Uma conversa reservada sobre um grande caso de lavagem de dinheiro
O ex-juiz da Suprema Corte Sanjay Kishan Kaul afirmou que o então presidente da Suprema Corte da Índia, D.Y. Chandrachud, pediu que ele adotasse um "caminho do meio" ao analisar petições que buscavam a reconsideração de uma decisão que manteve amplos poderes previstos na Lei de Prevenção à Lavagem de Dinheiro (PMLA). Kaul também disse que um caso sobre atrasos nas nomeações judiciais foi retirado de sua pauta enquanto ele pressionava o governo central a agir sobre recomendações pendentes.
Conteúdo
- Uma conversa reservada sobre um grande caso de lavagem de dinheiro
- O que Kaul diz que aconteceu na sala do presidente da Suprema Corte
- Por que a decisão de 2022 é importante
- Duas vias para reconsiderar a decisão
- Como o processo passou por diferentes turmas
- O caso de nomeações retirado da pauta de Kaul
- Cinco nomes aprovados e um sexto contestado
- A casta de um candidato e uma divergência sobre firmeza
- As críticas de Kaul se estendem ao sistema de nomeações
- Principais pontos
Kaul relatou os episódios em entrevista ao jornalista Karan Thapar, na qual falou sobre suas memórias, Without Fear or Favour. Seu relato relaciona duas áreas sensíveis do trabalho da Suprema Corte: decidir contestações aos poderes de investigação do governo e administrar a nomeação de juízes.
A disputa sobre a PMLA diz respeito à decisão de 27 de julho de 2022 no caso Vijay Madanlal Choudhary v. Union of India. A decisão manteve dispositivos que regulamentam prisão, buscas, apreensão, bloqueio de bens, ônus da prova e condições rigorosas para concessão de liberdade sob fiança. A reconsideração desses dispositivos poderia afetar a forma como pessoas investigadas por lavagem de dinheiro obtêm informações sobre seus casos e tentam deixar a prisão.
Ao responder às notícias sobre as críticas às nomeações judiciais feitas em suas memórias, Chandrachud disse que não havia lido o livro e que precisaria compreender os trechos em contexto antes de dar uma resposta detalhada. Ele descreveu como respeitoso seu relacionamento com Kaul no Collegium e afirmou não se lembrar de Kaul ter saído de uma reunião.
O relato de Kaul sobre a pressão em torno do caso de nomeações vem acompanhado de uma ressalva explícita: ele disse não poder afirmar se o governo havia provocado a retirada do caso de sua pauta.
O que Kaul diz que aconteceu na sala do presidente da Suprema Corte
Kaul disse que Chandrachud o chamou à sua sala quando uma turma de três juízes, presidida por Kaul, estava prestes a analisar as petições de reconsideração da PMLA. Segundo Kaul, o juiz Sanjiv Khanna, outro integrante da turma, também estava presente.
Chandrachud tentou convencê-lo a não dar prosseguimento ao caso, disse Kaul, e sugeriu cautela e um caminho do meio caso ele prosseguisse. Kaul lembrou ter respondido que nunca havia adotado essa abordagem em sua carreira judicial e que avançava sempre que considerava correto analisar um caso.
Kaul disse que recuar naquele momento lançaria uma sombra sobre sua integridade. Ele e Khanna foram então à sala de audiências e analisaram o caso. Kaul também alegou que o governo central pediu adiamentos repetidas vezes por querer atrasar o processo até depois de sua aposentadoria, em dezembro de 2023.
A divergência havia começado antes daquela conversa. Kaul disse que um colega lhe contou que as petições haviam sido encaminhadas a outra turma. Quando levou a questão a Chandrachud, o presidente da Suprema Corte explicou que uma juíza havia determinado a reunião de casos relacionados sob sua responsabilidade.
Kaul contestou a transferência, argumentando que ela não poderia ter ocorrido sem o aval do presidente da Suprema Corte. Disse que pediu para ser informado diretamente caso a intenção fosse impedi-lo de analisar os casos. Chandrachud formou posteriormente uma turma composta por Kaul, Khanna e a juíza Bela M. Trivedi. O julgamento não foi concluído antes da aposentadoria de Kaul.
