O Nepal enfrenta um teste de aplicação das regras, não apenas de legislação
O Nepal permaneceu na lista cinza do Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI) após a plenária realizada em Paris, de 17 a 19 de junho de 2026. Investigadores, promotores e reguladores financeiros continuam sob pressão para demonstrar resultados mais expressivos no combate ao dinheiro de origem criminosa. O país voltou a ficar sob monitoramento intensificado em 21 de fevereiro de 2025, mais de uma década depois de deixar um processo anterior de monitoramento, em junho de 2014.
Conteúdo
- O Nepal enfrenta um teste de aplicação das regras, não apenas de legislação
- O que significa o monitoramento intensificado
- Como o Nepal voltou à lista
- O que o GAFI espera que o Nepal faça
- Por que os poderes de investigação estão sob escrutínio
- Mais comunicações de operações suspeitas, mas pressão por resultados judiciais
- Por que o dinheiro em espécie e as transferências informais dificultam as investigações
- O que a inclusão na lista muda para famílias e empresas
- Próximos passos e o que mostram as comparações
- Pontos principais
O problema central é a distância entre mudar as leis e fazê-las funcionar. Uma avaliação regional baseada em uma revisão de janeiro de 2026 constatou avanços relevantes em nove dos 15 itens do plano de ação do Nepal, enquanto seis foram implementados apenas parcialmente. Autoridades nepalesas afirmam que fizeram novos avanços desde essa avaliação.
Os registros de inteligência financeira cresceram rapidamente. A Unidade de Inteligência Financeira do Nepal Rastra Bank recebeu 9.565 comunicações de transações e atividades suspeitas no ano fiscal de 2024–25, ante 7.338 no ano anterior. Ainda assim, o GAFI continua cobrando mais investigações, processos judiciais e recuperação de ativos de origem criminosa, além de uma supervisão mais rigorosa de empresas vulneráveis a abusos.
Para famílias que recebem dinheiro de parentes no exterior e empresas que pagam fornecedores estrangeiros, as consequências podem ser práticas: mais pedidos de documentos, prazos de processamento maiores e custos bancários mais altos. O desafio do Nepal é reforçar as salvaguardas financeiras sem dificultar o acesso a pagamentos legítimos.
O que significa o monitoramento intensificado
O GAFI estabelece padrões internacionais contra a lavagem de dinheiro, o financiamento do terrorismo e o financiamento da proliferação de armas. Lavagem de dinheiro é a prática de disfarçar recursos obtidos por meio de crimes para que pareçam legítimos. O financiamento do terrorismo diz respeito ao custeio de atividades terroristas, enquanto o financiamento da proliferação envolve o financiamento da disseminação de armas de destruição em massa.
O registro do Nepal por país na organização indica 21 de fevereiro de 2025 como a data em que o Nepal entrou no monitoramento intensificado, junto com a República Democrática Popular do Laos. Os países nesse processo se comprometem a corrigir fragilidades por meio de um plano de ação acordado e de avaliações periódicas.
Bancos estrangeiros podem passar a examinar com mais atenção as transações nepalesas. Um banco correspondente, que ajuda outro banco a fazer pagamentos internacionais, pode solicitar informações adicionais sobre os clientes, a finalidade de uma transferência ou a origem dos recursos. Isso aumenta o trabalho tanto para os bancos quanto para os clientes.
O Nepal continua conectado às finanças internacionais durante o monitoramento intensificado. A pressão imediata se manifesta na fiscalização mais rigorosa e nas decisões comerciais de bancos e investidores. Durante reuniões em Catmandu, em maio, uma delegação do Grupo Ásia-Pacífico sobre Lavagem de Dinheiro advertiu que as deficiências persistentes poderiam levar o Nepal a uma classificação mais grave.
Como o Nepal voltou à lista
O Nepal integra o Grupo Ásia-Pacífico sobre Lavagem de Dinheiro, ou APG, que avalia os membros com base nos padrões do GAFI. A página de avaliação mútua do GAFI identifica a participação do Nepal no APG e direciona os leitores à avaliação regional.
