Dezessete anos após a guerra, o acesso à terra e aos meios de subsistência continua restrito
A Comissão de Direitos Humanos do Sri Lanka pediu que se acelere a devolução de terras ocupadas pelos militares no norte e no leste, regiões de maioria tâmil, afirmando que a militarização continua 17 anos após o fim da guerra civil, em 2009. Suas conclusões descrevem uma presença militar que ainda afeta onde as pessoas podem morar, como ganham a vida e como se relacionam com as autoridades civis.
Conteúdo
- Dezessete anos após a guerra, o acesso à terra e aos meios de subsistência continua restrito
- Por que os documentos de propriedade se tornaram motivo de disputa
- Segurança nacional e o alcance dos órgãos estatais
- Atuação militar se estende a fazendas e pré-escolas
- Vigilância influencia a busca por justiça
- Valas comuns e deslocamentos continuam sem solução
- Como a comissão chegou às suas conclusões
- Uma disputa que atravessa décadas
- Principais pontos
O relatório da comissão, A situação dos direitos humanos nas províncias do Norte e do Leste do Sri Lanka, identifica a continuidade da apropriação de terras, das restrições aos meios de subsistência tradicionais e da intimidação. A comissão pede ao governo que restabeleça os direitos de propriedade e a capacidade das pessoas de garantir seu sustento, além de liberar as terras ocupadas.
A Comissão de Direitos Humanos do Sri Lanka, órgão nacional de defesa dos direitos humanos, descreve nestes termos a conduta que afeta as comunidades da antiga zona de conflito:
um padrão persistente de apropriação de terras, negação de acesso aos meios de subsistência tradicionais e intimidação da população local
As conclusões contrastam com o relato do governo sobre avanços substanciais. O representante do Ministério da Defesa, brigadeiro Franklin Joseph, afirmou que mais de 90% das terras antes controladas pelos militares haviam sido devolvidas. O parlamentar tâmil Thurairasa Ravikaran, que representa Mullaitivu pelo Ilankai Tamil Arasu Kadchi, disse que áreas significativas continuavam sob controle dos militares e de outros órgãos estatais.
As duas posições deixam os moradores diante de um problema concreto: mesmo após devoluções em larga escala, as famílias cujas propriedades continuam ocupadas ainda precisam de uma forma de recuperá-las. As recomendações da comissão tratam tanto das terras quanto do papel mais amplo das instituições de segurança na vida civil.
Por que os documentos de propriedade se tornaram motivo de disputa
O presidente Anura Kumara Dissanayake, que também ocupa o cargo de ministro da Defesa, instruiu as forças de segurança, em agosto de 2026, a acelerar a devolução de terras ocupadas durante a guerra que já não fossem necessárias para fins de segurança. Moradores de língua tâmil manifestaram preocupação com o ritmo da implementação.
Joseph afirmou que alguns casos continuavam em análise porque os proprietários não haviam sido identificados ou faltavam documentos que comprovassem a propriedade. Ravikaran contestou a exigência de documentos de posse a famílias que fugiram durante a guerra, considerando-a injusta. O deslocamento pode deixar uma família sem a casa e também sem os registros necessários para reivindicá-la.
Os números apresentados aqui não incluem a área total das antigas propriedades sob controle militar, a extensão ainda ocupada nem um prazo para concluir as devoluções. O percentual de Joseph se refere às terras antes controladas pelos militares, enquanto a contestação de Ravikaran também abrange propriedades sob controle de outros órgãos estatais, incluindo os departamentos de arqueologia e de conservação da vida selvagem.
A comissão pede a restauração integral dos direitos de propriedade e dos meios de subsistência. Para uma família afetada, isso significa poder voltar a usar a terra, em vez de ver sua reivindicação presa entre análises de segurança e exigências de documentação.
Segurança nacional e o alcance dos órgãos estatais
A comissão recomenda que a segurança nacional não sirva como justificativa genérica para a aquisição de terras. Ela dá atenção especial aos casos em que comunidades minoritárias são afetadas de forma desproporcional ou em que as aquisições permitem ocupações religiosas.
A aquisição de terras ocorre quando o Estado assume o controle de uma propriedade. No norte e no leste, as disputas podem envolver diversas autoridades, cada uma com responsabilidades diferentes. Portanto, um programa de devolução de terras pelos militares resolve apenas parte de um problema mais amplo quando os moradores também enfrentam restrições impostas por órgãos civis.
Preocupações com esse padrão mais amplo aparecem no informe do Parlamento britânico Direitos humanos no Sri Lanka. O documento registra uma recomendação britânica para que o Sri Lanka enfrente a expropriação de terras por departamentos do governo no norte e no leste, incluindo o Departamento de Arqueologia, e as restrições de acesso relacionadas.
