Takaichi abre caminho para um importante debate naval
O Japão avalia incluir um estudo sobre propulsão nuclear em três documentos de segurança que devem ser revisados até o fim de 2026, enquanto a primeira-ministra Sanae Takaichi defende o reforço da vigilância no Pacífico. A proposta daria início à análise de uma tecnologia que poderia custar cerca de 1 trilhão de ienes por submarino e levar mais de uma década para ser implementada.
Conteúdo
- Takaichi abre caminho para um importante debate naval
- Como o debate avançou para um estudo formal
- Navio de patrulha ou plataforma para ataques com mísseis?
- O que a propulsão nuclear mudaria debaixo d'água
- Sistemas de lançamento de mísseis já estão em estudo
- O custo pode chegar a trilhões de ienes
- Como encontrar marinheiros e especialistas em reatores suficientes
- A legislação nuclear japonesa exige uma decisão à parte
- Países parceiros oferecem exemplos, não um caminho rápido para a entrega
- Outras fontes de energia continuam entre as opções
- Principais pontos
Takaichi disse na quarta-feira, na Câmara dos Representantes, que o aumento da atividade militar de países vizinhos exige que o Japão examine suas opções. Ao abordar a possibilidade de submarinos nucleares para as Forças de Autodefesa, ela afirmou:
Vamos considerar seriamente (essa possibilidade) de forma concreta e realista.
A primeira-ministra descreveu o fortalecimento das defesas japonesas como uma tarefa urgente e apontou as limitações das capacidades de coleta de informações e vigilância no Pacífico. No início do mês, ela havia dito ao Parlamento que ainda não havia sido tomada nenhuma decisão sobre a propulsão dos futuros submarinos japoneses.
A principal proposta dentro do governo é autorizar pesquisas, em vez de se comprometer com a compra de submarinos nucleares. Uma possível formulação prevê estudar fontes de energia de nova geração, incluindo explicitamente a nuclear, para submarinos equipados com sistemas de lançamento vertical de mísseis de longo alcance.
Assim, o Japão enfrenta várias decisões ao mesmo tempo: o que seus futuros submarinos deverão fazer, quanta potência essas missões exigirão, se a propulsão nuclear é compatível com a legislação vigente e se será possível conseguir recursos e pessoal qualificado em número suficiente. Nenhuma decisão de aquisição nem cronograma de entrega foi anunciado. As consultas com os partidos governistas podem começar já em novembro, antes das revisões previstas para o fim do ano.
Como o debate avançou para um estudo formal
O debate passou de uma recomendação de especialistas sobre o desempenho dos submarinos para uma discussão política sobre propulsão nuclear. A escolha das palavras tem sido importante ao longo do processo: recomendar uma nova fonte de energia deixa mais opções em aberto do que recomendar um reator nuclear.
Em um pronunciamento de setembro de 2025 do Ministério da Defesa, o então ministro da Defesa Gen Nakatani confirmou que um painel de especialistas havia apresentado seu relatório em 19 de setembro. Questionado sobre propulsão de nova geração para submarinos com sistemas de lançamento vertical, ele disse que nenhuma decisão havia sido tomada e que não havia nenhum estudo concreto em andamento.
Nakatani também afirmou na ocasião que o ministério não planejava antecipar a revisão do Programa de Reforço da Defesa nem encurtar seu período de planejamento. A discussão atual vai além, ao considerar um compromisso explícito com pesquisas nos documentos de segurança revisados.
- 19 de setembro de 2025: Um painel de especialistas do Ministério da Defesa apresentou recomendações que incluíam capacidades futuras de submarinos e opções de propulsão.
- 26 de setembro de 2025: Nakatani disse que não havia decisão nem estudo concreto em andamento sobre propulsão de nova geração.
- Junho de 2026: O Partido Liberal Democrata propôs estudar fontes de energia de nova geração, enquanto o Partido da Inovação do Japão defendeu a introdução antecipada de submarinos nucleares.
- 6 de julho de 2026: A Agência de Aquisição, Tecnologia e Logística do Japão concedeu um contrato para pesquisas sobre o projeto de um futuro submarino com sistemas de lançamento vertical.
- Outubro de 2026: Takaichi prometeu uma análise séria, enquanto o governo avaliava a redação dos documentos de segurança que devem ser revisados até o fim do ano.