A avaliação publicada em janeiro de 2024 examinou tanto a conformidade com as 40 Recomendações do GAFI quanto a eficácia do sistema do Nepal. As conclusões se basearam em uma inspeção realizada de 5 a 16 de dezembro de 2022. Avaliações posteriores acompanharam os esforços para corrigir as fragilidades.
- 27 de junho de 2014: o GAFI reconheceu os avanços do Nepal e retirou o país do processo de monitoramento anterior.
- 5 a 16 de dezembro de 2022: avaliadores realizaram a inspeção que serviu de base para a avaliação publicada em janeiro de 2024.
- 21 de fevereiro de 2025: o Nepal voltou ao monitoramento intensificado e se comprometeu a fazer reformas com o GAFI e o APG.
- Janeiro de 2026: uma revisão de progresso serviu de base para a avaliação do APG, que apontou avanços relevantes em nove itens e implementação parcial em seis.
- Maio de 2026: uma delegação do APG visitou Catmandu, e o GAFI publicou, em 22 de maio, um relatório de acompanhamento da conformidade técnica.
- 19 de junho de 2026: o Nepal continuou sob monitoramento intensificado após a plenária de Paris.
O acompanhamento de maio tratou da conformidade técnica, isto é, se as leis e os mecanismos formais atendem aos padrões. A decisão de junho também refletiu a exigência mais ampla de supervisão eficaz, investigações e aplicação da lei.
O que o GAFI espera que o Nepal faça
A agenda de reformas do GAFI se concentra em como o Nepal compreende os riscos de crimes financeiros, supervisiona setores vulneráveis, interrompe transferências ilegais e rastreia o patrimônio de origem criminosa. Espera-se que os reguladores concentrem a atenção onde os riscos são maiores, em vez de aplicar o mesmo grau de fiscalização em todos os casos.
Bancos comerciais, cooperativas mais expostas a abusos, cassinos, empresas imobiliárias e comerciantes de metais e pedras preciosas estão entre os setores sob atenção. Todos podem servir para movimentar ou guardar grandes somas, o que torna especialmente importantes as verificações de clientes, de propriedade e da origem dos recursos.
Os serviços ilegais de transferência de dinheiro ou valores, conhecidos comumente como hundi no Nepal, também são prioritários. Essas redes podem transferir valores entre países sem que uma transferência bancária convencional conecte o remetente ao destinatário. O GAFI quer que o Nepal identifique e sancione operadores ilegais relevantes, sem restringir o acesso a serviços financeiros legítimos.
Os investigadores também precisam seguir o dinheiro depois de identificar o crime que lhe deu origem. As autoridades devem identificar os ativos, rastrear sua propriedade, impedir que sejam alienados, apreendê-los e pedir seu confisco quando a lei permitir. Confisco é o processo legal pelo qual bens de origem criminosa são retirados de forma definitiva.
Nove itens com avanços relevantes em um total de 15 equivalem a 60% do plano de ação. Os seis restantes representam 40%. Esses números descrevem a avaliação do APG sobre o progresso, não a quantidade de reformas concluídas integralmente, o que ajuda a explicar por que o Nepal permaneceu na lista apesar dos avanços.
Por que os poderes de investigação estão sob escrutínio
O Nepal mudou sua estrutura de investigação em abril de 2024, autorizando 13 órgãos a investigar lavagem de dinheiro relacionada a crimes dentro de suas respectivas atribuições. Entre eles estavam órgãos ligados à Polícia do Nepal, à Comissão de Investigação de Abuso de Autoridade, a investigadores de receitas públicas, às autoridades florestais e à administração de parques nacionais.
O arranjo vinculou as investigações de lavagem de dinheiro às apurações dos crimes antecedentes. Crime antecedente é aquele que gera o dinheiro, como suborno, tráfico ou sonegação fiscal. Investigar os dois em conjunto pode ajudar as autoridades a relacionar a atividade criminosa aos bens adquiridos com os recursos obtidos.
