Um mistério em uma vila com uma história mais longa do que se relatou inicialmente
O Centro Nacional Nuclear do Cazaquistão registrou mais de 140 episódios de uma misteriosa doença do sono até 19 de janeiro de 2015, em uma investigação que acabou se estendendo de abril de 2014 a novembro de 2016. Moradores de Kalachi e da vizinha Krasnogorsk, no norte do Cazaquistão, entravam em estados prolongados de sono ou inconsciência, que às vezes duravam até seis dias.
Conteúdo
- Um mistério em uma vila com uma história mais longa do que se relatou inicialmente
- O que aconteceu com as pessoas afetadas?
- Como a investigação se desenrolou
- Por que os investigadores examinaram a mina de urânio
- O que as medições do ar mostraram
- Por que a explicação oficial se tornou menos simples
- Por que a hipótese sobre a água subterrânea continua sendo diferente
- A mudança dos moradores alterou vidas antes de a ciência chegar a uma conclusão
- O que o fim dos episódios relatados deixa sem resposta
- Principais pontos
O relato do centro também situa os primeiros sintomas em julho de 2012, antes do início na primavera de 2013, período amplamente associado ao surto. Mais pessoas procuraram atendimento médico em 2013, quando a doença começou a chamar a atenção do público.
Crianças adormeciam na escola. Adultos ficavam incapacitados durante atividades corriqueiras. Alguns pacientes tiveram episódios repetidos, seguidos de dores de cabeça, fraqueza, perda de memória e confusão. Os moradores também relataram alucinações assustadoras.
As autoridades acabaram apontando o monóxido de carbono e outros gases, enquanto pesquisadores da Universidade Nazarbayev propuseram a contaminação do lençol freático compartilhado. O relato ambiental oficial mais detalhado descreve uma possível combinação de poluentes e redução do oxigênio, em vez de um único fator desencadeante confirmado.
Assim, a investigação deixa duas histórias interligadas: uma doença grave que desorganizou a vida na vila e a busca por sua causa, na qual os anúncios públicos soaram mais definitivos do que o relato científico posterior.
O que aconteceu com as pessoas afetadas?
O morador de Kalachi Viktor Kazachenko contou que perdeu a consciência enquanto viajava de motocicleta com a esposa. Segundo ele, saiu em 28 de agosto e voltou a perceber o que acontecia ao seu redor no hospital, em 2 de setembro. Foi seu segundo episódio; o primeiro havia durado três dias.
Ao explicar a perda súbita de consciência, Kazachenko disse:
Meu cérebro desligou.
A recuperação foi além de acordar. Ele relatou fortes dores de cabeça, aumento da pressão arterial e sofrimento duradouro. Outros moradores disseram ter sentido tontura, náusea e exaustão mesmo depois do fim do sono prolongado.
Igor Samusenko, cujo filho foi afetado, descreveu a dificuldade de acordar uma criança durante um episódio:
Quando você tenta acordá-lo, parece que ele quer abrir os olhos, mas não consegue. Ele simplesmente dorme e dorme.
Os médicos usaram a expressão "encefalopatia de origem desconhecida" para alguns pacientes. Encefalopatia é um distúrbio que afeta o funcionamento do cérebro; a expressão refletia a incerteza sobre o que estava deixando as pessoas doentes.
Os números variavam porque alguns moradores adoeceram várias vezes. Em março de 2015, os relatos mencionavam mais de 120 moradores afetados e 152 episódios, incluindo dois em 1º de março. O número anterior do Centro Nacional Nuclear, de mais de 140, também se referia a episódios registrados. É necessário distinguir pessoas de episódios ao descrever a dimensão da propagação da doença.
Como a investigação se desenrolou
O Cazaquistão mobilizou uma ampla investigação. Até o fim de 2014, mais de 20 mil exames laboratoriais e clínicos haviam analisado o ar, o solo, a água, os alimentos, os animais, os materiais de construção e os moradores. Pacientes também foram encaminhados a hospitais de Astana para exames complementares.
