Acordos sobre a dívida aproximam o Sri Lanka da conclusão do processo
O Sri Lanka concluiu a reestruturação de cerca de 94% da dívida externa incluída nas negociações, percentual que chega a aproximadamente 99% quando são incluídos os acordos em princípio, segundo o sétimo Relatório de Progresso dos copresidentes da Mesa-Redonda Global sobre Dívida Soberana, datado de 14 de outubro de 2026.
Conteúdo
- Acordos sobre a dívida aproximam o Sri Lanka da conclusão do processo
- O que significam os números de 94% e 99%
- Da suspensão de pagamentos em 2022 à avaliação mais recente
- Credores governamentais dão mais prazo ao Sri Lanka
- Troca de títulos gerou bilhões em alívio
- Credores menores e processo judicial ainda pendentes
- Apoio do FMI caminha para uma nova decisão
- O peso dos pagamentos diminuiu, mas ainda é elevado
- A experiência do Sri Lanka contribui para mudanças globais
- Pontos principais
A dívida restante à espera de acordo foi estimada em 1% do total da reestruturação em 18 de setembro. O avanço em uma troca de dívida envolvendo a SriLankan Airlines e os acordos com credores governamentais aproximaram o país da conclusão de um processo iniciado após a crise financeira de 2022.
O sétimo relatório de progresso da mesa-redonda afirma que as negociações com os credores comerciais restantes continuam de boa-fé. Também está pendente uma decisão judicial em um processo envolvendo o Hamilton Reserve Bank.
Para o Sri Lanka, esse marco significa que as condições de pagamento relativas a quase toda a dívida visada foram alteradas ou acordadas em princípio. A conclusão da documentação e das negociações restantes dará mais previsibilidade sobre quanto o governo terá de pagar e quando, após anos de dificuldades para famílias e empresas.
O que significam os números de 94% e 99%
A mesa-redonda mede o progresso em relação à dívida externa incluída no perímetro da reestruturação do Sri Lanka. Esse termo se refere às dívidas específicas selecionadas para renegociação, e não a todas as dívidas do governo.
O percentual de 94% corresponde à reestruturação concluída. Os cerca de cinco pontos percentuais adicionais são referentes a acordos em princípio, nos quais credores e devedor definiram os principais termos, mas ainda precisam concluir o processo formal. Aproximadamente um ponto percentual permanece fora das duas categorias.
Uma reestruturação altera um contrato de dívida para que o devedor consiga administrar os pagamentos. Os credores podem aceitar receber menos, reduzir os juros, adiar as datas de pagamento ou combinar essas mudanças. Os acordos do Sri Lanka empregam várias dessas medidas, com pacotes diferentes negociados com credores governamentais, bancos e detentores de títulos.
Os percentuais medem quanto da dívida está incluído no processo, não quanto foi cancelado. O Sri Lanka continuará fazendo pagamentos de acordo com os contratos revisados, com algumas parcelas se estendendo até 2043.
Da suspensão de pagamentos em 2022 à avaliação mais recente
O Sri Lanka suspendeu os pagamentos de sua dívida bilateral oficial e de sua dívida comercial externa em 12 de abril de 2022. A crise provocou escassez de combustível e medicamentos, longos cortes de energia, alta dos preços e protestos que tiraram o governo do poder.
Em seguida, o governo teve de negociar com vários grupos de credores enquanto trabalhava em um programa do Fundo Monetário Internacional (FMI). As principais etapas ajudam a entender por que o processo levou vários anos:
- 12 de abril de 2022: o Sri Lanka iniciou uma moratória temporária nos pagamentos a credores bilaterais oficiais e comerciais externos.
- Março de 2023: o FMI aprovou um acordo de Facilidade Ampliada de Crédito no valor de aproximadamente US$ 3 bilhões.
- 26 de junho de 2024: foram assinados acordos com o Comitê de Credores Oficiais e o China Exim Bank.
- 20 de dezembro de 2024: foi concluída a troca de títulos soberanos internacionais.