Por que a decisão de 2022 é importante
A PMLA permite que a Diretoria de Execução (ED) investigue a lavagem de dinheiro, definida, em linhas gerais, como o processo de movimentar recursos provenientes de crimes para dar a eles uma aparência legítima. Os poderes da diretoria podem afetar tanto a liberdade de uma pessoa quanto o controle de seus bens durante uma investigação.
Os juízes A.M. Khanwilkar, Dinesh Maheshwari e C.T. Ravikumar proferiram a decisão de 2022. Eles mantiveram dispositivos contestados, incluindo os artigos 5, 8(4), 15, 17 e 19, que abrangem poderes relacionados ao bloqueio e à posse de bens, intimações, buscas, apreensões e prisões.
O artigo 24 trata do ônus da prova. Em circunstâncias específicas, a lei atribui à pessoa que responde ao processo o ônus de afastar uma presunção relativa a recursos provenientes de crimes. Isso é relevante porque, em geral, nos processos criminais cabe inicialmente à acusação comprovar suas alegações.
O artigo 45 estabelece duas condições rigorosas para a concessão de liberdade sob fiança. Em termos gerais, quando o promotor público se opõe à soltura, o tribunal precisa ter motivos razoáveis para acreditar que o acusado não é culpado e que provavelmente não cometerá um crime enquanto estiver em liberdade sob fiança. Esses requisitos tornam a soltura mais difícil do que pelas regras comuns para concessão de fiança.
O tribunal havia derrubado uma versão anterior dessas duas condições no caso Nikesh Tarachand Shah. O Parlamento alterou o dispositivo em 2018, e a decisão de 2022 manteve o regime modificado. A ação de reconsideração trata, portanto, de regras com consequências imediatas para pessoas sujeitas a prisão, detenção e restrições patrimoniais.
Duas vias para reconsiderar a decisão
Foram apresentadas oito petições de revisão contra a decisão de 2022. O processo é identificado como Karti P. Chidambaram v. Directorate of Enforcement, RP(Crl) 219/2022 e petições conexas.
Uma revisão pede à Suprema Corte que reexamine sua própria decisão dentro de limites jurídicos específicos. Petições mais amplas também pediram a reconsideração de Vijay Madanlal Choudhary e o encaminhamento do caso a uma turma ampliada. O relato de Kaul diz respeito a esse processo mais amplo de reconsideração, enquanto as oito petições de revisão seguiram um caminho separado.
Em 25 de agosto de 2022, uma turma presidida pelo então presidente da Suprema Corte, N.V. Ramana, notificou as partes no processo de revisão. Na audiência, a turma apontou duas questões para análise posterior: o acesso ao Relatório de Informações sobre Casos de Execução (ECIR) e a inversão da presunção de inocência.
O ECIR é o documento interno da ED que registra um caso de lavagem de dinheiro. Ter acesso a ele é importante porque pode ajudar o acusado a entender os fundamentos da investigação. A presunção de inocência significa que a pessoa inicia um processo criminal sem que sua culpa esteja estabelecida; cabe à acusação comprová-la, em vez de exigir que ela prove sua inocência desde o início.
O tribunal permitiu que as petições de revisão fossem analisadas em audiência pública. Em uma audiência posterior, o juiz Ravikumar questionou se o processo se tornaria um "recurso oculto". O advogado sênior Kapil Sibal, que representava os autores das petições de revisão, argumentou que eles deveriam poder explicar os erros que apontavam na decisão. O juiz Surya Kant afirmou que os dois lados teriam tempo para apresentar seus argumentos dentro das questões jurídicas em revisão.
Como o processo passou por diferentes turmas
O litígio avançou entre adiamentos e mudanças na composição das turmas. Em uma audiência de 2024, o procurador-geral Tushar Mehta disse que o caso de revisão havia sido incluído na pauta depois das 21h da noite anterior e que a ED precisava de tempo para se preparar. A turma concordou em adiá-lo para 28 de agosto de 2024.
A turma especial era composta pelos juízes Surya Kant, Ravikumar e Ujjal Bhuyan. Em uma pauta posterior, as revisões foram encaminhadas aos juízes Surya Kant, N. Kotiswar Singh e Bhuyan, depois que a aposentadoria de Ravikumar exigiu a recomposição da turma. A audiência foi marcada para 7 de maio, às 14h; não há aqui confirmação do resultado dessa sessão.