Navio de patrulha ou plataforma para ataques com mísseis?
O governo japonês ainda não chegou a um acordo sobre o principal propósito de uma frota de submarinos nucleares. Duas missões dominam a discussão: localizar e rastrear outras embarcações pelo Pacífico e transportar mísseis capazes de atingir alvos distantes.
Nas missões de patrulha, a principal preocupação é a expansão da atividade naval chinesa no Pacífico ocidental. Um oficial das Forças de Autodefesa apontou a dificuldade que submarinos convencionais enfrentam para realizar buscas em áreas tão distantes quanto as águas ao redor de Guam. Chegar até lá consome a energia das baterias, necessária também para a missão e o trajeto de volta.
Nas missões de ataque, os defensores da proposta querem submarinos equipados com mísseis de longo alcance como parte da capacidade japonesa de contra-ataque. Isso significa poder atacar instalações militares de um adversário em resposta a um ataque, de acordo com a política de defesa do Japão. Um submarino capaz de permanecer oculto, lançar mísseis e se afastar rapidamente daria aos comandantes outra opção, além das armas transportadas por navios de superfície.
Masashi Murano, especialista em defesa japonesa do Hudson Institute, descreveu a incerteza dentro do setor de defesa sobre se os defensores da proposta priorizam operações submarinas mais eficientes ou uma capacidade mais robusta de contra-ataque. A escolha da missão é importante porque determina as armas necessárias, o tamanho do casco, a propulsão e a tripulação.
O que a propulsão nuclear mudaria debaixo d'água
Os atuais submarinos japoneses da classe Taigei usam motores a diesel e baterias de íons de lítio. Quando submersos, recorrem à energia elétrica armazenada. Para recarregar as baterias com os motores a diesel, precisam se aproximar da superfície e elevar um snorkel, que capta ar e libera gases de escape, criando outra oportunidade para serem detectados.
Um submarino nuclear usa um reator para fornecer energia sem captar ar da superfície. Pode permanecer submerso por meses e combinar viagens longas com velocidade sustentada. O estoque de alimentos, a resistência da tripulação, a manutenção e as exigências da missão ainda determinam por quanto tempo uma operação pode durar.
As comparações usadas no debate indicam velocidades superiores a 50 quilômetros por hora para submarinos nucleares, contra cerca de 35 quilômetros por hora para embarcações convencionais. O desempenho real varia conforme o projeto e as condições de operação. A vantagem operacional é manter a velocidade em longas distâncias sem esgotar rapidamente as baterias.
O almirante Akira Saito, chefe do Estado-Maior da Força Marítima de Autodefesa, descreveu o possível benefício como uma:
melhora dramática das capacidades.
O ministro da Defesa, Shinjiro Koizumi, também argumentou que operações submersas mais longas e maior velocidade poderiam ajudar a proteger as tripulações durante as missões. Ele reconheceu desvantagens, como o custo, a necessidade de conhecimentos especializados, cascos maiores e a possibilidade de mais ruído subaquático. A capacidade de uma embarcação de evitar a detecção depende de seu projeto e da forma como opera, além da fonte de energia.
Sistemas de lançamento de mísseis já estão em estudo
O Japão já financia pesquisas sobre um futuro submarino com sistema de lançamento vertical, ou VLS. Esse sistema abriga mísseis em tubos verticais próprios dentro do casco, dando ao submarino mais espaço para armas do que o uso exclusivo de tubos de torpedo.
Em 6 de julho de 2026, a Agência de Aquisição, Tecnologia e Logística concedeu à Mitsubishi Heavy Industries um contrato de 3,9 bilhões de ienes para pesquisas sobre o projeto integrado de um futuro submarino com VLS. Os trabalhos devem prosseguir até o ano fiscal de 2029.
Em 2023, a Kawasaki Heavy Industries apresentou o conceito de um submarino com VLS, posicionando o sistema de lançamento entre a vela, estrutura que se ergue acima do casco, e a proa. Entre as armas discutidas para os futuros submarinos estão uma variante do míssil japonês Type 12 e mísseis de cruzeiro americanos Tomahawk.
Jeffrey Hornung, especialista em defesa japonesa da RAND Corporation, explicou a vantagem dos tubos de lançamento dedicados:
Um VLS permitiria que os submarinos japoneses de nova geração disparassem mais armas, maiores e de maior alcance do que conseguem hoje, transformando-os em plataformas de ataque mais letais.