- 24 de dezembro de 2024: o Sri Lanka concluiu os acordos de reestruturação com o China Development Bank.
- Maio de 2026: o FMI concluiu as avaliações combinadas do quinto e do sexto programa.
- 5 de outubro de 2026: a equipe do FMI chegou a um acordo sobre a sétima avaliação, sujeito à aprovação do Conselho Executivo.
- 14 de outubro de 2026: o sétimo relatório de progresso da mesa-redonda apontou reestruturação concluída de cerca de 94%, ou 99% com a inclusão dos acordos em princípio.
A etapa mais recente envolve concluir negociações pendentes de menor porte e implementar os acordos já firmados. Avaliações anteriores registraram seis acordos assinados com credores bilaterais oficiais; a comparação internacional mais recente aponta nove de um total de 17 para o Sri Lanka.
Credores governamentais dão mais prazo ao Sri Lanka
A nota pública sobre a reestruturação da dívida do Tesouro, preparada para uma apresentação em 1º de janeiro de 2025 pelo secretário do Tesouro K. M. Mahinda Siriwardana, detalha a dimensão e os termos dos principais acordos.
O Comitê de Credores Oficiais, copresidido por França, Índia e Japão, abrangeu US$ 5,8 bilhões. O China Exim Bank respondeu por outros US$ 4,2 bilhões. Outros credores oficiais, incluindo Kuwait, Arábia Saudita, Irã e Paquistão, somavam cerca de US$ 300 milhões.
Os acordos com o comitê e o China Exim Bank oferecem alívio sobre até 92% do serviço da dívida correspondente a cada um e com vencimento durante o programa do FMI. Serviço da dívida é o principal e os juros programados para pagamento. Os acordos preveem períodos de carência para o principal até 2028, juros menores e um cronograma de pagamentos que vai até 2043.
Para o orçamento do governo, o benefício imediato é uma conta de pagamentos bem menor durante o programa. Depois, os pagamentos são distribuídos por um período mais longo, dando tempo para o Sri Lanka recuperar receitas e recursos em moeda estrangeira.
Os acordos de junho de 2024 ainda precisam ser implementados por meio de entendimentos individuais com os credores. Isso explica como o Sri Lanka pode ter acordos amplos envolvendo grandes valores enquanto alguns documentos bilaterais continuam pendentes.
Troca de títulos gerou bilhões em alívio
Os títulos soberanos internacionais eram uma das maiores parcelas do problema da dívida do Sri Lanka. São títulos vendidos a investidores, com a promessa de pagar juros e devolver o dinheiro emprestado em datas determinadas.
O Tesouro registrou US$ 12,55 bilhões em principal de títulos, de um total de US$ 37 bilhões em principal da dívida externa do governo central no fim de 2023. Portanto, os títulos representavam cerca de 34% do total. O valor maior de US$ 14,2 bilhões para os títulos, usado na discriminação dos credores, inclui juros vencidos.
A participação na troca chegou a 96%, permitindo que 98% dos títulos fossem trocados segundo os termos da operação. Naquele momento, o Tesouro descreveu o Hamilton Reserve Bank como o único credor reticente de peso.
A troca reduziu inicialmente o estoque da dívida em US$ 3 bilhões no cenário econômico de referência. Segundo o Tesouro, o alívio poderia chegar a US$ 4,3 bilhões se a economia tivesse um desempenho pior que o previsto, ou cair para US$ 1,8 bilhão se o desempenho fosse melhor. Parte do alívio, portanto, varia conforme o desempenho econômico do Sri Lanka.
O governo também garantiu uma redução de US$ 9,6 bilhões no serviço da dívida durante os quatro anos do programa do FMI, uma queda de 33% na taxa de juros dos títulos, para 4,3%, e um aumento de cerca de seis anos no prazo médio de vencimento. Vencimento é o momento em que o principal emprestado deve ser pago.
As avaliações de crédito melhoraram após o acordo de dezembro de 2024. A Fitch elevou a classificação do Sri Lanka de Default Restrito para CCC+, enquanto a Moody's passou a nota de Ca para Caa1. Em setembro de 2026, a Fitch elevou novamente a classificação, para B−, com perspectiva estável.
