Alerta vem após conversas em Bruxelas com representantes do Talibã
Especialistas em direitos humanos das Nações Unidas pediram aos governos da União Europeia que parem de enviar afegãos à força para lugares onde corram risco de sofrer danos graves. Eles alertaram que acordos de deportação com o Talibã devem respeitar as proteções internacionais contra perseguição, tortura e outras violações graves.
Conteúdo
- Alerta vem após conversas em Bruxelas com representantes do Talibã
- Quem corre perigo no Afeganistão?
- O que a proteção contra o retorno exige
- Cada pessoa precisa de uma avaliação individual
- Por que a visita a Bruxelas importa
- A educação de meninas é um teste concreto
- Ainda se aguardam respostas aos alertas formais
- Principais pontos
O alerta vem após a Comissão Europeia receber em Bruxelas, em junho de 2026, uma delegação do Talibã para discutir o retorno de cidadãos afegãos. A Comissão descreveu o encontro como técnico, enquanto o líder da delegação classificou a visita como histórica. Os especialistas disseram que o diálogo sem condições firmes de respeito aos direitos humanos pode contribuir para normalizar o governo do Talibã enquanto as violações generalizadas continuam.
Richard Bennett, relator especial da ONU sobre direitos humanos no Afeganistão, juntou-se a outros especialistas independentes para pedir que o risco enfrentado por cada pessoa seja avaliado antes de qualquer retorno. A declaração do grupo, divulgada em 22 de outubro de 2026, tratou tanto do tratamento dado aos afegãos sujeitos à deportação quanto dos termos do diálogo europeu com as autoridades do Talibã.
A principal preocupação dos especialistas é concreta: as pessoas enviadas de volta podem ser punidas por sua identidade, seu trabalho anterior ou sua oposição às políticas do Talibã. Mulheres e meninas enfrentam perseguição generalizada, enquanto ex-integrantes das forças de segurança, jornalistas, defensores dos direitos humanos e grupos minoritários estão entre os que correm risco de sofrer violações graves.
Quem corre perigo no Afeganistão?
Mulheres e meninas estavam no centro do alerta dos especialistas. O grupo descreveu uma perseguição generalizada e organizada e afirmou que sua escala pode configurar crimes contra a humanidade. O termo se refere a certos atos graves cometidos como parte de um ataque generalizado ou sistemático contra civis.
Os especialistas da ONU, entre eles Bennett e integrantes do Grupo de Trabalho sobre discriminação contra mulheres e meninas, descreveram a situação em uma declaração conjunta:
A situação dos direitos humanos no Afeganistão continua crítica. Mulheres e meninas sofrem perseguição de gênero em escala tão generalizada e sistemática que os atos podem configurar crimes contra a humanidade", disseram os especialistas.
"Há violações graves, incluindo tortura e execuções extrajudiciais contra outros grupos, como minorias étnicas e religiosas, defensores dos direitos humanos, jornalistas, pessoas lésbicas, gays, bissexuais, trans e de outras identidades de gênero diversas, ex-integrantes das Forças Nacionais de Segurança e Defesa do Afeganistão e determinados servidores públicos.
As preocupações também abrangem minorias étnicas e religiosas, defensores dos direitos humanos, jornalistas, pessoas lésbicas, gays, bissexuais, trans e de outras identidades de gênero diversas, ex-integrantes das forças de segurança afegãs e alguns ex-funcionários do governo. Os especialistas citaram relatos de tortura, mortes sem processo judicial legal e outras violações graves contra esses grupos.
O histórico profissional de uma pessoa pode, portanto, ser determinante na decisão de retorno. Ter servido nas Forças Nacionais de Segurança e Defesa do Afeganistão, defendido os direitos humanos ou trabalhado como jornalista pode gerar riscos que as autoridades de imigração precisam avaliar. A análise deve levar em conta as circunstâncias individuais e as condições no Afeganistão.
O que a proteção contra o retorno exige
Os governos europeus estão sujeitos ao princípio da não devolução. Em termos simples, ele proíbe enviar alguém a um país onde essa pessoa corra risco real de perseguição ou de determinadas formas de dano grave.
Os especialistas apontaram riscos como privação arbitrária da vida, tortura ou outros tratamentos cruéis, desaparecimento forçado, detenção arbitrária e negação flagrante da justiça. Desaparecimento forçado ocorre quando alguém é detido ou levado e as autoridades ocultam seu paradeiro ou destino. Detenção arbitrária é a prisão sem base legal adequada ou sem as garantias exigidas pela lei.