Compartimentos maiores para armas podem exigir um casco maior, enquanto sonares avançados e drones subaquáticos podem aumentar a demanda por eletricidade. Os projetistas precisam equilibrar essas necessidades com velocidade, autonomia e operação silenciosa. As pesquisas de projeto já financiadas dão ao Japão uma forma de analisar essas compensações enquanto o debate sobre propulsão continua.
O custo pode chegar a trilhões de ienes
Estima-se que a construção de um submarino nuclear custe cerca de 1 trilhão de ienes. Manter prontidão operacional contínua pode exigir pelo menos três embarcações, considerando os períodos de manutenção e treinamento das tripulações. Nesse valor indicativo, três submarinos representariam cerca de 3 trilhões de ienes em gastos de construção, antes dos custos operacionais e das instalações de apoio.
O mais recente submarino convencional do Japão oferece uma referência útil. A Mitsubishi Heavy Industries lançou o Shogei, o sétimo submarino da classe Taigei, em seu estaleiro de Kobe, em 8 de outubro. Seu custo de construção é de cerca de 80,5 bilhões de ienes, e a entrega está prevista para março de 2028.
O custo estimado de 1 trilhão de ienes de um submarino nuclear equivale a cerca de 12,4 vezes o custo de construção do Shogei. As embarcações teriam capacidades diferentes, mas os números mostram a dimensão da decisão financeira. A propulsão nuclear também exigiria medidas de segurança para o reator, manutenção, treinamento especializado e operação por muitos anos.
O Shogei tem 84 metros de comprimento e 9,1 metros de largura, com deslocamento padrão de cerca de 3.000 toneladas. Ele usa motores a diesel Kawasaki 12V 25/31 e a tecnologia de baterias de íons de lítio adotada pela classe Taigei. Seu lançamento mostra que a construção da frota convencional continua enquanto o Japão considera uma possível mudança de propulsão.
Como encontrar marinheiros e especialistas em reatores suficientes
As Forças de Autodefesa já enfrentam falta de pessoal, e as funções em submarinos estão entre as mais difíceis de preencher. A propulsão nuclear aumentaria a demanda por pessoas com conhecimentos especializados em reatores, além dos marinheiros necessários para navegar, fazer a manutenção e operar a embarcação em combate.
Um submarino nuclear da classe Virginia tem uma tripulação de cerca de 140 pessoas, em comparação com aproximadamente 70 em um submarino japonês da classe Taigei. Nessa comparação, são o dobro de pessoas por embarcação. Um futuro projeto japonês de propulsão nuclear poderia exigir outra quantidade de tripulantes, mas o dimensionamento do pessoal continuaria sendo uma parte importante do planejamento.
O Japão teria de recrutar especialistas, criar programas de treinamento e manter profissionais experientes durante toda a vida útil das embarcações. As tripulações e as equipes em terra precisariam saber operar e manter reatores navais com segurança.
Murano descreveu os submarinos nucleares como uma opção operacional natural, mas alertou que eles agravariam a pressão mais ampla sobre o efetivo das Forças de Autodefesa. Maior autonomia no mar exigiria um compromisso humano maior, tanto em terra quanto a bordo das embarcações.
A legislação nuclear japonesa exige uma decisão à parte
A Lei Básica de Energia Atômica limita o uso da energia nuclear no Japão a fins pacíficos. Governos anteriores sustentaram que isso impede o uso da energia nuclear para propulsar submarinos das Forças de Autodefesa.
O secretário-chefe do Gabinete, Yoshimasa Hayashi, já havia explicado a posição jurídica do governo:
Se seguirmos a interpretação atual (da lei), será difícil para o Japão possuir submarinos nucleares.
A propulsão nuclear diz respeito à energia que movimenta um submarino. As armas nucleares dizem respeito ao armamento da embarcação. Os três princípios não nucleares do Japão proíbem possuir, produzir ou permitir a entrada de armas nucleares. Um submarino movido por um reator pode transportar armas convencionais, incluindo torpedos e mísseis com ogivas convencionais.
Assim, a proposta de propulsão exigiria que o Japão tratasse da restrição ao uso pacífico prevista na legislação nuclear, além de sua política atual sobre armas. Takaichi já manifestou uma opinião favorável aos submarinos nucleares, mas reconheceu que questões jurídicas e políticas precisam ser resolvidas.
