público uzbeque, inclusive as crianças, possa reconhecer aspectos da própria vida.
Críticos e cineastas terão novas organizações
Será criado um Clube de Críticos de Cinema para desenvolver pesquisas, análises e crítica profissional. A Uzbekfilm apoiará o trabalho do clube e o ajudará a buscar filiação à FIPRESCI, a Federação Internacional de Críticos de Cinema.
Mirziyoyev disse que os críticos profissionais recebiam pouca atenção no sistema atual. A iniciativa pretende dar mais espaço a avaliações fundamentadas no setor, junto com os esforços para ampliar a participação dos filmes em festivais internacionais.
A União Criativa dos Cineastas do Uzbequistão e a Associação de Representantes da Indústria Cinematográfica se fundirão em uma nova câmara que representará os profissionais do cinema. Entre suas atribuições estarão a autorregulação do setor, a proteção dos direitos autorais, a defesa dos interesses profissionais e o apoio a cineastas mais jovens.
Os responsáveis receberam a instrução de organizar a câmara em até um mês. Estão previstos apoio financeiro e organizacional para suas atividades, além de oportunidades para que jovens cineastas aprimorem suas habilidades no exterior. A proteção dos direitos autorais diz respeito aos direitos dos criadores sobre o uso de suas obras, uma questão prática à medida que os filmes são vendidos, distribuídos e exibidos em mais mercados.
Formação em IA e apoio aos trabalhadores do cinema
Mirziyoyev também determinou que um programa de cooperação sobre inteligência artificial na produção cinematográfica fosse elaborado em até um mês. O programa incluirá novos cursos, formação de especialistas e oportunidades de aperfeiçoamento profissional no exterior.
As tecnologias específicas e os mecanismos de financiamento do programa não foram anunciados. O foco declarado na educação vem junto das conclusões da análise anterior sobre a escassez e as lacunas de habilidades especializadas.
Os trabalhadores do cinema também terão acesso ao sanatório Kohinur, recentemente reformado, no distrito de Quyi Chirchiq, na região de Tashkent. O espaço será colocado à disposição dos cineastas para descanso, recuperação e trabalho criativo.
Pelo menos 300 profissionais do setor por ano receberão vouchers gratuitos para descanso e tratamento em sanatórios de todo o Uzbequistão. A medida amplia o apoio para além das produções individuais e inclui as pessoas que trabalham no setor.
O cronograma: das propostas anteriores ao início das obras
As medidas de outubro dão continuidade às mudanças apresentadas em 1º de junho de 2026. As propostas anteriores previam conceder status nacional à Uzbekfilm, transformá-la em uma empresa cinematográfica, apoiar produtores privados e conceder benefícios fiscais a empresas do setor até 2036.
O anúncio de outubro define um papel mais específico para a Uzbekfilm como empresa de financiamento, promoção e distribuição, atribuindo toda a produção ao setor privado. As principais etapas são:
- 1º de junho de 2026: Reformas anteriores do cinema previram apoio à Uzbekfilm e a produtores privados, incluindo benefícios fiscais até 2036.
- 26 de outubro de 2026: Mirziyoyev anunciou a reestruturação e disse ter assinado um decreto com as mudanças.
- Em até uma semana: Os responsáveis deverão organizar as operações da empresa nacional Uzbekfilm.
- Em até um mês: Deverão ser organizados ou preparados o novo departamento ministerial, a dissolução da agência, o mecanismo de subsídios, a câmara profissional e o programa de cooperação sobre IA.
- Em até dois meses: Deverão ser preparados o plano diretor da cidade do cinema e os documentos de projeto e orçamento.
- A partir de 2027: As dotações orçamentárias anuais responderão às solicitações da empresa nacional.
- Março de 2027: Está previsto o início da construção da cidade do cinema.
Mirziyoyev também propôs reunir mais instituições sob o nome Uzbekfilm. As propostas abrangem o Museu de Arte Cinematográfica, o Palácio de Arte Cinematográfica e o Fundo Nacional de Cinema, além da mudança de nome de um trecho da Rua Chilanzar. O nome conectaria a tradição cinematográfica do país à nova estrutura de financiamento e distribuição.
Principais pontos
- Estúdios privados e cineastas independentes assumirão a produção cinematográfica.
- A Agência de Cinematografia será extinta, e a política cinematográfica passará ao Ministério da Cultura.
- Uma nova empresa nacional Uzbekfilm selecionará e financiará projetos e ficará responsável pela promoção e distribuição.
- Subsídios substituirão as encomendas estatais; as regras de seleção e distribuição dos recursos ainda serão anunciadas.
- O financiamento anual para a produção cinematográfica subiu de 10 bilhões de soms em 2016 para 218 bilhões de soms em 2026.
- As verbas anunciadas para a cidade do cinema e o centro de som totalizam 480 bilhões de soms, e a construção deverá começar em março de 2027.
- Novas entidades profissionais, iniciativas de formação e apoio ao bem-estar dos trabalhadores fazem parte da reestruturação.






