Tóquio mantém negociações na agenda apesar do congelamento diplomático
O Japão prometeu, em 19 de outubro de 2026, continuar buscando uma solução para a disputa sobre quatro territórios insulares ao largo de Hokkaido, ao completar 70 anos de um acordo que previa a transferência de Shikotan e do grupo de ilhotas de Habomai após a assinatura de um tratado de paz. A Rússia controla os quatro territórios, as negociações estão suspensas desde 2022, e visitas recentes e a detenção de um jornalista agravaram a tensão diplomática.
Conteúdo
- Tóquio mantém negociações na agenda apesar do congelamento diplomático
- O que a declaração de 1956 realmente resolveu
- Por que dois territórios se tornaram centrais em uma disputa sobre quatro
- Setenta anos de compromissos e retrocessos
- Guerra na Ucrânia interrompeu as negociações
- Visita de Putin e planos chineses de investimento aumentam as tensões
- Detenção de jornalista acrescenta uma disputa consular urgente
- Contatos limitados continuam apesar do congelamento
- Antigos moradores continuam sendo uma prioridade humanitária
- Principais pontos
O secretário-chefe do Gabinete, Minoru Kihara, disse em uma entrevista coletiva regular em Tóquio que o Japão manteria a comunicação com Moscou apesar da deterioração das relações.
Mesmo em meio ao difícil estado das relações entre Japão e Rússia, continuaremos a manter a comunicação necessária com o lado russo e a trabalhar para superar o atual impasse,
O aniversário volta a colocar em evidência um compromisso não cumprido. A Declaração Conjunta Japão-União Soviética de 1956 restabeleceu as relações diplomáticas e encerrou o estado de guerra, mas deixou para negociações posteriores um tratado de paz e a solução da questão territorial. Sete décadas depois, nem o tratado nem a transferência prometida das ilhas se concretizaram.
O Japão chama os territórios disputados de Territórios do Norte; a Rússia os chama de Curilas do Sul. Eles incluem Etorofu, conhecida na Rússia como Iturup, Kunashiri, Shikotan e o grupo de Habomai. Tóquio sustenta que as forças soviéticas os tomaram ilegalmente após a rendição do Japão, em agosto de 1945. Moscou argumenta que seu controle é um resultado legítimo da Segunda Guerra Mundial e endureceu sua posição de que a questão territorial está resolvida.
O que a declaração de 1956 realmente resolveu
Os Arquivos Nacionais do Japão registram que a declaração foi assinada em 19 de outubro de 1956 e ratificada em 12 de dezembro. A página da declaração no arquivo, que exibe o original promulgado, explica que o acordo encerrou o estado de guerra e restabeleceu as relações diplomáticas e consulares.
A declaração também tratou da repatriação de japoneses detidos na União Soviética, da renúncia de Moscou a reivindicações de reparações de guerra contra o Japão e de negociações para estabelecer relações comerciais. O apoio soviético à entrada do Japão nas Nações Unidas foi outro ponto do acordo; em seguida, o Japão ingressou na organização.
O tratado de paz ficou pendente. A declaração permitiu que os dois países restabelecessem relações diplomáticas normais, enquanto continuavam as negociações sobre as questões que não conseguiram resolver em 1956.
Os trechos publicados da declaração pela Secretaria do Gabinete do Japão apresentam a sequência crucial no parágrafo nove: as negociações continuariam após a retomada das relações diplomáticas, e a transferência efetiva de Habomai e Shikotan ocorreria depois da conclusão de um tratado de paz. A disputa territorial impediu que esse acordo final fosse alcançado.
Por que dois territórios se tornaram centrais em uma disputa sobre quatro
Shikotan e Habomai ocupam um lugar especial nas negociações porque a declaração de 1956 prevê expressamente sua transferência. Kunashiri e Etorofu ficaram de fora dessa disposição porque os dois governos não conseguiram chegar a um acordo sobre seu status.
O Ministério das Relações Exteriores do Japão, em seu histórico do tratado de paz, apresenta a política básica de Tóquio como a resolução do status dos quatro territórios e a conclusão de um tratado de paz. Soberania, a questão central, significa qual país tem autoridade legal para governar um lugar.
Em novembro de 2018, o então primeiro-ministro Shinzo Abe e o presidente Vladimir Putin concordaram, em Cingapura, em acelerar as negociações do tratado de paz com base na declaração de 1956. A iniciativa de Abe foi amplamente vista como uma mudança em direção à busca da devolução de dois territórios, e não dos quatro, pois a declaração menciona apenas Shikotan e Habomai para transferência.
Acordos anteriores haviam tratado dos quatro territórios. A Declaração de Tóquio de 1993 identificou o status deles como a questão territorial a ser resolvida antes de um tratado de paz. A Declaração de Irkutsk de 2001 confirmou a validade jurídica da declaração de 1956 e a estabeleceu como ponto de partida das negociações, reafirmando também a abordagem definida na Declaração de Tóquio.