As principais etapas mostram como a decisão original, as petições de revisão e as contestações mais amplas se desenvolveram:
- 27 de julho de 2022: A Suprema Corte manteve dispositivos importantes da PMLA no caso Vijay Madanlal Choudhary.
- 25 de agosto de 2022: Uma turma presidida pelo presidente da Suprema Corte, N.V. Ramana, notificou as partes nas petições de revisão e discutiu o acesso ao ECIR e a presunção de inocência.
- Antes de dezembro de 2023: Kaul presidiu o processo mais amplo de reconsideração, que não foi concluído antes de sua aposentadoria.
- Agosto de 2024: As petições de revisão foram adiadas para 28 de agosto, após a ED pedir tempo para se preparar.
- Uma pauta posterior para 7 de maio: A turma recomposta passou a incluir o juiz N. Kotiswar Singh após a aposentadoria do juiz Ravikumar.
Outra turma, composta pelos juízes Khanna, M.M. Sundresh e Trivedi, também analisava as petições mais amplas que pediam reconsideração e encaminhamento a uma turma ampliada. Distinguir os dois conjuntos de processos explica por que diferentes grupos de juízes aparecem no histórico do caso.
O caso de nomeações retirado da pauta de Kaul
A segunda grande alegação de Kaul diz respeito a petições por desacato relacionadas a atrasos nas nomeações judiciais. Ele e o juiz Sudhanshu Dhulia vinham pressionando o governo a agir sobre as recomendações do Collegium e criticaram o que descreveram como uma abordagem de "escolher a dedo".
O Collegium é o grupo de juízes mais antigos responsável por recomendar nomeações para os tribunais superiores. O governo processa essas recomendações e participa do processo de nomeação, que termina com a expedição de um decreto presidencial. Atrasos podem deixar nomeações recomendadas sem solução e vagas judiciais sem preenchimento.
Kaul disse que o caso foi retirado de repente da pauta de sua turma, a lista que identifica os processos a serem analisados pelos juízes. Mais tarde, um secretário da Suprema Corte lhe disse que uma nota interna indicava que talvez não tivesse sido obtida a autorização formal do presidente da Suprema Corte quando o caso lhe foi atribuído, dois anos antes. Essa foi a justificativa apresentada para retirá-lo da pauta.
Kaul disse ter apresentado sua queixa a Chandrachud. Questionado sobre a sugestão, em suas memórias, de que o presidente da Suprema Corte sofria pressão, disse que Chandrachud deve ter acreditado que ele não deveria continuar cuidando do caso. Perguntado se o governo havia influenciado o presidente da Suprema Corte a retirá-lo da pauta, Kaul disse que era difícil afirmar.
Cinco nomes aprovados e um sexto contestado
Kaul também descreveu atritos dentro do Collegium em torno de uma lista de possíveis nomeações. Segundo seu relato, os integrantes haviam concordado com cinco nomes para preencher seis vagas na Suprema Corte quando Chandrachud propôs um sexto candidato de última hora. Kaul e os demais integrantes não aceitaram a inclusão.
Durante a reunião, disse Kaul, Chandrachud o chamou à parte e perguntou se deveria telefonar para o governo para saber sua opinião. Kaul se opôs a isso enquanto o Collegium ainda deliberava. Segundo suas memórias, os cinco nomes aprovados seguiram adiante; o sexto, não.
Kaul sugeriu que Chandrachud talvez já tivesse obtido algum tipo de aprovação do governo para os nomes. Ele apresentou isso como uma suspeita. Sua objeção mais ampla era discutir uma lista inteira com o governo antes que os juízes decidissem formalmente quem recomendar.
Ao explicar sua posição na entrevista, Kaul disse que o momento e a forma da consulta eram questões centrais:
"Não acho que discutir seja algo ruim, mas o problema está no momento e na forma como isso acontece", disse ele.
Kaul alertou que um presidente da Suprema Corte com um mandato comparativamente longo poderia estabelecer uma prática difícil de contestar para sucessores com mandatos mais curtos. Ele disse que conversas prévias ocorreram antes e depois do mandato de Chandrachud, o que ampliava suas críticas para além da divergência pessoal entre os dois.