Os principais acontecimentos se estenderam por vários anos:
- Julho de 2012: O relato posterior do Centro Nacional Nuclear situa neste mês os primeiros sintomas registrados.
- 2013: Mais moradores procuraram atendimento médico e a atenção pública aumentou.
- Abril de 2014: O centro iniciou sua investigação ambiental abrangente.
- Janeiro de 2015: A transferência de moradores estava em andamento, e o centro havia registrado mais de 140 episódios até 19 de janeiro.
- Março de 2015: O total divulgado chegou a 152 episódios.
- 2015: O vice-primeiro-ministro Berdibek Saparbaev anunciou uma explicação envolvendo monóxido de carbono, hidrocarbonetos e redução do oxigênio.
- Novembro de 2016: O estudo abrangente do centro foi concluído.
- 23 de maio de 2022: O centro publicou um relato retrospectivo de suas conclusões.
- 10 de novembro de 2023: O diretor do instituto, Asan Aidarkhanov, voltou a apontar o monóxido de carbono como causa provável.
O estudo do Centro Nacional Nuclear é particularmente útil porque reúne medições, explicações propostas e observações do monitoramento realizado após o período principal do surto.
Por que os investigadores examinaram a mina de urânio
A mina de urânio soviética abandonada ao lado das localidades era um foco óbvio para moradores e investigadores. Ela havia sido fechada na década de 1990, e suas galerias poderiam ser examinadas como possíveis fontes de radiação, gases ou contaminação.
O Centro Nacional Nuclear mediu uma radiação gama de fundo entre 0,10 e 0,12 microsievert por hora, nível que classificou como normal. Os exames dos moradores não detectaram quantidades elevadas ou excessivas de substâncias radioativas em seus organismos.
A pesquisa ambiental identificou fragmentos isolados de rocha com maior concentração de urânio natural, associados à antiga atividade de mineração. No ambiente mais amplo da vila, porém, o centro descreveu as substâncias radioativas naturais como típicas do Cazaquistão.
O radônio exigiu uma análise específica. Esse gás radioativo pode escapar naturalmente do solo com urânio e se acumular dentro de edifícios. O centro registrou concentrações máximas de 1.500 becqueréis por metro cúbico em ambientes residenciais e de 15 mil em porões. O becquerel mede o decaimento radioativo, enquanto o volume indica a quantidade de ar em que ele foi medido.
As concentrações médias de radônio em ambientes internos foram de 180 becqueréis por metro cúbico em 2015 e 130 em 2016. Essas médias foram muito inferiores às maiores medições individuais, o que mostra a variação das condições entre os espaços.
O centro enviou os resultados sobre radiação ao Instituto Nacional de Proteção Radiológica, em Praga, e à Agência Médico-Biológica da Rússia. As avaliações dessas instituições respaldaram a conclusão de que era improvável que a radiação explicasse a síndrome do sono. Em seguida, os investigadores concentraram mais atenção na composição do ar respirado pelos moradores.
O que as medições do ar mostraram
O Centro Nacional Nuclear registrou concentrações médias de monóxido de carbono em ambientes internos de 10 miligramas por metro cúbico e concentrações de dióxido de carbono de 0,1%. Também detectou hidrocarbonetos, incluindo benzeno, tolueno e formas de xileno, em concentrações que variavam com o tempo.
O monóxido de carbono, ou CO, interfere na capacidade do sangue de transportar oxigênio. O dióxido de carbono, ou CO2, é outro gás. O oxigênio é necessário para que o cérebro e outros órgãos continuem funcionando. Os investigadores avaliaram se alterações conjuntas em vários desses gases poderiam explicar os sintomas.
Segundo o centro, as concentrações de oxigênio às vezes caíam para 19,5% durante períodos de quatro a seis dias. O relato afirma que os episódios se tornavam mais frequentes quando aumentavam as concentrações de monóxido e dióxido de carbono enquanto a de oxigênio diminuía.