Setenta anos de compromissos e retrocessos
O histórico diplomático mostra tentativas repetidas de conciliar uma promessa referente a dois territórios com negociações sobre os quatro. Os governos também tentaram estabelecer prazos, promover cooperação econômica e criar mecanismos mais práticos para os antigos moradores.
Algumas datas ajudam a explicar como as negociações chegaram ao impasse atual:
- 19 de outubro de 1956: Japão e União Soviética assinaram a declaração conjunta, restabelecendo as relações e prevendo a transferência de Habomai e Shikotan após um tratado de paz.
- 1960: Moscou acrescentou a exigência de retirada de todas as forças estrangeiras do território japonês antes da transferência. O Japão se opôs à mudança unilateral.
- Abril de 1991: Uma declaração conjunta durante a visita do presidente soviético Mikhail Gorbachev ao Japão identificou por escrito os quatro territórios como objeto das negociações territoriais.
- Outubro de 1993: A Declaração de Tóquio estabeleceu princípios para resolver o status dos territórios e concluir um tratado de paz.
- Novembro de 1997: A cúpula de Krasnoyarsk comprometeu os dois governos a fazer todos os esforços para concluir um tratado até 2000.
- Março de 2001: A Declaração de Irkutsk confirmou a validade jurídica da declaração de 1956.
- Novembro de 2018: Abe e Putin concordaram, em Cingapura, em acelerar as negociações com base na declaração.
- 2022: A Rússia suspendeu as negociações do tratado de paz após o Japão impor sanções pela invasão da Ucrânia.
- 19 de outubro de 2026: O Japão renovou o compromisso de buscar um avanço no 70º aniversário da declaração.
O prazo de 2000 para a conclusão do tratado passou sem que houvesse acordo. Na cúpula de Kawana, em abril de 1998, os líderes também haviam concordado que um tratado deveria resolver o status dos quatro territórios e incluir princípios para a amizade e a cooperação futuras.
Guerra na Ucrânia interrompeu as negociações
A invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, interrompeu um processo de negociação mantido por sucessivos governos japoneses. O Japão aderiu às sanções contra Moscou, opondo-se ao uso da força para mudar o status quo. A Rússia respondeu recusando-se a continuar as negociações do tratado de paz e designando o Japão como país hostil.
Moscou também cancelou um acordo de intercâmbios sem visto envolvendo as ilhas disputadas. Japão e Rússia não realizam uma cúpula de líderes desde que as negociações foram interrompidas, e as relações estão entre as mais tensas desde o restabelecimento dos laços diplomáticos.
A interrupção ocorreu após várias reafirmações da abordagem de Cingapura. O histórico oficial de negociações do Japão registra que o primeiro-ministro Yoshihide Suga e Putin reafirmaram o acordo de 2018 em setembro de 2020. Em outubro de 2021, o primeiro-ministro Fumio Kishida e Putin concordaram em buscar negociações para um tratado de paz com base nos acordos bilaterais anteriores.
Dmitry Streltsov, professor do Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscou que estuda o Japão, avalia que a divisão internacional mais ampla é um obstáculo central. Na avaliação dele, é improvável que haja avanços positivos nas relações bilaterais enquanto os países permanecerem em lados opostos.
Visita de Putin e planos chineses de investimento aumentam as tensões
Putin visitou Etorofu em agosto de 2026, em sua primeira visita à ilha desde que assumiu o cargo pela primeira vez, em 2000. O Japão protestou. No dia anterior à visita, ele discursou a oficiais de alta patente da Frota do Pacífico da Rússia em Sacalina, apresentando o controle russo dos territórios disputados como resultado da Segunda Guerra Mundial e culpando o Japão pela deterioração das relações.
Em 13 de outubro, o governo de Sacalina anunciou outra visita a Etorofu, desta vez de autoridades e empresários da província chinesa de Heilongjiang, no nordeste do país. A delegação avaliava um possível projeto conjunto entre Rússia e China, a convite do governador de Sacalina, Valery Limarenko.
Os visitantes inspecionaram possíveis locais para empreendimentos turísticos e demonstraram interesse na criação de ouriços-do-mar e pepinos-do-mar. Limarenko disse que o desenvolvimento empresarial deveria melhorar a qualidade de vida dos moradores, enquanto as autoridades russas buscam atrair investimentos com incentivos fiscais e outras medidas.
O Ministério das Relações Exteriores do Japão protestou junto à Rússia e à China por canais diplomáticos. O órgão afirmou que as ações russas eram incompatíveis com a posição japonesa de que os territórios são parte inerente do Japão.
O envolvimento da China traz um terceiro governo para o desenvolvimento concreto de uma ilha reivindicada por Tóquio. O episódio também ocorre após uma declaração conjunta de Putin e do presidente chinês Xi Jinping, em maio, que criticou o Japão por seu "novo militarismo", em meio às tensões geradas por declarações da primeira-ministra Sanae Takaichi no ano anterior sobre uma possível crise em Taiwan.