A casta de um candidato e uma divergência sobre firmeza
As memórias de Kaul relatam outra divergência envolvendo um candidato pertencente a uma religião minoritária. Ele disse que Chandrachud transmitiu perguntas do governo sobre a necessidade de ampliar a representação de minorias e sobre a casta da família do candidato, embora a família seguisse aquela religião havia gerações.
Kaul disse ter considerado a pergunta sobre a casta absurda e irrelevante. Contou que fechou o arquivo e saiu da sala após uma conversa adicional sobre uma posição do governo que não revelou em suas memórias. Segundo seu relato, a reunião foi suspensa e o candidato acabou aprovado depois que o governo cedeu.
Chandrachud disse não se lembrar de Kaul ter saído de uma reunião do Collegium. O ex-presidente da Suprema Corte descreveu as conversas entre eles nestes termos:
Tivemos boas conversas, diálogos ponderados e reuniões cordiais juntos no Collegium.
Chandrachud também disse que costumava aprovar uma resolução após cada reunião do Collegium e que não se lembrava de divergências registradas nessas resoluções. Ele defendeu a participação do governo no processo, apontando o papel do presidente da Índia na nomeação formal dos juízes.
As críticas de Kaul separaram as capacidades judiciais de Chandrachud de sua atuação administrativa. Ele elogiou sua inteligência, capacidade e dedicação ao trabalho na área judicial, mas argumentou que ele era deferente demais ao governo em questões de nomeação.
As críticas de Kaul se estendem ao sistema de nomeações
Kaul disse ter proposto uma postura conjunta mais firme nas tratativas com o governo depois que Chandrachud entrou para o Collegium, em junho de 2022. Segundo seu relato, Chandrachud geralmente preferia cuidar dessa relação por conta própria.
As memórias citam casos em que uma abordagem direta levou o governo a agir, incluindo a aprovação da nomeação de dois juízes para a Alta Corte de Delhi. O argumento de Kaul é que uma postura firme poderia produzir resultados sem transformar o tribunal em adversário político do governo.
Kaul também manifestou apoio a dar uma chance à Comissão Nacional de Nomeações Judiciais (NJAC). A Suprema Corte derrubou esse sistema alternativo de nomeações em 2015. Sua posição admite a participação do governo, mas questiona como a influência é exercida no processo atual.
Outro episódio dizia respeito à concessão do título de advogado sênior, uma condição profissional reconhecida pelo tribunal. Kaul disse ter ouvido posteriormente que algumas pessoas haviam recomendado adiar o processo até depois de sua aposentadoria, porque ele adotaria uma postura rigorosa. Ele reconheceu não ter certeza dessa explicação; os títulos foram concedidos em janeiro de 2024, depois de sua aposentadoria.
A disputa central envolve, portanto, decisões institucionais com efeitos práticos: qual turma analisa uma contestação aos poderes de prisão e concessão de fiança, por quanto tempo recomendações de nomeação ficam pendentes e em que momento o governo é consultado sobre os juízes indicados. Kaul apresentou um relato pessoal detalhado dessas decisões. Chandrachud ofereceu uma lembrança diferente de sua relação no Collegium e reservou uma resposta mais completa para depois de ler o livro.
Principais pontos
- O juiz Sanjay Kishan Kaul diz que o então presidente da Suprema Corte, D.Y. Chandrachud, pediu moderação no processo que buscava a reconsideração da decisão de 2022 sobre a PMLA.
- Kaul diz que a audiência mais ampla sobre a PMLA não foi concluída antes de sua aposentadoria, em dezembro de 2023.
- Oito petições de revisão separadas deram destaque ao acesso ao ECIR e à presunção de inocência.
- Kaul diz que um caso de nomeações judiciais foi retirado de sua pauta enquanto sua turma pressionava o governo por causa dos atrasos.
- Ele criticou as conversas com o governo antes de decisões formais do Collegium, embora aceite que haja espaço para consultas.
- Chandrachud descreveu como respeitoso o relacionamento dos dois no Collegium e disse não se lembrar de Kaul ter saído de uma reunião.