Sergey Lukashenko, então diretor do instituto de segurança radiológica do centro, disse em janeiro de 2015 que o monóxido de carbono em algumas casas afetadas era dez vezes superior ao nível recomendado. Segundo ele, essa exposição poderia provocar sintomas semelhantes aos relatados pelos moradores.
O centro também encontrou níveis excessivos de monóxido de carbono durante o uso de fogões. Isso levou os investigadores a considerar uma fonte dentro das casas da vila, além da possibilidade de gases subirem do subsolo por estruturas geológicas.
Os pesquisadores examinaram a carboxi-hemoglobina no sangue dos moradores como indicador de exposição ao monóxido de carbono. Ela se forma quando o monóxido de carbono se liga à proteína que normalmente transporta oxigênio. O relato retrospectivo menciona esses exames, mas não apresenta resultados dos pacientes que relacionem cada episódio a uma exposição medida.
Por que a explicação oficial se tornou menos simples
Em 2015, o vice-primeiro-ministro Berdibek Saparbaev apresentou a explicação baseada em gases como uma solução para o mistério. Ele relacionou a doença à mina de urânio fechada e disse que o monóxido de carbono se acumulava no local.
Ao anunciar a explicação do governo, Saparbaev disse:
O oxigênio no ar diminui proporcionalmente, e essa é a verdadeira causa da doença do sono nessas vilas.
O relato posterior do Centro Nacional Nuclear adotou uma linguagem mais cautelosa. Propôs que respirar uma mistura de ar alterada, com menos oxigênio, mais monóxido e dióxido de carbono e compostos orgânicos voláteis, poderia explicar a síndrome.
Uma observação tornou o quadro mais complexo: durante um ano de monitoramento dos gases, os investigadores detectaram níveis elevados de monóxido de carbono e dióxido de nitrogênio, mas não registraram nenhum episódio da síndrome do sono. O centro concluiu que talvez fosse necessário que vários fatores coincidissem em condições específicas e afirmou não ser possível prever quando essa combinação ocorreria.
Asan Aidarkhanov, diretor da filial do Instituto de Segurança Radiológica e Ecologia do centro, voltou a mencionar o monóxido de carbono em novembro de 2023. Ele apontou o uso de fogões e a localização da vila em uma área baixa como possíveis fatores. Sua explicação deu mais peso à combustão doméstica e à geografia local do que o relato público anterior, centrado na mina.
Aidarkhanov também disse que o monitoramento não havia encontrado medições acima dos limites, enquanto o relato retrospectivo detalhado do centro registra concentrações elevadas de gases e níveis excessivos de monóxido de carbono durante o uso de fogões. Sua breve descrição não esclarece a quais medições, substâncias ou períodos de monitoramento se referia.
Por que a hipótese sobre a água subterrânea continua sendo diferente
Pesquisadores da Universidade Nazarbayev propuseram a contaminação química do lençol freático compartilhado, possivelmente ligada a resíduos de mineração. O modelo estatístico da equipe examinou outra via de exposição: substâncias que chegariam à água usada pelos moradores, em vez de gases que contaminariam o ar.
A equipe reconheceu que seria necessário ter acesso físico às galerias da mina para confirmar a hipótese. Portanto, a fonte química proposta e seu deslocamento pelo solo continuaram sem confirmação.
As hipóteses sobre o ar e a água subterrânea exigem investigações diferentes. A hipótese dos gases requer medições do que as pessoas respiraram perto do momento em que adoeceram. A hipótese da água subterrânea exige identificar o produto químico envolvido, como ele chegou ao abastecimento e quanto os moradores consumiram.
Relatos iniciais descreveram amostras de água e solo sem medições anormais. O modelo posterior da universidade manteve em pauta a possibilidade de uma via de contaminação que precisaria de uma análise mais direta.