O informe também reproduz uma declaração emitida em 4 de março de 2024 pelo Grupo Central sobre o Sri Lanka, formado por Reino Unido, Canadá, Malaui, Montenegro, Macedônia do Norte e Estados Unidos. O grupo saudou os compromissos de devolução de terras, mas expressou preocupação com a situação no local:
Saudamos os compromissos declarados pelo governo de devolver terras, mas observamos com preocupação relatos de aumento das tensões em torno de apropriações de terras no norte e, sobretudo, no leste do país.
Relatos sobre acontecimentos de 2025 também descrevem órgãos governamentais, militares e policiais participando da apropriação de templos hindus e terrenos adjacentes. Para fiéis e moradores próximos, o controle desses locais vincula os direitos de propriedade à liberdade de praticar sua religião.
Atuação militar se estende a fazendas e pré-escolas
A comissão pede medidas concretas para acabar com o envolvimento militar em setores econômicos civis, incluindo agricultura e educação. Ela aponta atividades realizadas por meio do Departamento de Segurança Civil e a participação na administração de educadores de pré-escola.
Essas responsabilidades levam instituições de segurança a atuar em atividades cotidianas muito além da proteção de instalações militares. Na agricultura, estão em jogo o acesso à terra e a renda. Na administração de pré-escolas, estão em jogo os profissionais que ensinam crianças pequenas e as autoridades que supervisionam seu trabalho.
A comissão afirma que o Sri Lanka não tem um plano abrangente de reforma do setor de segurança que reduza a presença militar no norte e no leste e restabeleça a governança civil. Reforma do setor de segurança significa mudar as funções, as regras e a supervisão de instituições como as Forças Armadas, para que suas responsabilidades sejam definidas e submetidas à prestação de contas pública.
Assim, as recomendações do relatório vão além da devolução de lotes específicos. Elas buscam uma separação mais clara entre as funções militares e a administração da vida cotidiana das comunidades. A comissão considera que o envolvimento militar nos assuntos civis, inclusive na atividade econômica, é um obstáculo à reconciliação após a guerra.
Vigilância influencia a busca por justiça
A comissão analisa a vigilância e a intimidação junto com as disputas por terras. O estudo também aborda desaparecimentos forçados, valas comuns e a preservação da memória, ou seja, as formas como famílias e comunidades se lembram de pessoas mortas ou desaparecidas.
A avaliação anual do Sri Lanka feita pelo escritório de direitos humanos das Nações Unidas descreveu uma estrutura de vigilância que continuava afetando o norte e o leste. O escritório declarou:
o aparato de vigilância, especialmente no norte e no leste, permaneceu em grande parte intacto, com supervisão ou orientação mínimas do governo central
Em 2025, familiares que faziam campanha por justiça, defensores dos direitos humanos e integrantes da sociedade civil continuaram sujeitos a monitoramento e intimidação. A polícia antiterrorismo convocou para interrogatório, em agosto daquele ano, o jornalista tâmil e defensor dos direitos humanos Kanapathipillai Kumanan.
Uma mulher de Trincomalee que havia fornecido informações ao Projeto de Prestação de Contas do Sri Lanka da ONU relatou que, em junho de 2025, a polícia a interrogou em casa durante três horas. Sua identidade não foi divulgada. Ela descreveu a pressão sobre sua família:
A vigilância está mais intensa agora", disse ela. "Às vezes, [a polícia] até aborda nossos filhos para obter informações sobre nós. Isso é uma forma de ameaça.
O projeto coleta provas de violações relacionadas ao conflito. A participação oferece às vítimas uma forma de compartilhar informações, enquanto o interrogatório relatado pela mulher mostra a pressão pessoal que pode acompanhar esse processo.
Valas comuns e deslocamentos continuam sem solução
Investigações realizadas em 2025 voltaram a chamar atenção para as pessoas desaparecidas durante o conflito. Em Chemmani, perto de Jaffna, uma nova investigação de uma vala comum encontrou os restos mortais de mais de 200 pessoas, incluindo crianças. Acredita-se que elas tenham sido vítimas de execuções extrajudiciais pelo Exército do Sri Lanka na década de 1990.
Em agosto de 2025, um tribunal ordenou a escavação de outra vala comum em Kurukkalmadam, no distrito de Batticaloa. Ao menos 20 valas comuns foram encontradas em diferentes partes do Sri Lanka ao longo de vários anos, muitas vezes durante obras de construção.