Quatro tratados fundamentam as obrigações destacadas pelos especialistas: a Convenção contra a Tortura, o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, a Convenção sobre Refugiados e a Convenção Europeia dos Direitos Humanos. Esses acordos preveem proteções relevantes para decisões sobre o envio de pessoas para outros países.
Os esforços europeus para organizar retornos têm se concentrado em afegãos cujos pedidos de asilo foram rejeitados, cuja situação migratória é irregular ou que são considerados riscos à segurança. O alerta dos especialistas coloca no centro dessas decisões o perigo que cada pessoa pode enfrentar. A justificativa de um governo para deportar alguém deve ser considerada junto com suas obrigações vinculantes de não devolver pessoas a situações de dano grave.
Cada pessoa precisa de uma avaliação individual
As autoridades de imigração precisam examinar as circunstâncias de cada pessoa antes de realizar um retorno, disseram os especialistas. Isso exige atenção à identidade da pessoa, ao que ela fez e aos motivos pelos quais pode ser alvo de perseguição ao chegar ao Afeganistão.
Os especialistas da ONU explicaram a exigência processual na declaração:
Os Estados devem garantir avaliações individualizadas de risco antes do retorno", disseram os especialistas. "Retornos involuntários exigem o devido processo legal. Garantias diplomáticas do Estado de destino não desobrigam os Estados de suas obrigações internacionais e não devem ser usadas como brecha para enfraquecer o princípio da não devolução.
O grupo também afirmou que retornos involuntários exigem o devido processo legal. Isso significa seguir procedimentos legais que deem às pessoas uma oportunidade efetiva de terem suas circunstâncias consideradas antes de o governo agir. Para alguém sujeito à deportação, o processo pode determinar se o histórico de ameaças, perseguição ou serviço público será examinado a tempo.
As garantias diplomáticas também preocupam os especialistas. Uma autoridade do país que recebe a pessoa pode prometer que ela será tratada com segurança. Segundo o grupo, essas promessas não desobrigam os governos europeus de suas responsabilidades internacionais nem permitem contornar a proibição de enviar pessoas para situações de perigo.
A responsabilidade, portanto, continua sendo do governo que realiza a deportação. Organizar um voo ou obter a cooperação das autoridades afegãs deve vir acompanhado de uma decisão legal sobre os riscos enfrentados pela pessoa que será enviada de volta.
Por que a visita a Bruxelas importa
A visita de junho de 2026 foi a primeira visita oficial de uma delegação do Talibã a Bruxelas. O objetivo estava ligado aos esforços europeus para organizar retornos, aproximando discussões práticas sobre migração da questão mais ampla de como as instituições europeias lidam com as autoridades do Talibã.
Ao descrever o encontro como técnico, a Comissão destacou seu objetivo prático. Já o líder da delegação, ao classificá-lo como histórico, apresentou a visita como um evento político de grande importância. Essas diferentes descrições ajudam a explicar a preocupação dos especialistas de que a cooperação em torno das deportações também possa aumentar a aceitação do Talibã.
A declaração conjunta dos especialistas atribuiu a classificação de "técnico" ao porta-voz da Comissão e a de "histórico" ao líder da delegação do Talibã.
Alguns países europeus ampliaram os contatos técnicos com as autoridades do Talibã para organizar retornos. Os especialistas também manifestaram preocupação com a aceitação de funcionários consulares do Talibã no território de alguns países-membros da UE, enquanto as discussões sobre deportações continuam. Funcionários consulares cuidam de assuntos relacionados aos cidadãos de um país, incluindo documentos e serviços administrativos.
Os especialistas alertaram que o diálogo europeu precisa de condições claras que exijam avanços em direitos humanos. A preocupação vai além dos encontros em si e abrange o que as autoridades do Talibã obtêm com eles enquanto as restrições e violações continuam.
O grupo da ONU explicou sua preocupação na declaração conjunta:
Continuamos preocupados que esse tipo de diálogo, sem linhas vermelhas claras que exijam avanços no respeito aos direitos humanos, leve à normalização de graves violações dos direitos humanos pelo Talibã, incluindo a perseguição de gênero", disseram os especialistas. "Ainda assim, alguns países-membros europeus continuam essas 'discussões técnicas' para viabilizar e preparar deportações e aceitaram funcionários consulares do Talibã em seus territórios.