Credores menores e processo judicial ainda pendentes
A troca de dívida da SriLankan Airlines está entre os avanços que contribuíram para elevar os números mais recentes de conclusão. As negociações comerciais restantes são menores que as operações já concluídas com detentores de títulos e grandes bancos, mas ainda dependem de acordos com os credores envolvidos.
O processo do Hamilton Reserve Bank segue na Justiça. As duas partes apresentaram suas alegações finais entre junho e agosto de 2026. O caso aguarda uma decisão, e ainda não há data definida para o julgamento.
A avaliação de outubro da mesa-redonda descreve assim as conversas restantes:
as autoridades continuam negociando de boa-fé com os credores comerciais residuais restantes.
A estimativa residual de 1% descreve a parcela que ainda aguardava um acordo de reestruturação em 18 de setembro. Separadamente, acordos em princípio relativos a cerca de outros 5% ainda precisam passar pelas etapas necessárias para serem concluídos.
Apoio do FMI caminha para uma nova decisão
Em maio de 2026, o FMI concluiu as avaliações combinadas do quinto e do sexto programa do Sri Lanka, liberando aproximadamente US$ 695 milhões em financiamento adicional pela Facilidade Ampliada de Crédito. As avaliações do programa verificam se as políticas econômicas e os acordos de financiamento continuam alinhados ao plano de recuperação aprovado.
A equipe do FMI chegou a um acordo sobre a sétima avaliação em 5 de outubro. Cerca de US$ 345 milhões poderão ser liberados após a aprovação do Conselho Executivo, condicionada, entre outros requisitos, à apresentação de um orçamento para 2027 compatível com as exigências do programa e a uma análise das garantias de financiamento.
Essas garantias abrangem o financiamento esperado de instituições internacionais e o avanço da reestruturação da dívida. Portanto, o próximo desembolso depende tanto das decisões orçamentárias internas quanto da confiança na viabilidade do plano de financiamento do Sri Lanka.
As necessidades emergenciais também afetaram a recuperação. Após um ciclone severo, o Sri Lanka recebeu apoio pelo Instrumento de Financiamento Rápido do FMI em dezembro de 2025. O Banco Mundial disponibilizou até US$ 120 milhões, redirecionando recursos de projetos existentes para a recuperação, os serviços essenciais e a infraestrutura.
O relatório mais recente da mesa-redonda afirma que o Banco Mundial comprometeu mais de US$ 2,4 bilhões com o Sri Lanka desde o ano fiscal de 2021, com fluxos líquidos superiores a US$ 1,4 bilhão. Os fluxos líquidos medem os recursos recebidos depois de descontados os pagamentos feitos no período e mostram quanto financiamento permaneceu disponível para o país.
O peso dos pagamentos diminuiu, mas ainda é elevado
A dívida pública do Sri Lanka caiu de 125,8% do produto interno bruto (PIB) em 2022 para 101,1% em 2025, uma redução de 24,7 pontos percentuais. O PIB mede o valor dos bens e serviços produzidos na economia; compará-lo com a dívida ajuda a mostrar o tamanho do peso em relação aos recursos econômicos do país.
As necessidades brutas de financiamento caíram de 33,9% para 19% do PIB no mesmo período. Essa medida inclui os recursos necessários para cobrir o déficit orçamentário do governo e pagar dívidas que vencem. Os pagamentos de juros também caíram de 79% para 46% da receita governamental, liberando mais espaço para outras despesas, embora os juros ainda consumissem quase metade da receita.
As metas de médio prazo do programa preveem que a dívida pública fique abaixo de 95% do PIB até 2032, que as necessidades brutas de financiamento fiquem, em média, abaixo de 13% do PIB entre 2027 e 2032 e que o serviço anual da dívida em moeda estrangeira permaneça abaixo de 4,5% do PIB nesses anos.