As mudanças de abril limitaram a capacidade do Departamento de Investigação de Lavagem de Dinheiro de registrar e investigar novos casos de forma independente nesse arranjo. Uma portaria publicada em 1º de maio de 2026 restabeleceu sua autoridade sobre crimes específicos, incluindo contrabando, crimes aduaneiros e sonegação fiscal, crimes bancários, manipulação de mercado, uso de informação privilegiada e violações cambiais.
A delegação do APG, liderada pelo vice-secretário-executivo David Shannon, questionou a justificativa para mudar novamente o arranjo e se investigadores, reguladores e promotores haviam sido consultados adequadamente. A delegação também manifestou preocupação com interferências institucionais, coordenação deficiente e tratamento dos ativos de origem criminosa.
A questão prática é saber se os órgãos conseguem compartilhar informações e conduzir casos sem incerteza sobre suas responsabilidades. Mudanças repetidas nas atribuições exigem procedimentos de trabalho claros para que provas, inteligência financeira e decisões de acusação passem pelos órgãos competentes.
Mais comunicações de operações suspeitas, mas pressão por resultados judiciais
Os números anuais da Unidade de Inteligência Financeira mostram um forte aumento nas comunicações: 5.335 registros de transações e atividades suspeitas no ano fiscal de 2022–23, 7.338 em 2023–24 e 9.565 em 2024–25. O aumento mais recente foi de 2.227 registros, ou 30,34%.
Os bancos comerciais enviaram 7.303 registros em 2024–25, cerca de 76% do total. Bancos de desenvolvimento enviaram 708, corretoras de valores mobiliários, 491, financeiras, 355, e seguradoras, 244. Cooperativas enviaram 36 e cassinos, dois, embora ambos os setores estejam em foco na agenda de reformas.
Uma comunicação de atividade suspeita alerta a unidade de inteligência para uma operação que precisa ser examinada. Em seguida, os investigadores precisam determinar a origem do dinheiro, se houve crime e se há provas para sustentar uma acusação. Esse processo exige registros financeiros, cooperação entre órgãos e profissionais capazes de analisar transações complexas.
O porta-voz da polícia, Abi Narayan Kafle, afirmou que a Polícia do Nepal apresentou 21 casos de lavagem de dinheiro à Justiça e tinha outros 36 em investigação. A polícia também informou que há uma divisão específica para crimes financeiros no Escritório Central de Investigação e que investigações paralelas de lavagem de dinheiro são conduzidas junto com apurações de crimes graves.
O GAFI exige uma cadeia de resultados mais sólida: alertas úteis, investigações bem fundamentadas, processos judiciais e recuperação de bens de origem criminosa. O número de comunicações mostra quanto de informação entra nessa cadeia; os resultados da aplicação da lei mostram o que as autoridades conseguem fazer com ela.
Por que o dinheiro em espécie e as transferências informais dificultam as investigações
O uso generalizado de dinheiro em espécie no Nepal dificulta as investigações financeiras. Rendimentos agrícolas, salários diários, pequenas lojas e transações domésticas costumam deixar menos registros do que salários ou compras pagas por meio de bancos. Os investigadores precisam reconstruir esses fluxos de dinheiro para verificar se a riqueza tem origem legítima.
A fronteira aberta com a Índia cria outros desafios para monitorar dinheiro em espécie, ouro, moeda estrangeira e mercadorias. As redes de hundi também podem separar a movimentação de recursos dos registros que normalmente ajudam as autoridades a identificar remetentes, destinatários e a finalidade dos pagamentos.
Transações imobiliárias apresentam outra dificuldade quando o valor registrado em documentos oficiais difere do valor efetivamente pago. Empresas de fachada, que podem deter ativos enquanto ocultam quem realmente as controla, aumentam o trabalho dos investigadores que tentam identificar os proprietários.
Para clientes comuns, uma abordagem baseada em risco significa que as verificações devem levar em conta a natureza e o valor de cada transação. Os bancos podem pedir comprovantes para depósitos excepcionalmente altos, grandes negócios imobiliários ou transferências incompatíveis com a renda conhecida de um cliente. Manter registros básicos de compras de valor elevado, rendimentos comerciais e venda de imóveis pode ajudar a comprovar a legitimidade dos recursos.