Detenção de jornalista acrescenta uma disputa consular urgente
As autoridades russas anunciaram em 13 de outubro que haviam detido em Sacalina o correspondente do Hokkaido Shimbun, Imai Yuki, sob suspeita de espionagem. Ele foi transferido para Moscou, onde um tribunal ordenou sua detenção até 12 de dezembro.
O Serviço Federal de Segurança alegou que Imai reuniu informações sobre as capacidades de defesa russas sob instruções da inteligência japonesa. As acusações dizem respeito a informações sobre moradores das Ilhas Curilas que foram mobilizados ou se voluntariaram para lutar na Ucrânia. As alegações fazem parte de uma investigação criminal.
Imai tinha credencial de imprensa emitida pelo Ministério das Relações Exteriores da Rússia. O jornal afirmou que estava apurando os fatos e que sua segurança era prioridade. Condenações por espionagem na Rússia podem resultar em penas de até 20 anos de prisão.
O Ministério das Relações Exteriores do Japão convocou o embaixador russo Nikolay Nozdrev, protestou contra a detenção e o anúncio de Moscou sem explicação prévia e pediu informações e acesso rápido a Imai. O ministro das Relações Exteriores, Toshimitsu Motegi, disse em 14 de outubro que o Japão solicitava consideração humanitária e tratamento justo e imparcial.
As autoridades japonesas não conseguiram garantir prontamente o acesso consular. Esse acesso permite que diplomatas entrem em contato com um cidadão detido, verifiquem seu bem-estar e o ajudem a obter assistência. O prazo de detenção de 12 de dezembro é a próxima data definida no caso.
Contatos limitados continuam apesar do congelamento
O governo da primeira-ministra Takaichi, que tomou posse em outubro de 2025, manteve alguns contatos com a Rússia, embora as sanções continuem em vigor. Autoridades de alto escalão do Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão visitaram a Rússia em maio de 2026. Motegi se reuniu com o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, em uma conferência internacional em julho.
Esses contatos ocorreram em meio à instabilidade no Oriente Médio e ao interesse contínuo do Japão no fornecimento de energia russa. O Japão mantém interesses energéticos em Sacalina, incluindo gás natural liquefeito, que é o gás resfriado até se tornar líquido para que possa ser transportado por navios.
Assim, a comunicação diplomática tem vários objetivos imediatos além das negociações territoriais: proteger um cidadão detido, administrar disputas sobre visitas às ilhas e tratar de interesses econômicos. Kihara não indicou uma data para a retomada das negociações do tratado de paz nem para uma reunião de líderes.
O contraste com a cooperação anterior é significativo. Em dezembro de 2016, Abe e Putin concordaram em iniciar discussões sobre atividades econômicas conjuntas em um marco especial nos quatro territórios. Também concordaram em melhorar os procedimentos para visitas aos túmulos de antigos moradores. Hoje, os contatos ocorrem com as negociações territoriais formais suspensas.
Antigos moradores continuam sendo uma prioridade humanitária
O Japão planeja continuar pressionando pela retomada das visitas aos túmulos de antigos moradores das ilhas por razões humanitárias. Para pessoas com vínculos familiares com os territórios, o congelamento diplomático afeta a possibilidade de visitar os lugares onde seus parentes viveram e foram sepultados.
As visitas aos túmulos já haviam sido uma área em que os governos conseguiam promover melhorias práticas, embora a questão da soberania continuasse sem solução. O acordo de 2016 tratou especificamente da simplificação dos procedimentos para essas visitas, além das discussões sobre cooperação econômica.
A suspensão dos intercâmbios pela Rússia restringiu esse canal. Agora, Tóquio busca avanços no acesso humanitário enquanto mantém sua política de sanções, em vez de esperar uma solução territorial abrangente.
O aniversário, portanto, traz dois desafios interligados para o Japão: preservar a possibilidade de um tratado de paz e obter cooperação prática para as pessoas afetadas pela disputa. A promessa de Kihara mantém a comunicação diplomática na agenda, enquanto as transferências de ilhas prometidas em 1956 continuam vinculadas a um tratado que nenhum dos governos concluiu.
Principais pontos
- O Japão prometeu, em 19 de outubro de 2026, continuar buscando uma solução para a disputa sobre quatro territórios controlados pela Rússia.
- A declaração de 1956 encerrou o estado de guerra, restabeleceu as relações diplomáticas e previu a transferência de Shikotan e Habomai após um tratado de paz.
- A Rússia suspendeu as negociações do tratado em 2022, após as sanções japonesas pela invasão da Ucrânia.
- A visita de Putin a Etorofu em agosto e a visita posterior de uma delegação chinesa provocaram protestos do Japão.
- O jornalista Imai Yuki é alvo de uma investigação por espionagem, e um tribunal de Moscou determinou sua detenção até 12 de dezembro.
- O Japão continua buscando visitas humanitárias aos túmulos de antigos moradores das ilhas, mantendo as sanções.






