Chamas se aproximam de cavernas com arte humana antiga
Incêndios florestais chegaram a 800 metros de uma caverna com pinturas pré-históricas na região de Maros-Pangkep, na Indonésia, enquanto mais de 270 hectares do parque nacional ao redor foram consumidos pelo fogo entre 30 de setembro e 18 de outubro, informou o bombeiro Muhammad Ikfar. Pesquisadores alertam que o calor e a fumaça podem acelerar os danos a obras que sobreviveram por dezenas de milhares de anos.
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Os incêndios ameaçam uma paisagem no sul de Sulawesi onde pesquisadores da Universidade Griffith, na Austrália, dataram em pelo menos 51.200 anos uma pintura que mostra figuras semelhantes a humanos interagindo com um porco. Em outra parte da região mais ampla de Sulawesi, um estêncil de mão avermelhado na ilha de Muna foi datado em pelo menos 67.800 anos e descrito como a pintura rupestre mais antiga descoberta até hoje com datação confiável.
Ikfar disse que os incêndios arderam perto do sítio de Maros-Pangkep por mais de uma semana no início de outubro. A fumaça se espalhou pelas formações calcárias ao redor da caverna enquanto bombeiros trabalhavam para conter as chamas. Seu relato, divulgado em 23 de outubro de 2026, apontou uma ameaça imediata ao patrimônio arqueológico em meio à emergência mais ampla de incêndios na Indonésia.
A Indonésia enfrenta os incêndios florestais e em áreas de terra mais intensos desde 2015, com condições severas de El Niño provocando temperaturas mais altas e menos chuva. Sumatra e Bornéu foram as áreas mais atingidas, mas os incêndios também se espalharam por paisagens protegidas no sul de Sulawesi.
O calor pode chegar além das chamas
Basran Burhan, arqueólogo da Universidade Griffith, apontou o calor como o perigo imediato mais destrutivo para as pinturas. Ele explicou que as mudanças de temperatura ao redor das obras poderiam acelerar sua deterioração mesmo com as chamas ainda do lado de fora das cavernas.
"O primeiro efeito, e o mais destrutivo, é o calor. Mesmo sem o fogo tocar diretamente nas pinturas, ele pode destruí-las porque altera a temperatura ao redor delas e acelera o processo de corrosão", disse Burhan.
O calcário fornece a superfície em que essas imagens antigas sobreviveram. Quando a rocha esquenta, ela se expande; quando esfria, se contrai. Mudanças fortes ou repetidas de temperatura podem gerar tensão, contribuindo para pequenas fraturas e para o descascamento das camadas superficiais. Se uma camada pintada se soltar, parte da imagem pode desaparecer com ela.
Os pesquisadores também estão preocupados com mudanças nos microclimas das cavernas, isto é, nas condições de temperatura e umidade imediatamente ao redor das pinturas. Essas condições locais são importantes porque a obra faz parte de uma superfície rochosa exposta, e não é um objeto que possa simplesmente ser retirado do perigo.
Variações de temperatura e umidade podem afetar os sais presentes no calcário. Quando se cristalizam, os sais podem pressionar a rocha ao redor e contribuir para a fragmentação da superfície. Esse processo, chamado haloclastia, é outra forma pela qual as mudanças nas condições podem ameaçar as camadas pintadas.
A fumaça ameaça a visibilidade das imagens
A fumaça traz outro tipo de perigo: partículas podem se depositar nas pinturas e encobrir suas formas. Burhan alertou que a fuligem poderia tornar as imagens cada vez mais difíceis de reconhecer.
"Elas formam fuligem sobre as pinturas e as encobrem, fazendo com que fiquem borradas e difíceis de identificar", disse ele.
Partículas finas e resíduos químicos transportados pela fumaça podem entrar nas cavernas e se depositar nas paredes pintadas. Em condições úmidas, esses depósitos podem aderir à superfície e escurecer ou descolorir as imagens. Remover contaminantes de obras antigas e frágeis pode ser difícil, pois é preciso proteger tanto o pigmento original quanto a rocha por baixo dele.
Calor e fumaça representam, portanto, dois problemas de conservação interligados. O calor pode afetar a superfície física que contém a arte, enquanto a fuligem pode ocultar os traços que os pesquisadores precisam examinar. Manter as chamas longe da entrada da caverna resolve apenas parte do perigo.
Pinturas diferentes, lugares diferentes
Maros-Pangkep e a ilha de Muna abrigam descobertas distintas. A atividade de incêndio nas proximidades descrita por Ikfar diz respeito a Maros-Pangkep, no sul de Sulawesi. O estêncil de mão datado em pelo menos 67.800 anos fica na ilha de Muna, próxima a Sulawesi, e não na caverna alcançada pelas chamas.
A pintura de Maros-Pangkep, datada em pelo menos 51.200 anos, retrata figuras semelhantes a humanos interagindo com um porco. Uma descrição da cena inclui uma figura que combina características humanas e animais, conhecida como teriantropo. Imagens como essa fornecem aos pesquisadores evidências materiais de como as pessoas representavam seres vivos no passado distante.
