Oferenda oficial provoca protesto diplomático
A primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi enviou uma oferenda ritual de ramos verdes ao santuário Yasukuni, em Tóquio, em 17 de outubro de 2026, levando a Coreia do Sul a expressar "profunda decepção e pesar", embora fosse esperado que ela não comparecesse ao festival de outono do santuário.
Conteúdo
- Oferenda oficial provoca protesto diplomático
- O que Takaichi enviou?
- Coreia do Sul pede que arrependimento se traduza em ações
- Kiuchi visita o santuário, enquanto outros líderes enviam oferendas
- Por que os homenageados do santuário estão no centro da disputa
- Como mudou a prática de Takaichi
- Tensões com a China pesam no cálculo diplomático
- Memória e debate sobre o poder militar do Japão
- Principais pontos
A oferenda, chamada masakaki, foi apresentada em nome de Takaichi e com seu título de primeira-ministra na abertura do festival, que vai até segunda-feira, 19 de outubro. O ministro do Gabinete Minoru Kiuchi visitou o santuário na manhã de sábado, enquanto altos dirigentes parlamentares e o ministro da Saúde, Trabalho e Bem-Estar, Kenichiro Ueno, também enviaram oferendas.
Yasukuni homenageia cerca de 2,46 milhões de japoneses mortos na guerra, entre eles 14 condenados como criminosos de guerra de Classe A. A inclusão deles torna especialmente delicados os gestos de líderes japoneses na China e na Coreia do Sul, onde as lembranças da invasão japonesa e do domínio colonial continuam no centro das relações com Tóquio.
A decisão de Takaichi mantém sua ligação com um santuário que ela visitava regularmente antes de se tornar primeira-ministra, mas evita o gesto mais visível de comparecer pessoalmente. A reação da Coreia do Sul mostra que uma oferenda feita em nome da primeira-ministra ainda tem peso diplomático.
O episódio ocorre quase um ano depois de Takaichi assumir o cargo, em 21 de outubro de 2025. As relações com a China continuam tensas por causa de suas declarações sobre um possível conflito envolvendo Taiwan, enquanto Japão e Coreia do Sul vêm reconstruindo os laços após anos de disputas sobre a história da guerra.
O que Takaichi enviou?
Masakaki é um arranjo ritual de ramos verdes disposto em um suporte em um santuário xintoísta. A oferenda de Takaichi levava seu nome e cargo oficial, identificando-a como um gesto da chefe do governo japonês, e não de uma simples visitante particular.
Takaichi também fez oferendas privadas em dinheiro durante o festival de outono do ano passado, o festival da primavera deste ano, em abril, e o aniversário da rendição do Japão na Segunda Guerra Mundial, em 15 de agosto. Assim, ela manteve sua participação por meio de oferendas, embora tenha evitado visitar o santuário como primeira-ministra.
A forma de participação tem importância política. Uma visita coloca o líder fisicamente no santuário, muitas vezes diante das câmeras. Uma oferenda ritual permite participar de outro local. O protesto de Seul abordou as duas práticas, deixando claro que sua objeção diz respeito tanto ao reconhecimento oficial de Yasukuni quanto à presença no local.
Uma pessoa próxima a Takaichi disse que era improvável que ela visitasse o santuário durante o festival atual. Seu círculo se recusou a dizer se ela havia rezado em direção ao santuário de outro local por ocasião da celebração de outono. A segunda-feira é o último dia do festival e a próxima ocasião prevista para atividades políticas no local; um grupo de parlamentares de diferentes partidos planeja visitá-lo.
Coreia do Sul pede que arrependimento se traduza em ações
O Ministério das Relações Exteriores da Coreia do Sul divulgou um comentário de seu porta-voz em 17 de outubro, criticando as repetidas visitas e oferendas de líderes japoneses. O ministério descreveu Yasukuni como um santuário que glorifica o passado de agressão do Japão e consagra criminosos de guerra.
O ministério instou os líderes japoneses a demonstrarem sua postura diante da história por meio de suas ações:
encarar a história de frente e demonstrar, por meio de ações, uma reflexão humilde e um arrependimento sincero pelo passado.
Seul vinculou diretamente essa exigência à relação entre os dois países. Em sua declaração, afirmou que reflexão e arrependimento são fundamentais para construir confiança entre os governos e os povos dos dois países.
O Japão colonizou a Península Coreana de 1910 a 1945. Para a Coreia do Sul, cerimônias que homenageiam líderes responsáveis pela atuação japonesa durante a guerra remetem à história do domínio colonial e ao tratamento dado aos coreanos naquele período. Isso explica por que um ritual em Tóquio pode rapidamente se tornar assunto para os ministérios das Relações Exteriores.