A educação de meninas é um teste concreto
Os especialistas apontaram uma mudança específica que os governos europeus deveriam exigir: o fim da proibição à educação de meninas e mulheres após o sexto ano. O pedido vincula o diálogo diplomático a uma medida que afeta diretamente o cotidiano no Afeganistão.
Para as meninas excluídas das salas de aula depois desse período, a mudança da política significaria a oportunidade de continuar os estudos. Para os governos europeus, ela oferece uma condição concreta para avaliar se as relações com as autoridades do Talibã vêm acompanhadas de avanços nos direitos humanos.
Os especialistas expuseram sua posição sobre a normalização e a educação em conjunto:
Não deve haver normalização nem legitimação do Talibã sem avanços concretos em direitos humanos, incluindo o fim da proibição à educação de meninas e mulheres após o sexto ano.
O grupo também pediu aos países-membros da UE que aumentem a pressão por avanços na situação dos direitos humanos no Afeganistão. A exigência vincula a proteção dos afegãos que já estão na Europa ao tratamento das pessoas que vivem sob o governo do Talibã.
"Pedimos aos países-membros da UE que intensifiquem os esforços de defesa dos direitos humanos para melhorar a situação no Afeganistão", disseram.
Ainda se aguardam respostas aos alertas formais
Bennett afirmou em uma publicação no X que se juntou a outros titulares de mandatos da ONU para pedir à UE e a outros países que não enviem afegãos de volta a lugares onde corram perigo. Ele também disse que aguardava respostas a comunicações formais enviadas à UE e a vários países. Não foi informado nenhum prazo para as respostas nem a data de uma próxima reunião.
A declaração conjunta de 22 de outubro confirmou que os especialistas haviam entrado em contato formalmente com a União Europeia e com os governos de vários países-membros da UE sobre o assunto.
Entre os especialistas envolvidos estão Cecilia M. Bailliet, especialista independente sobre direitos humanos e solidariedade internacional; Gehad Madi, relator especial sobre os direitos humanos dos migrantes; e Ben Saul, relator especial sobre direitos humanos no combate ao terrorismo. Também participaram integrantes do Grupo de Trabalho da ONU sobre discriminação contra mulheres e meninas.
Os integrantes do Grupo de Trabalho que participaram foram Ivana Krstić, presidente do grupo; Haina Lu, vice-presidente; Dorothy Estrada-Tanck; Claudia Flores; e Laura Nyirinkindi.
Os principais desdobramentos envolvem as conversas em Bruxelas, o alerta público e as comunicações formais com os governos:
- Junho de 2026: A Comissão Europeia recebeu em Bruxelas a primeira delegação oficial do Talibã para discutir o retorno de cidadãos afegãos.
- 22 de outubro de 2026: Especialistas da ONU divulgaram um alerta sobre deportações, avaliações individuais de risco e o diálogo europeu com as autoridades do Talibã.
- Após o alerta: Bennett afirmou que ainda aguardava respostas às comunicações formais enviadas à UE e a vários países.
Para os afegãos sujeitos à deportação, a questão imediata é saber se as autoridades avaliarão plenamente os riscos antes de realizar o retorno. Para os governos europeus, as exigências dos especialistas dizem respeito tanto à legalidade das deportações individuais quanto às condições de respeito aos direitos humanos impostas à cooperação com o Talibã.
Principais pontos
- Especialistas da ONU pediram aos governos da UE que não enviem afegãos de volta a lugares onde corram risco de perseguição ou outros danos graves.
- Cada pessoa deve receber uma avaliação individual de risco, com garantia do devido processo legal antes de um retorno involuntário.
- Os especialistas apontaram riscos graves para mulheres e meninas, minorias, jornalistas, defensores dos direitos humanos e alguns ex-integrantes das forças de segurança e do governo.
- Garantias diplomáticas não eliminam as responsabilidades jurídicas internacionais do governo que realiza o retorno.
- Os especialistas pediram avanços concretos em direitos humanos, incluindo acesso à educação após o sexto ano, antes da normalização das relações com o Talibã.
- Bennett afirmou que ainda aguardava respostas às comunicações formais enviadas à UE e a vários países.