Os recursos em moeda estrangeira serão especialmente importantes quando os pagamentos dos títulos soberanos forem retomados, em abril de 2028. As reservas oficiais brutas estavam em cerca de US$ 6,85 bilhões no fim de setembro de 2026, abaixo dos aproximadamente US$ 6,93 bilhões registrados um mês antes.
As receitas externas do Sri Lanka estão sujeitas a pressões concorrentes. O déficit comercial de mercadorias aumentou para US$ 7,2 bilhões entre janeiro e agosto de 2026, ante US$ 4,3 bilhões no mesmo período do ano anterior. As receitas do turismo caíram cerca de 10%, para US$ 2,1 bilhões, enquanto o dinheiro enviado para casa por trabalhadores no exterior aumentou 19,8%, chegando a US$ 6,1 bilhões.
O déficit comercial maior significa que o país precisou de mais moeda estrangeira para pagar as importações de bens do que obteve com as exportações. As remessas ajudaram a cobrir essa diferença. Manter entradas confiáveis de moeda estrangeira será importante à medida que o governo deixar de negociar novas condições de pagamento e passar a cumpri-las.
A experiência do Sri Lanka contribui para mudanças globais
A avaliação geral da mesa-redonda abrange seis países: Chade, Etiópia, Gana, Zâmbia, Suriname e Sri Lanka. Chade, Etiópia, Gana e Zâmbia recorreram ao Quadro Comum do G20, um processo destinado a coordenar o tratamento da dívida entre credores. Sri Lanka e Suriname negociaram fora desse mecanismo.
Zâmbia, Gana, Sri Lanka e Suriname concluíram trocas de títulos entre novembro de 2023 e dezembro de 2024. A Etiópia é o único dos seis casos monitorados que ainda aguarda a conclusão de uma troca de títulos. Onze de seus 14 acordos bilaterais com o Comitê de Credores Oficiais foram finalizados, em comparação com nove de 17 no caso do Sri Lanka.
Esses números mostram que o avanço pode ocorrer em ritmos diferentes entre os grupos de credores. O Sri Lanka concluiu sua principal troca de títulos antes de finalizar todos os acordos bilaterais; a Etiópia avançou mais nas assinaturas bilaterais, enquanto sua operação com títulos continua em aberto.
A mesa-redonda afirma que a experiência do Sri Lanka e dos outros casos contribuiu para aperfeiçoar os procedimentos de resolução de dívidas e atualizar seu Manual de Reestruturação da Dívida Soberana. O trabalho incluiu negociações mais rápidas, melhor compartilhamento de informações entre credores e regras mais claras para diferentes modalidades de empréstimo.
Avaliações anteriores da mesa-redonda também identificaram altos custos de juros, necessidades de refinanciamento e pressão sobre os orçamentos de educação, saúde e infraestrutura nos países com dificuldades de endividamento. Iniciativas de conciliação de dados sobre empréstimos buscam facilitar a comparação entre os registros de devedores e credores, reduzindo a incerteza sobre os valores devidos.
O Sri Lanka está agora entre os casos mais próximos da conclusão. As tarefas restantes são concretas: concluir os acordos, resolver o processo judicial pendente, terminar a próxima etapa de avaliação do FMI e se preparar para o cronograma de pagamentos que começa em 2028.
Pontos principais
- Cerca de 94% da dívida externa incluída no perímetro da reestruturação do Sri Lanka já foi reestruturada; a cobertura chega a aproximadamente 99% com a inclusão dos acordos em princípio.
- A dívida residual ainda à espera de acordo foi estimada em 1% em 18 de setembro de 2026.
- Os principais acordos com credores reduziram os pagamentos de curto prazo e os juros e ampliaram os prazos de pagamento, em alguns casos até 2043.
- O processo do Hamilton Reserve Bank aguarda uma decisão judicial, sem data definida.
- O FMI concluiu as avaliações do quinto e do sexto programa em maio de 2026; a sétima avaliação depende da aprovação do Conselho Executivo.
- A retomada dos pagamentos dos títulos soberanos está prevista para abril de 2028, tornando as receitas e os ganhos em moeda estrangeira essenciais para a próxima etapa da recuperação.