Apesar disso, Tóquio e Seul melhoraram as relações nos últimos anos, após avanços nas disputas sobre o trabalho forçado durante a guerra. Os líderes dos dois países retomaram as visitas recíprocas em 2023. O protesto de sábado coloca a disputa sobre o santuário ao lado dessa reaproximação diplomática: a cooperação cresceu, mas continua o desacordo sobre como o Japão relembra a guerra.
Kiuchi visita o santuário, enquanto outros líderes enviam oferendas
Minoru Kiuchi foi o primeiro integrante do Gabinete de Takaichi que, segundo relatos, visitou Yasukuni durante o festival de outono deste ano. Kiuchi, responsável, entre outras áreas, pela estratégia de crescimento e pelas políticas econômica e fiscal, pagou do próprio bolso por uma oferenda em dinheiro chamada tamagushi. Também foi informado que ele fez uma oferenda de masakaki.
Após a visita, Kiuchi disse a jornalistas que havia homenageado os mortos e renovado seu compromisso contra a guerra:
Prestei minhas sinceras condolências, homenageei os espíritos dos heróis que deram suas preciosas vidas pela nação e renovei meu compromisso de renunciar à guerra,
O presidente da Câmara dos Representantes, Eisuke Mori, e o presidente da Câmara dos Conselheiros, Masakazu Sekiguchi, enviaram oferendas de masakaki. Ueno, ministro da Saúde, Trabalho e Bem-Estar, também enviou um arranjo ritual de ramos.
A participação de integrantes do Gabinete e dos presidentes das duas Casas do Parlamento dá ao festival uma presença política que vai além da primeira-ministra. Kiuchi apresentou sua visita como uma homenagem aos mortos acompanhada de um compromisso de renunciar à guerra. A Coreia do Sul descreveu a participação oficial como uma homenagem a um santuário que glorifica a agressão. Essas declarações mostram os sentidos conflitantes atribuídos às mesmas cerimônias.
Por que os homenageados do santuário estão no centro da disputa
Yasukuni fica no distrito de Chiyoda, em Tóquio. Entre seus cerca de 2,46 milhões de homenageados estão integrantes comuns das Forças Armadas japonesas, além de pessoas condenadas por crimes de guerra após a Segunda Guerra Mundial. O grupo mais controverso politicamente é o dos 14 criminosos de guerra de Classe A consagrados em 1978.
A Classe A refere-se a processos por crimes contra a paz, incluindo a responsabilidade por planejar ou iniciar uma guerra de agressão. As categorias B e C diziam respeito a crimes de guerra convencionais e crimes contra a humanidade. Essas classificações jurídicas descrevem tipos de delitos, e não uma simples escala da gravidade das ações de cada indivíduo.
Entre os 14 estava Hideki Tojo, primeiro-ministro durante a guerra, executado em 1948 após ser condenado. O santuário também homenageia mais de mil pessoas condenadas nas categorias B e C.
Reportagens recentes na televisão japonesa voltaram a chamar atenção para a decisão de 1978, com a divulgação de atas internas de reuniões e gravações de áudio. Nagayoshi Matsudaira, sacerdote-chefe do santuário na época, se opunha ao Tribunal de Tóquio e apoiava a consagração dos líderes condenados como pessoas que haviam morrido por seu país.
A inclusão desses líderes confere às visitas oficiais um significado que vai além do luto familiar. China e Coreia do Sul associam Yasukuni ao militarismo japonês do passado porque pessoas responsáveis por atos de agressão são homenageadas junto a outros mortos na guerra. O Japão invadiu vastas áreas da China antes e durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto o domínio colonial marcou a experiência coreana daquele mesmo período.
Como mudou a prática de Takaichi
Antes de se tornar primeira-ministra, Takaichi visitava regularmente Yasukuni durante os festivais de primavera e outono e em 15 de agosto, inclusive quando era integrante do Gabinete. Desde que assumiu o cargo, em outubro de 2025, ela não voltou a visitar o santuário.
Suas homenagens continuaram de outras formas. Na cerimônia nacional deste ano em memória dos mortos na guerra, ela rezou em direção a Yasukuni a partir do estacionamento da arena Nippon Budokan, nas proximidades. Ela se curvou duas vezes, bateu palmas duas vezes e se curvou mais uma vez, numa sequência associada ao culto xintoísta.
A sequência recente mostra como ela manteve as práticas religiosas, mas mudou o local e a forma de participação:
- 21 de outubro de 2025: Takaichi se tornou primeira-ministra.
- Abril de 2026: Ela não compareceu ao festival de primavera de Yasukuni e enviou oferendas.