Outra descoberta, em Leang Tedongnge, no sul de Sulawesi, é uma pintura de um porco verrugoso-de-Sulawesi datada de aproximadamente 45.500 anos. Em conjunto, esses sítios mostram que a importância arqueológica da região se estende por várias cavernas e diferentes formas de representação.
A idade mínima atribuída ao estêncil de mão de Muna é 16.600 anos maior que a idade mínima da cena de Maros-Pangkep, considerando os números de 67.800 e 51.200 anos. As duas datas são idades mínimas, portanto as pinturas podem ser ainda mais antigas. Proteger esses lugares preserva partes distintas de um registro muito mais amplo da criatividade humana.
Uma emergência de incêndios em toda a paisagem protegida
As cavernas de Maros-Pangkep ficam em uma paisagem de formações calcárias associada a um parque nacional e a um Geoparque Global da UNESCO. Esse terreno, conhecido como carste, contém as cavernas que abrigam as pinturas. O fogo que se espalha pela vegetação ao redor pode levar calor e fumaça para perto desses abrigos rochosos.
O relato de Ikfar descreve como a emergência local se desenvolveu:
- De 30 de setembro a 18 de outubro: mais de 270 hectares do parque nacional foram consumidos pelo fogo.
- No início de outubro: incêndios arderam perto da caverna de Maros-Pangkep por mais de uma semana e chegaram a 800 metros dela.
- Na quinta e na sexta-feira em torno do relato de 23 de outubro: bombeiros continuaram combatendo incêndios em outras áreas do parque, em meio à seca e sem chuva.
A área queimada supera 2,7 quilômetros quadrados, conversão de mais de 270 hectares. Para as equipes que protegem as cavernas, a tarefa vai além de um único foco de incêndio nas proximidades: o fogo em outras áreas do parque pode continuar produzindo fumaça e ameaçando a vegetação ao redor.
El Niño é um padrão climático recorrente associado a águas excepcionalmente quentes em uma parte do oceano Pacífico tropical. Ele pode alterar os padrões de chuva muito além do próprio oceano. Na Indonésia, as condições severas descritas durante esta emergência reduziram as chuvas e aumentaram o calor, deixando florestas e áreas de turfa mais vulneráveis ao fogo.
Proteger a rocha e a floresta
Empresas que desmatam áreas para plantações de palma foram implicadas em muitos incêndios na Indonésia. A causa dos incêndios perto da caverna de Maros-Pangkep não foi identificada, e nenhuma avaliação detalhada dos danos às pinturas foi divulgada.
Burhan disse que sua equipe estava mapeando o impacto do fogo sobre sítios pré-históricos no Parque Nacional Bantimurung Bulusaraung. Ele pediu que os esforços para apagar os incêndios dentro e fora do parque fossem acelerados.
Arqueólogos que trabalham com a Universidade Griffith e a Agência Nacional de Pesquisa e Inovação da Indonésia, conhecida como BRIN, pediram a criação de aceiros e o aumento do monitoramento em torno de sítios vulneráveis. Aceiros são faixas sem vegetação destinadas a interromper o avanço do fogo. O monitoramento pode ajudar as equipes a acompanhar a aproximação das chamas e as mudanças ao redor das cavernas.
As ações de contenção incluíram a abertura de linhas para retardar o avanço do fogo e o lançamento de água. Bombeiros, guardas florestais e equipes de emergência têm a tarefa imediata de controlar os focos enquanto o tempo seco persistir.
Em 19 de outubro de 2026, o chefe do Parque Nacional Bantimurung Bulusaraung, Abdul Rajab, disse que o incêndio dentro do parque havia sido extinto na tarde anterior, mas ainda havia focos de calor fora dos limites da área, que poderiam fazer o fogo se espalhar de volta para o parque. O terreno cárstico íngreme e as fontes de água esgotadas pela seca prolongada dificultaram o combate às chamas.
Burhan pediu ações rápidas para proteger o registro arqueológico. Seu alerta se concentrou na possível perda de evidências que sobreviveram a um período imenso da história humana.
Se não fizermos algo a respeito rapidamente, se não houver esforços táticos de mitigação para este incidente, perderemos uma das evidências mais extraordinárias da história humana em Maros-Pangkep", disse Burhan. "E isso é uma grande pena.
Principais pontos
- Incêndios chegaram a 800 metros de uma caverna com arte pré-histórica em Maros-Pangkep, segundo o bombeiro Muhammad Ikfar.
- Mais de 270 hectares do parque nacional foram consumidos pelo fogo entre 30 de setembro e 18 de outubro.
- Pesquisadores alertam que o calor pode danificar as superfícies rochosas pintadas, enquanto a fuligem pode encobrir imagens antigas.
- Maros-Pangkep abriga uma cena datada em pelo menos 51.200 anos; o estêncil de mão datado em pelo menos 67.800 anos fica na ilha de Muna.
- Arqueólogos pediram a criação de aceiros e o aumento do monitoramento enquanto as equipes trabalham para conter os incêndios na paisagem protegida.