A orientação do GAFI para combater as transferências ilegais sem prejudicar a inclusão financeira é importante nesse contexto. Famílias de áreas rurais e trabalhadores no exterior precisam de serviços formais acessíveis e a preços razoáveis. A aplicação mais rigorosa das regras funciona melhor quando esses clientes podem usar canais legais sem dificuldades desnecessárias.
O que a inclusão na lista muda para famílias e empresas
Um trabalhador que envia seus rendimentos para casa pode receber pedidos de mais informações sobre seu emprego ou sobre o destinatário. Um importador talvez precise apresentar documentos adicionais antes que um banco estrangeiro processe o pagamento. Um potencial investidor pode levar mais tempo para obter aprovação de conformidade antes de aplicar recursos.
Bancos estrangeiros também podem rever relações comerciais que considerem caras de monitorar. Quando um banco reduz ou encerra essas relações, as instituições nepalesas podem ficar com menos canais de pagamento ou serviços mais caros. Esses custos podem chegar aos clientes na forma de tarifas e atrasos.
O financiamento ao desenvolvimento também está sujeito a maior escrutínio. Autoridades alertaram que credores internacionais podem impor condições mais rigorosas ou reduzir a assistência. As decisões sobre empréstimos específicos dependem das instituições envolvidas; os relatos da revisão de junho não apontaram nenhuma redução específica da assistência.
Por isso, o interesse econômico do Nepal vai além de conseguir sair de uma lista. Uma supervisão melhor e investigações confiáveis podem proteger os depositantes, ajudar empresas legítimas a explicar suas transações e facilitar a avaliação de riscos por parceiros estrangeiros.
Próximos passos e o que mostram as comparações
Durante a revisão de maio, foi informado que o plano de ação do Nepal previa dois anos a partir de 21 de fevereiro de 2025, o que aponta para fevereiro de 2027. O relato da plenária de junho menciona um prazo que se estende até meados de 2027. Não está clara, nessas informações, uma única data de conclusão confirmada.
Mahesh Acharya, chefe da Divisão de Gestão do Setor Financeiro e Coordenação de Corporações do Ministério das Finanças, descreveu a resposta do Nepal após as conversas com o APG:
"O lado nepalês também se comprometeu a implementar o plano de ação com eficácia", afirmou Acharya.
Outros países mostram que a lista muda à medida que as avaliações avançam. As Filipinas saíram do monitoramento intensificado em fevereiro de 2025, mês em que o Nepal entrou. Croácia e Mali saíram em junho de 2025, seguidos por Moçambique, Nigéria e África do Sul em outubro. Bósnia e Herzegovina e Iraque foram incluídos em junho de 2026.
As Ilhas Virgens Britânicas entraram no monitoramento intensificado em junho de 2025, um exemplo relevante nos debates sobre centros offshore de alta renda. O GAFI avalia as salvaguardas legais e sua eficácia, inclusive se as autoridades conseguem identificar proprietários e investigar recursos de origem criminosa. A tarefa imediata do Nepal é igualmente concreta: demonstrar uma supervisão mais rigorosa, investigações coordenadas e recuperação de ativos de origem criminosa.
Pontos principais
- O Nepal permaneceu na lista cinza do GAFI após a plenária realizada em Paris, de 17 a 19 de junho de 2026.
- Com base em uma revisão de janeiro de 2026, o APG constatou avanços relevantes em nove dos 15 itens do plano de ação, enquanto seis foram implementados parcialmente.
- As comunicações de transações e atividades suspeitas chegaram a 9.565 no ano fiscal de 2024–25, um aumento de 30,34%.
- A Polícia do Nepal informou que apresentou 21 casos de lavagem de dinheiro à Justiça e que outros 36 estavam em investigação.
- O GAFI cobra uma supervisão mais rigorosa, medidas contra operadores ilegais relevantes de hundi, mais processos judiciais e melhor recuperação de ativos de origem criminosa.
- O escrutínio mais rigoroso de bancos internacionais pode aumentar a documentação exigida, os atrasos e os custos de transações nepalesas legítimas.