- 15 de agosto de 2026: Ela participou da cerimônia nacional em memória dos mortos na guerra, na Nippon Budokan, rezou em direção a Yasukuni das proximidades e fez uma oferenda privada em dinheiro.
- 17 de outubro de 2026: Ela enviou uma oferenda de masakaki em nome de seu cargo de primeira-ministra na abertura do festival de outono.
- 19 de outubro de 2026: O festival deve terminar, e um grupo de parlamentares de diferentes partidos planeja visitar o santuário.
Shinzo Abe, mentor político de Takaichi, foi o último primeiro-ministro japonês em exercício a visitar Yasukuni, em dezembro de 2013. Ao enviar uma oferenda ritual sem comparecer, Takaichi segue uma prática adotada pelos primeiros-ministros que vieram depois dele.
Tensões com a China pesam no cálculo diplomático
A decisão de Takaichi de não visitar pessoalmente o santuário ocorre em meio ao confronto contínuo com a China por causa de Taiwan. Em novembro de 2025, ela afirmou que um ataque a Taiwan poderia criar circunstâncias em que as Forças de Autodefesa do Japão talvez atuassem em apoio aos Estados Unidos.
Taiwan se governa, enquanto a China reivindica o território como seu. As declarações de Takaichi trouxeram a possível resposta militar japonesa para uma disputa já delicada. Pequim exigiu que ela se retratasse, e as relações se deterioraram nos campos diplomático, comercial e de viagens.
As consequências econômicas ficaram evidentes durante a disputa sobre as declarações a respeito de Taiwan: o número de turistas chineses que visitaram o Japão caiu 45% em dezembro em relação ao ano anterior, para cerca de 330 mil. O confronto também envolveu controles de exportação, restrições a frutos do mar e relatos de encontros militares.
Yasukuni acrescenta uma disputa histórica ao confronto na área de segurança. Uma aparição da primeira-ministra criaria mais um foco de atrito num momento em que Tóquio e Pequim já enfrentam dificuldades para lidar com o possível papel do Japão em um conflito regional.
A Coreia do Sul está em um contexto diplomático diferente. As relações têm melhorado, em vez de se deteriorar, o que dá a Tóquio interesse em preservar os intercâmbios retomados desde 2023. Ainda assim, a declaração de Seul explicita sua posição: a melhora das relações atuais deve vir acompanhada de atitudes que o país considere uma reflexão sincera sobre o passado.
Memória e debate sobre o poder militar do Japão
A oferenda de Takaichi ao santuário também ocorre em meio a um debate interno sobre o papel militar do Japão. Seu governo tem buscado mudanças na política de exportação de armas e uma revisão constitucional, provocando manifestações de pessoas que temem que o Japão se afaste das restrições adotadas após a Segunda Guerra Mundial.
Estima-se que 50 mil pessoas tenham se reunido em Tóquio em 3 de maio durante protestos contra a política militar. Os manifestantes contestaram a orientação do governo sobre exportações de armas e o Artigo 9, dispositivo constitucional que renuncia à guerra.
A disputa sobre Yasukuni diz respeito à memória, enquanto o debate constitucional trata das regras que regem o poder militar. Os dois envolvem uma questão recorrente na política japonesa: como a experiência de guerra do país deve orientar as decisões que seus líderes tomam hoje.
O compromisso de Kiuchi de renunciar à guerra e o pedido da Coreia do Sul por arrependimento expressam avaliações diferentes sobre o que exige uma atitude responsável diante da memória. Takaichi continua a homenagear Yasukuni com oferendas, mas evita visitar o santuário como primeira-ministra. O resultado imediato é um gesto público mais discreto do que uma visita pessoal, mas que ainda assim provocou um protesto diplomático formal.
O próximo acontecimento previsto é a visita dos parlamentares, planejada para 19 de outubro. A participação deles ampliará a atenção política no último dia do festival, mesmo que Takaichi continue sem comparecer.
Principais pontos
- Takaichi enviou uma oferenda de masakaki ao santuário Yasukuni em nome de seu cargo de primeira-ministra em 17 de outubro de 2026.
- Espera-se que ela não visite o santuário durante o festival de outono, que termina em 19 de outubro.
- A Coreia do Sul expressou profunda decepção e pesar e pediu que os líderes japoneses demonstrem arrependimento por meio de ações.
- O ministro do Gabinete Minoru Kiuchi visitou o santuário, enquanto dirigentes parlamentares e o ministro da Saúde, Kenichiro Ueno, enviaram oferendas.
- Yasukuni homenageia cerca de 2,46 milhões de mortos na guerra, entre eles 14 criminosos de guerra de Classe A consagrados em 1978.
- Um grupo de parlamentares de diferentes partidos planeja visitar o santuário no último dia do festival.