As investigações enfrentam falta de capacidade técnica. Falhas anteriores na preservação de provas e na identificação de restos mortais deixaram muitas famílias sem respostas. Ao incluir valas comuns e desaparecimentos forçados, a comissão coloca a busca por parentes desaparecidos ao lado das reivindicações por terras, moradia e proteção contra a intimidação.
O estudo também aborda o reassentamento de muçulmanos do norte expulsos pelos Tigres de Libertação do Tamil Eelam em 1990. Seu deslocamento é mais um capítulo das reivindicações ainda sem solução por moradia, terras e vida comunitária na região. Ao examinar essa situação junto com as preocupações que afetam as comunidades tâmeis, a comissão aborda os direitos de diferentes populações prejudicadas pelo conflito.
Como a comissão chegou às suas conclusões
A Comissão de Direitos Humanos afirma que seu estudo se baseia em visitas de campo e consultas com autoridades governamentais, organizações da sociedade civil, defensores dos direitos humanos e comunidades afetadas. Também foram analisados relatórios e pesquisas relevantes.
O estudo identifica barreiras persistentes à igualdade, ao acesso à Justiça, a meios de subsistência seguros, à terra, à moradia e aos serviços públicos. Seu escopo inclui a liberdade religiosa e projetos de desenvolvimento, além da conduta das instituições de segurança.
A comissão pede responsabilização e participação significativa das comunidades nas decisões que afetam a região. Na prática, os moradores teriam um papel nas discussões sobre suas terras, o reassentamento e o desenvolvimento, em vez de apenas serem informados de decisões tomadas por órgãos estatais.
As recomendações vinculam a recuperação após a guerra às necessidades cotidianas: uma moradia segura, acesso ao trabalho, serviços públicos e meios de contestar tratamentos injustos. Também atribuem ao governo e às autoridades competentes a responsabilidade de enfrentar injustiças históricas e desigualdades persistentes.
Uma disputa que atravessa décadas
As conclusões mais recentes vêm após anos de deslocamentos, promessas governamentais e escrutínio internacional. Algumas datas mostram como as disputas atuais se relacionam com acontecimentos anteriores:
- 1990: O LTTE expulsou os muçulmanos do norte, cujo reassentamento é uma das questões analisadas pela comissão.
- 2009: Terminou a guerra civil do Sri Lanka, deixando sem solução questões sobre terras ocupadas, pessoas desaparecidas e governança civil.
- 2023: Declarações do governo britânico pediram medidas contra a expropriação de terras e as restrições no norte e no leste.
- 4 de março de 2024: O Grupo Central sobre o Sri Lanka manifestou preocupação com o aumento das tensões em torno das apropriações de terras, sobretudo no leste.
- 2025: As investigações de valas comuns continuaram, enquanto familiares de vítimas e defensores dos direitos humanos enfrentaram vigilância e intimidação.
- Agosto de 2026: Dissanayake instruiu as forças de segurança a acelerar a devolução de terras que já não fossem necessárias para fins de segurança.
O trabalho internacional de responsabilização continuou em paralelo a essas disputas internas. O informe parlamentar britânico explica que a resolução 51/1 do Conselho de Direitos Humanos da ONU renovou o mandato do escritório de direitos humanos da organização para informar sobre o Sri Lanka e preservar provas de violações passadas para futuros processos de responsabilização. Em outubro de 2025, o conselho renovou por mais dois anos o mandato do Projeto de Prestação de Contas do Sri Lanka.
A principal exigência da comissão diz respeito a medidas dentro do Sri Lanka: devolver propriedades ocupadas, restaurar meios de subsistência, reduzir o envolvimento militar em assuntos civis e dar voz efetiva às comunidades afetadas. Para as famílias que ainda esperam recuperar suas terras, o próximo indicador de avanço é o acesso às próprias casas e aos meios de subsistência.
Principais pontos
- A Comissão de Direitos Humanos do Sri Lanka afirma que a militarização persiste no norte e no leste, 17 anos após o fim da guerra civil.
- A comissão pede que a devolução de terras seja acelerada e que termine o envolvimento militar em setores civis, incluindo agricultura e educação.
- O Ministério da Defesa afirma que mais de 90% das terras antes controladas pelos militares foram devolvidas.
- O parlamentar Thurairasa Ravikaran contesta as exigências de documentos para famílias deslocadas e afirma que áreas significativas continuam sob controle estatal.
- O estudo também aborda vigilância, desaparecimentos, valas comuns, liberdade religiosa e reassentamento de muçulmanos do norte.
- A comissão pede responsabilização, restauração da governança civil e participação efetiva das comunidades afetadas.