Os partidos governistas também têm abordagens diferentes. As recomendações de junho do Partido Liberal Democrata mencionaram fontes de energia de nova geração sem citar a propulsão nuclear. Seu parceiro de coalizão, o Partido da Inovação do Japão, defendeu a introdução antecipada de submarinos nucleares. Integrantes mais cautelosos do PLD questionam tanto o custo quanto a necessidade militar. A redação final dependerá das consultas dentro do bloco governista e das discussões com especialistas.
Países parceiros oferecem exemplos, não um caminho rápido para a entrega
Takaichi disse que o Japão levaria em conta os avanços na Austrália e na Coreia do Sul. A Austrália se comprometeu a adquirir submarinos nucleares, enquanto a Coreia do Sul vem desenvolvendo seus próprios planos após receber autorização dos Estados Unidos para a construção.
O Japão poderia considerar desenvolver os submarinos no país ou adquiri-los no exterior. Alguns funcionários sugeriram comprar embarcações dos Estados Unidos, seguindo o exemplo australiano. Essa escolha também aumentaria a dependência de equipamentos, capacidade industrial e apoio americanos.
Murano estimou que o desenvolvimento de um submarino nuclear japonês poderia levar cerca de uma década. Outras estimativas apontam que a introdução levaria mais de uma década, com a construção no país podendo demorar ainda mais. O arrendamento de embarcações americanas enfrentaria limitações decorrentes da sobrecarga do setor naval e dos compromissos já assumidos com a Austrália.
A estimativa de Murano aponta que possíveis entregas de submarinos arrendados poderiam ocorrer entre meados e o fim da década de 2030. Portanto, os submarinos nucleares seriam um projeto para uma futura frota, enquanto o Japão precisa atender às necessidades atuais de vigilância com as embarcações e outros equipamentos que puder mobilizar mais rapidamente.
Outras fontes de energia continuam entre as opções
A recomendação do painel de especialistas usou uma formulação ampla sobre energia de nova geração, sem escolher um reator. Baterias avançadas e células a combustível continuam entre as tecnologias discutidas para futuros submarinos.
O Japão já tem experiência em superar as baterias tradicionais para submarinos com a classe Taigei. As baterias de estado sólido são outro caminho possível de desenvolvimento. A Coreia do Sul também incorporou submarinos com sistemas verticais de lançamento de mísseis que usam motores a diesel, baterias de íons de lítio e propulsão independente do ar, que fornece energia subaquática sem exigir a captação frequente de ar externo.
Cada abordagem responde ao mesmo problema prático: fornecer energia suficiente para deslocamento, sensores e armas sem facilitar a localização do submarino. Um conjunto maior de baterias, um sistema de células a combustível e um reator trazem exigências diferentes de espaço, manutenção, pessoal e financiamento.
A decisão imediata do Japão é definir o alcance do estudo que será incluído nos documentos de segurança. As pesquisas de projeto previstas até o ano fiscal de 2029, a construção contínua de submarinos convencionais e o debate sobre missões de patrulha e ataque influenciarão essa análise. Uma decisão de estudar a propulsão nuclear daria início a um processo mais longo, que envolveria escolher uma missão, resolver questões jurídicas e financiar uma frota viável.
Principais pontos
- Takaichi diz que o Japão vai considerar seriamente submarinos nucleares e cita as limitações das capacidades de vigilância no Pacífico.
- A principal proposta é estudar a propulsão nuclear nos documentos de segurança que devem ser revisados até o fim de 2026.
- As autoridades ainda não chegaram a um acordo sobre se a principal missão será patrulhar ou realizar ataques com mísseis.
- Estima-se que a construção custe cerca de 1 trilhão de ienes por submarino nuclear, e que sejam necessários pelo menos três para manter a prontidão contínua.
- O Japão precisa tratar da legislação nuclear, da falta de pessoal, da especialização em reatores e das exigências de manutenção.
- Um estudo de 3,9 bilhões de ienes sobre um futuro submarino com sistemas de lançamento vertical deve prosseguir até o ano fiscal de 2029.
- A introdução de submarinos nucleares pode levar mais de uma década, enquanto a construção da frota convencional continua.