A hipótese dos gases conta com registros mais sólidos de medições ambientais diretas: os investigadores registraram monóxido de carbono, outros poluentes e variações nas concentrações de oxigênio. O que ainda falta é relacionar uma exposição específica, ou uma combinação delas, ao momento e à gravidade das doenças em cada pessoa. Não foi apresentada uma explicação definitiva que estabeleça essa relação para todos os episódios.
A mudança dos moradores alterou vidas antes de a ciência chegar a uma conclusão
O Cazaquistão começou a transferir moradores enquanto a investigação prosseguia. Em janeiro de 2015, mais da metade dos 582 habitantes informados de Kalachi planejava se mudar. Saule Agymbayeva, vice-chefe do distrito de Esil, disse que famílias com crianças teriam prioridade.
Em março, cerca de 100 pessoas haviam sido reassentadas, enquanto 425 continuavam em Kalachi. Em outra etapa da transferência, foram registradas 68 famílias reassentadas de um total de 223, aproximadamente 30%. Os números se referem a momentos diferentes do programa e usam unidades diferentes: pessoas em um caso e domicílios no outro.
As autoridades ofereceram casas novas e empregos em outras localidades da região de Akmola. A prefeita de Kalachi, Asel Sadvokasova, que também havia tido um episódio, descreveu o programa como voluntário. As autoridades prometeram manter os serviços, incluindo escolas e atendimento médico, até que o último morador concordasse em partir.
Para os moradores que tinham casa, trabalho e uma história familiar na vila, a mudança trazia suas próprias incertezas. Kazachenko resistiu a sair depois de quatro décadas no local. Sua esposa, Raisa, descreveu uma vida inteira enraizada na mesma rua.
Ao explicar sua preocupação com o reassentamento, Raisa Kazachenko disse:
E agora, para onde vão me mandar? O que me espera lá?
Para essas famílias, a decisão imediata era onde morar com segurança e como reconstruir a vida cotidiana, enquanto os cientistas continuavam debatendo a causa.
O que o fim dos episódios relatados deixa sem resposta
Os episódios diminuíram e, segundo relatos, cessaram à medida que avançava a transferência dos moradores. O monitoramento do Centro Nacional Nuclear também incluiu um período sem casos registrados. A relação entre a mudança dos moradores, as alterações nas condições ambientais e o desaparecimento da doença continua incerta.
Um relato de novembro de 2023 fez uma breve referência a outras oito pessoas afetadas, mas não informou a data nem detalhes clínicos desses casos. O texto não oferece uma cronologia útil para identificar um novo surto.
A principal questão ainda sem resposta em Kalachi agora é bastante específica: que substância ou combinação de condições causou a inconsciência prolongada, por que apenas alguns moradores adoeceram e por que os episódios ocorreram em momentos específicos. Os investigadores reuniram um grande volume de dados ambientais, mas as explicações propostas ainda precisam estabelecer uma relação sólida entre exposição e doença.
A experiência também mudou o significado de segurança para a vila. Os moradores enfrentaram o risco de ficarem incapacitados de repente, o peso da recuperação e a perspectiva de deixar suas casas. Essas consequências eram concretas muito antes de a investigação produzir uma explicação completa.
Principais pontos
- O Centro Nacional Nuclear situa os primeiros sintomas em julho de 2012 e registrou mais de 140 episódios até 19 de janeiro de 2015.
- Os moradores tiveram períodos prolongados de sono ou inconsciência, às vezes seguidos de perda de memória, dores de cabeça, fraqueza e alucinações.
- As avaliações sobre radiação levaram os investigadores a descartar a radiação como causa.
- Os testes ambientais detectaram monóxido de carbono, outros gases e períodos de redução do oxigênio.
- O centro propôs um possível efeito combinado de vários poluentes do ar, enquanto pesquisadores universitários sugeriram a contaminação da água subterrânea.
- As famílias foram transferidas enquanto as investigações prosseguiam, com prioridade para os domicílios com crianças.
- Continua sem solução uma relação definitiva entre uma exposição específica e todas as doenças registradas.






